Fazer etnografia é também um exercício de saber lidar com perdas. Ou, antes disso, é um exercício de saber o que perder e o que foi perdido. Refiro-me aqui, por primeiro, ao trabalho com o material etnográfico bruto, e a como lidar com os dados empiricamente obtidos – aqueles mesmos dados que alguns dizem “coletar” (como se eles brotassem no solo ou nas árvores). Quando Geertz (2002 [1988]) aponta que trabalhar o texto narrativo requer do etnógrafo desprover-se de qualquer possível afinidade que se possa construir com o seu objeto durante o trabalho de campo, é preciso considerar que a ponte (ou o precipício?) entre o “lá” e o “aqui” será percorrida sempre a mercê das fortuidades do campo. Assim como a velha sabedoria nos ensina que nada é para sempre, penso então que, se é para “estar lá”, é preciso também permitir-se estar lá de fato – e enquanto há tempo para isto – e considerar que esse “estar lá” se constitui fundamentalmente por estar lá com os seus “outros”. Em dado momento, quando já nos encontramos situados e aclimatados dentro do campo de pesquisa, a parcimônia de atentar ao nosso “objeto de pesquisa” apenas como objeto de pesquisa torna-se definitivamente impraticável.
Na manhã de quinta-feira, 19 de maio de 2011, fui acordado por volta das 6h por um telefonema de Carla, da AAPA, avisando-me que Beth Câmara, talvez a mais notória dentre suas voluntárias, havia falecido. O fato é que ela já estava em coma havia uma semana e todas elas já sabiam que suas chances eram remotas após o AVC (acidente vascular cerebral) que sofrera. Na verdade, nem todo mundo: peguei-me recorrendo a preces, por algumas vezes, durante os dias que antecederam o ocorrido – pois nem mesmo nos tempos de militância político-partidária mais aguerrida, nunca me julguei ateu convicto. Ao mesmo tempo, eu
também me questionava se não estava sendo, de algum modo, egoísta ao temer a perda de Beth, por sua eventual morte representar uma perda significativa para a minha pesquisa em andamento.
Em dois anos acompanhando a AAPA, a Arca de São Francisco e, depois, o DEDIA, percebi o significado que Beth tinha para a causa animalista na região, para as demais voluntárias e, nos últimos meses, para a própria cidade, uma vez que o seu caso havia sido divulgado pela imprensa local quando da iniciativa de uma campanha que angariasse fundos, ração e materiais de limpeza para a manutenção de sua chácara e dos mais de 200 animais que lá ela abrigava. Também, durante todo esse período em campo, sempre empreendi um grande esforço para entender o que levava essas mulheres a abdicarem de tantos “bens” (vida familiar, maternidade, casamento, trabalho, patrimônio material) para dedicar-se a uma causa nitidamente inglória e desprovida de concretas recompensas.
Quando afirmo ser essa causa inglória não me refiro a uma identificação ou um suposto “envolvimento” meu com o esforço encampado pelas voluntárias da AAPA, da Arca de São Francisco, do DEDIA ou de qualquer outro grupo ou pessoa que a ele também se preste. Para entender isto, basta perceber que não há reconhecimento ou recompensa alguma por esse empreendimento que subtrai delas boa parte do tempo diário e a própria integridade física – essa talvez o “bem” mais importante. Entretanto, uma vez situado no campo de minha pesquisa, também não recuso sumariamente essa possível – para não dizer inevitável – proximidade, que pode ser considerada parte de meus recursos metodológicos (e não a minha metodologia propriamente dita). Suponho que qualquer pessoa que desempenhe o exercício da etnografia “de perto e de dentro” – seja qual for o contexto – tenda a concordar com estas ponderações. Ou, ao menos, espero que concorde com Jeanne Favret-Saada:
Como se vê, quando um etnógrafo aceita ser afetado, isso não implica identificar-se com o ponto de vista nativo, nem aproveitar-se da experiência de campo para exercitar seu narcisismo. Aceitar ser afetado supõe, todavia, que se assuma o risco de ver seu projeto de conhecimento se desfazer. Pois se o projeto de conhecimento for onipresente, não acontece nada. Mas se acontece alguma coisa e se o projeto de conhecimento não se perde em meio a uma aventura, então uma etnografia é possível (FAVRET-SAADA, 2005: 160).
Penso que, em alguns momentos do trabalho de campo, posso ter sido eventualmente “afetado” – no sentido etnográfico atribuído por Favret-Saada ao termo. Tal como, em outros, senti-me “fagocitado” por ele, o campo: impelido a adentrá-lo como se dele fizesse parte de uma forma mais “orgânica”, digamos assim. Minha maior dificuldade, no entanto, em lidar com a tarefa etnográfica era saber (ou definir) quando eu deveria concluir cada etapa do
campo sendo que ele estava sempre ali, praticamente na porta de casa, acontecendo. Imaginei que um “envolvimento” (muito embora o termo não me pareça o mais adequado) ocorreria mais cedo ou mais tarde. Sou levado a entender que a distância geográfica é um fator de fundamental importância para o tipo de ofício ao qual nos prestamos. Mas será que ele garante o pretendido “distanciamento” epistemológico? E será que “distanciar-se” completamente é o mais adequado – ou o único – procedimento? O que eu havia vivenciado até aquele momento me sugeria que deveria haver algo mais além do que apenas “experiências próximas” e “experiências distantes” (GEERTZ, 1997 [1983]: 85-107), aqui envolvido. Ou, no limite, que ambas as instâncias do trabalho etnográfico não estariam necessariamente cindidas ou claramente delimitadas.
Estive no velório e sepultamento de Beth. A princípio poderia ser para mim uma despedida como qualquer outra, de alguém que não fosse um ente mais próximo ou uma amizade de mais longeva data. Ou poderia eu lamentar o fato de que muitos dados etnográficos preciosos haviam partido junto com aquela minha “informante”. Ainda assim, pude conviver com Beth por um período considerável. Ou, ao menos, o tempo suficiente para que, certa vez, eu pudesse ouvir dela: “Que bom que o Guilherme ‘engrenou’ aqui com a gente”. E foi justamente quando ela havia dito isso que eu me senti seguro para lhe pedir que me permitisse conhecer a sua chácara, com todos os seus animais e, principalmente, conhecer um pouco mais ela própria.
Mas voltemos ao contexto do velório. Mesmo deixando o meu “uniforme” do lado de fora daquele ambiente fúnebre, mantive-me prestando atenção em gestos e falas de pessoas que entravam e saíam e das que lá permaneceram durante todo o tempo. Aquele não era para mim um evento etnográfico, eu não estava ali buscando “dados”. Mas ainda que não o fizesse – tampouco o quisesse fazer – naquele momento, eu me pegava tentando prestar atenção às conversas próximas à sala do velório, que versavam não somente sobre Beth, mas também sobre seus bichos e o destino incerto deles a partir da ausência dela. Por algum instante, manifestei certa inquietude pelo fato de não ter em mãos meu caderno de campo naquele momento.
Tentando dispersar meus ímpetos etnográficos, procurei, então, voltar minhas atenções menos às pessoas e mais aos habituais detalhes do funeral (a fim de enxergá-lo como um funeral, no sentido estrito do termo). Quando olhei para uma imagem de São Francisco de Assis, colocada sobre o caixão, aos pés de Beth, recordei-me que havia imagens de São Francisco de Assis nas salas de esterilização onde a AAPA e a Arca de São Francisco desempenhavam seus trabalhos, e perguntei-me internamente por que eu não havia explorado
esse aspecto religioso em minha abordagem do tema. Havia também um cão de pelúcia posto à altura do ombro de Beth, e que me remetia aos logotipos das associações protetoras, em que os animais eram representados sempre por traços infantilizados. Talvez eu também devesse me atentar mais a todas essas representações – foi o que conjeturei naquele momento. Mas eu insistia comigo mesmo que eu não estava ali em busca de dados. Voltei meu olhar, então, para as coroas de flores penduradas nas paredes, mas elas traziam dizeres sobre a vida de Beth e sua dedicação à causa pelos animais. O padre chamado para o velório, em seu pronunciamento, fez menção ao amor que ela teve por seres “não semelhantes a nós, mas igualmente dignos de nosso afeto e proteção”. Em seguida, a pedido de Adriana, da AAPA, proferiu a célebre oração de São Francisco de Assis.
Velórios geralmente são longos – para assegurar ao máximo possível de pessoas a oportunidade da despedida – e, por isso, repletos de lapsos de monotonia. É quando algo próximo a um filme ou um álbum de recordações parece permear nossa memória, e tentamos resgatar os momentos em que estivemos com a pessoa que partiu. Sempre achei muito difícil trabalhar com as voluntárias da AAPA e acho que, de algum modo, transmiti isso em meus relatos. Como se não bastasse serem demasiadamente reticentes (e não menosprezo aqui o significado das reticências), elas se mostravam muito rudes em alguns momentos. Não gostavam de se expressar, e senti algumas vezes que elas talvez nem sempre soubessem expressar o que desejariam. Beth era a antítese de tudo isso: quase sempre muito expansiva e bem-humorada, apesar de todos os reveses trazidos para manter seus mais de 200 animais em sua chácara e ainda desempenhar seu ativismo com a AAPA. Era muito tranquilo conviver com Beth a ouvir, por exemplo, sobre o temperamento específico desse ou daquele animal, os nomes correlatos que ela dava para filhotes de uma mesma ninhada (numa delas, cada animal recebera o nome de um ritmo musical: Twist, Bolero, Chachacha...) ou mesmo quando narrava a discussão que tivera com um veterinário por este não lhe querer prestar o plantão – que ela reivindicava ao seu bicho doente como uma pessoa na fila do SUS, indignada com o descaso destinado a um parente. Numa entrevista dada para um site de notícias de Araraquara, ela disse sobre seus bichos: “todos eles têm sua história, e eu conheço todas elas”.
Sendo assim, histórias não faltariam. Mas eu sabia que faltava ainda convencê-la a contar a sua própria história, desde os tempos de comissária de bordo da empresa aérea Varig. Foi nessa época que Beth começou a sua luta, dando atenção aos animais que eram abandonados nas proximidades do Aeroporto de Congonhas. Para isso, considerei que precisaria passar uns dias na chácara dela, ajudando-lhe no seu trabalho diário de manutenção do local. Lá, ela chegava a passar de seis a oito horas diárias, e fazia tudo sem ajuda alguma
de outrem. Ninguém sabia, aliás (à exceção de poucas pessoas da AAPA), onde era essa chácara. Isso era para evitar o que, ainda assim, invariavelmente acontecia na vida dela: encontrar frequentemente animais debilitados ou ninhadas de filhotes à porta de sua residência, na cidade.
Quando eu lhe manifestei que estava disposto a passar alguns dias na propriedade onde se encontravam seus bichos, ela aprovou de imediato a ideia e me disse: “Vamos fazer assim, a gente combina um lugar para você me esperar. Eu passo de carro e te pego”. Havia um esforço dela em “despistar” todo mundo em relação ao endereço da chácara. Preparei-me, então, para essa estadia e parecia até que, pela primeira vez, eu estava fazendo uma expedição etnográfica para longe: providenciei um colchonete, frascos de repelente e planejei levar dois sacos de 25 kg de ração, pois Beth também mantinha a chácara através de doações. Isso se deu 12 dias antes do AVC sofrido por Beth. E, por mais que eu tenha convivido consideravelmente com ela dentro da AAPA, essa nossa conversa particular que eu planejava será sempre mais uma lacuna deste trabalho. Sabe-se que até mesmo algumas etnografias muito conhecidas trazem suas lacunas. E, inclusive, alguns de seus autores têm a proeza de apontar os limites e as perdas no trabalho de campo, seja por razões temporais,
Por não ter estado na área em outubro-novembro, não assisti ao tempo das pescarias coletivas com timbó. Tampouco pude participar de um importante movimento sazonal Araweté, o awacï motiarã (“amadurecer o milho”), quando toda a população abandona a aldeia e acampa na mata, vivendo da caça e da coleta, na época das chuvas, entre o plantio do milho e seu amadurecimento (dezembro-fevereiro) (VIVEIROS DE CASTRO, 1986: 77).
ou devido à já mencionada reticência “nativa”,
Hoje em dia é extremamente difícil obter informações sobre vítimas de magia de vingança. Os próprios Azande nada sabem a respeito, a não ser que sejam membros do círculo mais íntimo dos parentes de um homem assassinado. Quando se nota que esses parentes cessaram de observar os tabus do luto, isso indica que sua magia cumpriu a missão, mas de nada adianta perguntar-lhes quem foi a vítima, pois eles nada dirão. Trata-se de um assunto que concerne apenas a eles, e, além disso, de um segredo entre eles e seu príncipe (EVANS- PRITCHARD, 2005 [1937]: 37).
ou até mesmo pela escassez – e possível obsolescência – dos dados,
Entretanto, a prova certa ou a refutação de qualquer teoria dessas exigiria o conhecimento de fatos históricos que na verdade não têm registro e, o que é mais sensato, muitos antropólogos afirmariam que tanto é inútil quanto enganoso especular sobre aquilo que não se pode conhecer. Desse ponto de vista, este capítulo é, quando muito, uma total perda de tempo (LEACH, 1995 [1954]: 273).
Com a partida de Beth, a AAPA se viu momentaneamente fragilizada. Não se tratava simplesmente de uma voluntária a menos (como se isso pudesse ser pouco para elas). Beth era um sopro de incentivo dentro da AAPA, apesar de todas as dificuldades e todas as angústias trazidas pelo trabalho a que elas se dedicavam. O ocorrido trouxe uma incógnita, vinda em forma de um encargo a mais: o que seria agora da chácara com todos aqueles bichos? Isso foi depois parcialmente contornado com a criação da ONG Bichos & Caprichos, que passou a administrar os animais de Beth e promover a adoção responsável do maior número possível deles. Mas sem Beth, o ambiente da AAPA não mais voltaria a ser o mesmo.
Pouco antes da chegada dos agentes funerários, Thiago, filho único de Beth, chegou próximo a mim e me pediu: “Você é da AAPA, não é? Eu quero que você leve uma das coroas nos braços para a caminhada até o sepultamento. Pegue aquela com as frases sobre os animais e fique ali, junto do caixão. Quero alguém representando a AAPA nessa última caminhada da minha mãe”. Atendi ao seu pedido. Não me furtaria a isso, ainda que eu realmente fosse da AAPA (ou deveria eu dizer-lhe que não era?). Ademais, a coroa de flores era muito pesada até para mim, e ele certamente não pediu isso para nenhuma das voluntárias da AAPA primeiramente por serem todas mulheres, e depois por se encontrarem visivelmente sem forças naquele momento, em estado de desconsolação, emocionalmente afetadas (sem aspas) pela perda. Mas afetado, talvez eu também estivesse.
Muito embora, como afirmei acima, eu tivesse relutado em encarar a perda de Beth como um evento etnográfico “a mais” em meu trabalho (e que viesse a compensar os dados “a menos” aqui implicados), não escapei a uma reflexão acerca do ocorrido, enquanto parte do campo da pesquisa. Sou levado a pensar, a partir dessa minha própria experiência, que qualquer pessoa que se empenhe num exercício de etnografia, concluirá, mais cedo ou mais tarde, que regras ou métodos para a sua realização são dados pelo próprio fazer etnográfico. Se essa última parte do primeiro capítulo não contribui para o esclarecimento de minha metodologia de trabalho, espero que, ao menos, ela sirva aqui como uma menção à importância de Beth durante a minha pesquisa, a despeito de nosso encontro marcado que não pôde acontecer.