I. DÜNYA VE TÜRKİYE EKONOMİSİNDEKİ SON GELİŞMELER
I.10. Diğer Bazı Hedef Pazarlardaki Gelişmeler
Nóvoa (1999) destaca que atualmente não encontramos propostas adequadas à formação docente. Ele denuncia que nos dias atuais vivenciamos a consolidação de um “mercado de formação”, em que a reflexão e a partilha dos saberes dos professores estão sendo deteriorados.
Nessa realidade, segundo Nóvoa (1999), encontramos competições entre pessoas e instâncias formativas, passando a sensação de que a responsabilidade com o coletivo seja assegurada por unidades privadas como um conjunto de instituições e grupos científicos, resultando assim uma pobreza atual na formação de professores.
Segundo esse autor, por ser um mercado com um grande número de profissionais torna-se interessante financeiramente, instalando-se dessa forma uma moda de investimentos em formação. Consequentemente, a quantidade de publicações e materiais lançados no mercado para atender ao público docente é extensa.
Para se situarem frente a essa realidade, é preciso que os docentes estejam atentos, tenham consciência dos discursos nas publicações e nas propostas de formação, pois as mesmas revelam a pobreza atual das práticas pedagógicas, orientadas por uma visão curricular rígida, nos modelos de uma cultura empresarial.
Esses fatores dificultam os docentes de aprender fazendo, por isso é urgente encontrar ambientes de debate que agucem a troca e a colaboração entre professores, para que assim ocorram mudanças. No que diz respeito ao enfrentamento da violência doméstica contra criança, essa dinâmica de troca e colaboração entre os docentes é uma alternativa possível para que ocorram mudanças onde o professor tenha subsídios para detectar e notificar as situações de violência doméstica contra crianças.
Em pesquisa sobre maus-tratos realizada por Granville-Garcia et al.(2009), com 73 professores de escolas públicas de Caruaru - PE, por meio de observação e preenchimento de um formulário específico, ficou demonstrado que a maioria dos docentes (60,3%) não receberam informações a respeito de maus-tratos contra crianças durante a graduação e, em contrapartida, 39, 7% receberam alguma informação.
Dos participantes que afirmaram ter conhecimento do assunto, a maioria não foi capaz de solucionar adequadamente os casos de violência doméstica, pois, ao identificar as situações e características de maus-tratos domésticos, procurou-se contatar os pais ao invés de encaminhar a situação ao Serviço de Proteção à Criança. Cabe lembrar que esse procedimento pode colocar ainda mais em risco a integridade da vítima (GRANVILLE; GARCIA et al., 2009).
Mas, por que mesmo depois de os professores receberem a formação sobre o tema da violência doméstica contra criança, a maioria não conseguiu encaminhar o caso de violência, colocando em risco a integridade da vítima?
Ao pensar não em uma resposta para essa questão, mas em um caminho para refletirmos por que isso ainda acontece, o relato dessa profissional é elucidativo:
Penso que poderia ser estruturado o trabalho de formação com os professores, utilizando o HTC. Que transmitissem ao professor uma coisa objetiva e prática sobre VDC. Não ficasse só assim na teoria, mas que fosse uma formação: o que fazer, como fazer e quando fazer. Dessa forma o professor vai perceber e encaminhar dentro de um trâmite “legal” cada situação. Vai perceber que as coisas não são um estalar de dedos, mas que as coisas acontecem (GRUPO FOCAL: ORIENTADORA 1).
É interessante registrar na fala dessa orientadora que as formações sobre a violência doméstica precisam ser pontuais e não amplas /gerais. A linguagem que, muitas vezes, é utilizada nesses espaços de formação sobre esse fenômeno está distante da realidade dos professores. Em alguns casos, são profissionais da saúde que estão à frente dessas formações e que não tiveram uma experiência com o “chão da escola”, o que tem dificultado a mudança de postura dos profissionais da educação em relação ao problema da violência doméstica. Por isso, não basta que aconteça a formação continuada sobre esse tema, mas é preciso que essa formação tenha como princípios uma linguagem prática e objetiva, com base na vivência do professor e do ambiente escolar em que ele atua. Além disso, não se tem uma posição contra a participação de outros profissionais da rede na formação sobre o tema da violência doméstica, apesar de muitos desses profissionais não terem experiência de um contexto escolar. No entanto, a participação desses profissionais é importante, porque o professor terá a possibilidade, pelas discussões, de conhecer os trâmites e as conexões que estão “entretecidos” na rede de proteção, como o relato acima destaca : “Vai perceber que as coisas não são um estalar de dedos, mas que as coisas acontecem” (GRUPO FOCAL: ORIENTADORA 1)
Dessa forma, é fundamental entender-se que a escola poderá desenvolver seu papel de enfrentamento da violência doméstica com êxito por meio de investimentos na formação de professores. Quando se defende essa formação, não se está falando de programas de formação aligeirados, temporários ou que atendem a exigências contextuais e pontuais, mas de uma formação que valorize a experiência do professor - que ele traz ao longo da sua vida - com discussões abertas na escola em relação a suspeitas, dificuldades, procedimentos e notificação em relação ao fenômeno da violência doméstica.
Nóvoa (1999) e Imbernón (2006) afirmam ser irreal qualquer mudança no contexto escolar, sem que se passe anteriormente pela formação de professores. Não são os programas de formação de professores temporários aligeirados e pontuais que fomentarão ou desenvolverão mudanças, mas sim,
[...] que situe o desenvolvimento pessoal e profissional dos professores ao longo dos diferentes ciclos da sua vida. Necessitamos de construir lógicas de formação que valorizem a experiência como aluno, como aluno-mestre, como estagiário, como professor principiante, como professor titular e, até, como professor reformado (NÓVOA, 1999, p.18).
De acordo com Lyra et al., (2010), a escola, como qualquer instituição que preze por assegurar os direitos de crianças e adolescentes, exerce um papel fundamental na prevenção da violência familiar. A escola não está imune aos reflexos e consequências dessa violência. Nesse contexto, a escola tanto pode contribuir para proteção e garantia de direitos da criança, ao identificar e notificar adequadamente, quanto utilizar formas de tratamento do problema indevidamente.
No que se refere aos aspectos teóricos, propõe-se que a comunidade docente conheça e reflita sobre os atuais planos e documentos legais que apresentam avanços em relação à compreensão de infância, formas de violência, abuso e maus-tratos contra crianças. Dentre esses documentos, destaca-se o Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA, considerado importante documento nessa direção.
De acordo com Inoue e Ristum (2011), os professores desconhecem os direitos de seus alunos, adotando posturas e atitudes que violam ou que se omitem diante dos direitos de seus alunos. Em outra pesquisa, Almeida et al. (2006) apontam que o ECA é pouco divulgado nas escolas. Destacam os autores que inexistem discussões aprofundadas sobre essa lei, razão pela qual os professores, em sua maioria, dela têm conhecimento superficial.
Em relação aos aspectos práticos, destaca-se a importância de os professores contarem com a colaboração da equipe pedagógica, orientadores educacionais e gestores, ao se
depararem com questões da violência doméstica, buscando informação sobre os procedimentos necessários para o encaminhamento do problema e possível notificação.
É essencial compreender-se que uma formação que valorize a experiência do professor que ele traz ao longo da vida está atrelada à reflexão sobre a formação docente como um processo permanente que acontece, ao longo de sua carreira, no qual a escola é o pano de fundo, tendo como ator principal dessa formação o próprio professor.
Partindo-se da concepção de formação contínua no pensamento de Freire (2001), em que o ser humano é concebido em permanente movimento de busca, curioso em relação a si, ao mundo e aos outros, essa formação parte do pressuposto de que o ser humano encontra-se num contínuo processo formativo, logo, o processo de educar-se acontece em continuum.
Assim, a formação permanente é a “engrenagem”, a “base” da formação do ser humano, ou seja, o crescimento como pessoa e como profissional não se esgota, acontece continuamente, é um processo permanente. Trata-se de um exercício contínuo e permanente, tendo como base a crítica e a reflexão sobre a prática, permitindo assim, a construção de novas experiências. Freire (2001) consolida a ideia de formação de professores como uma construção histórica da pessoa e do profissional. Essa formação valoriza as experiências individuais do professor, que se encontra em constante procura de respostas e aprimoramento.
Imbernón (2006), em seu texto “A formação permanente de professores”, proporciona extrair algumas premissas importantes para o debate referente a uma educação de qualidade, quais sejam:
a) estimular a habilidade do professor em refletir aspectos teórico–práticos a partir de sua prática docente. Isso permitirá que o profissional reflita sobre suas posturas, decisões, práticas, etc. Por decorrência, estará centrado em proceder continuamente sua autoavaliação como forma de aprimoramento de seu fazer;
b) destacar a importância de trabalhar as dimensões coletivas, mas também individuais - permitir que cada professor manifeste seus anseios, dúvidas e perspectivas por meio do diálogo, entendendo essa ação como fundamental para a efetivação de mudanças educativas;
c) a necessidade de planejar, organizar, fundamentar e revisar as ações formativas pelo grupo de professores. Valorizar os momentos de formação como ação indissociável da prática do professor; o trabalho coletivo é encarado como ação primordial para transformação da prática. Conduzir os professores a uma mudança de conceito de inovação – da individual para a coletiva e institucional.
Na formação docente como processo contínuo, o professor é considerado um sujeito que coopera para a sua própria ação de formação e cujas representações, necessidades e
expectativas precisam ser consideradas pelo espaço escolar para que o docente sinta-se valorizado.
É nessa configuração de formação permanente e contínua proposta por Freire (2001), que se entende o caminho para trabalhar o problema da violência doméstica contra criança na formação de professores, o que demanda trocas de saberes, discussões coletivas entre os docentes, aprendizagem compartilhada, trabalho em conjunto que oportunizam pensar, refletir e debater, a partir da realidade do contexto escolar.
Apesar de ser importante o aprendizado sobre o tema da violência doméstica por meio da troca de experiências, é preciso que os profissionais de educação estejam atentos à importância do sigilo. O professor, ao compartilhar com outros colegas, precisa ter cuidado para que o problema de violência doméstica que seu aluno sofre não seja divulgado para toda a comunidade escolar. O docente precisa evitar que muitas pessoas fiquem sabendo dos acontecimentos, pois além de a criança correr o risco de vida pelo segredo revelado, alguns comentários evasivos poderão prejudicar a privacidade e os laços de afetividade e confiança desenvolvidos entre a criança e seu professor.
Nesse sentido, uma orientadora educacional, relembrando sua atuação como professora, ao destacar a importância do sigilo e da ética entre professores e profissionais que trabalham na área de educação em relação ao problema de crianças envolvidas em violência doméstica, reforça a necessidade de trabalhar o problema com cuidado para proteger o aluno em relação a situações constrangedoras e que o problema precisa ser resolvido em um diálogo sigiloso e ético.
O próprio orientador precisa ter cautela e não quebrar esse sigilo. Se for verbalizar, é preciso ponderar o que será dito para que a criança não seja exposta. Já vivi, enquanto professora, em outra unidade escolar, situação sigilosa, onde uma pessoa fez uma declaração no grupo de professores e aquilo se tornou motivo de depreciação de um adolescente. Como se ele fosse um prostituto inserido no contexto escolar - sendo que tínhamos uma criança vitimizada. Então você sabe que existe uma questão ética que deve ser preservada e que, às vezes, não fica muito claro para o corpo docente e para outras pessoas que até fazem parte do contexto escolar como colaboradores da limpeza, etc. Acredito que isso tem que ser mais claro para o grupo (GRUPO FOCAL: ORIENTADORA EDUCACIONAL 1).
Paulo Freire, ao longo de sua obra, enfatiza a exigência da ética na formação de professores, em que mulheres e homens, seres histórico-sociais têm a capacidade de comparar, decidir, escolher, enfim, de romper, e, pelos seus atos se tornarem éticos.
Somos porque estamos sendo. Estar sendo é a condição entre nós, para ser. Não é possível pensar os seres humanos longe , sequer, da ética, quanto mais fora dela. Estar longe ou pior, fora da ética, entre nós, mulheres e homens, é uma transgressão (FREIRE, 2000, p. 37).
Cortella (2008) apresenta a ética como as normas de orientação do modo como agimos e nos conduzimos na vida. Apresenta algumas questões que podem orientar a conduta ética do docente, ao realizar três grandes perguntas: Quero? Devo? Posso?
Dessa forma, o professor ao se deparar com um caso de violência doméstica contra criança, é preciso que eticamente ponha em discussão essas três perguntas antes de tomar qualquer decisão que coloque em risco a integridade física ou psicológica de uma criança vitima de violência.
O caminho para alcançar o propósito de mudança nas ações formativas referentes ao fenômeno da violência doméstica contra criança perpassa por uma formação que leve em conta a historia de vida e profissional do professor, o contexto em que ele atua (o chão da escola), a reflexão coletiva, o diálogo sigiloso e ético, uma linguagem prática e objetiva sobre o tema da violência doméstica. Por último, uma parceria entre os profissionais da escola e da rede de proteção, a fim de se estimular maior número de notificação de casos.
4 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS DADOS
O problema da violência doméstica contra criança e a formação continuada de professores são as linhas centrais dessa pesquisa, na qual se buscou responder à seguinte questão: a formação continuada de professores do Ensino Fundamental I tem contribuído para a notificação de casos de violência doméstica contra crianças?
Na tentativa de responder a esse questionamento, foi desenvolvida uma trilha metodológica formada por entrevistas semiestruturadas e grupos focais com o objetivo de iluminar o problema norteador dessa pesquisa.
Da análise das entrevistas realizadas com duas coordenadoras educacionais e das falas dos participantes dos três grupos focais - realizados com orientadoras educacionais e dois grupos de professores do Ensino Fundamental da Secretaria Municipal de Educação do município de São José dos Campos - emergiram aspectos marcantes em relação aos obstáculos e acessos na formação continuada no que diz respeito à notificação de casos de violência doméstica contra criança - VDC.
Dessa forma, a categorização dos dados surgiu das análises das várias leituras dos depoimentos dos colaboradores dessa pesquisa. A análise foi arquitetada a partir de categorias geradas à medida que surgiram semelhanças nas respostas obtidas durante as entrevistas e nos grupos focais.
Esse capítulo terá duas linhas de discussão:
a) a primeira aborda a questão da formação dos educadores e da notificação da violência doméstica contra criança no contexto escolar;
b) a segunda diz respeito às ações formadoras no enfrentamento da violência doméstica contra criança.
A partir da primeira categoria, foi possível formular indicadores para analisar os seguintes dados: discussão e investimento do tema da violência doméstica contra criança na formação de professores; o potencial da escola e do professor no enfrentamento da violência doméstica contra criança; importância de discussões e compromisso coletivo sobre o tema; invisibilidade do fenômeno; discussão do tema dessa violência e o medo; notificação de casos de violência doméstica contra crianças e o medo.
De acordo com a segunda categoria, foi possível identificar indicadores para examinar os seguintes itens: planos e projetos que fazem referência ou predizem ações de enfrentamento do fenômeno; a relação da formação continuada de professores com a Secretaria Municipal da Saúde e a rede de proteção.
4.1 Formação dos educadores e notificação da violência doméstica contra criança no