Uma das dificuldades encontradas foi a referente à delimitação do corpus, pois há uma quantidade enorme de sentenças proferidas. Para exemplificar, como expusemos no Capítulo 1 referente ao Direito, só no ano de 2004, no Estado de São Paulo, os juízes proferiram, aproximadamente, 2 500 000 sentenças judiciais.
Para que pudéssemos estabelecer o corpus desta tese, fizemos algumas tentativas. Logo no início da pesquisa, nossa dúvida era escolher entre sentenças cíveis ou criminais. Consideramos que a jurisdição é una e abrange todos os litígios instaurados em torno de quaisquer assuntos de direito; assim, uno também é o direito processual, pois os principais conceitos, como os de ação, defesa e processo são comuns. Modernamente, pensa-se numa
teoria geral do processo. A grande separação entre processo civil e penal corresponde apenas a exigências pragmáticas, que estão relacionadas com o tipo de normas a atuar.
Pensamos que, apesar disso, ainda há uma especialização, não só dos advogados, como dos julgadores e das leis que regulam a atividade jurisdicional. Há o Código Civil, o Penal, o de Processo Civil, o de Processo Penal; há Varas Cíveis e Criminais em algumas comarcas do interior e da Capital; nos Tribunais, há a separação por Câmaras, para julgamento dos casos cíveis e criminais. Se existe tudo isso, foi necessário fazer uma opção. Aspectos de preferência pessoal levaram-nos a considerar o Direito Processual Civil como o centro de estudo para este trabalho. Assim, o primeiro passo estava dado; o corpus seria composto somente por sentenças cíveis.
Em seguida, após a leitura de mais de uma centena de sentenças, tornou-se necessária uma nova opção, desta vez referente ao local. Em que estado(s) do país pesquisar as decisões? Após muitas reflexões, consideramos o estado de São Paulo o mais adequado para buscarmos as decisões para análise. Tal escolha foi motivada, principalmente, pelo grande número de sentenças prolatadas neste estado, o qual apresentou, no ano de 2003, 50% das sentenças registradas no país.
Durante a pesquisa por mais informações, tivemos acesso à Revista Cadernos
Jurídicos, uma publicação da Escola Paulista da Magistratura, órgão do Tribunal de Justiça de SP, voltada para a veiculação de trabalhos de magistrados de Primeira Instância, incentivando os juízes a um constante aprimoramento pessoal. Após seleção da Comissão Editorial, formada por magistrados da mesma Instância, são publicadas, em cada número, dez sentenças e acórdãos, além de análise da jurisprudência e estudos, sendo os temas de interesse para toda comunidade jurídica. Ao todo, foram publicados, de 2000 a 2007, 30 números impressos. Há uma edição eletrônica disponível do nº 7 (janeiro-fevereiro/2002) ao no 30 (maio- agosto/2007). Consideramos pertinente inserir, em nosso corpus, algumas sentenças dessa revista, todas retiradas de processos reais.
A etapa seguinte foi a delimitação do tempo em que as sentenças foram proferidas. Novamente surgiu outra dificuldade, pois uma vez encerrado o processo, os autos são arquivados; como não há, nos fóruns, espaço para isso, eles são enviados (no caso do Vale do Paraíba, região onde moramos) para um depósito oficial em Campinas-SP, para guarda definitiva. Se houver necessidade de cópia de qualquer peça processual, é necessário pedir o desarquivamento do processo, por meio de uma petição ou do preenchimento de um formulário, em que deverão constar algumas informações, como o número do Processo, a Vara, o tipo de Ação, o nome das partes. Isso leva, geralmente, mais de ano para ser concedido. Devido a essa demora, optamos por sentenças proferidas no período compreendido
entre 2002 a 2006, primeiramente, pela facilidade de obtenção das sentenças, pois já havíamos selecionado algumas dezenas delas referentes a esta data; em segundo lugar, pelo acesso à Revista Cadernos Jurídicos, que contém sentenças dessa época. Finalmente, consideramos oportuno trabalhar com ações cíveis cujas decisões foram proferidas um pouco antes e logo após a Lei Nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Essa lei instituiu o novo Código Civil, substituindo o Código Civil datado de 1916, que vigorava em nosso país com inúmeras modificações.
Outra preocupação foi a escolha do número de sentenças para análise. Fizemos nova pesquisa e constatamos que, somente no ano de 2006, foram registrados cerca de 3.3 milhões de sentenças no estado de São Paulo. Então, como já havíamos estipulado o período (2002 a 2006) para dele retirarmos as decisões, teríamos, se a média de sentenças fosse mantida nesses cinco anos, aproximadamente 15 milhões de textos. Não seria possível estabelecer um número de decisões que fosse realmente representativo, pois somente 1% delas daria 150 mil sentenças; 0,1%, 15 mil.
Pensamos em nova opção: delimitar o corpus de modo a atender um conjunto de critérios, tais como o referente ao tipo de ação civil que originou o processo e ao assunto. Araújo Júnior (2005) relaciona 61 espécies; quanto ao assunto, procuramos trazer para análise questões morais, contemporâneas e escolhemos conflitos como indenização por acidente de trabalho, mudança de sexo em virtude de cirurgia, pensão decorrente de relação homossexual, indenização por abandono moral. Dessa forma, decidimos por seis decisões monocráticas proferidas entre 2002 e 2006, com procedimentos e assuntos distintos, proferidas por juízes de ambos os sexos, de entrâncias, comarcas e varas diversas. Para esse número de seis decisões, levamos em conta, ainda, que elas diferem quanto ao resultado da decisão, com o juiz decidindo de maneira favorável ou não ao que foi solicitado pelo autor da ação. Verificamos, ainda, a extensão das decisões, que vai de quatro a dez páginas. A esfera de circulação das
sentenças também foi outro aspecto considerado. Uma sentença foi retirada de Processo original a que tivemos acesso e cinco, da Revista Cadernos Jurídicos, sendo duas da edição eletrônica e três da edição impressa.