BÖLÜM 1: ULUSLARARASI POLİTİKA BELİRLEMEDE ÖNE ÇIKAN
2.2 Devletlerin Yapıları
O caso LaGrand é considerado pela doutrina como um exemplo de ilicitude245. No
caso em que a Alemanha leva os Estados Unidos da América (EUA) ao Tribunal Internacional de Justiça (TIJ), não se obteve o cumprimento da suspensão de uma execução por pena de morte a nacionais alemães em território norte-americano.246
O Estado alemão fundamenta-se no descumprimento com respeito ao direito de assistência consular a seus nacionais, previsto na Convenção de Viena sobre Relações Consulares de 1963. Entretanto, aquele que descumpre a Convenção de Viena não é propriamente os Estados Unidos, mas o Estado do Arizona, um
241Patrick Daillier em seu artigo “The development of the law of responsibility through the case law,” afirma que para se estabelecer uma lista dos casos mais relevantes e imprescindíveis para o estudo da responsabilidade internacional, levou em consideração: que muitos casos são irrelevantes, então há que concentrar-se nos importantes; e o princípio da economia, citando Robert Ago, que também afirmou que os casos mais importantes são os que impactam ou impactaram a prática diplomática e a própria jurisprudência internacional, in: The Law of International Responsibility. New York: Oxford University Press, 2010, pp. 37-44, p. 42.
242 Eric David, “La Responsabilité des Etats Fédéraux dans les Relations Internationales“, in: Revue Belge de droit international. Vol. XVII, n. 1. Bruxeles: Bruyulant, 1983.
243 Jonh Bassett Moore, “A Digest of International Law”, Washington, 1906, vol. VI.
244 James Crawford, “Los artículos de la Comisión de Derecho Internacional sobre la responsabilidad internacional del Estado”. Madrid: Dykinson, 2004.
245
Dinh et al., op. cit., p. 787.
246 Como afirma o Prof. Fausto Kubli-García “Estados Unidos de América deja un pésimo precedente en más de veinte años de litígios tanto en su competencia nacional, como en el plano internacional”, em seu artigo “Jurisdicción internacional y Estado federal a través del método de casos en la enseñanza del Derecho Internacional Público”, in: Anales del XXVI Congreso Anual de
124 Estado federado, um ente subnacional dos Estados Unidos. Por isso a Ordem expedida pelo Tribunal de Haya em 3 de março de 1999 refere-se ao ente subnacional:
a) Os Estados Unidos devem tomar todas as medidas à sua disposição para assegurar que Walter LaGrand não seja executado até o término da decisão final desta ação, e que informe à Corte sobre todas as medidas tomadas para implementar esta Ordem; b) O Governo dos EUA deve transmitir esta ordem à governadora do
Estado do Arizona; 247
Merece destaque que na Ordem emitida pelo Tribunal, haja menção expressa ao Estado do Arizona. Caso o Tribunal não reconhecesse a relevância do Estado do Arizona como crucial no intrincado da federação estadunidense, não o citaria expressamente em sua decisão preliminar. E justamente por saber de sua força e sua autonomia, o cita diretamente.
Não se trata do reconhecimento expresso de sujeito de Direito Internacional pelo Tribunal, porque se fosse assim, o Tribunal teria se dirigido diretamente à governadora do Estado de Arizona, mas pode-se afirmar que houve um reconhecimento implícito, devido à importância do papel dos entes federativos na federação Estado-unidense, minimamente como atores das Relações Internacionais e, relativamente, como sujeitos parciais de Direito Internacional.
Complementarmente, conforme corrobora a justificativa para a decisão de suspensão da execução, in fine:
Considerando que a responsabilidade internacional de um Estado esteja vinculada à ação de seus órgãos competentes e autoridades agindo naquele Estado, quaisquer sejam elas; considerando que os Estados Unidos tenha que tomar todas as providências ao seu alcance para assegurar que Walter LaGrand não seja executado até que o julgamento na Corte finde; considerando, de acordo com a informação disponível a esta Corte, a implementação das medidas indicadas na presente Ordem encontram-se sob a jurisdição do Governo do Arizona; considerando que o Governo dos EUA deva, consequentemente, cumprir a obrigação de transmitir a presente Ordem ao Governo do Arizona; considerando
que o Governo do Arizona esteja obrigado a agir em conformidade com os preceitos internacionais dos EUA; (grifo do autor)
247
Tribunal Internacional de Justiça. Caso LaGrand. Alemania v. Estados Unidos. Pedido para a concessão de medida provisória. Ordem de 3 de março de 1999.
125 Como se pode notar, o “Governo do Arizona” está sendo considerado como um sujeito parcial, suscetível ao Direito Internacional, já que deve agir em conformidade com os preceitos internacionais dos EUA, ou seja, tem-se aqui, uma decisão que pode ser interpretada de forma ampla a respeito do papel dos entes subnacionais no cenário internacional. Isto porque os preceitos internacionais dos EUA devem ser aplicados aos seus Estados federados e por eles respeitado.
Pode-se interpretar, portanto, que o TIJ deseja que os Estados Unidos cumpram o Direito Internacional, forçando que o Estado federado de Arizona cumpra os preceitos internacionais dos EUA. Ora, se os preceitos internacionais dos EUA, neste caso específico se resumem a cumprir a Convenção de Viena, então pode-se compreender que o TIJ, indiretamente, requer que o Estado federado do Arizona cumpra o Direito Internacional.248
Conclui-se que para o juiz de Haia no Caso LaGrand, a responsabilidade internacional alegada seria extensível e igualmente aplicável aos órgãos e autoridades do Estado.249
Contudo, ainda que a interpretação do Caso LaGrand tenha valor, a literatura afirma que não seria aceitável ter somente o ente subnacional como parte em uma demanda internacional, sem a presença do Estado.250
Por outro lado, reitera-se a tese que abriga a condição de sujeitos de deveres ao ente subnacional. No presente caso, os Estados Unidos alegaram em sua defesa que, apesar de serem responsáveis internacionalmente, seus Estados federados são
responsáveis pelos temas que lhes concernem, conforme suas alegações:
121. O segundo fator de constrangimento foi a característica de os Estados Unidos da América serem uma república federal, com poderes divididos. Sob o escopo do ordenamento constitucional desenvolvido na conferência dos Estados, ocorrida na Filadélfia em 1787, que entrou em vigor em 1789, a separação dos Estados dos Estados Unidos reteve sua independência e autoridade, exceto em temas onde o Governo Federal determina, segundo a Constituição dos Estados Unidos. Os Estados separados não são órgãos subsidiários
subordinados ao poder do Governo Federal e sujeitos à sua direção. Ou
248 Neste sentido ver: Cesáreo Gutierrez Espada, “El hecho ilícito internacional”. Madrid: Dykinson, 2005, p. 82.
249 Ver Brigitte Stern, “The elements of an internationally wrongful act.” in: The Law of International Responsibility. New York: Oxford University Press, 2010, p. 204-205.
250
126 melhor, eles permanecem soberanos e são os mestres dos seus assuntos em temas concernentes à responsabilidade, reservada a eles conforme a Constituição dos Estados Unidos. (grifou-se)
124. Os Estados Unidos não se referem ao poder central dos Estados em matéria de justiça criminal com vistas a descumprir suas obrigações jurídicas internacionais. Os Estados Unidos reconhecem que um princípio de direito interno não mitiga as obrigações de um membro da comunidade internacional com relação à suas obrigações diante do Direito Internacional. Os Estados Unidos também reconhecem que houve o descumprimento de
uma obrigação jurídica internacional quando os funcionários do Estado do Arizona falharam em conceder a devida notificação consular, conforme preceitua a Convenção de Viena sobre Relações Consulares. A explicação referente ao nosso sistema federal se dá para que a Corte entenda que funcionários do Governo Federal não tem o poder jurídico para suspender decisivamente a execução de uma sentença criminal no Estado do Arizona.251
(grifou-se)
Tal postura indica possível mudança na prática e costume próprios dos Estados, uma vez em que houve o reconhecimento direto e expresso do Estado no sentido de que seus entes subnacionais são sujeitos de direito. Trata-se de uma mudança do paradigma kelseniano que afirma que o Estado federado pode ser sujeito de direito, mas não pode ser um sujeito de obrigações no plano internacional.
Tal alegação não poderia ter sido utilizada no sentido de isentar os EUA pela violação, quanto ao descumprimento da obrigação, remetendo à “culpa” ou à obrigação ao Estado federado do Arizona. Logo, não foi conhecido pelo TIJ, porque um Estado não pode alegar temas de direito interno para descumprir o Direito Internacional, conforme preceitua o direito dos tratados, de acordo com a Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados de 1969:
Art. 27. Uma parte não pode invocar as disposições de seu direito interno para justificar o inadimplemento de um tratado.
Embora não configure jurisprudência sobre a matéria, tal afirmação elevada ao Tribunal reflete uma realidade que ressalta a autonomia dos entes subnacionais em relação à sua responsabilidade internacional. Justamente, é essa insegurança jurídica a respeito da responsabilidade direta imposta aos entes subnacionais que torna o caso emblemático, já que houve o descumprimento da Ordem que havia sido expedida pelo Tribunal para que os Estados Unidos e o Estado federado do
251
Tribunal Internacional de Justiça. Caso LaGrand. Alemanha v. Estados Unidos. Contra- Memoriais dos Estados Unidos de 27 de março de 2001.
127 Arizona suspendessem a execução da pena de morte do condenado temporariamente, até que fosse emanada a decisão de mérito do processo.
A “independência” estaria justificada se fosse utilizada conforme os preceitos do Direito Internacional, ou seja, em cumprimento à Ordem do TIJ. Contudo a referida “independência” também está sendo utilizada para uma espécie de “blindagem”, tanto por parte do Estado federado, quanto do Estado federal, que resulta no descumprimento do Direito Internacional.
Na prática, a Suprema Corte dos EUA, seu órgão jurisdicional máximo e representante dos desígnios da União federal, não conheceu do pedido, deixando que o Estado do Arizona decidisse por sua própria autonomia sobre a Ordem do TIJ.
Finalmente, a Governadora do Arizona não ordenou a suspensão da execução de Walter LaGrand, porque ela tinha o direito de mantê-lo, conforme a ordem jurídica do Estado do Arizona. Com isso, o Direito Internacional ficou refém de uma decisão de direito interno que não o levou sequer em consideração, deixando o direito à vida à mercê da “independência” dos entes subnacionais.
Esta não foi a primeira condenação aos EUA em que houve o descumprimento da decisão do TIJ.