Tendo em conta os interesses de Portugal, em termos de política colonial, a independência do Catanga suscitou um enorme interesse ao governo português. Se não, vejamos o relatório que Novais Machado enviou para Franco Nogueira, em Setembro de 1960, sobre esse acontecimento.
Nesse relatório Novais Machado analisa a Independência do Catanga, segundo o ponto de vista português, tendo em conta quatro perspectivas distintas:
“Em função dos interesses comerciais dos portugueses radicados no Congo Belga – Para estes
seria prejudicial;
Em função de uma política congolesa xenófoba: a independência era-nos favorável; Em função de uma comunização do Congo – a independência era-nos providencial; Em função do interesse do desenvolvimento de Angola – seria favorável”338.
Relativamente ao primeiro, terceiro e quarto ponto, Novais Machado não se pronunciou limitando-se a analisar o segundo. E sobre este ponto destaca a ideia de que um governo congolês xenófobo e com pretensões de libertar outros povos africanos, sobretudo limítrofes aos nossos territórios, viria a dispor de uma força enorme se considerássemos os recursos mineiros do Catanga. Neste sentido, esta Província seria, segundo Novais Machado, “a vaca leiteira” desse Governo mas constituir-se-ia também num enorme trunfo diplomático. Com efeito não só permitiria a conservação, no Baixo Congo Belga339, de um nível de vida superior ao do Congo Português, como também seria um
337 AHD – Maço 46, PAA, Processo 950,16: Relatório de Novais Machado sobre a Independência do Catanga, 1960. Novais Machado era o diplomata português que representava Portugal na Delegação Portuguesa da OTAN em Paris.
338 AHD – Maço 46, PAA, Processo 950,16: Relatório de Novais Machado sobre a Independência do Catanga, 1960. 339 Ver Anexo C (CONGO BELGA).
enorme trunfo político para neutralizar Portugal no campo diplomático. A independência do Catanga se pudesse vir a ser mantida privaria o Congo Belga de cerca de 60 % a 70 % da sua riqueza340. O mesmo será dizer que para Novais Machado, a independência do
Catanga enfraquecia o Congo e, nesse sentido, dadas as perspectivas de ordem política, esse enfraquecimento era-nos, claramente, favorável.
O posicionamento de Tchombé relativamente à questão de Angola constituiu, também, um forte incentivo para que esta aproximação se concretizasse, se não, vejamos aquela que era a opinião de Tchombé, em 1964, enquanto Chefe do Governo de Leopoldville relativamente a esta matéria.
Durante uma das suas visitas a Barcelona, em Agosto de 1964, Tchombé terá sido recebido no Consulado Geral dos EUA, local onde manteve uma longa conversa com o Cônsul Adjunto que, no decorrer da conversa, solicitou-lhe a sua opinião sobre Angola. Ao qual Tchombé terá respondido nos seguintes moldes: “Holden Roberto era um louco, um
iluminado, recusando todo o conselho, seguindo exclusivamente os seus impulsos e que se havia rodeado de um punhado de extremistas, que nada representavam. Angola não estava preparada para a independência. A independência a longo prazo era um problema a resolver por meio de negociações. A acção do Congo deveria orientar-se no sentido de levar os portugueses para o seu território para libertar as populações do seu atraso”341. Esta ideia demonstra bem a aproximação que existia entre Tchombé e Salazar, no
que concerne a uma política para África, em particular, para Angola, factor que garantiu, ao líder português, um importante apoio na defesa dos seus ideais em África.
Mas as motivações portuguesas relativamente ao Catanga não se resumiam aos interesses políticos e diplomáticos existiram também, motivações de carácter económico sustentadas através de visitas, em representação de Portugal, àquela região do Congo, com o único objectivo de fazer prospecção comercial. Dessas visitas importa destacar aquela que foi feita pelo Senhor Mariano Carvalho, Director da Companhia União Fabril, em Janeiro de 1961. Foi uma visita que surgiu no seguimento das conversações que foram iniciadas com a Missão do Catanga que, chefiada pelo Ministro do Trabalho e Assuntos Sociais, visitou Angola no início de 1960342.
340 AHD – Maço 46, PAA, Processo 950,16: Relatório de Novais Machado sobre a Independência do Catanga, 1960. 341 AHD – Maço 1095, PAA, Processo 960,16: Telegrama n.º 6653 da Embaixada de Portugal em San Sebastian, 1964.
342 AHD – Maço 46, PAA, Processo 960,16: Memorial elaborado por Franco Nogueira relativamente à visita de
No relatório desta mesma visita, em que Mariano Carvalho se fez acompanhar por Sebastião Calheiros343 e Eduardo Abreu da Firma Abreu & Companhia de Benguela, viriam a ser abordados os diferentes pontos de interesse a serem explorados em futuras negociações entre Portugal e o Catanga. Mariano Carvalho realçava o interesse do Governo do Catanga em estabelecer estreitas ligações comerciais com Angola e, ao mesmo tempo, chamava a atenção para a desconfiança belga, que tudo fazia para evitar a entrada de Portugal neste mercado. Mariano Carvalho chegou mesmo a dar um exemplo: “ao
encararmos a possibilidade de negócios de compensação, a CUF344 propôs-se a adquirir à União Mineira
cerca de 1600 toneladas por ano de cobre, mas esta apenas pretende fornecer cobre electrolítico, refinado na Bélgica”345.
No que diz respeito ao fornecimento de produtos agrícolas de Angola, Mariano Carvalho, via apenas a possibilidade para a venda de crueira346 e, eventualmente, milho. Relativamente ao arroz, tabaco e feijão, a qualidade e os preços dos produtos portugueses eram nitidamente batidos pelas ofertas de exportadores como a Rodésia e a África do Sul347.
As motivações portuguesas nesta região do continente africano eram, conforme podemos constatar, enormes e fossem elas de carácter político, diplomático, militar ou até mesmo, económica o objectivo seria sempre só um: garantir um auxílio válido e credível a Tchombé. Se Tchombé tivesse êxito no Congo, a vitória militar sobre a UPA e o MPLA estaria facilitada348 e a prova disso terão sido as contrapartidas, solicitadas ao governo congolês, pela participação em operações de auxílio a Tchombé durante o ano de 1964:
“Encerramento de todas as bases e escritórios dos movimentos subversivos fossem eles da UPA,
MPLA, FLEC, FNLA entre outros;
343 Uma espécie de Jorge Jardim para os assuntos do Catanga. 344 Companhia União Fabril.
345 AHD – Maço 46, PAA, Processo 960,16: Memorial elaborado por Franco Nogueira relativamente à visita de
Mariano Carvalho ao Congo, 1960. O Catanga, em termos agrícolas, foi, apesar da concorrência, uma forte
aposta de Portugal. Através da empresa Grémio do Milho de Angola forneceu grandes quantidades de milho ao Catanga e em 1964 terá sido mesmo, praticamente, o único fornecedor de quase todo o Catanga, tendo celebrado um contrato com a empresa “Minoteries du Katanga” em condições bastante favoráveis e de pleno agrado de ambas as partes, dado que o cereal angolano encontrou grande aceitação e o preço foi bastante compensador. Esta empresa, segundo o relatório a que tivemos acesso, também chegou a importar óleos vegetais de Angola. AHD – Maço 46, PAA, Processo 960,16: Cópia do oficio sobre a venda de milho ao Congo
elaborado pelo consulado português em Elisabethville, 1965.
346 Fragmentos de mandioca ralada que não passam nas malhas da peneira onde se apura a massa que se converte em farinha; corera, caruera, quirera. CRUEIRA. (consultado em 02 de Julho de 2010, pelas 01h30m). Disponível: http://www.dicio.com.br/crueira/.
347 AHD – Maço 46, PAA, Processo 960,16: Memorial elaborado por Franco Nogueira relativamente à visita de
Mariano Carvalho ao Congo, 1960.
348 Carta de Salazar a Marcello Mathias em 20 de Novembro de 1964. SERRÃO, Joaquim, Correspondência
Apreensão de todo o material em poder em poder dos elementos terroristas angolanos ou a eles
destinados, onde quer que se encontrem, numa acção simultânea e imediata;
Instruções imediatas às autoridades na fronteira para impedir todo o tipo de infiltrações e para
capturar chefes e grupos terroristas que pretendam entrar ou sair de Angola, incluindo Cabinda e sua posterior entrega com o respectivo material às autoridades portuguesas. O material poderá posteriormente ser posto à disposição do Governo Congolês;
Captura e entrega ao Governo Português dos elementos pertencentes aos movimentos terroristas
angolanos com prioridade para os constantes numa lista a difundir posteriormente”349.