1. Alaşım ve Alaşım Metaller
1.4. Alaşım Metallerinin Çeşitleri ve Özellikleri
1.4.6. Diğer Metaller
Até aqui nos dispusemos a examinar as reflexões de Maingueneau sobre a inter-relação entre ethos e gênero, ao mesmo tempo em que para isso evocamos a presença de outros teóricos para sedimentar ainda mais o debate em torno do assunto, em especial de Bakhtin - que exerceu muita influência sobre Maingueneau e de cujo pensamento trataremos doravante, com mais demora.
Bakhtin é nome obrigatório para a discussão sobre os gêneros discursivos. Tratou com muita correção do assunto, em especial no seu texto clássico Os Gêneros do Discurso – a que já fizemos menção várias vezes neste trabalho – e de maneira mais pulverizada em grande parte do conjunto de sua obra. O teórico russo não utiliza literalmente o termo ethos, mas a
62Estamos aludindo à seguinte citação: “Aprendemos a moldar nossa fala às formas do gênero, e, ao ouvir a fala
do outro, sabemos de imediato, bem nas primeiras palavras, pressentir-lhe o gênero, adivinhar-lhe o volume (a extensão aproximada do todo discursivo), a cada estrutura composicional, prever-lhe o fim, ou seja, desde o início somos sensíveis ao todo discursivo que, em seguida, ao processo da fala, evidenciará sua diferenciação. Se não existissem os gêneros do discurso e se não os dominássemos, se tivéssemos de construir cada um de nossos enunciados, a comunicação verbal seria quase impossível”.
idéia está nitidamente disseminada e explorada nas suas reflexões, com um detalhe significativo: vinculado ao conceito de gênero.
Comecemos, então, pela definição de gênero proposta por Bakhtin (1997, p. 279).
O enunciado reflete a condição específica e as finalidades da cada um dessas esferas, não só por seu conteúdo (temático) e por seu estilo verbal, ou seja, pela seleção operada nos recursos da língua – recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais -, mas também, e sobretudo, por sua construção composicional. Estes três elementos (conteúdo temático, estilo e construção composicional) fundem-se indissoluvelmente no todo do enunciado, e todos eles são marcados pela especificidade de uma esfera de comunicação. Qualquer enunciado considerado isoladamente é, claro, individual, mas cada esfera de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, sendo isso que denominamos gêneros do discurso.
Segundo a definição acima, o gênero é caracterizado pelo tema, estilo verbal e composição, os quais são singularizados de acordo com as práticas comunicativas em que estão inseridos.
Desses elementos, a principal relevância, para o nosso caso, está no conceito de estilo63. No dizer de Discini (2003, p. 57): “estilo é ethos, é modo de dizer”. Dessa forma, pode-se afirmar que no/ pelo gênero se constrói uma voz, um corpo, um caráter por meio do estilo com vistas a se construir uma imagem do enunciador. É nestre rastro que Ribeiro (2006, online), interpretando a proposta de Possenti para o estudo do estilo numa concepção discursiva, assinala:
Nesse sentido, Possenti (1981) postula que, se por um lado, o jogo de imagem determina a opção do locutor por determinadas formas, por outro, esse jogo de imagem é constituído pelo estilo empregado. Em outras palavras, o estilo empregado produz uma certa imagem, tanto daquele que fala/escreve em relação a si mesmo, quanto do interlocutor em relação a quem fala/escreve. Em contrapartida, a escolha de um certo estilo é orientada pelas imagens constituídas em relação ao enunciador, tanto por ele mesmo quanto pelo destinatário. Tanto num caso como no outro, o estilo produz efeitos de sentido indissociavelmente ligados ao como dizer.
Referindo-se ao conceito de estilo na concepção de gênero em Bakhtin, Faïta, por outro lado, (1997, p. 165) esclarece:
O enunciado pertence “por suas marcas [...] de composição a um locutor único, mas no qual, de fato, estão misturados dois enunciados, duas maneiras de falar, dois estilos, duas linguagens [...]” entre os quais não há fronteira formal.
63 Brait (2003) e Faraco (2003) já mostraram como o conceito de estilo, dentro da literatura de Bakhtin, pode
Mais relevante ainda para a associação entre gênero discursivo e ethos, como tom, voz e corporalidade, em Bakhtin é o que Faïta destaca na seguinte passagem: “O interesse torna-se maior se o indivíduo em questão escolhe adotar um tom douto no decorrer de uma conversação familiar, abaixando pudicamente os olhos”. (p. 165). (O destaque é meu). Ou ainda neste outro trecho:
[...] a abordagem abstrata do discurso ignora sua existência histórica, que qualificamos de dupla historicidade no sentido de que cada linguagem deve se estrafificar intrinsecamente, ao sabor das práticas dos grupos, para, a seguir, ele próprio influenciar as linguagens de outrem, na qualidade de gênero e de voz que individualiza esse gênero. (FAÏTA, op. cit., p. 166-7)
Como foi discutido no capítulo 1, ao se relacionar o conceito de ethos e estilo na esteira do pensamento bakhtiniano através de algumas citações extraídas da obra do autor russo, para se avaliar esse conceito, mais do que observar aspectos relacionados a “recursos expressivos da língua”, é preciso levar em conta a relação alteritária do locutor com o seu outro e com o discurso desse outro. A este propósito, Bakhtin (2000, p. 324) assevera: “vê-se como o estilo depende do modo como o locutor percebe e compreende o destinatário, e do modo como ele presume uma compreensão responsiva ativa”.
Aceita a íntima relação conceitual entre ethos e estilo64 em Bakhtin, selecionamos alguns excertos do texto Gêneros do Discurso para realçar, ainda mais, como o gênero está sob a pregnância do ethos, quer dizer, do estilo.
O estilo está indissoluvelmente ligado ao enunciado e a formas típicas de enunciados, isto é, aos gêneros do discurso. (p. 13).
O estilo entra como elemento na unidade do gênero de um enunciado. (p. 284). Quando há estilo, há gênero. (p. 286).
A diversidade desses gêneros deve-se ao fato de eles variarem conforme as circunstâncias, a posição social e o relacionamento pessoal dos parceiros: há o estilo elevado, estritamente oficial, diferente, como há o estilo familiar que comporta vários graus de familiaridade e de intimidade (distinguindo-se esta da familiaridade). Trata-se de gêneros que implicam um tom, ou seja, comportam em sua estrutura uma dada entonação expressiva. (p. 302).
64 Observamos que em Bakhtin não somente o conceito de estilo está relacionado com o de ethos, como
mostramos agora e na segunda parte do primeiro capítulo, ou com o conceito e entonação, segundo verificou Maingueneau (2005). No conjunto do pensamento bakhtiniano, ethos pode se confundir também com os conceitos de tom, tonalidade, acento, entonação expressiva, representação, representação figurativa, figura, caráter, voz, imagem, máscara, perfil sócio-caracterólogico da personagem, o que poderia se mostrar noutra ocasião com mais detalhes e com vagar, pois o espaço desta nota não permite.
Em Bakhtin, parece haver a necessidade de distinguir, conforme explicitaremos através de algumas citações a seguir:
a) O ethos do gênero em si;
A intenção direta e espontânea do discurso na atmosfera do romance apresenta-se inadmissivelmente ingênua e, em essência, impossível, pois sua própria ingenuidade, nas condições do romance autêntico, inevitavelmente adquire um caráter polêmico e interno, por conseguinte, também dialogizado (por exemplo, nos sentimentalistas, em Chateaubriand, em Tólstoi). Tal imagem dialogizante pode ter lugar (na verdade, sem dar o tom) em todos os gêneros poéticos, até mesmo na poesia lírica. Mas, tal imagem só pode se desenvolver, tornar-se complexa e profunda e atingir ao mesmo tempo a perfeição artística apenas nas condições do gênero romanesco. (2002, p. 87) b) O ethos do enunciador;
A escolha das palavras (“estudantezinho”, “ousava não compartilhar”) é determinada pela entonação indignada de Kalloméitsev, e ao mesmo tempo, no contexto do discurso do autor: daí uma construção duplamente acentuada (transmissão irônica- arremedo da indignação do personagem. (op. cit., p. 124) Nós advínhamos os acentos do autor que se encontram tanto no objeto da narração como nela própria e na representação do narrador, que se revela no seu processo. (op. cit., p. 199)
c) O ethos do co-enunciador;
O falante tende a orientar o seu discurso, com o seu círculo determinante, para o círculo alheio de quem compreende, entrando em relação dialógica com os aspectos desse âmbito. O locutor penetra no horizonte alheio de seu ouvinte, constrói a sua enunciação no território de outrem, sobre o fundo aperceptivo do seu ouvinte. Diante disso, estamos concordes com Dahlet (1997, p. 265) que, ao avaliar o conceito de entonação em Bakhtin, afirma:
Bakhtin reorganiza então a análise da entonação em um dispositivo complexo e dinâmico: a entonação realiza-se sob a influência mútua de três atores, que são o
locutor/autor, o ouvinte/leitor, e o objeto do enunciado. Da sua interação
contínua define-se a entonação portadora de avaliação social do enunciado. (o destaque é meu)65.
Acrescente-se que, além da imagem construída pelo gênero, pelo locutor/autor e pelo ouvinte/leitor, há o ethos da personagem, no caso de o gênero se constituir de uma narrativa, modalidade discursiva bastante apreciada por Bakhtin, ao estudar obras literárias, como o romance de Dostoiévski e a obra de Rabelais. É o que se pode constatar na passagem abaixo, também extraída de Bakhtin (2002, p. 107-8):
Conforme o objeto de representação, a narração reproduz parodicamente tanto as formas de eloqüência parlamentar ou jurídica, como as formas específicas do protocolo dessas duas instâncias, as formas das reportagens jornalísticas, a árida linguagem mercantil da City, as bisbilhotices dos mexeriqueiros, a linguagem científica pedante, o estilo épico elevado ou o estilo bíblico dos sermões moralizantes, enfim, a maneira de falar de algum personagem concreto e socialmente definido, do qual trata a narração.
É preciso dizer que a construção do ethos em cada um desses elementos da dinâmica comunicativa se interinfluenciam. Não raro, o ethos do gênero se mescla ao do enunciador, que forma sua imagem a partir das representações éticas que guarda do seu enunciatário. Isto tudo sem falar, a exemplo dos gêneros narrativos, do ethos das personagens, em quem, muitas vezes, o narrador projeta o caráter de si e o do outro, colocando-se na perspectiva da imagem construída para os seus personagens, como acontece comumente nas narrativas das parábolas contadas por Jesus. Poder-se-ia pensar ainda no ethos do espaço físico onde se desenvolvem as cenas, o cenário. Assim, uma casa, uma sala, um quarto podem projetar o caráter do seu enunciador.
Em Mainguenau (2001c), assim como em Bakhtin, também é possível diferençar entre o ethos impresso pelo enunciador e o ethos assinalado pelo co-enunciador na práxis enunciativa:
Erraríamos, todavia, como faz a tradição, se reservássemos o ethos apenas ao sujeito enunciador. Em virtude do caráter primeiro do par interlocutivo, ele implica igualmente o coenunciador, neste caso, o leitor. O texto constrói um certo ethos desse leitor, reserva-lhe diversos traços, em função de sua enunciação. O lugar do leitor não é uma caixa sem nenhuma especificação: o texto supõe estas ou aquelas características naquele que o lê.
De igual modo, o gênero discursivo em si tem uma corporalidade que lhe é própria, independentemente da imagem que os atores revelam para si na cadeia enunciativa: “De fato, as obras literárias adotam na maioria dos casos o ethos associado aos gêneros a que pertencem”.
Pode-se pensar, além disso, que mesmo o suporte do gênero implica um ethos, o que pode ser percebido pelo trabalho de Mello (2003), que analisou o ethos gráfico da revista francesa L’Artiste. O próprio Maingueneau (2001 a, p. 139) afirma que “podemos falar do tom do livro”. Costa (2001, p. 51), por sua vez, refletindo sobre a construção do ethos na produção
65 Dahlet (op.cit.), além, é claro, do próprio Maingueneau, fez-nos ver com mais nitidez quão se confunde o
literária a partir do pensamento de Maingueneau, também mostrou como a obra literária está investida de uma corporalidade: “Cabe lembrar também que um jeito está corporificado no modo de ser da obra. O modo de recortar o discurso em texto, se em trechos breves, se em tomos volumosos, se em novelas fragmentadas e a forma de organização estrutural do texo comporão o sentido com o tema e o posicionamento da obra”.
A idéia de o ethos estar relacionado aos gêneros do discurso pode aparecer, nas reflexões bakhtinianas, pelas vias do que o autor denominou de compreensão responsiva ativa, cuja conceituação fazemos questão de mostrar:
De fato, o ouvinte que recebe e compreende a significação (lingüística) de um discurso adota simultaneamente, para com este discurso, uma atitude responsiva ativa: ele concorda ou discorda (total ou parcialmente), completa, adapta, aponta-se para executar, etc.; e esta atitude do ouvinte está em elaboração constante durante todo processo de audição e de compreensão desde o início do discurso, às vezes já nas primeiras palavras emitidas pelo locutor.(BAKHTIN, 1997, p. 291) A questão posta por Bakhtin é de que todo gênero deve fundamentar-se na compreensão ativa que o outro tem do enunciado. O gênero reclama, assim, por uma resposta ativa do ouvinte/leitor, por seu posicionamento. O destinatário, noutros termos, precisa adotar uma atitude éth-ica frente ao gênero com que está em contato.
O conceito de compreensão responsiva ativa de Bakhtin encontra no conceito de incorporaçãode Maingueneau uma forte implicação66. Ora, para que o co-enunciador confira
um ethos ao seu fiador, incorporando, desta forma, um conjunto de gestos enunciados, há a necessidade de este mesmo co-enunciador impor-se frente ao gênero discursivo, através do qual interage com o seu enunciador, com uma atitude responsiva ativa. São palavras de Bakhtin (2002, p. 90-91):
E é sobre este fundo aperceptivo da compreensão, que não é lingüístico, mas sim expressivo-objetal, que está orientada qualquer enunciação. Ocorre um novo encontro da enunciação com o discurso alheio, resultando em uma nova influência específica em seu estilo.
Deste modo, a compreensão ativa, somando-se àquilo que é compreendido ao novo círculo do que se compreende, determina uma série de inter-relações complexas, de consonâncias e multissonâncias com o compreendido, enriquece-o de novos elementos. É justamente com esta compreensão que o falante conta.
entonação bakhtiniana, para Dahlet, pressupõe uma vocalidade e uma corporalidade (“Esse universo vocal/acústico não está separado do corpo”. p. 266).
66A diferença é que em Maingueneau (1997) o conceito de incorporação pode funcionar como um dispositivo de
Por isso sua orientação para o ouvinte é a orientação para um círculo particular do ouvinte, introduzindo elementos completamente novos no seu discurso: pois para isto concorre a interação dos diversos contextos, diversos pontos de vista, diversos horizontes, diversos sistemas de expressão e acentuação, diversas falas sociais. É importante também ressaltar, para o nosso debate, a discussão do autor sobre os gêneros do discurso através da célebre divisão conceitual operada por Bakhtin entre gêneros primários e secundários, sustentada no grau de interação entre os interlocutores. Segundo Bakhtin (1997, p. 280) há uma:
[...] diferença essencial existente entre o gênero de discurso primário (simples) e o gênero do discurso secundário (complexo). Os gêneros secundários do discurso – o romance, o teatro, o discurso científico, o discurso ideológico, etc. - aparecem em circunstâncias de uma comunicação cultural, mais complexa e relativamente mais evoluída, principalmente escrita artística, científica, sociopolítica. Durante o processo de sua formação, esses gêneros secundários absorvem e transmutam os gêneros primários (simples) de todas as espécies, que se constituíram em circunstâncias de uma comunicação espontânea.
Entendemos que a modalidade – oral ou escrita – em que está ancorado primordialmente o gênero, pode modificar, de maneira significativa, a constituição do ethos dos parceiros da comunicação, em razão de cada uma dessas modalidades simplificar ou complexificar as atividades linguageiras. Entre os gêneros primários e secundários há, desta forma, uma diferenciação no tom, na gestualidade, enfim, na maneira de cada um mostra seu jeito diferenciado de entonação. Na realidade, a passagem de um gênero de características orais para um gênero de ordem escritural modifica todo um sistema de representações entre enunciadores e co-enunciadores, embora concordemos com Machado (1995, p. 169), que, apoiada nas reflexões benjaminianas, diz: “Na literatura oral os vestígios da voz e o circuito da enunciação oral continuam a ser determinantes, mesmo quando entram para o universo da escrita”.
Tomemos um exemplo. Um político que se manifesta na televisão por meio de um gênero discursivo de natureza oral, como um anúncio, para falar sobre as propostas de seu partido, pode assumir um ethos diferente (deve-se notar que aí estarão incluídos os gestos e a indumentária do locutor de que faz parte de toda a héxis corporal, e que coopera para a construção do ethos, mas que podem ser apagados no regime de enunciação escrita) do que se divulgasse estas mesmas idéias num panfleto. A entonação expressiva se singularizará em cada um desses gêneros, ainda que haja, é óbvio, a convergência de alguns aspectos na maneira de o enunciador se mostrar ao seu ouvinte/leitor.
Seria ilusório, por outro lado, não acreditarmos na possibilidade de haver um enunciado escrito com estilo falado, ou o contrário, dependendo do ethos que o produtor quer imprimir ao seu discurso para mostrar um maior ou menor envolvimento nas relações lingüísticas interpessoais.67
Flagramos em Bakhtin (2000, p. 283) um trecho em que o autor que tantos os gêneros orais quanto os escritos produzem efeitos de sentido que particularizam e criam a identidade do enunciador pelo tom emprestado a cada um desses regimes de enunciação.
Todo enunciado oral ou escrito, primário ou secundário, em qualquer esfera de comunicação discursiva é individual e por isso pode refletir a individualidade de quem falou ou (ou escreve). Em outras palavras, possui um estilo individual.
Maingueneau (2001a, p. 91) assegura-nos de realmente haver formas de representações imaginárias diferentes de uma literatura oral para uma literatura escrita, ao frisar que:
A literatura oral nutre, portanto, uma predileção pelas personagens maciças, que protagonizam atos memoráreis; atos ao mesmo tempo dignos de serem narrados e facilmente memorizáveis, capazes de estruturar com força a experiência da comunidade e entrar em estruturas textuais envolventes.
Quanto à literatura escrita, o autor adverte:
A passagem a uma literatura escrita modifica esse sistema. Cria-se no público uma nova clivagem entre os que sabem ler e os que não sabem. O escrito permite a leitura individual e, no outro pólo, liberando a memória, uma criação mais Individualizada, menos submetida aos modelos coletivos. Libera igualmente uma concepção diferente do texto que, em vez de suscitar uma adesão imediata, pode ser aprendido de modo global e comportado comigo mesmo.
Ademais, conforme ainda Maingueneau (op. cit., p. 139), “[...] devemos admitir que qualquer gênero de discurso escrito deve gerir sua relação com uma vocalidade fundamental”.
Síntese
Foi tarefa deste capítulo mostrar que o ethos se enuncia sempre num determinado tipo de gênero e que ele se nutre desse espaço enunciativo para significar. O gênero do discurso tem, assim, incidência decisiva sobre a interpretação de como o ethos é construído
67Entre os teóricos hoje, é ponto pacífico postular que a relação entre o oral e o escrito não é bipolarizada, mas
discursivamente. Com efeito, analisamos, mormente à luz da contribuição teórica de Maingueneau e Bakhtin, algumas implicações que essa relação entre ethos e gênero discursivo pode acarretar para a práxis discursiva. Frente a isso, deve-se então ressaltar o potencial heurístico que o conceito de ethos aliado ao de gênero discursivo pode trazer para analisar as atividades linguageiras. Para nós, a conjugação desses conceitos servirá de categoria teórica eficaz, capaz de mostrar como um jogo de representações discursivas se constrói para compreender melhor o processo de interlocução que se instala no interior da enunciação parabólica.
4 ETHOS E HETEROGENEIDADE: A DIALOGIZAÇÃO DA IMAGEM
DISCURSIVA
“Toda fala procede de um enunciador encarnado; mesmo quando escrito, um texto é sustentado por uma voz – a de um sujeito situado para além do texto”. (MAINGUENEAU, 2001b, p. 94).
Introdução
A questão da heterogeneidade no discurso já foi amplamente debatida, no âmbito dos estudos sobre a linguagem, sob diferentes perspectivas e propostas teóricas, com as mais diversas denominações e aplicações. Aqui, interessa-nos, em especial, tratar do assunto tomando o ethos enunciativo como pano de fundo. O presente capítulo se propõe, assim, a examinar a heterogeneidade discursiva68, a partir do olhar de Bakhtin, Pêcheux, Authier- Revuz, Ducrot e Maingueneau, observando como os meios de incorporação do discurso alheio podem dar ao outro uma imagem de si.
De início, pode-se afirmar que o próprio ethos discursivo, como o vimos concebendo, está radicado na heterogeneidade, na medida em que a identidade discursiva não se efetiva