FEN BİLGİSİ ÖĞRETMEN ADAYLARININ DİYALOJİK ETKİLEŞİME YÖNELİK DENEYİMLERİ
Kategori 4: Diyalojik etkileşim ve uygulamalarına yönelik fark ettikleri
Seria Nietzsche fiduciário de alguma dessas correntes semânticas? Haveria uma unidade significante da criação que atravessa o pensamento do ilustre filho de Röcken ou resultariam múltiplas as possibilidades de compreensão deste fenômeno em seu itinerário reflexivo? Decerto, em Nietzsche, não nos deparamos com uma filosofia fragmentista, metodicamente orientada para a busca de fundamentos peculiares a cada um dos âmbitos tradicionais do discurso filosófico. Achamo-nos antes diante de uma experiência interpretativa sinalizadora da co-pertença entre estes diversos âmbitos, e por isso, situamo-la fora da cirúrgica tendência ‘esclarecida’ (aufgeklärt) em conceber assentamentos distintivos e/ou redomas ontológicas problematicamente comunicantes45.
Cônscios deste caráter não fragmentário da filosofia nietzschiana, o qual resulta numa compreensão da linguagem como volátil espaço de constituição de significados, reverberador da incessante tensão inscrita em sua concepção de realidade, tencionamos dar conta das duas perguntas elencadas acima. Dispomo-nos a elaborar um breve apanhado semântico-conceitual das muitas ‘aparições’ do vocábulo criação, bem como de seus derivativos gramáticos nos textos de Nietzsche. O faremos tomando como ponto de partida o momento de produção intelectual iniciado em fevereiro de 1883, inaugurando-se justamente com Assim Falou Zaratustra, obra que enceta a derradeira etapa de sua filosofia.
1.2.1. Da criação, do criador e do criar
Sobretudo no contexto supramencionado, Nietzsche usa assiduamente as expressões
Schaffen, Schaffung e Schöpfung para criação, os substantivos masculinos Schaffender,
45 Empreendimento típico da modernidade, o trabalho de fundamentação revela-se aos olhos de Nietzsche
exercício palimpséstico de ocultação, sobretudo no tocante à moral, das intenções de conservação de determinadas condições de vida reputadas declinantes em razão da asseveração e manutenção de valores e idiossincrasias pautadas em instâncias fixas, universais e incondicionadas (instâncias metafísicas), em detrimento da transitoriedade da existência, da vida mesma. É especialmente na versão do iluminismo teutônico de Christian Wollf que a ode à busca por fundamentos se estabelece enquanto exigência essencial da filosofia, tendo em Kant seu mais ilustre continuador. Acerca da notoriedade de sua tarefa crítica e do legado de Wolff, sentencia Kant: “os que rejeitam o seu método e ao mesmo tempo o procedimento da crítica da razão pura não podem ter em mente outra coisa que não seja desembaraçar-se dos vínculos da ciência e transformar o trabalho em jogo, a certeza em opinião e a filosofia em filodoxia” (KANT, Immanuel. Prefácio à 2ª Edição (1787). In: _______.
Crítica da razão pura. 4. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1997. p. 31). O espírito de assentamento
kantiano acredita-se delimitador das esferas de atuação do sujeito pela circunscrição dos domínios epistêmico, prático e estético da razão, constituídos por estatutos distintos e desvinculados. Nietzsche entende que essa
démarche seria uma qualidade escolástica de Kant, escolasticismo que tende a separar razão, sensualidade,
Schöpfer e Erfinder, para criador, e os verbos schaffen, erfinden, erschaffen, para criar. Na
língua alemã, a expressão verbal schaffen circunscreve um grupo numeroso de ações, abrangendo um frondoso campo de usos (trabalhar, fazer, criar, gerar, produzir, engendrar, instituir, formar, arranjar, conseguir, levar a cabo, entre outras aplicações dada a construção sintática). Ela difere propriamente da demarcação encontrada em seu correlato erschaffen (criar, produzir, formar), vinculado estritamente ao ambiente judaico-cristão da ‘Criação Divina’ (creatio ex nihilo) sendo o próprio Erschaffer seu designativo46.
De antemão, consideramos a diferença entre as definições Schaffung e Erschaffung central no pensamento nietzschiano, em razão da primeira fincar-pé na imanência, alinhando- se à dinâmica da existência, e da segunda constar de uma matriz teológica abertamente recusada por ele. Se porventura Nietzsche compartilha alguma das tradições de sentido da criação antevistas, não será difícil reconhecer em sua ínsita herança da cultura grega arcaica uma direção. Ao menos, em Crepúsculo dos Ídolos, o filósofo nos dá a entender sua acepção do que é propriamente grego, erradicando desta todo vínculo com o movimento reputado decadente inaugurado pela unidade filosófica socrático-platônica. De acordo com Nietzsche:
para os gregos, então, o símbolo sexual era o símbolo venerável em si, o autêntico sentido profundo no interior da antiga religiosidade. Todo pormenor no ato da procriação [Zeugung], da gravidez, do nascimento despertava os mais elevados e solenes sentimentos. Na doutrina dos mistérios a dor é santificada: as ‘dores da mulher no parto’ santificam a dor em geral – todo vir-a-ser e crescer, tudo o que garante o futuro implica a dor... Para que haja o eterno prazer da criação [Schaffens], para que a vontade de vida afirme eternamente a si própria, tem de haver também eternamente a ‘dor da mulher que pare’... A palavra ‘Dionísio’ significa tudo isso: não conheço simbolismo mais elevado que esse simbolismo grego, o das dionisíacas. O mais profundo instinto da vida, aquele voltado para o futuro da vida, a eternidade da vida, é nele sentido religiosamente – e o caminho mesmo para a vida, a procriação, como caminho sagrado...47
46 Note-se que o verbo erschaffen consiste na aderência entre o pronome pessoal masculino er e o verbo
schaffen; a mesma junção é estabelecida em seu cognato Erschaffen. Arriscamo-nos um esboço de transliteração,
designando o substantivo pelas expressões ‘Ele que cria’, ‘Aquele que cria’ ou ‘O que cria’ (Deus). Na língua alemã há ainda a expressão Gebilde que designa criação, invenção, formação, produção, obra, produto; bem como, imagem, estrutura, configuração, desenho, justamente em razão de seu polissêmico radical Bild (forma, imagem, figura, ilustração, retrato, quadro, pintura etc.). Igualmente, tem-se o verbo bilden (formar, moldar, instruir, educar, civilizar, criar) e o substantivo Bildung, de grande complexidade semântica, indicador do processo pelo qual se obtém a forma, e geralmente traduzido por formação, educação e cultura. O Jovem Nietzsche em uma série de conferências abrigadas sob o título Sobre o Futuro de nossos Estabelecimentos de
Ensino (1872) apresenta sua preocupação em torno de um modelo aristocrático de formação, enfatizando outra
compreensão de Bildung, através de uma crítica à concepção de Bildung e de Kultur enquanto sinônimos de civilização, herdadas da Aufklärung e do romantismo alemão.
O criar como um procriar, numa nítida reafirmação re-significante da antiga erótica grega e de todo o caldeirão tropológico que o acompanha, constitui, prima facie, a posição que Nietzsche adota ao reivindicar como sua uma filosofia dionisíaca: “eu, o último discípulo do filósofo Dionísio”48. Todas as peculiaridades do processo gestatório simbolizam em seu conjunto a atividade fundamental da vida em seu ininterrupto e a-teleológico fazer-se a si mesma: a dor, o sofrimento, o catastrófico, bem como o sublime, o gozo, o júbilo. Estas são tonalidades efêmeras assumidas pela vida, acúmulos de energias relativamente duráveis, simultaneamente se entrechocando com outras energias na inexorabilidade do devir.
Valendo-se de uma simbólica dos afetos, Nietzsche lê nos mistérios órficos (associados aos rituais dedicados a Dionísio) a consonância entre sofrimento e prazer os quais serão ulteriormente propalados pela moralidade dominante (cristã) como reciprocamente excludentes. Para ele, ambos simbolizam a geração, realização e consumação de novas conformações vitais sempre devinientes. Isso se ajusta à menção das dionisíacas, em que as festas apresentavam sacrifícios49, e a consideração de que esta é uma exigência do caráter profuso e incomensurável da vida. Figurações da gravidez e da maternidade não são estranhas à obra nietzschiana. Geralmente onde são meditadas, afiguram-se sinalizando o contínuo trabalho procriador, atuante, edificante e producente da vida, em concomitância com a dor inerente à gestação e ao nascimento, conforme registra a seguinte passagem de Zaratustra:
Criar [Schaffen] – essa é a grande redenção do sofrimento, é o que torna a vida mais leve. Mas, para que o criador [Schaffende] exista são deveras necessários o sofrimento e muitas transformações.
Sim, muitas mortes amargas deverá haver em vossa vida, ó criadores [Schaffenden]! Assim sereis intercessores e justificadores de toda a transitoriedade.
Se o criador [Schaffende] quer ser ele mesmo a criatura, o recém- nascido, então deve querer, também, ser a parturiente e a dor da parturiente.50
Na fala de Zaratustra, Nietzsche enaltece a condição remissiva, justificadora e transfiguradora do criar, única capaz de dignificar toda transitoriedade do acontecer ao adotar tudo o que nele veio e virá a ser, transmudando o fortuito em necessário. Aqui a vida conotada um grande ventre acaba por configurar a disposição psicofisiológica de um homem útero-de-
48 KSA 6, Götzen-Dämmerung. p. 160 (CI. p. 107, § 5 – O que devo aos antigos.). 49 Festas dedicadas ao deus Dionísio na antiga Grécia (século VI a.C.).
50 KSA 4, Also sprach Zarathustra. p. 110/111 (ZA. p. 115, II – Nas ilhas bem-aventuradas.). Além do trecho
supramencionado, esta imagem da gravidez ocorre com similaridade em Assim falou Zaratustra, II – Do imaculado conhecimento; antes em Aurora § 552, e Humano, demasiado Humano II, Opiniões e Sentenças Diversas § 63 e § 216.
si-mesmo, pois criar não sugere que algo é criado apenas fora, mas, que o próprio criador pode
autoproduzir-se enquanto criatura. E, nesse aspecto, esta terminologia pré e pós-natal suscita uma percepção outra do viver requerida por Nietzsche, a saber: a exigência de atingir uma visão que desterra quaisquer idiossincrasias menoscabadoras dos componentes destrutivos e terrificantes pertencentes à vida e favorecedores da própria intensificação e expansão desta. Dessa perspectiva, o lugar da criação em Nietzsche comporta igualmente a destruição, seja qual for seu codinome: dor, sofrimento, exploração, violência, guerra, flagelo, morte.
A semântica nietzschiana da criação é refletida ainda no verbo erfinden (inventar, descobrir, imaginar) e no substantivo Erfinder (inventor, autor)51, vez ou outra freqüentados no escrito ora tratado52, guardam uma relação significativa com a polissemia inscrita em
schaffen. Do uso dessas expressões ressoam dois problemas, um geral outro específico. O
pronome Er conectado a schaffen e finden alude à permanência da indefinição concernente ao campo semântico extensível entre ‘criar’ e ‘inventar’ para com a posição do divino, repondo uma árdua interrogação: Deus cria ou inventa? E, se Nietzsche usufrui os termos erfinden e
Erfinder, designando-os com a mesma carga significativa de schaffen e Schaffender, até que
ponto o faz ocupando-se da problemática filológico-semiótica a qual espelham? Consoante entendemos é admissível asseverar que nas proposições nietzschianas acham-se claras correspondências de significação entre criar e inventar. Há explícitas afirmações de Nietzsche nas quais ‘criação’ abriga ‘invenção’ e outras em que esta é sinônima daquela. Como estabelece num póstumo à época do Zaratustra: “criadores [Schaffende] são avaliadores e inventores [Erfinder] de novos valores: somente por meio deles realiza-se o mundo”53.
Embora menos freqüente, Schöpfer é outro substantivo utilizado pelo filósofo para designar ‘criador’54. Interessa-nos o fato de que tal expressão parece circunscrever-se apenas a esta significação, embora sua adjetivação (schöpferisch) acolha os sinônimos produtivo e
51 O mesmo que ocorre com erschaffen e Erschaffen, ocorre neste caso: er-finden e Er-finder. Lembremo-nos
que o verbo finden significa propriamente achar, encontrar, descobrir.
52 Para uma confirmação do uso no original, Cf. Also sprach Zarathustra, Kritische Studienausgabe (KSA), vol.
4, parte I, p. 36, 65, 66, 82, 88; e parte II, p. 169.
53 NIETZSCHE, Friedrich. Sämtliche Werke. Giorgio Colli e Mazzino Montinari (Org.). Kritische
Studienausgabe (KSA). Berlin; New York: Walter de Gruyter, 1999. Vol. X, p. 117, aforismo 4 [36] de
novembro de 1882 – fevereiro de 1883. Doravante os fragmentos póstumos em alemão serão citados pela sigla KSA, seguida do respectivo volume, página e o período referente à confecção do aforismo, isso para os fragmentos póstumos. Na citação, vertemos Schätzenden por ‘avaliadores’, guiando-nos de acordo com as recomendações de tradução oferecidas em esclarecedora nota de Paulo César de Souza (Cf. NIETZSCHE, Friedrich. Além do Bem e do Mal. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. p. 211, nota n° 11.).
54 De fato, comparado a Schaffen (criador), bastante utilizado pelo filósofo em seus textos, Schöpfer e seus
correlatos são menos recorrentes na escrita nietzschiana, sobretudo se partirmos da fase de redação de Zaratustra em diante, ficando esse aspecto igualmente patente nos póstumos. Cf. KSA, 10. Af. 4 [20]; 4 [67]; 4 [136]; 4 [150]; 5 [1] (234); 7 [58]; 7 [193]; 7 [254]; 7 [268]; 12 [1] (39); 12 [1] (113). Estes fragmentos póstumos datam de novembro de 1882 ao inverno de 1884.
fecundo, bem como o verbo (schöpfen) ao qual está associado. Este, além de aparentar compor um mais amplo horizonte disponível de usos (tirar; e num sentido poético: haurir, criar), sugere-nos um meandro interpretativo: Schöpfer é empregado para indicar criador em sentido geral, inclusive no âmbito hierático (‘Criador’ – Deus). Note-se que ao verbo schöpfen equivale a ação de haurir, literalmente, ‘tirar para fora de um lugar profundo’, ‘extrair das profundezas’. Logo, schöpfen não reside apenas nos limites teológicos, transbordando-o.
Voltemos uma vez mais ao Zaratustra, à primeira parte, precisamente à seção intitulada Dos transmundanos, onde é estabelecida uma iluminadora utilização dos termos. Nas frases: “queria o Criador [Schöpfer] desviar o olhar de si mesmo – e, então, criou [schuf] o mundo”, e “este mundo eternamente imperfeito, imagem, também imperfeita, de uma eterna contradição – inebriante prazer de seu imperfeito Criador [Schöpfer]”55. Em seguida, “meus irmãos, esse Deus, que eu criava [schuf], era obra humana” e ainda, “sim, este eu, e a contradição e confusão do eu, é ainda quem mais honestamente fala do seu ser: este eu que cria [schaffende], que quer, que estabelece valores e que é a medida e o valor de todas as coisas”56. Apesar do usufruto do verbo schaffen para o ato de criar divino e humano, o criar do ‘eu’ humano compreende-se em schaffen enquanto o Divino Criador do mundo, o Deus hebreu-cristão, é compreendido em Schöpfer.
Afeiçoa-se então, nos excertos da passagem indicada, uma pertinente distinção: nela,
Schöpfer (bem como o já frisado Erschaffer) e Schaffend exprimem diferentes posições na
concepção do criador, afigurando-se que a opção de Nietzsche é recorrer justamente ao uso demasiado freqüente do segundo termo no intento de construí-lo em radical figura de pensamento57. Entretanto, isso não implica a utilização esporádica de Schöpfer no sentido idêntico ao pretendido pelo filósofo58, dada a sua amplitude aplicativa. Destarte, o uso assíduo de schaffen e Schaffend(er) parece-nos guardar uma orientação fundamental, um sentido que Nietzsche busca preservar na linguagem que assume: a plurissignificância de schaffen reportando-se possivelmente à própria conceptualização da Wille zur Macht. Nesse sentido,
55 KSA 4, Also sprach Zarathustra. p. 35 (ZA. p. 56, I – Dos transmundanos.). Na língua portuguesa, a
diferenciação entre os substantivos ‘Criador’ e ‘criador’ é resolvida pelo uso da letra maiúscula em relação ao Deus hebreu-cristão. No alemão, uma vez que os substantivos distinguem-se pela inicial maiúscula, é necessária a determinação das vinculações possíveis entre certos signos e o significado em questão (Deus enquanto Criador de todas as coisas).
56 KSA 4, Also sprach Zarathustra. p. 36 (ZA. p. 56/57, I – Dos transmundanos.).
57 Indicações de nossa suspeita acham-se no próprio trecho intitulado O caminho do criador (Vom Wege des
Schaffenden) na primeira parte de Assim falou Zaratustra como declaração de sua primazia.
58 Como ocorre em I - De mil e um fitos, II - Do superar a si mesmo, II – Do imaculado conhecimento (Cf. Assim
haveria aproximação semântica entre schaffen e machen? Em que medida é exeqüível garantir um fio semântico entre estes dois modos de conceber a ação em Nietzsche?
Não se abstendo das interrogações propostas, mas apenas operando um breve desvio, é perfeitamente atestável que a partir dos trabalhos de 1882, leia-se Assim Falou Zaratustra e os fragmentos póstumos da época, há uma intensificação do discurso sobre o criar, a criação e o criador em Nietzsche. Inclusive, pode-se abonar que nesta fase, a despeito de toda sua obra, tal discurso atinge seu clímax. É o instante marcado pelo elogio à criação, entusiasticamente exortada e celebrada: “Companheiros, procura o criador [Schaffende], e não cadáveres; nem, tampouco, rebanhos e crentes. Participantes na criação [Mitschaffende], procura o criador [Schaffende], que escrevam novos valores em novas tábuas”59. A partir de 1885, época de publicação da quarta parte de Zaratustra, o filósofo amadurece outra expressão para criação,
Züchtung, e, ao afirmarmos tratar-se de um trabalho de amadurecimento, queremos evidenciar
que essa acepção aufere mais fôlego no momento derradeiro de sua filosofia.
Züchtung usualmente indica ‘criação’ no sentido de ‘cultivo’, e, portanto, ‘cultura’,
vinculada tanto ao domínio médico-biológico (donde, por exemplo, cultura de bactérias) quanto ao botânico (agricultura, cafeicultura). Em razão do caráter polissêmico atrelado ao substantivo Zucht (criação, cultura, raça, casta, disciplina, educação, honestidade), deve-se atentar para o caldeirão no qual está implicada a acepção Züchtung nos escritos nietzschianos, e, insistimos, mormente naqueles condizentes à fase tardia de sua filosofia60. Constata-se que Nietzsche usufrui tal expressão e seus correlatos em boa parte de suas lucubrações sobre cultura, civilização, política e educação, com o propósito de pensar a criação como consciente processo de formação de uma realidade cultural outra, antítese do paradigma moderno.
59 KSA 4, Also sprach Zarathustra. p. 26 (ZA. p. 47, Prólogo - 9.).
60 Em elucidativa nota, Wilson Antônio Frezzatti Júnior aponta o caráter problemático da palavra Züchtung,
cônsono ao substantivo Zucht, ponderando exatamente esses possíveis usos na atmosfera da língua alemã. Ademais, segundo o tratadista, entre os muitos significados para Züchtung no registro nietzschiano, é necessário destacar o sentido de ‘seleção’, conquanto constem na língua teutônica as expressões Auslese e Selektion. Consoante Frezzatti Júnior, “Nietzsche utiliza Züchtung tanto no sentido de seleção quanto no de educação, disciplina ou criação [...] pensamos que, na filosofia nietzschiana, há elementos para entendermos a educação, a disciplina e a domesticação como processos seletivos. Daí a preocupação de Nietzsche com o surgimento de uma nova cultura e do gênio. Deve ser destacada a dificuldade de se traduzir a palavra Züchtung nos textos de Nietzsche: qualquer palavra utilizada (criação, cultura, disciplina, educação ou seleção) não traz o seu sentido integral. Ela deve sempre, nesse contexto filosófico nietzschiano, indicar uma seleção utilizada como instrumento cultural. Pensamos que seja devido a esse caráter instrumental que o filósofo não se utilize, nesses casos, das palavras Selektion e Auslese” (FREZZATTI Jr., W. A. A fisiologia de Nietzsche: a superação da dualidade cultura/biologia. São Paulo: Editora Unijuí, 2006. p. 29, nota n° 9). Compartimos desta percepção, e corroboramos a ligação fundamental entre criação, educação e seleção, interpretando que deste vínculo estatui-se uma acepção de cultura em Nietzsche, desde uma revisitação da própria Bildung (Cf. nota 46), como formadora de indivíduos capazes de cultivarem-se a si mesmos e tarefa alternativa ao arrebanhador programa moderno.
Essa tendência é claramente sugestionada no seguinte fragmento: “quanto mais o tipo ‘animal de rebanho’ é agora desenvolvido na Europa, que tal fazer uma experiência fundamental, artificial e consciente, de criação [Züchtung] do tipo oposto e de suas virtudes?”61. No ambiente nietzschiano, Züchtung refere-se a uma espécie de atividade mediadora na consecução de um tipo humano contraposto ao homem moderno, quiçá uma nova educação. Por conseguinte, Züchter consiste no criador como cultivador, trabalhador de si. Assim sobrevém com o Zaratustra da quarta parte que se arroga, na metáfora de uma ‘piscicultura’ de homens de excelência, “alguém que tira, que tira a si, para cima, para o alto, um tirador, criador [Züchter] e tratador [Zuchtmeister], que não em vão, um dia, determinou a si mesmo: ‘Torna-te quem és!’”62. Trata-se da enunciação do trabalho de cultivação de espécimes humanos singulares por Zaratustra que, certamente neste período e em grande parte de seu pensamento, é quase uma obstinação nietzschiana.
O locus semântico da criação em Nietzsche, até o instante de nossa investigação, envolve primeiramente uma simbólica da procriação e todos os co-partícipes desta, a saber, o prazer, a dor, o sofrimento, a geração e a destruição contínuas, enquanto fulgurações do operar mesmo da vida63. Nesse sentido, Nietzsche é um devedor dos gregos, como ele mesmo confessa no décimo capítulo do Crepúsculo dos Ídolos. Afirmamos isso baseando-nos na impossibilidade de se pensar o criar em Nietzsche como provindo de uma fonte originária incondicionada e transcendente. Todo criar é imanente e se estabelece condicionalmente pela pluralidade, indeterminabilidade e contingência de elementos constitutivos da vida. Ele é um movimento coexistente ao aniquilamento e, destarte, exige necessariamente o algo a ser
61 KSA 12, p. 73, af 2 [13], outono de 1885-outono de 1886. Grifo do autor. O aforismo é da época de produção
e publicação de Além do Bem e do Mal, livro que segundo Nietzsche possui uma dupla finalidade: realizar uma crítica da modernidade e apontar as condições de um tipo humano antipódico ao homem moderno (Cf. NIETZSCHE, Friedrich. Ecce homo. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p. 95. Além do bem e do mal § 2.).
62 KSA 4, Also sprach Zarathustra. p. 297 (ZA. p. 283, IV – O sacrifício do mel.). Esta é a única referência de
uso da palavra Züchter que se encontra em Zaratustra, e justamente na quarta parte, publicada em 1885. Mário da Silva traduz Zuchtmeister por ‘tratador’, mas a expressão admite ainda os sentidos ‘carcereiro’ e ‘preceptor’, aquele associado à esfera do disciplinamento das instituições penais corretivas, e a segunda à esfera educativa. Figuradamente, há passagens nas quais Nietzsche usa o léxico próprio da botânica que a nosso ver podem ser interpretadas nessa mesma direção. A título de ilustração, quando versa sobre uma ‘autêntica hipocrisia’, típica