O Código do Processo Penal (CPP) estabelece, no artigo 57º que, “ assume a qualidade de arguido todo aquele contra quem for deduzida acusação ou requerida instrução num processo penal” e que tal qualidade se mantém durante todo o decurso do processo. O artigo 58º define os parâmetros para que alguém possa ser constituído arguido. É assim “obrigatória a constituição de arguido logo que, correndo inquérito contra pessoa determinada em relação à qual haja suspeita fundada da prática de crime, esta prestar declarações perante qualquer autoridade judiciária ou órgão de polícia criminal” (CPP, 16).
Marinho e Pinto considera que afigura do arguido é desconhecida ou incompreendida por alguns ordenamentos jurídicos. “Reveste-se de características especiais porque, a partir do momento em que uma pessoa é suspeita, é posta num patamar que lhe confere direitos e deveres, mas sobretudo direitos: o direito a não falar verdade e o direito a ficar calado. O arguido não presta juramento” (Apêndice 5). Nos Estados Unidos, garante o bastonário da Ordem dos Advogados, esta situação não acontece. Ali, o arguido - se falar – “tem de falar a verdade. Não me repugna que houvesse uma alteração, adoptando o estilo americano. O arguido tem direito ao silêncio mas não deve ter direito à mentira.E agora o direito ao silêncio não pode ser de forma nenhuma valorado em termos processuais. É uma não existência” (Apêndice 5).
Mas, neste campo, o bastonário admite o seguinte cenário:
O que acontece é que o juiz perante o silêncio começa a pensar que quem cala consente. E a partir daqui começa logo a desencadear – primeiro dentro dele próprio e depois no processo – actos e mecanismos que irão atribuir culpabilidade. Conclui logo pela culpabilidade do arguido. Ou seja, a figura do arguido é esta: há uma pessoa sobre a qual recai a suspeita de ter praticado um crime, mas a quem o ordenamento jurídico reconhece um conjunto de direitos, nomeadamente o da não auto-incriminação. Tudo tendente a salvaguardar o princípio da não auto-incriminação. Esta tem que ser voluntária e consciente. As pessoas querem confessar, confessam. Em Portugal não há muito isso, o esforço investigatório maior é quase todo no sentido de haver confissões ou de obter do arguido declarações que o incriminem; tributário, na senda do que era o modelo da inquisição. Aqui era a confissão que contava. As pessoas confessavam ou morriam pois, confessando, aliviavam a consciência do julgador, que já podia mandar queimar. Aqui todo o modelo vai para isso. Devia haver incentivos a isso. Dou um exemplo: por que é que o Madoff, e outros, confessaram tudo? Por duas razões. Porque são confrontados com provas evidentes e têm benefícios processuais em confessar. Em Portugal, a pena máxima devia ser reduzida a metade, como chegou a ser proposto, a quem confessasse. Reduz-se a metade as custas, mas não a pena. Veja o que aconteceu com o desgraçado do Carlos Silvino. Confessou tudo, colaborou com a polícia e com o Ministério Público, ajudou, mostrou arrependimento, chorou, pediu desculpas e ao fim espetaram-lhe 18 anos. Compensa colaborar com a Justiça em Portugal? Isto é uma Justiça terrível, fanática. É uma Justiça terrorista. Deviam dar-lhe uma pena onde houvesse o reconhecimento e a aceitação do contributo que ele deu para a descoberta da verdade e para a boa administração da Justiça (Apêndice 5).
O estatuto de arguido levou a jornalista Inês Serra Lopes, num artigo de opinião, a escrever no jornal I o seguinte: “há poucos anos, envergonhadas, as pessoas deixavam de atender os telefones para não se verem obrigadas a confirmar que tinham sido constituídas arguidas” (I, 15.01.2011). “Os suspeitos - e os arguidos eram, comprovadamente, suspeitos - eram olhados de lado. Mudava-se de passeio para evitar cumprimentar pessoas que tinham sido constituídas arguidas. Sobre isso, falava-se baixinho e longe dos jornalistas. O estigma existia: era uma vergonha ser arguido”(I, 15.01.2011). Mas, acrescenta a jornalista, a tradição já não é o que era. E, “à medida que o número de arguidos foi aumentando, à medida que foram existindo arguidos com processos arquivados, muitos deles não foram, sequer, acusados ou, sendo acusados, não chegaram a julgamento” (I, 15.01.2011).
No entanto, e à medida que “começámos a ver arguidos com uma educação acima da média e, sobretudo, à medida que a exposição mediática de arguidos passou a quase não dar tempo para as pessoas digerirem a sucessão de investigações criminais e de queixas - muitas vezes disparatadas - também a reprovação social começou a diminuir e a antiga desonra começou a ser guardada na gaveta das luvas fora de uso” (I, 15.01.2011). “Afinal de contas, 1% dos portugueses é arguido. E pelo menos 2% ou 3% já o foram”, assegura. “Pelas minhas contas, há mais arguidos do que polícias na capital. E muitos deles são arguidos só porque alguém se queixou deles” (I, 15.01.2011).
Os dados da Direcção-Geral da Política de Justiça, contudo, revelam que em 2009 se registou um decréscimo do número de arguidos no país, comparativamente com os anos de 2008 e 2007.
Figura 12 –Arguidos em processos-crime nos tribunais de 1ª instância. (Fonte: DGPJ).
8. Anotações:
• A Justiça é lenta. Escorregadia. Elitista. Cara. Está velha: precisa de reformas. Quem o afirma:
• Presidente da República: Justiça precisa de uma “reforma profunda”;
• Ministra Justiça: “os portugueses têm razões para duvidar da Justiça. [Está a preparar as reformas];
• Bastonário Ordem Advogados: “o Poder Judicial é um poder totalmente irresponsável”;
• Maria José Morgado: “ o cidadão comum já dá por assente que a Justiça funciona mal e deixou de se preocupar com isso”;
• Isaltino Morais: “a Justiça quer dar exemplos e, às vezes, quer bodes expiatórios”;
• Fátima Felgueiras: “é a própria Polícia Judiciária que quebra o segredo de Justiça”;
• Avelino Ferreira Torres: “quando são casos mediáticos, os juízes tremem todos. Têm medo”.
Farei agora uma caracterização dos quatro concelhos que, nas Eleições Autárquicas de 11 de Outubro de 2009, tiveram por candidatos Fátima Felgueiras, Avelino Ferreira Torres, Valentim Loureiro e Isaltino Morais. A realidade sócio-económica destas terras é muito díspar: enquanto Oeiras foi considerado o melhor concelho para se viver no país, o Marco de Canaveses, por exemplo, ainda é muito rural, onde a indústria é muito pouco expressiva.
PARTE II – As eleições autárquicas de 2009: caracterização de quatro concelhos e os