A sociedade constitui-se pelo conjunto de pessoas unidas formando uma espécie cor- po ou grupo social. Cada pessoa ao nascer começa a fazer parte desse grupo, no qual é recep- tora e doadora de dons; qualidades e serviços; exerce influência e é influenciada. Para a lin- guagem cristã isso se denomina, para os batizados evidentemente, vida em comunidade.
“A comunidade é o lugar onde a realidade da vida cotidiana é partilhada com os ou- tros. Nela se dá uma interação social da vida cotidiana, numa situação em que o face a face como outro é real, base para um encontro pessoal”132. A falta de percepção humana como ser corporal vivente numa sociedade de iguais leva o homem ao isolamento em relação à comu- nidade. As vezes, mesmo estando dentro da comunidade, provoca o isolamento de outrem ou então o fere na sua dignidade enquanto pessoa. Isso é drástico, pois como se sabe.
A pessoa humana suscita o conceito de dignidade: dignidade da própria pessoa, dignidade do corpo humano (...). A dignidade é assim um atributo, uma qua- lidade da pessoa e de seus derivados. No plano ético, essa dignidade suscita respei- to. Como as palavras mais simples, é difícil explicar o que ele é: não prejudicar, não explorar etc. Melhor que isso: ter consideração pelo outro, ter estima, reconhecê-lo realmente como outro, outro idêntico a mim, igual a mim, portador da mesma hu- manidade, da mesma dignidade que eu133.
Dentro da concepção eclesiológica paulina isso vem ao encontro da Teologia do Corpo Místico de Cristo. A Igreja o Corpo (cf. Col 1,24) em que Cristo é a Cabeça (cf. Col 1,18) e os cristãos os membros (cf. 1Cor 12,12-13). A harmonia dos membros favorece para o conjunto todo do corpo (cf. 1Cor 12,22-25). Segundo Paulo, o sofrimento de um membro, por menor que seja, acarretaria também o mal estar para todo o corpo. Em contrapartida, a alegria, saúde, o bem estar de um membro, trarão benefícios para o corpo todo enquanto con- junto (cf. 1Cor 12,26).
Segundo essa mesma teologia paulina, focalizando a pneumatologia e eclesiologia, o Cristo também está nas pessoas. “O verdadeiro corpo de Cristo, como tendo chegado ao seu próprio cumprimento (cf. Ef 4,12). Como dizia Paulo em outra passagem, falando de si pró-
132 AGOSTINI. Introdução à Teologia Moral. p. 108. 133 DURAND. Introdução Geral à Bioética... p. 308.
prio, mas subtendendo todos nós: ‘Cristo será engrandecido no meu corpo’”(Fl 1,20)134. Sendo assim, o compromisso social para o crente torna-se uma obrigação, pois a sociedade é o conjunto de homens e mulheres corporais e em cada corpo presente na sociedade há uma i- dentificação com o Cristo.
O corpo de Cristo não é só aquele da Palestina, ou da Eucaristia (...), ou da Ressurreição, mas é um corpo que se identifica perfeitamente com o corpo de to- dos os homens. Não existe quase nenhuma diferença, a não ser formal, em falar do corpo próprio do Senhor e de seu corpo com extensão ao do próximo135.
Partindo disso e contrapondo com as relações sociais e comunitárias dos tempos atu- ais se nota o quanto essa compreensão está fazendo falta. Por não se entender o outro como ser semelhante, com dignidades compatíveis tal e qual e imagem de Cristo, se permite aber- tamente a objetivação da pessoa negando-lhe a condição de sujeito. Isso leva a concluir o motivo da existência de ditaduras nos governos; fome; eugenia; o problema, ainda que velado, da escravidão; o tráfico humano para trabalhos, forçados, prostituição, o turismo sexual; co- mércio de órgãos; a falta de reconhecimento dos direitos do trabalhador e etc. Vale lembrar que:
A pessoa humana é sujeito e nunca objeto. É sujeito responsável de seus atos e de seu comportamento tanto perante sua própria consciência como perante os outros. Não há responsabilidade moral que não seja pessoal ou personalizada. A pessoa tem como elemento constitutivo a dimensão ética. Na relação com os outros seres do mundo, os seres não pessoas (animais, plantas, seres inanimados) tornam-se objeto para a pessoa, podem ser “manejados”, “usados”. Mas as outras pessoas ja- mais devem tornar objetos136.
Nessas condições o valor da corporeidade, muitas vezes, torna-se nulo. Ao outro não se olha a partir de sua subjetividade, aliás, dentro de um sistema assim, essa não deve existir, resta então a salientada condição do homem como objeto nas mãos de manipuladores e explo- radores. Pior de tudo, acrescente-se ainda, a concordância e o silêncio perante tais situações. Há, de certa forma, conformidade social com o desprezo dos corpos dentro do grande corpo denominado sociedade. O resultado disso se vê no aumento gradativo dos problemas sociais,
134 GESCHÉ, Adolphe. A invenção cristã do corpo. In. GESCHÉ; SCOLAS. Corpo, caminho... p. 52. 135 Ib. 52.
pois cada dia mais anestesia-se consciência das pessoas acerca da corporeidade e do valor do homem como sujeito redimido e resignificado por Cristo.
Em primeiro lugar é necessário admitir que a pessoa humana é algo origi- nal na ordem da criação; supõe qualidade nova na ordem dos seres; supõe uma espé- cie de “salto qualitativo” com relação aos outros seres. Só se pode formar uma mo- ral partindo-se da estrutura pessoal do homem como realidade nova na ordem da cri- ação137.
Tal verdade sobre o homem no corpo e a sua relação com Deus infelizmente, em al- guns casos, se ignora e se esquece que depois da encarnação “maltratar o corpo do outro é maltratar o corpo de Cristo”138. Esse elemento determinou a pregação de Jesus a respeito da dignidade humana e identificação dele com cada homem em particular. (cf. Mt 25,40). E os textos do Novo Testamento apresentam como tal experiência foi seguida nas comunidades apostólicas (cf. 1Jo 2,9; 2,11; 1Cor 8,12; 11,17-34). Deste modo, não seria absurdo fomentar uma retomada do valor da corporeidade a partir do envolvimento social, pois “o próximo é o corpo de Cristo e, por conseguinte, ele é o caminho que devemos tomar para encontrar o Se- nhor”139.
Esse próximo, corpo de Cristo, vivente corpóreo precisa ser visto e valorizado. A comunidade deve torná-lo sujeito e não objeto. Abri-lo para o mundo e mostrar a ele o valor da vida ensinando-o a viver, promovendo na sua subjetividade algumas vezes negada, a partir de corporeidade. Pois se faz preciso dar “conta que a pessoa só existe e vive de verdade quando se torna uma presença aberta ao mundo e às outras pessoas. Os outros não são uma limitação; são a possibilidade de ser e crescer”140.