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Alinhados a grupos econômicos e políticos, a mídia seleciona e ressalta a informação dentro do ponto de vista que considera noticiável. Toma partido, às vezes de forma velada, constrói realidades, especialmente política, por meio da representação que faz dos diferentes

24 Informações coletadas a partir de entrevista, por email, feita pela autora da pesquisa com Valter Pomar em 07

aspectos do cotidiano e adota um discurso que induz ao pensamento único. Atualmente, tornou-se o principal informador e formador de opinião pública.

Da mídia partidária, espera-se que ela leve à sociedade e ao seu público leitor o outro lado da notícia, fomente o debate, dúvidas e questionamentos em relação aos fatos e realidades construídas pelos meios de comunicação de massa. Deve, também, discutir as questões partidárias, os governos comandados por lideranças ligadas à legenda e que, dê argumentos à base e à militância, especialmente em momentos de crise.

O leitor que se identifica com o campo político de esquerda se sente insatisfeito com as publicações atuais, sobretudo com as revistas semanais de grande circulação como Veja, Isto É e Época. Ele considera que elas não oferecem análises profundas sobre conjuntura, seja ela nacional ou internacional, não fomentam o debate, não são plurais e tratam as informações de forma incompleta e não confiável.25

No Estudo de Imagem sobre a mídia progressista e partidária – elaborado em julho de 2006 pela Criterium Assessoria em Pesquisas, ligada à Fundação Perseu Abramo – a revista ideal para o campo progressista de esquerda tem que ter as características ausentes na grande mídia. Deve, portanto, ser “democrática”, “plural”, “incentivar o debate e a reflexão”, “expressar os diversos segmentos da sociedade e regiões do país”. Precisa, também, “trazer análises aprofundadas que ajudem o leitor a elaborar um raciocínio sobre uma determinada temática”, “ser imparcial”, “independente de segmentos econômicos” e não estar vinculada a governos, para que não seja pautada de acordo com seus interesses.

A alternativa à mídia convencional deve fazer um jornalismo investigativo, sério, transparente, crítico, ético, com informações confiáveis, que não manipule nem seja sensacionalista. Deve mesclar notícias com opiniões de setores representativos da sociedade, discutir a esquerda como possibilidade de transformação e conjugar matérias e artigos conjunturais com reflexões estratégicas.

Para os entrevistados, entre os assuntos que devem ser abordados, estão: socialismo, cultura, política partidária, ideologia, cotidiano dos movimentos sociais e desenvolvimento social em vários países, modelos de democracia, cidadania, modelos possíveis de política e economia, perspectivas desenvolvimentistas, setores que estão se rebelando politicamente contra a hegemonia política e econômica mundial, luta de classes, América Latina, África, Caribe, Ásia, segurança nacional, inclusão social, políticas públicas, temas regionais,

desenvolvimento sustentável, meio ambiente, questões de gênero e setores incipientes e regionais26.

Os textos devem ter qualidade, envolver, despertar e instigar o leitor. A linguagem deve ser clara, objetiva, acessível e condensada, mas sem perder o substancial. A revista não deve ser rebuscada, densa e muito teórica/intelectual. Em relação à apresentação gráfica, deve induzir o leitor à leitura, chamar a atenção sem perder a sobriedade e ser colorida, mas com leveza. O modelo deve trazer fotografias, ilustrações, gráficos e charges criativas e que se relacionem com o tema. O público a ser atingido deve ser amplo. A pesquisa cita pessoas politicamente engajadas, de esquerda, que estão em universidades, grêmios estudantis, diretórios acadêmicos e até no ensino médio, formadores de opinião, trabalhadores, pessoas de classe média e também das menos favorecidas financeiramente 27.

O veículo desenhado a partir dos resultados da pesquisa é difícil de ser produzido. Uma publicação tem poucas chances de dar certo e atingir o alvo, se não houver um foco específico. Uma mídia imparcial é também uma utopia. Apesar de a imparcialidade ser um paradigma em decadência, os jornais brasileiros ainda se definem como imparciais, sob alegação de que cobrem a notícia sobre todos os ângulos, ouvem os lados envolvidos e não emitem juízo de valor. A opinião do jornal ou do jornalista seria explicitada em espaços definidos e conhecidos pelo público.

Contudo, a cobertura de um determinado fato exige seleção de informações, ênfase em ângulos e argumentos, além da exclusão de parte da história. Isto acontece mesmo quando não há intenção deliberada de manipular a informação. No momento em que uma noticia é enquadrada dentro de um determinado ângulo, o receptor tem acesso a apenas uma versão dos fatos. Isto ocorre na mídia convencional e também na progressista. A limitação de espaço no veículo no qual a informação será publicada/veiculada e o padrão editorial de cada meio de comunicação impedem que uma história seja contada com toda riqueza de detalhes necessária para que se conheçam todas as causas, efeitos e conseqüências. O enquadramento da notícia deve, portanto, ser considerado um importante instrumento de poder (PORTO, sd).

A mídia idealizada do PT é diferente do modelo ideal da progressista. O público-alvo quer que este tipo de veículo tenha foco e aborde, especialmente, assuntos ligados às questões partidárias. Em função da dinâmica dos fatos conjunturais e do debate político que acontece dentro e fora do partido, espera-se que a publicação chegue a suas mãos com a menor

26 Informações obtidas junto a Fundação Perseu Abramo. 27 Idem.

periodicidade possível. O vermelho e os símbolos petistas devem compor a apresentação visual da publicação.

A mídia partidária deve ser dirigida ao mesmo público da revista ideal progressista. Os leitores querem encontrar na revista fatos do cotidiano e o posicionamento do PT frente a eles; reflexões conjunturais conjugadas com estratégicas vinculadas, na medida do possível, a fatos e tendências recentes; análises aprofundadas sobre as políticas públicas do PT; experiências do partido nos municípios; discussões sobre as políticas públicas implantadas por governo petistas e sobre o campo político da esquerda para além do PT, abrangendo o debate nacional e internacional.

Há, ainda, uma reivindicação de maior abertura de informações para a militância do partido, que a revista viabilize uma maior interação e aproximação entre o PT e seus filiados e que haja mais espaço para que autores nacionais e internacionais, não vinculados ao PT, e outras expressões de esquerda que não sejam necessariamente do partido, escrevam as suas idéias e opiniões.

Pelos resultados da pesquisa, é possível afirmar que Teoria e Debate precisa de ajustes para atender o público ao qual se destina. As queixas em relação è periodicidade são antigas, conforme relatou Ricardo de Azevedo, e um ajuste neste quesito dependem, especialmente, de investimentos financeiros. O conteúdo publicado em de Teoria e Debate não atingirá o alvo enquanto a publicação não for percebida como mídia partidária pela direção da revista e da FPA. Em relação à capa, a estrela símbolo do PT aparece de maneira discreta e quase imperceptível (imagem abaixo). Das oito edições objeto desta pesquisa, em apenas uma, a última, o vermelho é a cor dominante.

No próximo capítulo, serão discutidas a cobertura da crise de 2005 em Teoria e Debate, em Teoria e Debate Urgente (na página da revista na internet) e a avaliação do público-alvo em relação à cobertura.

CAPÍTULO IV: O CASO “MENSALÃO” NA PAUTA DE TEORIA E DEBATE

Benzer Belgeler