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“Os tribunais não estão congelados. Todos os dias se findam processos e se tomam decisões. (…) A Justiça não é um deserto”, sublinhou Maria José Morgado (Apêndice 4).

Os dados a seguir apresentados constam do documento “Os dados da Justiça em 2009”, da Direcção-Geral da Política de Justiça (DGPJ), ano em que decorreram as eleições autárquicas em análise neste trabalho.

O documento começa por referir os tipos de tribunais existentes em Portugal e quais as suas competências. Assim, pode ler-se (7-8), que os tribunais dividem-se pelas seguintes categorias: Tribunal Constitucional, que desempenha um papel de particular relevância, uma vez que funciona como garante da Constituição da República Portuguesa, verificando, em último grau, se as normas jurídicas respeitam a Constituição. Para além disso, tem também competências relacionadas com o processo eleitoral e com os partidos políticos, nomeadamente o seu financiamento; Tribunal de Contas, entidade à qual cabe a fiscalização da legalidade das despesas públicas. Este tribunal está encarregado, por exemplo, de analisar e dar parecer sobre a Conta Geral do Estado; Tribunais judiciais, que correspondem à maioria dos tribunais existentes no nosso país e têm competência para julgar a maior parte dos litígios entre cidadãos e/ou empresas. Das decisões dos tribunais judiciais de 1.ª instância (que são actualmente 321 no total e correspondem, em regra, aos tribunais de comarca, por exemplo, Tribunal da Comarca de Faro) é possível, nalguns casos, recorrer para um dos tribunais da Relação (que são 5 e estão localizados em Lisboa, Porto, Coimbra, Évora e Guimarães) e desses para o Supremo Tribunal de Justiça; Tribunais administrativos e fiscais, que são os tribunais competentes na maior parte dos casos em que uma das partes é o Estado ou outra entidade pública. Das decisões dos 16 tribunais administrativos e fiscais de 1.ª instância existentes é possível, nalguns casos, recorrer para um dos 2 tribunais centrais administrativos (localizados em Lisboa e Porto) e daí para o Supremo Tribunal Administrativo; Julgados de Paz, que são entidades competentes para resolver alguns dos litígios da competência dos tribunais judiciais, desde que o valor em causa não seja superior a € 5000. Os julgados de paz privilegiam a relação de proximidade e informalidade com os cidadãos que a eles recorrem, procurando estimular a justa composição dos litígios por acordo das partes. Neste momento existem 25 julgados de paz em funcionamento em Portugal; Tribunais arbitrais, que são tribunais privados que decidem litígios que lhe são submetidos pelas partes mediante convenção de arbitragem. Se em causa estiver um direito a que as partes podem renunciar, estas podem optar por escolher um ou mais árbitros para decidirem o caso, em vez de recorrerem ao tribunal do Estado. A decisão dos árbitros produz os mesmos efeitos que uma sentença de um tribunal do Estado.

A seguir apresentarei alguns gráficos – da autoria da Direcção-Geral da Política de Justiça - que demonstram a realidade dos números da esfera judicial.

Figura 7 –Processos no Tribunal Constitucional. (Fonte: DGPJ).

Aqui fica patente que os processos que deram entrada ao longo destes anos situam-se na ordem do milhar. Depois de um pico atingido em 2007, o número de processos entrados e findos no Tribunal Constitucional apresenta uma tendência de decréscimo em 2008 e 2009. O número de processos pendentes apresenta uma tendência de decréscimo desde 2005. Em 2009, os processos que ficaram pendentes são quase metade daqueles que foram rotulados como findos.

Mas, como veremos no quadro seguinte, os processos pendentes atingem níveis impressionantes nos tribunais judiciais de 1ª instância.

No entanto, se atendermos ao saldo processos entrados – processos findos; verificamos que foi favorável durante os anos 2006, 2007 e 2008. Mas, em 2009 as entradas foram superiores aos encerramentos e cerca de 1 600 000 ficaram nas secretárias, à espera de resolução.

Muitos desses processos que aguardam resolução dizem respeito, como constatamos no quadro seguinte, à Justiça Cível, cuja duração média dos processos findos é de cerca de dois anos e meio.

Figura 9–Duração média processos nos tribunais de 1ª instância. (Fonte: DGPJ).

Para atingir os resultados apresentados, em 2009 havia o seguinte quadro de profissionais da Justiça:

Observamos aqui que, por larga vantagem, os advogados são os profissionais da Justiça em maior número em Portugal, seguidos dos funcionários judiciais com um valor, no entanto, correspondente a menos de um terço dos primeiros.

O quadro seguinte mostra a distribuição do número de processos pelos funcionários judiciais e pelos magistrados.

Figura 11 –Média de processos atribuídos a magistrados e funcionários judiciais. (Fonte: DGPJ).

Está patente a carga de processos que os juízes deixaram pendente no final do ano: mais de 200, em 2009. A morosidade tem aqui um reflexo garantido. A culpabilidade, como sabemos, não caberá apenas aos juízes, mas é facto é que os processos demoram a ser solucionados judicialmente.

O bastonário da Ordem dos Advogados avança ainda com a seguinte explicação para a morosidade, ou seja, para a dificuldade em resolver os processos em tempo útil.

O Ministério Público comporta-se em Portugal da seguinte forma: por um lado é magistrado e ao mesmo tempo é parte. O Estado dá o juiz que julga e o Ministério Público que acusa, mas recorre das suas próprias decisões. Isto é, coloca o Ministério Público a recorrer das decisões de outro magistrado. O próprio Estado cria prolongamentos artificiais dos processos. Nos Estados Unidos não. Uma pessoa é absolvida na primeira instância e não há mais recurso. Absolvida uma vez, absolvida sempre. O Estado não põe em causa as suas próprias decisões absolutórias. Quem pode pôr em causa são os condenados, por isso é que há a apelação. Aqui o Ministério Público faz recursos de apelação. Apela para condenar quem foi absolvido! O Ministério só deveria poder recorrer da decisão do juiz apenas em benefício do arguido. Mas o que acontece é que é obrigado por lei a recorrer, o que explica muitos dos atrasos na Justiça. Acabem com os recursos do

Ministério Público! Se os juízes julgam mal, arranjem melhores juízes! Há ainda casos nos tribunais em que o Ministério Público pede a absolvição e o arguido é condenado. Se o acusador pede a absolvição, diz que não houve crime, por que é que o tribunal condena? Não devia. Bastava imperar o bom senso. A punição de um crime não é um ressarcimento à vítima. Tem direito a ser ressarcida dos danos que sofreu com o crime, mas não tem direito a exigir esta ou aquela pena. A punição não é feita em homenagem à vítima. A pena é feita para reintegrar a sociedade num valor e num bem jurídico que foi agredido pela conduta do criminoso. Ora bom. O Ministério Público pede a condenação como se fosse parte e procura obter a condenação ou então quando pede a absolvição o juiz – que devia ser imparcial – condena. Não pode ser. Há em Portugal juízes que actuam como se fossem procuradores, com quem, aliás, convivem em exagero (Apêndice 5).

Benzer Belgeler