O Balanced Scorecard apresenta duas classes de princípios. A primeira está relacionada com a integração das medidas do BSC com as estratégias. Já a segunda
apresenta os princípios gerenciais de uma organização focada na estratégia, conforme quadro a seguir:
Princípios do Balanced Scorecard
Integração do BSC à estratégia Organização focada na estratégia
Relações de causa e efeito Traduzir a estratégia em termos operacionais Vetores de desempenho Alinhar a organização à estratégia
Relação com os fatores financeiros Transformar a estratégia em tarefa de todos Converter a estratégia em processo contínuo Mobilizar a mudança por meio da liderança executiva
Quadro 3 – Princípios do Balanced Scorecard Fonte: Adaptado de Kaplan e Norton ,1997
O SINAES apresenta um arcabouço conceitual os princípios apresentados a seguir
Princípios e critérios do SINAES
Educação é um direito social e dever do estado Valores sociais historicamente determinados Regulação e controle
Prática social com objetivos educativos
Respeito à identidade e à diversidade institucional em um sistema diversificado Globalidade
Legitimidade Continuidade
Quadro 4 – Princípios do Sistema Nacional da Educação Superior (SINAES) Fonte: Adaptado de Conaes, 2004
Educação é um direito social e dever do estado. O primeiro princípio apresentado pelo SINAES busca demonstrar o fundamento da responsabilidade deste sistema. Possuindo autorização para funcionamento, as instituições de ensino deverão mediante os dispositivos de regulação governamental apresentar à sociedade a prestação de contas de suas atividades e suas contribuições. O Balanced Scorecard, ao tratar de sua estratégia pelas diversas perspectivas, acaba envolvendo os diversos interessados no negócio, inclusive obtendo informações destes diversos envolvidos para alinhamento de sua estratégia. Assim, o BSC também considera sua responsabilidade social no ambiente que está inserido, diferenciando- se do princípio do SINAES na questão da politica de estado. Enquanto os legisladores consideram esse princípio como um dos pilares na condução de políticas públicas, o BSC considera sua relação com seus diversos stakeholders como uma forma de gerenciamento da estratégia.
Acerca dos valores sociais historicamente determinados, o SINAES considera que o desenvolvimento da educação deve ser um processo colaborativo das diversas instituições
envolvidas, e que este seja sustentável. Pauta que todo esse processo deve ter em sua concepção a qualidade. Mesmo considerando tudo isso, as instituições devem possuir liberdade no desenvolvimento e na concepção de seus projetos pedagógicos e de pesquisa. Assim, mesmo possuindo toda uma estrutura conceitual, o SINAES possibilita a liberdade para desenvolvimento das IES, criando assim critérios não rotineiros para seu desenvolvimento. O BSC se assemelha nesse aspecto ao SINAES, pois não obriga os gestores à utilização de um modelo imutável, possibilitando a criação de perspectivas, além daquelas apresentadas. Os autores consideram, com base em seus estudos, que as quatro perspectivas foram consideradas adequadas, porém não devem limitar as empresas caso estas acham a necessidade da criação de outras considerando a estratégia. Com relação aos princípios, pode- se identificar certa correlação com o princípio “transformar a estratégia em tarefa para todos” do BSC
Outra similaridade entre o princípio é a questão da qualidade como foco central. O SINAES considera-a, definindo critérios mínimos de qualidade para a educação, buscando internalizar esse princípio na cultura organizacional pelo processo avaliativo contínuo. O BSC vai ao encontro desse objetivo de qualidade, envolvendo os diversos atores institucionais no processo de desenvolvimento da ferramenta.
O principio da regulação e controle estabelece que o governo crie a partir de diversos dispositivos legais, processos para a avaliação do desenvolvimento da educação, fornecendo o feedback das estratégias educacionais implantadas no país. O BSC possibilita o controle das estratégias implantadas, permitindo o realinhamento organizacional. Assim, mesmo considerando a abrangência de politicas educacionais, no caso do SINAES, ou isoladamente aplicada as organizações no caso do BSC, os dois convergem no que se refere a esse princípio.
O primeiro princípio do BSC que se pode comparar com o da regulação e controle é o das relações de causa e efeito. As normas governamentais estabelecidas buscam a regulação e o controle do desenvolvimento da educação com base no Plano Nacional da Educação, estabelecendo a relação de causa e efeitos entre as politicas implantadas e o alcance das estratégias educacionais. Com relação ao princípio resultado e vetores de desempenho, as bases políticas e a identificação dos resultados delinearão o futuro monitorado por meio de vetores de desempenho. O último princípio que possui certa correlação é o de traduzir a estratégia em termos operacionais. Todas as normas criadas para operacionalizar o sistema são baseadas nos princípios do SINAES e nas estratégias estabelecidas no Plano Nacional da Educação.
O princípio da prática social com objetivos educativos procura, pela implantação dos critérios avaliativos do SINAES o desenvolvimento da qualidade, buscando não apenas o controle mais também a conscientização, assim tanto o processo de avaliação quanto os resultados são questionados aprimorando todo o processo. Para o INEP (2009, p. 96), a avaliação do SINAES pode ser considerada um projeto, pois se trata de movimento que, examinando e julgando o passado e o presente, visa promover transformações, ou seja, tem o futuro em perspectiva.
O BSC converge com tal princípio no momento em que utiliza medidas de ocorrência (passado) e vetores de desempenho (futuro). O processo de aprimoramento, peloo que Kaplan e Norton (1997) chamam de circuito duplo, também são similares no BSC e SINAES, processo que compreende a busca pela qualidade pelo questionamento dos pressupostos do sistema e também da análise das informações buscando verificar se essas estão apontando para o cumprimento das estratégias. Assim, pode-se relacionar este princípio aos seguintes do BSC: transformar a estratégia em tarefa de todos, resultados e vetores de desempenho e o converter a estratégia em processo contínuo.
O histórico do ensino superior brasileiro mostrou a diversidade e as particularidades do desenvolvimento do ensino no Brasil. Na aplicação do SINAES, um dos princípios levados em conta em sua criação foi o do respeito à identidade e à diversidade institucionais em um sistema diversificado. Não se pode comparar a realidade de uma instituição instalada em grandes capitais com instituições de cidades longínquas do Norte e Nordeste do país. Os objetivos institucionais são totalmente diferentes e devem ser respeitados quando avaliados. Assim, o SINAES foi concebido considerando a diversidade institucional. Cada instituição criará seu diferencial, ao mesmo tempo em que deverá cumprir os critérios de qualidade impostos pelo poder central, considerando sempre sua missão e visão. O BSC se alinha totalmente a este princípio, pois suas medidas e vetores são derivados da visão e da estratégia da IES.
Acerca do princípio da globalidade, o SINAES considera a integração tanto em relação aos diversos participantes do sistema de avaliação quanto no processo avaliativo de cada instituição. Para esse princípio, os métodos devem possuir uma integração, sob pena de se utilizar dados não articulados einformações distorcidas. O BSC também parte do pressuposto da globalidade de suas medidas, que são articuladas e possui uma relação de causa e efeito, um dos princípios do BSC. O único diferencial entre os sistemas é que o SINAES aglutina as informações das diversas instituições em um sistema único, utilizado para avaliação das políticas educacionais nacionais. O princípio da globalidade também
considera o balanceamento das medidas de avaliação, consideradas complexas pela diversidade do sistema de educação brasileiro. O BSC também enfatiza que as medidas utilizadas no BSC não são simples indicadores isolados, sendo derivados da missão, além de levar em conta a estratégia do negócio. Esse princípio pode ser relacionado aos da integração das medidas do Balanced Scorecard a estratégia, pois considera o inter-relacionamento de todos os indicadores e métodos e deles com a estratégia. Além disso, pode-se identificar similaridade com os princípios “alinhar a organização a estratégia” e aquele de “transformar a estratégia em tarefa para todos”.
Todo sistema, para obter sucesso em sua implantação deverá ser considerado legítimo e ser aceito pelos diversos envolvidos. O princípio da legitimidade considera esse processo. Assim, o sistema de avaliação deve possuir legitimidade técnica, ou seja, apresentar coerência em seus procedimentos metodológicos, possuindo validade científica para ser aceito pela comunidade a ser avaliada. O apoio dos envolvidos no processo é imprescindível para a validação do sistema. Nesse sentido, deverá considerar todos os envolvidos em sua elaboração e implantação. Todo o processo de implantação do BSC considera o envolvimento de toda a empresa no processo de implantação. Assim, a organização deverá conhecer as estratégias e participar da implantação. Por isso,sem a participação da equipe executiva, patrocinando o processo de implantação, ou da equipe operacional, conhecendo a estratégia e desenvolvendo suas atividades com objetivo de atingi-las, o BSC não será eficaz. Este
princípio tem grande correlação com o princípio do BSC “mobilizar a mudança por meio da
liderança executiva”.
Os sistemas de avaliação consideram todo o processo sistêmico de planejamento, execução e controle. Assim, há uma continuidade pela retroalimentação das informações sobre os processos executados possibilitando o realinhamento do planejamento. Esse processo deve ser contínuo, buscando o aprendizado e o crescimento da organização. O SINAES cria em sua estrutura conceitual o princípio da continuidade. O objetivo é deixar claro que o processo avaliativo é permanente e contínuo, e, assim, não é executado de forma isolada sem objetivos definidos. Assim, os dois sistemas estimulam a cultura da melhoria dos processos. O princípio do BSC que se assemelha é o de “converter a estratégia em processo contínuo”.
Princípios e critérios do SINAES Princípios do Balanced Scorecard
Educação é um direito social e dever do estado -
Valores sociais historicamente determinados Transformar a estratégia em tarefa para todos
Regulação e controle
- Relações de causa e efeito
- Resultado e Vetores de Desempenho - Traduzir a estratégia em termos operacionais
Prática social com objetivos educativos
- Transformar a estratégia em tarefa de todos
- Resultados e vetores de desempenho - Converter a estratégia em processo contínuo
Respeito à identidade e à diversidade institucional em um sistema diversificado
-
Globalidade
-Princípios de integração das medidas do BSC à estratégia
- alinhar a organização à estratégia - transformar a estratégia em tarefa para todos
Legitimidade - Mobilizar a mudança por meio da liderança executiva Continuidade Converter a estratégia em um processo contínuo Quadro 5 – Comparativo entre os princípios do SINAES e BSC
Fonte: Elaboração doautor
5.3 Análise comparativa entre as dimensões do SINAES e as perspectivas do Balanced
Scorecard
Dimensões do SINAES Perspectivas BSC
I – a missão e o plano de desenvolvimento institucional;
II – a política para o ensino, a pesquisa, a pós- graduação, a extensão;
III – a responsabilidade social da instituição; IV – a comunicação com a sociedade;
V – as políticas de pessoal, as carreiras do corpo docente e do corpo técnico- administrativo, seu aperfeiçoamento, desenvolvimento profissional e suas condições de trabalho;
VI – organização e gestão da instituição, especialmente o funcionamento e representatividade dos colegiados, sua independência e autonomia na relação com a mantenedora, e a participação dos segmentos da comunidade universitária nos processos decisórios;
VII – infra-estrutura física, especialmente a de ensino e de pesquisa, biblioteca, recursos de
- Financeira - dos clientes
- dos processos internos - do aprendizado e crescimento
Dimensões do SINAES Perspectivas BSC
informação e comunicação; VIII – planejamento e avaliação,
especialmente os processos, resultados e eficácia da autoavaliação institucional; IX – políticas de atendimento aos estudantes; X – sustentabilidade financeira, tendo em vista o significado social da continuidade dos compromissos na oferta da educação superior.
Quadro 6 – dimensões do SINAES e Perspectivas do BSC Fonte: Elaboração do autor
A dimensão da missão e o plano de desenvolvimento institucional não possui relação direta com nenhuma perspectiva do BSC, porém, todo o processo desse sistema se inicia pela definição da missão e da estratégia da organização, que será utilizada como fio condutor para todos os indicadores e perspectivas.
As politicas de ensino, pesquisa e extensão avaliarão se esses processos estão sendo realizados de acordo com as definições estratégicas da entidade, podendo ser relacionados com a perspectiva dos processos internos. As duas ferramentas analisarão a coerência dos processos internos, no caso das IES, o ensino, pesquisa e extensão, com as definições estratégicas dispostas no PDI e nas estratégias definidas durante a implantação do Balanced
Scorecard.
A dimensão da organização e gestão da organização também se correlaciona com a perspectiva dos processos internos, na medida em que objetivam avaliar todo o processo de gerenciamento das diversas instancias da IES, bem como seu inter-relacionamento.
As dimensões da responsabilidade social, comunicação com a sociedade e atendimento ao estudante têm relação direta com a perspectiva do cliente. No objeto de estudo do presente trabalho, essas avaliarão a forma de contato com o aluno e comunidade acadêmica, avaliando se as estratégias definidas estão sendo alcançadas e percebidas pelos envolvidos nestas dimensões, ou seja, o célebre questionamento acerca da visão dos clientes em relação à empresa.
A perspectiva do aprendizado e crescimento, que avalia como os ativos intangíveis estão sendo mobilizados em torno da estratégia se correlaciona com a dimensão das politicas de pessoal, carreira docente e do corpo técnico administrativo do SINAES. O objetivo da dimensão é avaliar as condições de desenvolvimento dos recursos humanos na instituição e a progressão desse durante os ciclos avaliativos.
Mesmo não tendo objetivo principal a avaliação financeira, priorizando as políticas de melhoria da qualidade da educação no país, o SINAES não pode desconsiderar a geração de
receita das instituições, que, conforme já demonstrado, representa mais de 80% das instituições do país. Com esse percentual esmagador de instituições privadas, os problemas financeiros poderiam inviabilizar os objetivos traçados nos planos estratégicos da educação definidos no PNE. O SINAES então apresenta duas dimensões relacionadas a perspectiva financeira do BSC, que são: a dimensão da infraestrutura física e sustentabilidade financeira.
Dimensões do SINAES Perspectivas do BSC I – a missão e o plano de desenvolvimento
institucional; Relacionado a todas as perspectivas do BSC II – a política para o ensino, a pesquisa, a pós-
graduação, a extensão; Processos internos III – a responsabilidade social da instituição; Clientes
IV – a comunicação com a sociedade; Clientes V – as políticas de pessoal, as carreiras do corpo
docente e do corpo técnico-administrativo, seu aperfeiçoamento, desenvolvimento profissional e suas condições de trabalho;
Aprendizado e Crescimento
VI – organização e gestão da instituição, especialmente o funcionamento e representatividade dos colegiados, sua independência e autonomia na relação com a mantenedora, e a participação dos segmentos da comunidade universitária nos processos decisórios; VII – infraestrutura física, especialmente a de ensino e de pesquisa, biblioteca, recursos de informação e comunicação;
Financeira
VIII – planejamento e avaliação, especialmente os processos, resultados e eficácia da auto-avaliação institucional;
Processos internos
IX – políticas de atendimento aos estudantes; Clientes X – sustentabilidade financeira Financeira
Quadro 7 – Inter-relação entre as dimensões do Sinaes e as perspectivas do BSC Fonte: Elaboração do Autor
5.4 Os instrumentos de avaliação do SINAES
O SINAES utiliza durante o período avaliativo, atualmente trienal, três instrumentos. O primeiro possui caráter abrangente, avaliando a instituição como um todo, sendo usado, conforme já apresentado neste trabalho, para credenciamento e recredenciamento das instituições, chamado instrumento de avaliação institucional externa. Como os instrumentos de avaliação são desenvolvidos com base em todo arcabouço legal instituído na criação do SINAES, esse utilizará como parâmetro de desenvolvimento as dez dimensões, possuindo assim uma correlação com todas aquelas do SINAES. O instrumento de avaliação interna, presidido pela comissão própria de avaliação (CPA), também utiliza o roteiro estabelecido em lei, que define as dez dimensões avaliativas.
Enquanto o instrumento de avaliação externa tem em vista a avaliação globalizada da instituição, o instrumento de avaliação do curso de graduação analisará os processos devolvidos em cada curso existente nas instituições (Ristoff e Giolo, 2006). Como avaliará apenas o curso, não utilizará todas as dimensões, que mesmo não sendo objeto do
instrumento, são importantes e levadas em consideração durante o processo avaliativo. Assim, mesmo que indiretamente, esse instrumento também contempla todas as dimensões apresentadas no BSC.
O último instrumento, a avaliação do estudante, chamada de ENADE, busca inferir o desenvolvimento do aluno durante o curso. Neste caso, diferentemente dos outros instrumentos, o ENADE pode ser correlacionado apenas com a perspectiva dos clientes.