No final da década de 1960 houve uma saída em massa de pesquisadores do laboratório de Duke, que alguns parapsicólogos chamaram de “great leaving” (Goulart, 2011). Motivados pelo declínio do behaviorismo e pela insatisfação com o enrijecimento metodológico de Rhine, eles partiram em busca de outras
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possibilidades de pesquisa para os fenômenos observados, como processos mais qualitativos e estudos em campo. Dentre esses pesquisadores encontravam-se Charles Honorton e Robert Morris.
Novas técnicas de pesquisa foram desenvolvidas. Os testes de resposta forçada, como ocorriam com as cartas Zener, foram substituídos por testes de respostas livres, nos quais o sujeito descreve com suas próprias palavras suas imagens mentais ou sensações durante o experimento, e um terceito sujeito, no papel de juiz cego, compara a descrição a um grupo de possíveis alvos. Havendo correspondência entre o alvo indicado pelo juiz cego e aquele inicialmente selecionado para o teste, considera-se que houve um acerto. Alvos estáticos (figuras) foram posteriormente substituídos por alvos animados (videoclipes).
Após essa mudança metodológica, os resultados obtidos nos testes foram muito superiores àqueles encontrados anteriormente, o que levou a uma nova revolução na Parapsicologia, ainda que a análise estatística continuasse quantitativa e feita nos mesmos moldes propostos por Rhine (Machado, 1996). Os principais testes de respostas livres são os testes de visão remota, testes com sonhos, e Ganzfeld. Alguns destes testes são realizados até hoje.
Nos testes de visão remota uma pessoa é levada a um local aleatoriamente selecionado e solicitada que passe um tempo neste lugar observando o ambiente a sua volta. O sujeito do teste, dentro do laboratório, tenta então descrever o ambiente em que se encontra a primeira pessoa.
Os testes com sonhos começaram em 1964 no Laboratório de Sonhos do
Maimonides Medical Center, Nova York, sob o comando de Montague Ulman,
Stanley Krippner e, a partir de 1967, Charles Honorton. Enquanto o sujeito dorme, uma segunda pessoa, no papel de emissor, deve tentar transmitir telepaticamente
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um alvo previamente selecionado. Após dez minutos de sono REM, o sujeito é acordado e questionado quanto ao conteúdo de seus sonhos.
Charles Honorton defendeu amplamente os testes de respostas livres e foi o responsável por importar da psicologia a técnica de ganzfeld. Nela o sujeito é confortavelmente deitado numa poltrona reclinável, e passa por uma experiência de homogeneidade de entrada sensorial, tendo os olhos cobertos por semiesferas parcialmente opacas e sob uma forte luz avermelhada, enquanto recebe através de fones de ouvido sinais de ruído branco. A ideia é que a privação sensorial promova um estado alterado de consciência, de forma semelhante ao que ocorre durante o sono. Honorton percebeu que os estados alterados de consciência pareciam favorecer a ocorrência de ESP. Desde que começou a ser utilizada em 1974, a técnica vem sendo aprimorada. Os resultados obtidos são, de forma geral, muito acima do esperado pelo acaso em termos estatísticos (Honorton et al., 1990). Esta “situação experimental alcançou e ainda alcança resultados surpreendentes tanto em termos qualitativos quanto quantitativos” (Machado, 1996, p. 52).
Enquanto os testes de ESP avançavam no sentido de tornarem-se mais qualitativos, os testes de PK continuaram essencialmente quantitativos. Sofreram, contudo, uma drástica mudança de desenho experimental quando, em 1960, Helmut Schmidt desenvolveu aparelhos que detectavam a possível influência da mente sobre equipamentos eletrônicos. Com o uso de geradores de eventos aleatórios do tipo RNG (do inglês random number generators), ele buscava avaliar se o indivíduo poderia interferir na produção de resultados que seriam eletrônica e aleatoriamente gerados pelos aparelhos, favorecendo a maior produção de um resultado ou outro. De forma semelhante, estudos de Bio-PK procuraram avaliar a
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influência da mente sobre índices fisiológicos, como os batimentos cardíacos e a resposta galvânica da pele. Há diversos testes do tipo ainda em andamento.
Como mencionado anteriormente, pesquisadores como Charles Honorton e Robert Morris se afastaram do Rhine Research Center em 1967. Enquanto Charles Honorton seguia com os estudos Ganzfeld nos EUA, Robert Morris foi convidado a lecionar na Universidade de Edimburgo, Escócia. Lá, em 1985, Morris assumiu a primeira cátedra de Parapsicologia no Reino Unido, chamada Cátedra Koestler.
Enquanto à frente da Cátedra Koestler, Morris orientou dezenas de alunos de pós-graduação que, dirigirindo-se posteriormente a outras universidades do Reino Unido, montaram lá novos programas em Parapsicologia, por sua vez orientando outros alunos ainda. Essa disseminação dos estudos de Parapsicologia pelo Reino Unido a partir da década de 1980 ficou conhecida entre os pesquisadores da área por “Efeito Morris”. Pode-se dizer que o Reino Unido seja hoje o maior polo de pesquisa em Parapsicologia no mundo.
Desde o início, a abordagem de Morris e sua equipe foi declaradamente cética, não no sentido de incrédula, mas de questionadora (Morris, 1997). Desta forma o trabalho avaliava tanto hipóteses favoráveis a psi24, quanto aquelas que chamaram de pseudo-psi, ou seja, de resultados que poderiam ser atribuídos a “operações imperfeitas de nossos próprios processos psicológicos de percepção,
24 A hipótese psi argumenta que “temos acesso a aparentemente novas formas de comunicação, que
podem ser investigadas usando os instrumentos da ciência, a observação detalhada e a descrição de causas naturais, para o estudo de experimentos controlados” (Morris, 1997, p. 148). Como ocorre com o X na álgebra, o termo psi, associado à 23ª letra do alfabeto grego, foi adotado na parapsicologia como uma incógnita para identificar a incerteza do que estaria na base da ocorrência dos fenômenos estudados, quando aceitos como reais.
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cognição, e memória” (Morris, 1997, p. 148)25. Assumiam a Parapsicologia como
uma área interdisciplicar e defendiam um enfoque humanístico, reconhecendo o valor das experiências para as pessoas que as narravam. As pesquisas tanto envolviam experimentos controlados, como resgatavam a prática da investigação em campo e do estudo de relatos expontâneos. Calcada nos modelos de pesquisa da medicina e da psiquiatria, adotando abertamente um ceticismo questionador, e aproximando-se mais das teorias psicológicas tradicionais do que havia feito a Parapsicologia, essa abordagem de estudos afastava-se cada vez mais daquela aplicada nos EUA que seguia os moldes de Rhine. Não havia, portanto, razões para utilizar a mesma denominação. A abordagem britânica ganha então o nome de Psicologia Anomalística, e começa aos poucos a integrar
os programas de pós-graduação e graduação em Psicologia nestes países.26