4. BULGULAR VE TARTIŞMA
4.1 Sınıfiçi Öğrenme ve Öğretme Ortamı
4.1.3 Derslerin Genel Bir Değerlendirmesi
Além dos determinantes profissionais (graduação, pós-graduação) e determinantes relacionados à organização do trabalho, também foi possível identificar alguns determinantes pessoais que influenciam não apenas nesse modo de cuidar, mas desde a escolha profissional. Os principais determinantes identificados foram: os modelos familiares, a formação religiosa e a vivência de situações de terminalidade na família.
No caso de Chiquinha (M), por exemplo, o trabalho de sua mãe como enfermeira exerceu uma forte influência na escolha profissional – especialmente a escolha pela saúde pública:
“Eu sempre falo que um dos maiores certificados que eu tenho no meu currículo de vida, de pessoa, é ser filha de enfermeira, de uma enfermeira humanista, que já faleceu inclusive. Mas ela me ensinava muito isso [...] Então, desde muito pequena, eu vivia e
convivia com o ambiente hospitalar e particularmente com a morte, porque trabalhar numa
enfermaria pediátrica, na década de 60, na cirurgia cardiológica, um sobrevivia e cinco, seis morriam. E isso era o cotidiano. E eu olhava minha mãe vivenciar isso. E ela tinha uma característica que era muito dela que é a melhor parte do meu currículo que era assim... Nós morávamos num bairro que hoje é grande, mas na época era um bairro... [...] E atrás de
onde a gente morava, existiam favelas, que não eram como as de hoje, eram pras pessoas
íamos fazer parto. Nós, porque erámos só eu e ela, e ela não ia me deixar sozinha, final de tarde, começo de noite, e eu ficava sentadinha na porta dos barracos... fazia parto, dava banho em velhinho, fazia curativo, cuidava de coto umbilical, às vezes verificava um óbito. Então isso pra mim... Depois ela ficou super triste de eu ir fazer saúde pública: ‘Ah, como você pode ficar triste?’ (risos) Ela queria que eu fizesse cardiologia. A herança que ela
queria ter deixado era a hospitalar, mas o que impressionou pro resto da vida foi esse espaço do público, do outro, do outro no seu mundo, na sua condição de vida - foi o mais forte pra mim. Então eu vivia isso muito, muito. Vivia às vezes de chorar, a gente curtia aquele sofrimento. Depois nós mesmos nos animávamos e assim ia...” (grifos meus)
Chiquinha (M)
Chiquinha percebe e destaca claramente as influências que recebeu na infância através do trabalho de sua mãe: a convivência no ambiente hospitalar; a participação em situações de sofrimento de pessoas marginalizadas que viviam na favela; o contato com o outro “no seu mundo”.
A influência de familiares é um dos fatores identificados na literatura para a escolha da Medicina (BELLODI, 2001; COMBINATO, 2005).
Ela ainda aprendeu com a mãe que era permitido sentir a morte (“a gente curtia aquele sofrimento”) e que a elaboração do luto era facilitada quando se expressava e compartilhava a dor com o outro (“depois nós mesmos nos animávamos e assim ia...”).
Embora o contexto social não facilite a expressão do luto, segundo KOVÁCS (1992; 2008a) é justamente a expressão dos sentimentos diante de situações de perdas que facilita a elaboração do luto. A interdição dessa expressão, segundo a autora, pode dificultar a elaboração do luto e até mesmo intensificar o sofrimento, uma vez que as pessoas não sabem se o que estão sentindo é normal.
Além disso, Chiquinha (M) percebe a influência da religião na sua atividade: “Os espíritas acreditam na vida após a morte, acredita na reencarnação e acho que tem um pouquinho de um conforto esperançoso, né. Então, nesse sentido é esse plus que eu acho que a gente consegue... Então, por exemplo, têm algumas situações de angústia dentro da equipe, então, um recém-nascido, baixo peso, que nasceu doentinho, que não sei o que, que precisa coletar sangue dessa criança. Não deixa de ser um sofrimento, né, porque ninguém em sã consciência, mesmo sabendo que é para o bem daquela criança, vai furar o bebezinho, recém-nascido, um cisco de criatura e pensar ‘oba!’ (risos) Tem um sofrimento
pessoal nisso, ao menos que seja alguém da pediatria, muito hábil, mas tem um sofrimento. Então, é muito comum, nesses momentos, a gente, entre olhares, já sabe que além da
furadinha e da coleta de sangue, a gente precisa ter uma prece, um pensamento... já é meio
que um acordo entre nós [da equipe], assim, né.” (grifos meus) Chiquinha - M
No caso de Heitor, foram os valores cristãos transmitidos pela religião católica que motivaram a escolha pela medicina:
“A minha formação é cristã, católica né, e eu fui bem católico, era bom nisso (risos). Eu fui militante católico102 [...] E daí essa coisa de morte, e da relação da medicina com os valores humanos cristãos, pra mim era muito próximo. Eu fui pra medicina por
causa disso, por causa desses valores.” (grifos meus) Heitor (M)
O interesse em ajudar e cuidar como expressão de um desejo humanitário é outro fator identificado pela literatura para a escolha da Medicina (BELLODI, 2001; COMBINATO, 2005).
E são esses valores que, dentre outros fatores, fazem com que Heitor (M) identifique a solidariedade como uma característica pessoal necessária à atividade profissional:
“Eu acho que precisa ter um... um... [...] acho que solidariedade. Acho que o regime de trabalho precisa ser solidário, acho que precisa solidarizar-se com a situação [...] Não sei por onde que isso passa, pela convicção da pessoa e tal, pra conseguir estabelecer uma relação de solidariedade, tanto com o cliente - seja a família, o indivíduo – quanto com a equipe de trabalho. Acho que sem isso, acho muito difícil.” Heitor (M)
A dificuldade de falar sobre esse tema (ou “timidez”, como denomina Heitor - M) possivelmente esteja relacionada à ênfase individualista que vivenciamos no contexto socioeconômico. Entretanto, ainda que uma das origens da ideia de solidariedade seja o cristianismo (ALVES, 2008), quando defendemos o vínculo e a responsabilização pelo outro na Saúde da Família, estamos defendendo o cuidado como valor ético-político (PINHEIRO, 2007), que exige um comprometimento coletivo com a vida de todos. Não é isso a solidariedade?
Alguns dos significados de solidariedade são: “laço ou vínculo recíproco de pessoas ou coisas independentes”; “relação de responsabilidade entre pessoas unidas por
102 Embora reconheça a influência da religião católica na constituição da sua identidade, atualmente Heitor não se identifica mais como católico.
interesses comuns, de maneira que cada elemento do grupo se sinta na obrigação moral de apoiar o(s) outro(s)” (FERREIRA, 1988, p.608).
A solidariedade também é reconhecida na bioética como um dos seus referenciais (HOSSNE, 2006) e, ao defender a bioética como aliada à saúde pública, Barchifontaine (2005) define solidariedade como “a determinação firme e perseverante de empenhar-se para o bem comum, isto é, para o bem de todos e para que todos sejam verdadeiramente responsáveis por todos” (p.74).
Ser solidário também significa partilhar o sofrimento alheio (FERREIRA, 1988). E foi justamente esse partilhar (no sentido de participar e repartir sofrimento) que motivou a escolha profissional de Clara e favoreceu a compreensão da família e a atenção ao cuidador por parte de Lina.
“A morte da minha avó foi o que fez eu querer seguir a área da Enfermagem. Ela morreu eu era adolescente. E ela ficou dois anos lutando contra um câncer de pulmão, com várias metástases pelo corpo todo [...] E acabou ficando o cuidado muito centrado em mim e na minha irmã. Então nós aprendemos a fazer coisas que nós nunca imaginávamos [...] Eu
me sentia tão bem fazendo o bem pra ela, aliviando o sofrimento que eu fui... foi por isso que eu quis seguir a área de Enfermagem.” (grifos meus) Clara (E)
“A minha avó [...] ficou acamada, durante cinco anos, revoltada com o diagnóstico, câncer de garganta - uma pessoa extremamente difícil (ênfase ao dizer “extremamente”). E ela sempre foi muito difícil, mesmo quando ela estava bem e... o dia que ela estava mais revoltada ela fazia... ela não gostava de colocar fralda, de jeito nenhum, mesmo tendo necessidade. Ela pegava [fezes] na mão, passava nas paredes, jogava no chão, pra provocar mesmo. Foi muito difícil [...] Ela teve dez filhos. E como ela ficou muito revoltada, muito difícil de cuidar, cada semana ou cada duas semanas ela ia pra casa de um filho. E quando ela estava na casa da minha mãe, eu ajudava cuidar [...] Olha, eu acho que eu passei a entender mais a família. Não é fácil! Acho que viver do outro lado, você entende quando a família está cansada, quando a família começa a negligenciar o cuidado, porque ela está fazendo aquilo... Então, eu passei a entender mais o lado da família, das
dificuldades... de quanto é difícil lidar com a pessoa revoltada... e cuidar sozinho [...] E a
pessoa (cuidador) deixa de ter vida... Acho que eu passei a entender melhor e olhar mais [para o cuidador]... porque a gente como equipe tem que olhar para esse cuidador.” (grifos meus) Lina (E)
Para tanto, não é possível desvincular a solidariedade de uma outra característica fundamental ao profissional cuidador, principalmente em Cuidados Paliativos: a sensibilidade. Ser sensível ao outro significa perceber sua necessidade e reagir de maneira adequada a essa demanda103.
Para sintetizar esse tópico sobre a influência da história pessoal na atuação profissional, selecionamos um trecho de Heitor (M) em que ele menciona, num mesmo relato, os principais determinantes identificados nessa pesquisa: modelos familiares, formação religiosa e vivência de situações de terminalidade na família.
“Um primeiro momento foi de alívio [diante da morte do pai] [...] Aí eu me ocupei da coisa de mais uma vez ser suporte pra família [...] Depois a coisa de lidar com... com a proximidade que a gente tinha e a ascendência que meu pai até hoje tem sobre mim. Não sei se um dia para de ter assim, fica como modelo. Algumas coisas você está fazendo e de repente você se pega e percebe que você está fazendo pra aquela pessoa, né, pra aquela referência [...] Acho que as pessoas que se acaba elegendo como modelo, como pessoas importantes assim na sua vida, eles acabam lhe passando valores, coisas importantes que é... sem os quais você [...] perde a identidade [...] Eu tenho assim como orientadores essas pessoas: meu pai e um padre que foi muito amigo meu no colégio, que levava a gente pra acampar, pescar, jogar bola e tal, e que, acho que foi ele que me ensinou assim a coisa da solidariedade na prática.” Heitor (M)
Portanto, aquilo que o indivíduo é, ou melhor, aquilo que ele está sendo, pensando numa perspectiva de identidade como transformação (CIAMPA, 1994) está relacionado, dentre outros fatores (contexto histórico-social e desenvolvimento da atividade, por exemplo), à história de vida singular e às relações sociais estabelecidas - neste caso, especificamente, a família e a igreja.
E como se articulam essas histórias individuais com o desenvolvimento do trabalho na Saúde da Família com pessoas em processo de morte?
Lina (E) demonstra ao longo da entrevista sua preocupação com as relações familiares, com a tarefa do familiar cuidador e, ao mesmo tempo, o seu trabalho com esse cuidador. Ela sabe que existem motivos para a família não realizar adequadamente o cuidado do paciente (“aquela família deve ter um monte de mágoa guardada”) ou para o paciente não
103 É claro que, como já discutido anteriormente, o papel do profissional tem um limite. A sensibilidade presente na relação profissional – paciente – família é uma das formas de exercer o cuidado. É necessária ainda a sensibilidade de reivindicar e lutar por uma vida com pleno desenvolvimento para todos.
querer o cuidado daquele familiar; conversa com a família para que tanto ela como a família entendam os motivos da negligência ou do não querer o cuidado (“Olha, se ele quer que a senhora vai embora, ele está dando conta de trocar dieta, sonda... deixa ele, a senhora precisa deixar”); procura mobilizar o familiar para a necessidade e desejo do paciente; oferece cuidado ao familiar cuidador (“está precisando de alguma coisa?”)
Uma zona de significado para o trabalho realizado por Lina (E) pode ser o cuidado como compreensão: compreensão das relações familiares, compreensão dos desejos e das atitudes de familiares e pacientes.
Compreender significa “conter em si”, “abranger”, “alcançar com a inteligência”, “perceber” (FERREIRA, 1988, p.165). Ao mesmo tempo que o significado da palavra inclui um aspecto cognitivo (“alcançar com a inteligência”), também envolve percepção, relacionada aos órgãos dos sentidos. Para alcançar essa percepção, é preciso sentir algo ou alguém que, por sua vez, exige companhia, proximidade (ideia do prefixo latino com – TERRA, 2007). É essa apreensão cognitiva e perceptiva que permite abranger os desejos do outro, através do cuidado.
E como caminhamos dessa zona de significado para uma zona de sentido?
Se o sentido constitui-se pela “riqueza dos momentos existentes na consciência e relacionados àquilo que está expresso por uma determinada palavra” (VIGOTSKI, 1934/2001, p.466), então é preciso analisar as condições de vida que determinaram sua consciência.
Além da formação e experiência profissional que Lina (E) adquiriu num contexto de acúmulo institucional, existe uma história pessoal marcante envolvendo as relações familiares e o cuidado de uma avó.
Esse cuidado, permeado pelas relações familiares e identidade da avó, assume um sentido árduo, penoso,“difícil” – assim como ela mesma repete várias vezes no seu relato.
Conforme um dos significados da sua profissão e um dos papéis sociais atribuídos à mulher, o de cuidadora - isso sem considerar o valor da instituição família, então Lina (E) assume o cuidado, mesmo ele sendo “extremamente difícil” e, na sua atividade profissional, busca incentivar e oferecer suporte aos familiares cuidadores.