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A tese de Nietzsche, no que tange à sua análise sobre a moral presente na Europa de seu tempo, permite compreender que é incutido nos homens um conceito de bom que apela para a equalização dos desejos, vontades e hábitos e que celebra como virtude um único instinto, o de animal de rebanho homem99. Este assume

status de único e predomina sobre os demais. O instinto de rebanho é assimilado fisiologicamente através de uma conformidade crescente que pretende suprimir a diferença e instalar a semelhança através da moral, ou melhor, da moral de rebanho. Logo, por esquecimento e hábito, acreditamos que essa moral é a única possível. Daí decorre o impedimento da compreensão de que outras morais ou seu processo possam vir a constituir um novo modo de compreensão e de ação dos homens nas relações inter pares.

Essa moral, que alcança hegemonia por séculos, na Europa, é promovida e ajudada por uma religião que justifica e fomenta a regularidade dos desejos do animal de rebanho. Essa religião da qual escoa a untuosa moralidade de rebanho permeia, onde sequer poderíamos imaginar, as instituições políticas e sociais. É a partir desse ângulo que Nietzsche aponta que o movimento democrático compõe legado direto na modernidade do movimento cristão100.

Esse movimento de continuidade entre o movimento cristão e o movimento democrático é uma análise muito precisa e fecunda da filosofia de Nietzsche. O ritmo desse movimento é percebido em muitas outras análises, de modo demasiado vagaroso e abrandado. Por exemplo, aqueles que buscam uma saída do grande rebanho não percebem, muitas vezes, esse entrelaçamento entre os dois movimentos. É o caso do movimento anarquista, radicalização do socialismo, e do próprio movimento socialista.

99

Ibid. p. 89.

Os anarquistas, supostamente antagonistas dos democratas liberais e dos ideólogos da revolução vagarosamente trabalhada, e os socialistas, partidários da semelhança, da identidade e da igualdade a todo custo, que almejam uma ―sociedade livre‖101, são, na perspectiva de Nietzsche, apenas uma face da mesma

moeda. Ambos concordam com a tese de que não há possibilidade de nenhum outro arranjo e de elos na sociedade que não seja a organização em um grande rebanho autônomo102.

Tanto a democracia burguesa quanto o anarquismo e o socialismo concordam com o fim das diferenças humanas e com a exaltação da igualdade total entre os indivíduos. Basta observar que esses movimentos combatem incisivamente qualquer pretensão de diferenciação ou particular direito. Ao celebrar a igualdade a todo custo, podem idealizar um tipo de sociedade na qual ninguém precisaria de direito algum. Aqui novamente estaríamos atentando contra a própria dinamicidade da sociedade. Seria, como mencionamos anteriormente, um modo de conduzir o devir a uma finalidade, a um telos.

Sobre esse aspecto, Giacóia Jr.103 assinala:

Aqui se encontra, talvez, um dos aspectos mais peculiares da platonizante crítica de Nietzsche à modernidade política: o desdobramento virtual do liberalismo democrático no socialismo e também no anarquismo. Para ele, o liberalismo burguês, com suas aspirações universais à liberdade e igualdade conduz fatalmente, no plano político, às instituições democráticas e daqui tanto à absoluta igualização da humanidade na camisa de força social do "rebanho autônomo", quanto à anárquica vontade de destruição de todo regime existente (GIACÓIA Jr., 1996).

A moral vigente, a moral cristã que se reconhece como única, pretende ser universal. Desse modo, essa moral se constitui como única e principal ferramenta que sustenta o nivelamento almejado pelo cristianismo e também o anseio do movimento democrático. A moral cristã e o movimento democrático supõem a inexistência de hierarquias entre os homens. Os privilégios são negados pela ordem

101

Ibid. p. 90.

102 Ibid. p. 90 103

Cf. GIACÓIA Jr., 1996. Oswaldo. Crítica da Moral como política em Nietzsche. In: Cadernos do IEA\USP, São Paulo: 1996.

dos direitos iguais, a dor e o sofrimento são trocados pela piedade, a diferença singular é substituída pela igualdade coletiva diante da Lei e de Deus.

Os privilégios das hierarquias, isto é, o pathos da distância, estão relacionados à afirmação da vontade de potência, à possibilidade de comandar, de criar e estabelecer, para si e para a sociedade, outros modos de organização do lócus social. Não encontramos ressonâncias desse privilégio da hierarquia relacionadas com opressão, repressão, nem tampouco relacionadas à usurpação das riquezas produzidas. Por outro lado, percebemos que o privilégio da hierarquia diz respeito à diferenciação no modo de pensar e de organizar outros modos de sociabilidade. Portanto, o privilégio da hierarquia procura, na visão de Nietzsche, questionar o modo de organização em rebanho, a utilidade na qual se finca para deliberar. Trata-se, então, de exaltar o forte, aquele que é capaz de superar-se, quer expandir-se e acusar a domesticação e a fraqueza promovidas pela modernidade. Nietzsche assim descreve os privilégios da hierarquia:

Desse pathos da distância é que eles tomaram para si o direito de criar valores, cunhar nomes para os valores: que lhes importava a utilidade! Esse ponto de vista da utilidade é o mais estranho e inadequado, em vista de tal ardente manancial de juízos de valor supremos, estabelecedores e definidores de hierarquias: aí o sentimento alcançou bem o oposto daquele baixo grau de calor que toda prudência calculadora, todo cálculo de utilidade pressupõe - e não por uma vez, não por uma hora de exceção, mas permanentemente (NIETZSCHE, 1998, p. 19).

A análise de Nietzsche sobre a continuidade entre a moral cristã e o movimento democrático explicita inegavelmente a crítica ao ―rebaixamento‖, à mediocrização do homem mediante o conceito de igualdade. O defensor das ideias modernas, inspirado pelo instinto de rebanho, concebe suas ação e atuação a partir dos ideais de universalidade e identidade. Desse modo, desaprova ações de pensar e agir que prezam pela singularidade do agir e concebe a realidade como fixa e inalterável. A dinâmica do devir, a ação afirmativa, o agir diferenciado são negados em prol de um padrão coletivista bem delineado sem o qual seria impossível outra maneira de viver.

Percebendo que esse modo de atuação se espraia por toda a Europa, Nietzsche chega a sustentar que, ao invés de igualdade de direito, poderíamos

delinear um projeto de desigualdade dos direitos. Essa desigualdade não faz menção à questão econômica e ao acesso à deliberação na esfera política. A desigualdade se dá de um tipo de igualdade para outro. Há os que afirmam o vigor de suas forças, os que criam, são munidos da capacidade de invenção; e aqueles que possuem uma vontade cansada, uma vontade que nega, que procura o repouso, que afirma o bem-estar, que busca a comodidade.

É nesse ponto que Nietzsche, talvez, afirme a desigualdade entre grupos de iguais. Essa afirmação é fruto de sua análise sobre a configuração da modernidade. De acordo com o filósofo alemão, a modernidade inaugura um modo de ataque que visa extinguir o que é raro, nobre, inusitado, dotado de privilégio, pela sua capacidade de criar; pretende desvanecer os homens; combate sem trégua o dever elevado, a responsabilidade elevada. Trata-se de uma verdadeira luta contra o sentimento de criação e de domínio através da criação de outros valores104. Nietzsche afirma que

o ser-nobre, o querer-ser-para-si, o poder-ser-distinto, o estar-só e o ter-que-viver-por-si são parte da noção de ―grandeza‖; e o filósofo revelará algo do seu próprio ideal quando afirmar: ―será o maior aquele que puder ser o mais solitário, o mais oculto, o mais divergente, o homem além do bem e do mal, o senhor de suas virtudes, o transbordante de vontade; precisamente a isto se chamará grandeza: pode ser tanto múltiplo como inteiro, tanto vasto como pleno‖. E mais uma vez perguntamos: será hoje – possível a grandeza? (NIETZSCHE, 2005, p. 107).

Nesse sentido, Nietzsche fará uma distinção entre os espiritualmente limitados e aqueles de uma superior espiritualidade. O que caracteriza os espiritualmente limitados é o julgamento e a condenação moral, que realizam por vingança contra aqueles que se supõem menos ainda limitados. E também o julgamento e a condenação como forma de compensação por ter sido desprovido de uma espiritualidade elevada. Daí, os espiritualmente limitados lutarem tanto pela ―igualdade de todos perante Deus‖ e crerem necessariamente na existência de um Deus. Esse é o critério que satisfaz aos espiritualmente limitados, por igualar aqueles homens acumulados de bens e privilégios do espírito e, portanto, superiores em espiritualidade a eles. Assim Nietzsche se pronuncia:

Quem lhes dissesse que não ―há comparação entre uma superior espiritualidade e qualquer honradez e respeitabilidade de um homem apenas moral‖, faria com que ficassem furiosos – eu tratarei de não dizê-lo. Pretendo, isto sim, lisonjeá-los com minha tese de que uma superior espiritualidade existe apenas como rebento final de qualidades morais; que é uma síntese de todos aqueles estados atribuídos ao homem ―apenas moral‖, após terem sido adquiridos isoladamente, através de longa disciplina e exercício, e talvez por cadeias de gerações; que a superior espiritualidade é justamente a espiritualização da justiça, e daquele rigor bondoso que se sabe encarregado de manter no mundo a hierarquia entre as coisas mesmas – e não só entre os homens (NIETZSCHE, 2005, p. 112).

Sobre a relação entre igualdade diante da lei e o desenrolar da democracia do rebanho, Scarlet Marton105 esclarece a perspectiva de Nietzsche:

Direitos mantêm relações de força; constituem ―graus de poder‖. ―A desigualdade de direitos‖, declara Nietzsche, ―é a condição necessária para que os direitos existam. Um direito é sempre um privilégio‖. Meus direitos são essa parte do meu poder que os outros reconhecem e me permitem conservar; meus deveres, os direitos que outros têm sobre mim. Segue-se daí que os direitos duram tanto quanto as relações de forças que lhes deram origem. A partir do momento em que a força de um certo número de indivíduos se reduz consideravelmente, os outros membros do grupo não mais reconhecem os seus direitos. Mas se, ao contrário, sua força aumenta, são eles que não mais garantem os direitos alheios. À medida que as relações de forças sofrem modificações profundas, certos direitos desaparecem e outros surgem. Dessa perspectiva, a igualdade dos cidadãos perante a lei – eco da igualdade dos homens diante de Deus – não passaria de fórmula forjada por quem precisa somar forças para subsistir (MARTON, 2011, p. 22-23 ).

O direito, nesse sentido, não é um contrato estabelecido mediante a igualdade e a bondade natural entre os homens. O cristianismo e algumas correntes políticas modernas disseminam essa ideia com o intuito de justificar o fracasso e a fraqueza de sua vontade. O que prevalece, para o surgimento da ideia de direito, é a correlação das forças que regem as experiências humanas. Os mais fracos da espécie procuram se unir para conservar a existência. Estabelecem o modo de vida gregário, aguardando que os mais fortes possam ameaçá-los. Percebendo o mais forte que os rebanhos gregários poderiam resistir ao seu domínio ou que possuiriam a mesma força, restaria aos fortes selar a paz e estabelecer contratos. Os regimes democráticos e a religião cristã primam pelo modo de ação fraca e o incentivam,

exercendo, portanto, um domínio que passa despercebido pelo rebanho. Este é incentivado a não reconhecer sua força. Sua atuação social é medida pelo grau de semelhança e obediência de uns em relação aos outros106.

Dessa forma, o que Nietzsche questiona, na ideia de igualdade generalizada pela modernidade, é o pressuposto da existência de uma consciência coletiva, uma consciência social pura, um ―nós‖ que existiria fora dos indivíduos e que age sobre estes na forma de coação. Nietzsche privilegia os indivíduos na sua condição singular e em como se organizam em sociedade. Dessa forma, a consequência direta de sua opção de investigação é o estudo de questões relacionadas à vontade, desejo, crenças que permeiam a pluralidade da vida.

A ideia da igualdade de todos perante a Lei ou diante de Deus postula que todos os indivíduos teriam nascido semelhantes uns aos outros em seus desejos, objetivos, vontades, crenças e aptidões. Desse modo, todas as transformações que porventura se efetuassem ao longo de sua existência seriam tributárias de determinações sociais exteriores aos próprios homens, o que suscita nestes um estado de inércia diante dos acontecimentos ou apenas transforma-os em uma grande massa de manobra que pode deslocá-los na direção que os líderes do rebanho desejarem. Em outras palavras, a igualdade a todo custo, pretendida pelo cristianismo e pelas ideias modernas, comportaria um estado de homogeneização pacífica em si mesma que só poderia ser perturbada por uma entidade exterior à organização social.

A diferença está na ação da vontade de potência, presente nos nossos sentimentos, atos e pensamentos. Nossa existência é criada através da passagem do estado passivo do rebanho à ação, dando vazão às nossas forças, a nossa criação e ação. Dessa forma, por hábito e esquecimento, submetemo-nos ao estado passivo, o que caracteriza a fraqueza, que acaba por minar nossas forças, que trazem em si a potencialidade de realização do homem, no sentido de existir, de pensar e de agir.

À luz do pensamento de Nietzsche sobre a ideia de igualdade, é-nos possível perceber diversas implicações que não podemos excluir. Por exemplo,

baseada nos princípios de igualdade e identidade, a sociedade poderia eliminar tudo o que é vivo, movimento, heterogêneo, acaso e nuance de colorações dos diversos modos de pluralidade humana, em nome de uma unanimidade para legitimar ações, sentimentos, pensamentos homogêneos.

Percorrer o caminho da diferença entre os indivíduos, considerando cada um como um universo de pluralidades e variações, pressupõe o estabelecimento de novas e potentes hipóteses. De acordo com o pensamento de Nietzsche, se partíssemos da ideia de diferença, ao invés de igualdade, o que se tem e se deverá explicar são justamente as tentativas de homogeneização, as semelhanças e ordens que se apresentam no mundo social, ao lado das singularidades.

Parece-nos que até mesmo um indivíduo, para Nietzsche, é uma generalização. De fato, trata-se de um corpo singular de forças diversas de vontade, crença e desejos em constante expansão e superação de si. Nietzsche não parte do homem como dado para a explanação de fenômenos sociais. Apesar de adquirir notável importância em sua filosofia, o homem não é origem e princípio de tudo que há, pois, a ideia de origem não é possível a partir da filosofia de Nietzsche. O discurso da origem e do princípio é jargão da metafísica clássica e da tradição judaico-cristã que perpassa a história e se consolida na modernidade.

Ademais, há uma tentativa de argumentar a favor da igualdade, levando-se em consideração a explicação das ciências da natureza. A igualdade pretendida pelas ciências da natureza, afirma Nietzsche, não passa de uma interpretação apressada e ruim. Ao afirmar a existência de ―leis da natureza‖, procuram submeter tudo aquilo denominado como ―entes naturais‖ ao conceito de igualdade, pois estes supostamente seguiriam o mesmo curso de tais leis. E, portanto, seriam iguais porque seguem Leis necessárias e universais, iguais para todos. Nietzsche é enfático quanto a isso. Afirma que essa interpretação é apenas uma outorga ao movimento democrático da alma moderna, pois as leis da natureza não são realidade fatual, um texto objetivo a ser decifrado. São apenas organizações, arranjos e alterações de sentidos e significados criados pelo engenho humano.

A igualdade diante da Lei é um belo conceito retirado do intelecto humano, este mestre do disfarce. O problema é que ele serve ao ideal democrático e impede

as forças de continuarem criando. Há nele uma espécie de estática, que não lhe permite avançar, nem se expandir. Contraria o desenvolvimento da vontade de superação constante. Nietzsche questiona a existência de tais leis devido à própria ausência de leis na natureza. A natureza opera a cada instante, até suas últimas consequências107. Então, essa ideia de igualdade diante da Lei é apenas uma

metáfora criada pela vontade enfraquecida e serva das ideias modernas e da democracia.

Outro ponto fundamental que Nietzsche destaca sobre a influência da Moral cristã na consolidação e na legitimação do movimento democrático é a questão da compaixão. A hegemonia das ideias modernas gera um entendimento de compaixão pouco valorizado pelos filósofos até então: o entendimento de que a compaixão, a abnegação, o não egoísmo, o sacrifício são valores em si. A idealização e a divinização da compaixão através da repetição de costumes modernos propiciam nos indivíduos um desejo de negação da vida e de si mesmo. Essa idealização da compaixão arranca do indivíduo a vontade de afirmação e de superação da vida.

A moral da compaixão, o cansaço que olha para trás108, a vontade que se

volta contra vida se espalha quase numa metástase por toda a Europa moderna. De acordo com Nietzsche, a compaixão é um amolecimento dos instintos, impresso pelo modo de valorar dos modernos e que enfraquece e adoece os homens. A moralização cristã refere-se ao amolecimento doentio, uma vez que os homens aprendem a envergonhar-se de seus instintos, de suas forças. Próximo de se tornar um santo, o homem da moral da compaixão desenvolve uma fraqueza que arruína e torna repulsivas a inocência e a alegria da vontade, perdendo o sabor da própria vida. Isso ocorre, diz Nietzsche, devido à inversão do significado de sofrimento. O sofrimento na Europa moderna é sempre visto como argumento contra a existência, como seu grande problema. Em outros contextos históricos, o sofrimento não prescindia de si mesmo, fazer-sofrer não é renunciado, era até mesmo cultivado como um valor para fazer valer a vida. Porém, ironiza Nietzsche, talvez nesse sofrimento, a dor doesse menos. Sobre isto, ele afirma:

Talvez possamos admitir a possibilidade de que o prazer na crueldade não esteja realmente extinto: apenas necessitaria, pelo

107 MARTON, 2011, p.26-27. 108 Cf. NIETZSCHE, 1998, p. 11.

fato de agora doer mais a dor, de alguma sublimação e sutilização, isto é, deveria aparecer transposto para o plano imaginativo e psíquico, e ornado de nomes tão inofensivos que não despertassem suspeita nem mesmo na mais delicada e hipócrita consciência (a "compaixão trágica" é um desses nomes; um outro é "les nostalgies

de ta croix" [as nostalgias da cruz]) (NIETZSCHE, 1998, p. 57-58).

Através do método genealógico, Nietzsche escava a emergência, o surgimento da inversão promovida pela moral cristã no comportamento dos modernos. Para os antigos gregos, ser moderno e exercer o poder é considerado, à luz do método genealógico, como pura híbris109 e impiedade. As coisas que veneram as ideias modernas e que tiveram apoio da consciência e de Deus são opostas ao que era respeitado e venerado pelos gregos antigos. Por exemplo, é pura híbris na modernidade, afirma Nietzsche, nossa atitude para com a natureza. Violentamos a natureza com ajuda de máquinas e da irrefletida invenção técnica. Fazemos experimentos conosco cuja realização não seria concebível com nenhum outro animal. Do mesmo modo, todas as coisas boas da modernidade foram um dia coisas ruins. Basta observar o direito, a submissão ao direito. O direito, durante muito tempo, foi algo proibido, um abuso. De acordo com Nietzsche, o direito surge como violência, à qual, somente com vergonha de si mesmo, alguém se submetia. O direito é da ordem da conquista, uma inovação para cessar o dissídio nas sociedades.

Essa inversão afirma certos rancor e vergonha em relação à dureza constatada na modernidade, como se tinha vergonha da suavidade na antiguidade clássica. Desse modo, afirma Nietzsche:

É este orgulho, porém, que nos torna hoje quase impossível sentir como os imensos períodos de ―moralidade do costume‖, que precederam a ―história universal‖ como a verdadeira e decisiva história que determinou o caráter da humanidade: quando o sofrimento, a crueldade, a dissimulação, a vingança, o repúdio à verdade eram virtude, enquanto o bem-estar, a sede de saber, a paz, a compaixão eram perigo, ser objeto de compaixão era ofensa (NIETZSCHE, 1998, p. 104).

109

De acordo com Nota de Paulo César de Souza, ―Híbris‖ era uma palavra com que os antigos designavam todo comportamento arbitrário, arrogante, desrespeitador dos direitos do próximo e das normas da comunidade. No sentido mais geral, aquele em que é empregada por Nietzsche, era – é – a violação soberba das leis divinas ou naturais (NIETZSCHE, 1998, p. 159).

Mas de onde vem o sentimento de compaixão? Nietzsche propõe, como resposta, que esse sentimento se sustenta em resquícios cristãos. O cristianismo promoveu a emergência de modos de agir e de pensar de acordo com a utilidade destes. Porém, Nietzsche condena esses modos de agir e de pensar, pois eles destroem toda individualidade, exaltam a negação da singularidade. Essa aniquilação acontece ao se considerar como bom somente o pertencimento ao grupo.

A última ressonância do cristianismo no campo da moral, afirma Nietzsche,

Benzer Belgeler