A doutrina afirma no processo civil que os prazos para atos do juiz são impróprios pois ausente qualquer consequência processual na sua inobservância. Conforme lembra Dinamarco, o juiz não defende interesse próprio no processo, mas cumpre deveres e portanto: “Seria contrário à ética e ao senso-comum a definitiva dispensa de cumprimento de um dever, em razão do seu não cumprimento no prazo”162.
Ocorre que, no processo arbitral, há previsão de prazo para a produção da sentença com cominação de pena de nulidade deste ato processual se descumprida sua tempestividade.
Neste sentido, analisemos os dispositivos da Lei de arbitragem relativos ao prazo para proferir sentença arbitral:
Art. 11. Poderá, ainda, o compromisso arbitral conter:
III-o prazo para apresentação da sentença arbitral;
Art. 12.Extingue-se o compromisso arbitral:
III - tendo expirado o prazo a que se refere o art. 11, inciso III, desde que a parte interessada tenha notificado o árbitro, ou o presidente do tribunal arbitral, concedendo-lhe o prazo de dez dias para a prolação e apresentação da sentença arbitral.
Art. 23.A sentença arbitral será proferida no prazo estipulado pelas partes.
Nada tendo sido convencionado, o prazo para a apresentação da sentença é de seis meses, contado da instituição da arbitragem ou da substituição do árbitro.
Art. 32. É nula a sentença arbitral se:
VII - proferida fora do prazo, respeitado o disposto no art. 12, inciso III, desta Lei; e
Francisco José Cahali adverte: “Importante notar o impacto deste prazo na arbitragem, pois se fosse “impróprio”, como é para a sentença judicial (e há previsão, em certos casos, para ser proferida), e desprovido de qualquer repercussão prática, de nada adiantaria ocupar-se com a questão”163. O autor ainda
afirma que tanto o prazo convencional como o prazo legal para proferimento da sentença deveriam receber o mesmo tratamento acerca da necessidade de notificação para contagem do prazo de 10 dias, mas é enfático que após este limite,
162 DINAMARCO, Cândido Rangel. Instituições de direito processual civil. 4ª ed., v. II. São Paulo: Malheiros, 2004, p. 533.
163 CAHALI, Francisco José. Curso de Arbitragem. 3ª ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2013, p.
a nulidade da sentença é certa e caberia às partes estabelecerem novo procedimento arbitral.
Carlos Alberto Carmona164 busca através de diversos preceitos salvaguardar
a sentença arbitral, afirmando que a nulidade não ocorreria automaticamente pois dependeria de medida judicial da parte para anulá-la, tanto quanto a notificação do art. 12 somente seria admissível após escoado o prazo convencional ou legal. O autor ainda recomenda que se o árbitro observar que o prazo esta se esvaindo, deve chamar as partes para prorrogá-lo, mas se não houver acordo, deverá proferir sentença no prazo decimal.
Contudo, imagine-se um processo arbitral em que uma das partes vislumbrando a derrota iminente, busca de todos os meios procrastinar o andamento do processo para ultrapassar o prazo para sentença, conseguindo no dia seguinte ao término deste prazo notificar o árbitro. Em um processo complexo, sem término da fase probatória, sendo absolutamente insuficiente o prazo de dez dias para conseguir proferir sentença tecnicamente completa diante dos inúmeros volumes do processo, haveria como evitar a nulidade da sentença ?
Entendemos que o prazo para proferir a sentença arbitral é preclusivo e portanto deve atender a todos os requisitos técnicos deste instituto de direito processual civil, notadamente ao preceito de escusabilidade de cumprimento dos prazos processuais.
Com efeito, conforme salientado no item 3.4.4., e na lição de Riccio165, citado
por Heitor Vitor Mendonça Sica, a preclusão dos ônus processuais das partes possuem quatro pressupostos: “(a) a existência de uma faculdade processual; (b) a limitação a seu exercício imposto pela lei; (c) a ineficácia da atividade praticada após o advento da preclusão e (d) o poder-dever do juiz de declará-la”.
Adaptando para a questão do prazo para proferir sentença arbitral, observamos que existe (b) uma limitação imposta pela lei, que (c) possui a consequência de nulidade se não cumprido dentro deste prazo, na qual (d) o juiz estatal deverá declarar a nulidade se proposta ação anulatória com este fim. Mas haveria (a) uma faculdade processual para o fim de justificar a cominação de nulidade da sentença arbitral para o árbitro ?
164 CARMONA, Carlos Alberto. Arbitragem e Processo. 3ª ed. São Paulo: Atlas, 2009, p. 223-224.
Como é usual, os árbitros são profissionais particulares que recebem pela prestação do serviço jurisdicional, respondendo pela adequada prestação deste serviço conforme condutas culposas ou dolosas. Diferentemente do juiz togado, o árbitro pode recusar a participação em uma ação e não raras vezes aufere seus honorários por hora trabalhada. O vínculo do árbitro com a relação jurídica processual é contratual e existe com uma única finalidade: prestar adequadamente o serviço jurisdicional.
Desta forma, razoável atribuir à relação do árbitro com o processo um interesse processual – que não chega a se configurar uma faculdade processual – que é de solucionar a causa para receber seus honorários. Por tal razão a Lei de Arbitragem atribuiu grande responsabilidade ao árbitro na condução do processo, impondo a ele um prazo para proferir sentença sob a pena de nulidade.
Mas um prazo impossível de ser cumprido é inexistente, porquanto cria uma condição impossível para a resolução do negócio jurídico arbitral, conforme previsão do art. 123 do Código Civil.
Com efeito, deve ser dado ao tratamento deste prazo o mesmo rigor dos prazos processuais, com a ressalva de permitir a escusabilidade do seu não cumprimento se demonstrada justa causa pelo árbitro.
Apresenta-se como tecnicamente jurídico afirmar que o prazo para proferir sentença arbitral é preclusivo pois reúne todos os requisitos atinentes à tempestividade de atos processuais próprios das partes, mas ainda realça a importância prática de atribuir um sistema de freios e contrapesos para avaliar a regularidade da aplicação deste prazo, na medida em que a sistemática da preclusão avalia também a escusabilidade do ato na hipótese de não ser cumprido no tempo devido.