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DERS BİLGİLERİ DERS BİLGİLERİ

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DERS BİLGİLERİ DERS BİLGİLERİ

modulado por uma realidade existencial que Boff denomina de “cativeiro

inocente“88, aquela situação criacional, existencialmente paradoxal e ambígua em que todo ser humano, chamado para a totalidade, experimenta simultaneamente a realidade do limite e da fraqueza. Não se trata de pecado, nem resultado de qualquer opressão exterior, mas de sua condição de criaturalidade no mundo.

No entanto, tal ambigüidade, em si mesma mais um desafio que dimensão negativa, se desdobra na gama humana de liberdade, abrindo, por isso, a possibilidade do exercício indevido do então limite inocente. A realidade humana, pessoal e social, de liberdade compreendida e vivenciada como egoísmo, num jeito de viver estrangulado pela ganância, competição, pecado... testemunha que, a partir daí, instala-se para o ser humano uma escravidão moralmente má, um cativeiro culposo: “ruptura do homem com seu sentido

transcendente e dilaceramento da tecedura social; não conseguimos mais ver a face do outro como irmão”89. Todas as dimensões do humano, então, são atingidas e modificadas por tais opções anti-éticas.

Fala-se então da necessidade de uma libertação integral da pessoa humana. “Por integral entendemos que a libertação passa por um processo

onde cada etapa alcançada está aberta a um mais, até a plenitude escatológica”90.

No entanto, a crise da pessoa e da humanidade pode se tornar também a oportunidade de um novo salto complexificador, e por isso, mais evolutivo, mais perfeito, possivelmente caracterizado pela interdependência, pelo crescimento na solidariedade, sinergia e cooperação, pelo cuidado, pela

86 Igreja: carisma e poder, p. 47.

87 Graça e experiência humana; A graça libertadora no mundo, p. 141. 88 Teologia do cativeiro e da libertação, p. 94.

89 Ibid., pp. 55-56. 90 Ibid., p. 47.

fraternidade, pela responsabilidade, espiritualidade e sabedoria, por um novo mundo, por uma nova civilização91...

Dessa forma, a história do mundo todo e de sua evolução passa a ser entendida sob a ótica libertadora, e todo processo de libertação histórica, como movimento de progressiva complexificação cósmica e de hominização. Assim, a história de todo o cosmos, desde seu surgimento há 4,44 bilhões de anos, bem como do homo habilis, há aproximadamente 1,5 milhão de anos, e depois, desde a noogênese até o homem informatizado de hoje, constrói um processo de libertação. Da mesma forma, todo progresso, todas as conquistas materiais e espirituais da humanidade constituem sinais de um movimento globalizante de evolução cósmica e de hominização.

Mas o planeta, como meio ambiente natural do ser humano, também experimenta as conseqüências do cativeiro culposo da humanidade. O pecado leva o ser humano a desrespeitar não só a Deus e ao próximo, mas também a natureza, pensando que seus recursos são inesgotáveis e que, consequentemente, o progresso pode ser ilimitado. Mas a natureza se rebela e mostra sinais disso em fenômenos desastrosas que assolam o planeta e assustam a humanidade que, não obstante isso, faz resistência a mudanças: a diminuição dos recursos hídricos, o superaquecimento global, os tufões, os tsunamis, os degelos das calotas polares, a desertificação, as secas, as enchentes... Ou seja, pelo pecado, o ser humano tem o poder de destruir-se a si mesmo e ao planeta.

Na busca das possíveis causas desse perigo descobre-se que elas são estruturais e complexas, e não se rendem a uma análise simplista. Mas, pelo menos um princípio se mostra com clareza como causa da violência generalizada à vida humana e planetária: a competitividade e a concorrência ilimitadas92, sinais inequívocos do estado humano de cativeiro culposo.

Ao referir-se ao processo de remissão do humano por sua atitude de ruptura generalizada, isto é, por seu pecado, Boff observa que o Concílio de Trento não articula a “justificação” do pecador em termos processuais e históricos, razão pela qual é melhor traduzir hoje “justificação“ por “libertação“: “é a mesma realidade, mas vertebrada em sua dimensão humana e histórica”93. A morte de Cristo na cruz não tem o sentido de apaziguar a ira de Deus, mas de libertar integralmente a pessoa humana. Libertação, portanto, que significa

re-ligação de todos os seres entre si e com o Ser essencial94.

Na origem do processo de libertação está Deus, e compete à teologia debruçar-se sobre essas manifestações e buscar nelas o que de teologal apresentam. Por essa razão, deve a teologia integrar fé e vida, que se desdobra em aspectos de economia, política, cultura, ecologia..., realidades que são “articulações do Mistério que por elas se dá e se retrai. A libertação

91 Homem: satã ou anjo bom?, p. 220.

92 Ibid., p. 21; Terra e Humanidade: uma comunidade de destino, Revista Eclesiástica Brasileira, vol.

LXX, fasc. 277: 186-187.

93 Graça e experiência humana; A graça libertadora no mundo, p. 183. 94 Homem: satã ou anjo bom?, p. 136.

também é então teologia“95, graças a seu caráter simultaneamente antropológico e teologal.

A teologia bíblica, associada a uma antropologia teológica, lembra continuamente que todas as dimensões da história estão integradas no plano e desígnio de Deus e que o humano é ser de abertura ao Transcendente, vivendo essa experiência em suas concreções religiosas, sociais, políticas, culturais, ideológicas... O caráter de convivência da dura realidade da opressão humana e da contemporânea agressão ao meio ambiente com a esperança do humano e da re-ligação e re-irmanização com todo o cosmos, faz da mensagem cristã uma mensagem libertadora, que leva Boff a integrar os dois conceitos, falando de uma “teologia do cativeiro e da libertação“.

Quando, nos anos 90, fatos históricos decisivos já citados levam a teologia da libertação a perceber a necessidade de articular-se com o discurso ecológico, ampliando seus horizontes, ela se vê urgida a recriar categorias de análise. Descobre que teologia e discurso ecológico partem de um mesmo princípio: o respeito (ou desrespeito) à vida. Ambos procuram a libertação: a primeira, dos pobres; o segundo, da terra. Faz-se urgente descobrir a aproximação dos dois discursos, pois, ainda que diferentes, eles se complementam. A opressão social e coletiva leva também à opressão planetária. Mas o referencial é o mesmo, em ambos os casos: opressão/libertação, numa perspectiva globalizadora.96

O paradigma da ecologia amplia a compreensão de libertação, conjugando a práxis de transformação sócio-político-econômica com a prática ecológica. Com seu fundamento dialogal, integrador e teoantropocósmico, busca a religação de todas as realidades numa fraternidade cósmico-universal.

Se, ao modo dos teólogos do mundo inteiro que, nos tempos pós- conciliares se perguntam numa preocupação epocal “como ser cristão num

mundo crítico, adulto, funcionalista?”, e de Karl Rhaner que se questiona, a

partir da secularização, sobre como pode um homem moderno honestamente crer97, nos primeiros momentos da teologia da libertação se pergunta como se pode ser cristão num mundo de miseráveis98, como enfrentar os desafios que o ser humano encontra neste continente, como resgatar a força de libertação da fé cristã99.

95 América Latina:da conquista à nova evangelização, p. 86; cf. tb. A salvação nas libertações; o sentido

teológico das libertações sócio-históricas. In Leonardo BOFF e Clodovis BOFF, Da libertação; O teológico das libertações sócio-históricas, pp. 24-25; cf. tb. A originalidade da Teologia da Libertação em Gustavo Gutierrez, Revista Eclesiástica Brasileira, vol. 48, fasc. 191:538.

96 “Da libertação e ecologia: desdobramento de um mesmo paradigma”, in Marcio F. dos ANJOS (org.),

Teologia e novos paradigmas, p. 76.

97 Curso fundamental da fé; Introdução ao conceito de cristianismo, p. 12.

98 Citado em A salvação nas libertações; o sentido teológico das libertações sócio-históricas. In Leonardo

BOFF & Clodovis BOFF, Da libertação; O teológico das libertações sócio-históricas, p. 44; cf. tb. Igreja: carisma e poder, p. 45.

99 ”A teologia e a Igreja para libertarem não precisam se filiar a uma ideologia revolucionária ou

socializante...O que a teologia e a igreja necessitam é acionar o tesouro de sua própria riqueza libertadora e tematizar o que já está implÍcito dentro de seu próprio horizonte” (Teologia do cativeiro e da libertação, p. 68).

5.1- A pobreza como esquizofrenia radical humana e o processo de libertação

A expressão histórica mais evidente da situação de cativeiro e pecado, segundo Boff, é o empobrecimento da sociedade, de modo que “hoje, é na

dimensão social que Deus-Pai é ofendido maximamente”100. A prosperidade e o desenvolvimento de uma sociedade não se julgam por suas conquistas científico-técnicas, mas pela qualidade de vida de seu povo; por isso, o critério de julgamento de uma sociedade são seus pobres101. O fato de existirem constitui uma mancha no esforço humanizante de qualquer sociedade.

Através da pobreza, a pessoa experimenta basicamente a morte, desde a de seus projetos até a sua própria morte biológica, e a não-solução dela mantém o humano numa primitividade pré-histórica102. A pobreza sócio- econômica desestrutura a pessoa em todas as suas dimensões. Mas, muito embora certo tipo de reflexão filosófica, sociológica, mas inclusive espiritual e teológica tenha tentado e conseguido por tempo relativamente longo dar uma característica mística à pobreza, num reforço ao sistema opressor vigente, o potencial evangélico volta hoje a questionar e a mostrar com a Bíblia que a pobreza jamais pode ser um bem em si mesma.

Numa visão sócio-analítica dessa realidade, verifica-se que a ciência e a técnica se transformam em instrumentos poderosos dessa escravização e ajudam a manter na dependência escravizante a América Latina e outros países de periferia. Uma visão meramente positivista do mundo se manifesta no acúmulo do saber e do poder técnico nas mãos de poucos, no empobrecimento de nações inteiras, na destruição do meio ambiente, no uso militar das descobertas científicas, nas manipulações genéticas, na ideologização dos meios de comunicação de massa, etc... O ethos cultural dominante não permite ao humano ser mais humano, pois, além de anti- evangélico é também anti-humano. À semelhança do escritor bíblico que lança sua lamentação aos céus, gritando que “já não vemos nossos sinais, não

existem mais profetas, e dentre nós ninguém sabe até quando” (Sl 74,9), Boff

refere-se à sociedade humana corrompida em sua estrutura funcional, dizendo que já “não há nenhum recanto em que ela se encontre sadia e simétrica...

todos vivemos no cativeiro que exaspera a ânsia de libertação sempre buscada e quase sempre frustrada; vivemos numa situação de decadência estrutural e institucionalizada”103.

O despertar para o mundo dos pobres e a emergência da consciência libertadora na América Latina se concretizam historicamente especialmente na esfera sócio-política. Aí a libertação encontra uma concreção prioritária. É a partir dessa ótica que a totalidade do humano na América Latina vê, entende e filtra sua compreensão de todas as demais realidades; ao mesmo tempo que se torna critério de veracidade de todo esforço de libertação sócio-política.

100 Pai Nosso; A oração da libertação integral, p. 62. 101 Teologia do cativeiro e da libertação, p. 239.

102 Saber cuidar; Ética do humano – compaixão pela terra, 141. 103 O Pai Nosso; A oração da libertação integral, pp. 55-56.

Historicamente, a Igreja sempre tem se voltado para a problemática da pobreza. Paulo fala com clareza dessa preocupação (cf. Gl 2,10), e a história da Igreja está repleta de casos e situações que revelam a compreensão do pobre inserido no seu mistério104. Na América Latina, essa problemática atinge uma maturidade teológico-pastoral e sócio-analítica, numa compreensão do pobre como elemento de centralidade teológica político-transformadora.

O processo de desumanização proveniente do empobrecimento atinge tanto o pobre quanto o rico; àquele, pela exclusão generalizada; a este, pelo enrijecimento na insensibilidade e na falta de solidariedade. Por isso, também o processo de libertação deve fazer caminho inverso: criar no rico espaço para a solidariedade e a justiça, e devolver ao pobre seus direitos humanos mais fundamentais.

Mas a liberdade não consiste apenas em dizer não às opressões sócio- político-econômicas, às dependências de sistemas ideológicos globais, aos comportamentos tradicionais mais conformes à lógica da exclusão que à da dignidade... e nem é uma simples qualidade humana, ou uma possibilidade de optar entre uma realidade ou outra. O processo libertário é um dinamismo ântropo-teológico universalizante, pois, na origem de toda opressão e alienação está uma “esquizofrenia radical que afeta a raiz da personalidade

humana”105, a “corporificação de um desvio mais profundo do homem,

atingindo o sentido fundamental de ser e de viver compreendido como poder- conquista-dominação, gerando opressão, repressão, e regime global de cativeiro”106. Emerge historicizado um sistema de iniquidade, de desumanização, de exclusão de tantos e de acumulação de riquezas para poucos; as pessoas interiorizam o processo pecaminoso do sistema, assumem a sua filosofia e se tornam seus agentes de manutenção e continuidade107.

Por isso duas pontas do existir humano se tornam o foque de uma real libertação: o direito à própria identidade e história, e a vocação humana à convivência social fraterna e solidária. Então, muito embora o processo se expresse polarizadamente através de termos da linguagem sócio-política, na verdade ele representa a busca de uma libertação última, global e totalizante. Ele é a concretização histórica da libertação de Deus. Então se entende que a libertação é simultaneamente humana -porque efetivada pelo humano em sua liberdade- e de Deus, que move e penetra a ação humana108.

5.2- O planeta “terra” à espera da libertação

Mas, em A águia e a galinha, Leonardo inicia um processo de autocrítica da teologia da libertação. Conceitua que esta deve ser, ao mesmo tempo, libertária e ecológica: é necessário libertar a pessoa em todas as suas

104 E a Igreja se fêz povo; Eclesiogênese: a Igreja que nasce da fé do povo, pp. 34 e 35. 105 Teologia do cativeiro e da libertação, p. 106; cf. tb. O rosto materno de Deus, p. 156.

106 Teologia do cativeiro e da libertação, p. 141; cf. tb. O Pai Nosso; A oração da libertação integral, pp.

133-134.

107 O Pai Nosso; a oração da libertação integral, p. 134; cf. tb. Graça e experiência humana; A graça

libertadora no mundo, p. 109.

dimensões na lei do amor e da compaixão. Por isso, não dá para pensar em libertação sem o referencial cósmico.

Inicialmente a teologia da libertação não comporta uma preocupação ecológica explícita. No entanto, não é difícil perceber que suas intuições básicas estão prenhes da questão. Embora pensado dentro de um horizonte histórico-social bem determinado, “o pobre e o oprimido são membros da

natureza, e sua situação representa uma agressão ecológica”109. Sem dúvida, a opção pelo pobre e por sua libertação continua sendo o eixo fundamental da teologia da libertação. Não há dúvida que no processo predatório dos recursos naturais ao longo da história da humanidade, são os pobres os mais afetados pelos seus efeitos. Então, é a partir dessa premissa que a teologia da libertação trata da questão ecológica, pois, a lógica que justifica a exploração e abuso do pobre é a mesma da exploração humana irracional e impiedosa da natureza.

Com este novo paradigma, amplia-se o horizonte da teologia da libertação. Compreende-se que pobreza e questão ecológica compõem harmonicamente a questão fundante desse enfoque teológico. Os pobres e a terra se encontram num só e mesmo grito, e a teologia deve sensibilizar-se à sua escuta, pois, a criatura oprimida geme dores de parto, aguardando a libertação e a glorificação junto com os filhos de Deus (cf. Rm 8,19-21). A opção pelos pobres, dado tão marcante da teologia na América Latina, inclui a criação em sua situação de ameaça, de desrespeito e de perigo.

Por isso, toda a humanidade está convocada a um pacto sócio-ecológico que busque salvar o planeta, a partir do estabelecimento de uma “democracia

sócio-cósmica”110. Esta consiste na participação da natureza do convívio dos homens, e estes, do convívio cósmico. Pois a terra está articulada com a totalidade do cosmos, e homem e mulher são expressão inteligível e amorosa do universo. Por isso vida do planeta, que depende, ao mesmo tempo de forças incontroláveis da natureza, e de outras controláveis pela responsabilidade humana, é essencial para a sobrevivência da espécie humana.

A marca da ecologia presente na teologia de Boff segue o processo de amadurecimento da própria compreensão de ecologia, que de uma preocupação regionalizada com a preservação de algumas espécies (baleias, urso Panda, mico-leão-dourado...) e das florestas tropicais, evolui para uma outra globalizada que entende que toda a terra está ameaçada, doente, e precisa ser curada. A partir dessa nova compreensão se desenvolve então uma vigorosa crítica social111.

Desde o surgimento do homo habilis, há mais de 1,5 milhão de anos, a relação humana com a natureza tem estado desequilibrada. O ser humano é hoje “um asteróide terrível” que devassa a terra. Irrompe o risco da falta de

109 “Da libertação e ecologia: desdobramento de um mesmo paradigma”, in Márcio F. dos ANJOS,

Teologia e novos paradigmas, p. 80.

110 Ibid., p. 86. 111 Ibid., p 78.

respeito e da negação da alteridade da natureza112. Apesar de a intervenção planejada e sistemática nos mecanismos da natureza pela civilização moderna trazer imensos benefícios, tem custado à terra a modificação em sua base físico-química, a danificação da biosfera, da biodiversidade e a possibilidade da auto-destruição. Tudo na vida social (saúde, educação, cultura, religião...) gira ao redor desses interesses inescrupulosos, qualquer que seja o custo social ou ecológico a se pagar. O ser humano é mero reprodutor desse dinamismo que faz tudo girar ao redor da competição. Enfim, cosmos e sociedade humana, tudo parece caminhar para uma situação de desintegração generalizada. Após séculos de intervenções desse tipo só hoje se pode perceber mais claramente as conseqüências desses gestos exploradores.

Concluindo, diga-se que, mais que temas, pobre e natureza são para Boff “sua própria identidade, sua própria essência, humana e cósmica ao

mesmo tempo”113. A existência de mais de três bilhões de pessoas no mundo vivendo em extrema pobreza e a violência contra a terra gerando um irracional e impiedoso desequilíbrio constituem dois parâmetros que sangram como duas feridas abertas no coração e no pensamento do teólogo. Por isso, para ele, são estes os dois principais desafios do cristianismo hoje.

5.3- Alternativas de libertação humana e ecológica

Ao pessimismo, frustração e indignação despertados pela COP 15 de Copenhague114 ao tratar da questão do aquecimento global, Boff acrescenta uma análise negativa das alternativas comumente propostas como soluções para a questão da desintegração antropocósmica115. Por isso, o teólogo propõe aquela postulada pela que vem sendo chamada de Carta da Terra, com sua opção radical por um modo sustentável de vida em todos os níveis. Ela tem a visão que melhor sintetiza as aspirações da humanidade hoje. Os grupos que formam essa “Sociedade de Sustentação de Toda a Vida”, oriundos da Carta

da Terra, são os únicos resquícios possíveis para a continuidade do projeto

civilizatório humano em caso de confirmação do desastre humano-ecológico que se anuncia116.

Antes de tudo, é fundamental ter clareza de que a situação de tragédia é real; depois, se deve resistir ao mal, colocar-se consciente e absolutamente a favor do bem; entender que o mundo não sai pronto das mãos de Deus, mas por se fazer. Jesus de Nazaré, independentemente da fé que alguém possa ter, é sempre modelo e inspiração de enfrentamento do mal: não explicando-o,

112 Virtudes para um outro mundo possível; vol. II: Convivência, respeito e tolerância, p. 55; Homem:

satã ou anjo bom?, p. 58.

113 Juan José TAMAYO, Leonardo Boff: no horizonte da teologia da libertação e da ecologia, in Juarez

GUIMARÃES (org.), Op. cit., p. 86.

114 Terra e Humanidade: uma comunidade de destino, in Revista Eclesiástica Brasileira, vol. LXX, fasc.

277: 187.

115 O social-liberalismo, também chamado neokeynesianismo, que entende que o motor da economia é o

mercado, é contraditório por sua opção pelo mercado; o ecossocialismo, que postula o cuidado do social e do ecológico com aberturas para outras formas de convivência, tem amplas possibilidades se não vier a perder de vista o biológico; o pós-capitalismo, que desloca o sentido da economia do acúmulo para a produção dos bens necessários à vida, é irrealizável por falta de vontade política e social...

nem teorizando sobre ele, mas combatendo-o e mostrando-se compassivo para com os sofredores. Optar por ele é entrar na luta por seus mesmos ideais.

Nesse tempo de crise humana e ecológica, para que a libertação possa de fato ser real, exige-se de todos a vivência de três virtudes: a audácia (coragem de tomar decisões e de pôr em prática iniciativas arrojadas), a prudência (atitude de escolher o melhor caminho, com mais vantagens e menores riscos) e a temperança (sabedoria que sabe dosar equilibradamente audácia e prudência)117.

No entanto, há valores de resistência capazes de remeter o humano de volta à originalidade de sua existência: a cooperação, a amizade, o amor, a compaixão, a devoção, o cuidado..., valores que fazem emergir a humanidade de seu estado primitivo de animalidade para a espécie humana. São os únicos capazes de fazer frente aos “valores” da competitividade do interesse egoísta e

Benzer Belgeler