I. BÖLÜM
8. Din-Devlet Münasebeti
A compreensão da relação bancos e espaço geográfico pressupõe, no plano da construção metodológica, um esforço de seleção de alguns elementos, conceitos e categorias
de análise, ―[...] como um concreto pensado, capaz de incluir o chamado real num prévio sistema de idéias‖ (SILVEIRA, 1999a, p. 24). Olhados por esse ângulo, todos esses elementos
constitutivos do método de abordagem do fenômeno em estudo devem aproximar-se o máximo possível desse real, já que ―os diversos elementos‖ – da situação geográfica encontrada pela expansão geográfica dos serviços bancários – ―agem em conjunto para definir uma situação geográfica, reforçando-se ou contrariando-se uns aos outros‖ (GEORGE, 1969, p. 14), devendo-se o pesquisador, em seu percurso metodológico ―[...] escolher os elementos que lhe parecerem fundamentais e, a partir deles, descobrir o complexo de relações‖, conforme ensina Silveira (1999a, p. 24).
A expansão geográfica dos serviços bancários é resultante de um feixe de desdobramento de possibilidades formado de existências materiais e imateriais. Resulta das inovações técnicas, normativas, das intenções das instituições bancárias, das políticas do Estado, das formas-conteúdos dos lugares, modificando o dinamismo preexistente nesses lugares e criando uma nova organização das variáveis do Lugar, já que são de natureza do sistema de ações e objetos27, o que tornam-se incompreensíveis sem os elementos, conceitos e categorias, portanto estruturas do método bem selecionadas.
Desenvolvida não apenas sobre bases novas, mas também sobre heranças materiais e organizacionais constituindo, pois, um processo que envolve ―heranças socioespaciais e
advento de novas variáveis‖ (SILVEIRA, 2010a, p. 76), a expansão geográfica dos serviços
bancários constitui um novo arranjo existencial de produção da vida, atendendo novas ações e implantando novos objetos para atender novas racionalidades, novas intencionalidades, novos futuros que se fazem por esses atores, evidenciando uma nova divisão territorial do trabalho
27―Os objetos e as ações que participam da construção e reconstrução da situação têm raramente a mesma idade e a mesma intencionalidade. Por isso, a situação geográfica pode ser vista, também, como o movimento do diverso buscando uma maior diferenciação e especialização a partir de comandos progressivamente unificados‖ (SILVEIRA, 1999a, p. 25).
bancário. Daí uma proposta de análise que seja analítica das existências, que possibilite ―[...] encontrar as mediações entre o mundo, seus eventos e a vida nos lugares‖ (SILVEIRA, 1999a,
p. 26), uma vez que, da combinação de objetos técnicos, ações, normas, agentes, escalas, ideologias, intencionalidades, técnica, resultam as formas de vida concretas nos lugares, que não se fazem, nas sociedades capitalistas, sem a interação entre Mercado e Estado, novo e velho, interno e externo (SANTOS, 2008d), (re)criados a cada situação, possibilitando pensar- se a situação presente e as possibilidades possíveis (SILVEIRA, 1999a), o futuro (SARTRE, 1980).
Para tanto, antes de tudo, há de se destacar alguns elementos do espaço, sempre que se fizer conveniente e oportuno, levando-se em conta as esferas: social, política e econômica. De acordo com Santos (2008d, p. 16), os elementos do espaço são ―os homens, as firmas, as instituições, o chamado meio ecológico e as infra-estruturas‖. Com base nesse pressuposto, esta pesquisa considera os seguintes elementos do espaço constitutivos da relação bancos- território:
1) o homem (sociedade, atores) – são os consumidores dos serviços e produtos bancários oferecidos pelos diversos fixos bancários: agências, postos e correspondentes;
2) as instituições (normas e leis) – o Estado, a Federação Brasileira dos Bancos (FEBRABAN), o Banco Central do Brasil, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE);
3) as firmas (capital e capacidade produtiva) – são os próprios bancos aqui considerados: Banco do Brasil, Banco Bradesco e Caixa Econômica Federal; e as
4) infraestruturas (produto do trabalho humano), que segundo Santos (2008d, p. 17) encontram-se ―[...] materializad[as] e geografizad[as] na forma de casas, plantações, caminhos
etc.‖. Referem-se, nesta pesquisa, aos pontos comerciais e de prestação de serviços bancários
ao público, que funcionam como correspondentes, como por exemplo, mercadinhos, lojas de móveis, agências dos correios, casas lotéricas etc.
Somam-se a esses algumas categorias e conceitos analíticos, a fim de explicitarem-se melhor as bases de pensamento em que se fundamenta. Sobre categorias e conceitos, a Geografia é carecedora de uma discussão aprofundada. Não é intensão aqui fazer isso, mas acha-se por bem tecer alguns comentários sobre essa discussão, antes de definir o que toma-se
por categorias e conceitos, uma vez que ―a questão que se coloca é, pois, sobretudo, uma
analiticamente, abordar uma realidade, a partir de um ponto de vista‖ (SANTOS, 2009a, p.
77).
Comungando com Bernardes (2011, p. 165), defende-se que ―indicar uma definição do que é categoria e, por conseguinte, conceito é antes de tudo colocar em discussão dois instrumentos intelectuais imprescindíveis a qualquer teoria‖. Já para Gomes (2009, p. 22),
―toda ciência para Kant deve desenvolver e trabalhar a partir de categorias gerais que, aliás,
são elas que conformam nossa percepção e nosso entendimento‖. Mas o que é categoria? O que é conceito?
Uma resposta clara encontra-se em Silva (1986, p. 28), quando afirma que ―a categoria define os modos de ser, enquanto o conceito define a idéia ou conjunto de idéias a respeito de
alguma coisa ou fenômeno.‖ Percebe-se com isso, que a categoria é uma certa definição dos
modos de ser do ser-no-mundo. É aquilo que é fundamental. É, pois, aquilo que define a natureza de alguma coisa. No caso desta pesquisa seria, por exemplo, a técnica e as normas, constitutivas do processo de territorialização bancário e o conteúdo existencial dos lugares (a população e o seu modo de existência). Já o conceito significa características gerais de certo objeto. É uma representação do objeto. Assim, categoria e conceito nada mais são do que instrumentos teóricos válidos dentro de uma teoria e método de análises, o que significa que para conhecer a realidade fenomênica a partir do conhecimento científico, tornam-se necessários categorias e conceitos.
Se o mundo é tomado como ser-do-homem, o pesquisador toma Espaço como
categoria e ―[...] se coloca como uma espécie de ser ausente para o mundo, no intuito de
entender as múltiplas características do mundo que ele analisa‖ (BERNARDES, 2011, p. 171), expressas na manifestação fenomênica das ocorrências espaciais, a partir do desdobramento de possibilidades. Por meio do entendimento do ser-no-mundo, Espaço, Paisagem, Região, Território e Lugar são, de fato, categorias geográficas, no sentido de que, antes de tudo, são facetas da relação do homem entre si e com o substrato espacial material, tendo nesse processo existencialista o homem como elemento central, os objetos e as ações como categorias e o meio como principal conceito, pois a partir da totalidade homem-meio, ou seja, do homem sendo no/com o mundo, derivam-se as categorias de análise constitutivas das categorias geográficas (em especial nesta pesquisa o território).
Conclui-se que as categorias indicam o Ser, ao passo que os conceitos correspondem à Existência. Feita essa distinção, e tomando-se Santos (2009a) e Contel (2006) como
referências principais, listam-se como categorias de análise e pressupostos de método que possibilitam com mais firmeza compreender o processo de territorialização dos serviços bancários no Rio Grande do Norte as seguintes: periodização, ação, técnica, evento, norma, verticalidade, rede, totalidade e forma-conteúdo, todas elas encontam-se distribuídas ao longo deste trabalho. Isso revela, portanto, modos de ser da totalidade desse processo territorial, constituindo-se em pressupostos de método fundamentais. Como diria Santos (1984, p. 16), pouco importa a denominação, mas o que vale ―[...] é encontrar as categorias de análise que permitem o seu conhecimento sistemático, isto é, a possibilidade de propor análise e uma
síntese cujos elementos constituintes sejam os mesmos‖. Em outras palavras, é preciso tornar
operacional a realização da pesquisa e, consequentemente, a compreensão do ―objeto‖ e tema em estudo.
De acordo com MacDowell (1993, p. 163), ―se o sentido de ser é dado em uma
compreensão do ser, e se o homem e seu compreender são essencialmente temporais, a idéia de ser deve estar também em íntima relação com o tempo. De fato, o tempo é o horizonte da
compreensão do ser em geral‖. Nesse sentido, mais que um pressuposto de método
(CONTEL, 2006) e menos que uma categoria, a Periodização28 é fundamental à compreensão do fenômeno da expansão dos serviços bancários e financeiros no Rio Grande do Norte, pois
não há ―[...] juicio que sea absolutamente válido sin limitaciones de tiempo y espacio‖
(BARAN, 1968, p. 16; grifo do autor), ou como diria Santos (2008d, p. 13): ―[...] a análise qualquer que seja, exige uma periodização, sob pena de errarmos freqüentemente em nosso
esforço interpretativo‖, pois ―a cada período podemos, assim, perguntar-nos o que é novo no espaço e como se combina com o que já existe‖ (SANTOS; SILVEIRA, 2002, p. 11). Ou seja, a periodização possibilita perceber no fenômeno ―[...] suas continuidades e rupturas‖
(GOMES, 2013, p. 52), mas acima de tudo, as coexistências enquanto simultaneidade de sistemas de objetos e ações.
Isso leva à preocupação com os processos, pois ―é a preocupação com o processo e com a periodização que permite não apenas o conhecimento da dinâmica do presente mas a
28 Embora a periodização seja uma convenção artificial para efeitos analíticos, é preciso sempre ter o cuidado de não se generalizar, pois ―[...] partir de uma classificação, nesse caso de uma periodização, e depois procurar episódios que se ajustam às características descritas no período, parece ser um grave equívoco metodológico‖ (GOMES, 2013, p. 241-242), mas trazer a periodização como um olhar o sistema indissociável de sistemas de objetos e ações característicos do fenômeno em um dado momento parece ser o caminho mais apropriado. Não pedaços de tempo com conteúdo vazio, apenas datados, mas um olhar atento à técnica do momento, pois para se compreender processos ―we cannot not periodize‖ (JAMESON, 2002, p. 29), ou seja, não podemos não periodizar.
percepção, ainda que mais ou menos nebulosa, do futuro‖ (SANTOS, 1989, p. 432). A busca pela elucidação dos processos deve ser considerada de forma indissociável do projeto de existência humana que envolve sua criação socioespacial. Assim, é que, ―cada período é caracterizado pela existência de um conjunto coerente de elementos de ordem econômica,
social, política e moral, que constituem um verdadeiro sistema‖ (SANTOS, 1979, p. 25;
2008d; 2012), sendo ainda cada período considerado ―[...] como um segmento homogêneo de tempo histórico, em que as variáveis se mantêm em equilíbrio no interior de uma mesma
combinação‖ (SANTOS, 1979, p. 26), já que o Ser constitui-se essencialmente por-Ser, ou como diria Castoriadis (1987, p. 225): ―[...] o Ser está, essencialmente, por-Ser‖,
demandando, portanto, tempo, diversos estratos em ação simultânea.
Cada época é uma combinação específica de técnicas. Atualmente, tem-se o período técnico-científico-informacional, período do espaço geográfico em totalização, propulsor de um meio de mesmo nome, cuja presença da técnica, da ciência e da informação é uma constante em todas as instâncias socioespaciais, construindo-se, segundo Santos (1994a; 2008c; 2009a) e Santos e Silveira (2002), após a Segunda Guerra Mundial e acentuando-se a partir da década de 1970, cujas variáveis possibilitam a simultaneidade do dinheiro em todos os lugares.
Por fim, a categoria periodização é importante também porque possibilita identificar
com mais clareza a dialética, isto é, ―[...] a lei da totalização que faz com que existam vários
coletivos, várias sociedades, uma história, isto é, realidades que se impõem aos indivíduos [...] tecida por milhões de atos individuais‖ (SARTRE, 2002, p. 156; grifos do autor).
De acordo com esse autor, ao contestar a dualidade de potência e ato da física
aristotélica, ―tudo está em ato‖ (SARTRE, 2013, p. 16), o que leva-se, nesta pesquisa, a tomar
como segunda categoria de análise a Ação, sobretudo a ação enquanto atos politicamente pensados; intencionalidade; desdobramento de possibilidades, que visa o futuro, pois ―[...] a ação humana é transcendente, quer dizer, visa sempre um objeto futuro a partir do presente onde a concebemos e onde tentamos realizá-la. A ação humana coloca seu fim, sua realização
no futuro‖ (SARTRE, 1980, p. 18), pois ―só o ato permite o homem viver‖ (SARTRE, 1984,
p. 15) e, portanto, geograficizar-se.
Sabendo que ―a existência é tecida por relações, [...] um vasto complexo relacional‖ (RAFFESTIN, 1993, p. 31), e que o espaço geográfico é ―[...] um conjunto indissociável de sistemas de objetos e de sistemas de ações‖ (SANTOS, 2009a, p. 21) em totalizações, levar
em conta as ações como categoria de análise do fenômeno investigado é fundamental, pois o
homem, a partir do momento em que tornou sua vida ―[...] um intervalo de tempo em que ele
tem algo a fazer, refreando o gozo dos bens terrestres e a contemplação, a ética judaico-cristã, sem o procurar expressamente, lançou as inteligências e energias humanas num ascetismo do agir, na exploração [...]‖ (DARDEL, 2011, p. 71) produzindo, assim, Geografias.
Mas, como apreender as ações no âmbito do espaço geográfico? A partir do entendimento de que o homem não é um ser-em-si, mas um ser-em-ato. Lendo Sartre (1984; 2002) percebe-se que o homem só ―é‖ quando age, já que o homem é aquilo que ele faz de si mesmo. E o seu fazer-se é algo essencialmente geográfico, pois é espacial.
Por meio da liberdade humana, as ações não são orientadas por leis universais, exceto quando se fala de uma sociedade qualquer e da questão das normas a ela inerentes, haja vista ser o próprio homem em grupo, em deliberação, que cria suas leis por meio de sua liberdade, que é, segundo o existencialismo sartreano, o princípio universal, visto que ao homem não é possível evitar a escolha de uma coisa qualquer, no sentido de que a não-escolha é precisamente uma escolha (SARTRE, 1984, p. 9). Portanto, decidir não agir já é agir efetivamente de maneira livre com/nesse espaço geográfico, pois ―o homem nunca é
completamente passivo [...]‖ (BRUNHES, 1962, p. 441).
Segundo Antonio Christofoletti, Leonard Guelke em seu artigo: An idealist alternative
in human Geography (1974), ―[...] observa que o geógrafo humano está interessado
principalmente na forma pela qual uma ação possa se desenrolar [...]‖ (CHRISTOFOLETTI,
1982, p. 25). Foi nessa perspectiva que Werlen (1993) em seu Society, Action and Space: an
alternative human geography, discutindo as ―social theories of action‖ e ―the space of social
action‖ buscou justificar a incorporação da ação no discurso teórico da Geografia Humana.
Apesar disso, Milton Santos, em 1994, vai criticar apenas o levar-se em consideração as ações, pois entende que é preciso ―[...] rejeitar o dualismo da aparência e da essência‖ (SARTRE, 2013, p. 16). Na quarta parte de sua obra Técnica, Espaço, Tempo: globalização e
meio técnico científico informacioanal, escreve: ―o espaço: sistemas de objetos, sistemas de
ações‖ (SANTOS, 2008c, p. 85), propondo que sejam incorporadas, nos aspectos
constitutivos do espaço geográfico, tanto as ações, quanto os objetos técnicos resultantes e dotados de intencionalidade extrema, afirmando que ―os sistemas de objetos não funcionam e não têm realidade filosófica, isto é, não nos permitem conhecimentos, se os vemos separados
(SANTOS, 2008c, p. 86), pois conforme já afirmava Marcuse (1968, p. 89) ―as necessidades existenciais da sociedade dirigem-se aos objetos, cujo provimento é necessário para a
subsistência, formação ou prosseguimento do seu ser‖.
Assim, essa proposta de Milton Santos possibilita compreender o processo de
totalização da sociedade. Segundo ele, ―em qualquer momento, o ponto de partida é a
sociedade humana em processo, isto é, realizando-se. Essa realização se dá sobre uma base material: o espaço e seu uso; o tempo e seu uso; a materialidade e suas diversas formas; as
ações e suas diversas feições‖ (SANTOS, 2009a, p. 54). O movimento da sociedade e dos
atores que a constitui, tais como o Estado, as empresas, os partidos políticos, os indivíduos, os bancos leva, portanto, uma operacionalização, considerando a localização e a materialidade dos sistemas técnicos à disposição de cada ator.
No entanto, uma operacionalidade consistente quanto à compreensão e apreensão das ações encontra-se em Raffestin (1993, p. 40), que, baseado na obra de A. J. Greimas (1976, p. 96-98): Sémiotique et sciences sociales, procurou ―[...] distinguir dois tipos de atores
coletivos‖, nos quais incluem-se as ações também: 1) os sintagmáticos, que ―realizam um
programa‖ e 2) os paradigmáticos, aqueles que não se encontram integrados ―num processo
programado‖.
No primeiro tipo – os sintagmáticos – inserem-se os atores que possuem interesses organizados, como por exemplo, ―[...] todas as organizações, da família ao Estado, passando pelos partidos, pelas igrejas e as empresas‖ (RAFFESTIN, 1993, p. 40), das quais destacam- se os bancos e seus diversos fixos bancários presentes nas cidades de economia de mercado,
em que a ação aí verificada ―[...] é a execução de um ato projetado‖ (SANTOS, 2009a, p. 78),
amparado por normas específicas, cujas práticas são normatizadoras, o que significa que a
energia que move as ações desses atores são as normas e intenções, no sentido de que ―o
projeto inclui conhecer, de antemão, o que fazer, como fazer, o conjunto de tarefas e suas etapas, isto é, sua ordem (SANTOS, 2009a, p. 79).
No segundo tipo – os paradigmáticos – inserem-se os atores que ―não estão integrados
num processo programado‖ (RAFFESTIN, 1993, p. 41), ou seja, é a população em geral, essa ―[...] pluralidade de homens e mulheres que têm em comum o fato de estarem fixados numa porção da terra‖. Assim, essa ―‗coleção de seres humanos‘ é um trunfo, um recurso para o Estado, para as empresas‖ (RAFFESTIN, 1993, p. 41), como é o caso, mas não apenas, da
de forma mais direta dos circuitos das finanças, que através da busca constante dos atores bancários, políticos e econômicos de quererem livrar-se das sucessivas crises que os assolam constantemente, neste século XXI, são elementos do conteúdo existencial dos lugares visados por esses atores do circuito superior da economia urbana, o que ―[...] amplia a força da
estrutura‖ (SANTOS, 2006, p. 25).
Tal constatação reforça ainda mais a necessidade de ―uma epistemologia
existencialista‖ (SANTOS, 2006, p. 25) do território, no sentido de que o movimento
coexistencial, desigual e combinado, uno e contraditório, não tem sentido sem a busca por quem regula, como regula, por que e para que regula. Por isso ser importante, na pesquisa geográfica, além de se buscar saber a localização das atividades (localização do fenômeno) (o onde?), se querer saber também as maneiras e as justificativas das ações que envolvem o fenômeno (o como?, o por quê?); buscar querer saber ainda quem são os atores (o quem?). Soma-se a isso, a busca pelo tempo que promove as novas significações das ações (o quando?). Tudo isso deslocado de um esforço de interpretação que deixe de lado as finalidades (para quê?) torna a pesquisa defeituosa, deslocada do plano existencial.
Portanto, quando se falar em ação como variável chave do espaço geográfico e do processo de expansão geográfica dos serviços bancários, é preciso, concomitantemente, levar em consideração esses dois tipos de atores, pois considerá-los explica o tipo de
intencionalidade e técnica que possibilita a manifestação e existência de ambos, já que ―a
intencionalidade revela a importância das finalidades, e a resistência exprime o caráter dissimétrico que quase sempre caracteriza as relações‖ (RAFESTIN, 1993, p. 53). Dessa forma, as ações são importantes no estudo do objeto e tema de estudo desta tese, possibilitando compreender a funcionalidade dos sistemas de engenharia, sistemas de objetos, as redes e as outras materialidades do espaço inerentes à expansão dos serviços bancários no estado do Rio Grande do Norte.
Outra categoria de análise geográfica importante é o Evento, pois ―a categoria evento
une o mundo e o lugar, o tempo e o espaço‖ (SANTOS, 1999a, p. 7). Para Whitehead (1919, p. 61), ―events are essentially elements of actuality‖. Já Santos (2009a, p. 147), tomando por base Braian Berry assevera que ―evento e ação são sinônimos‖, uma vez que ―os eventos [...] supõem a ação humana‖. Berry (1972, p. 12) afirma que ―as ações individuais são,
naturalmente, muito variadas e é útil pensar-se nelas como eventos que, em seqüências repetitivas ou cumulativas, contribuem para processos espaciais de uma das três espécies‖, quais sejam:
a) Manutenção de sistema, isto é, eventos que, ―ou mantém o sistema em
funcionamento ou, [...] procuram eliminar as disfunções percebidas‖. Exemplo disso são as
políticas de transferência de renda do Governo Federal, que impulsionaram a expansão geográfica de serviços bancários.
b) Evolutivo, são os eventos que ―[...] produzem crescimento e mudança [...] no
sistema‖. Exemplo é o advento das condicionantes técnicas, sobretudo as técnicas de
informação e comunicação amparadas na informática e na tecnologia de satélite propulsivas da expansão geográfica dos serviços bancários.
c) Revolucionário, são os eventos ―[...] que transformam o sistema pela redefinição de
seus membros, limites, estilos e tipos de interações‖, (BERRY, 1972, p. 12). Exemplo disso
são as normas, que possibilitaram a expansão dos serviços bancários fazendo com que pudessem ser ―ofertados‖ em estabelecimentos do comércio varejista, casas lotéricas, agências dos Correios etc. e o acesso a esses serviços através da internet em computadores e aparelhos celulares.
O evento é, pois, o amálgama entre aquilo que pode ser possível (as possibilidades do período) e o que realmente existe (o prático-inerte). Disso surge o fato dos lugares serem
distintos, pois ―nem todas as técnicas, nem todas as informações, nem todas as manifestações das finanças chegam a todos os lugares‖ (SILVEIRA, 2006, p. 88).
De acordo com Santos (2009a), há eventos que são capazes de produzir solidariedade orgânica e outros são capazes de produzir solidariedade organizacional, no sentido de que
―[...] se impõem arranjos organizacionais, criadores de uma coesão organizacional baseada em
racionalidades de origens distantes, mas que se tornam um dos fundamentos da sua existência