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“Vivemos um tempo de mundo em que se apregoa que uma das características essenciais é o desenraizamento. A desconstrução dos mitos (mesmos os da ciência), a volatização do capital, a mercatilização do ser humano, o esquecimento da pessoa, o “fim da história”, enfim”.

(BRANDÃO, 2010, p. 13).

Atualmente vivemos em um mundo marcado por dinâmicas e profundas transformações que promovem, a todo o momento, o surgimento e a finalização de teorias, formas de comportamento, moda e estilos de vida que nos remetem a pensar na fragilidade das estruturas sobre as quais a sociedade encontra-se amparada. Após a chegada do novo milênio e a concretização de uma nova era, uma era pós-moderna como chamam os cientistas sociais, novos discursos e novos desafios reavaliam posicionamentos na sociedade, causando sentimentos de desorientação e mal-estar, refletidos pela incerteza de um mundo todo dia novo.

O mundo, ao longo dos séculos, passou por muitas transformações, que de uma forma ou de outra revolucionaram diversos setores da sociedade, acarretando mudanças na produção e nos serviços e, consequentemente, produzindo modificações nas formas das relações sociais

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(TEIXEIRA, 2001, p. 18). Neste sentido, o século XXI apresenta-nos o apogeu de uma nova era social, em que valores e padrões culturais mudam a todo instante com o avanço cada vez maior da ciência, das técnicas e das informações. Trata-se de uma nova sociedade classificada por Giddens como “pós-tradicional” (GIDDENS, 1997, p. 73). 21

A nova agenda da ciência social diz respeito a duas esferas de transformação. (...). Por um lado, há a difusão extensiva das instituições modernas, universalizadas pelos processos de globalização. Por outro, mas imediatamente relacionados com a primeira, estão os processos de mudança intencional, que podem ser conectados a radicalização da modernidade. Estes são processos de abandono, desincorporação e problematização da tradição (GIDDENS,1997, p. 74).

A sociedade do século XXI, deste modo, vive momentos de grandes transformações em que a velocidade das informações possibilita às pessoas novas formas de interação e comunicação impossíveis há algumas décadas atrás. Os antigos meios de sociabilidade, assim como algumas instituições tradicionais responsáveis pela composição de nosso modo de vida há séculos, são hoje vistas como em desuso, em que suas funções são questionadas pelos vários setores da sociedade e pelos estudiosos das humanidades. A globalização do mundo proporciona, neste sentido, o surgimento de novas formas de relacionamentos entre as pessoas o que, segundo Giddens acarreta a reformulação e a reorganização de antigas formas de organizações coletivas. Nos dias de hoje as tomadas de decisões levam, muitas vezes, à conseqüências globais, daí a necessidade de criação de novos mecanismos de socialização.

Esta nova dinâmica, por sua vez, nos remete a pensar o lugar de tradições passadas, ainda preservadas pela memória social de alguns grupos, num tempo em que tudo avança e o que ontem era novidade, já não nos é hoje de nenhuma serventia. Pensar o significado e a importância das tradições dentro deste contexto social parece-nos remeter a um tempo distante, ultrapassado, ligado a um mundo em que, se perguntado aos nossos pais e avós, relembraria costumes e valores não perecíveis, conceitos e estruturas imutáveis. A sua significação, portanto, nos apresentaria uma dissociação com a modernidade que coloca em xeque a importância de padrões sociais tão caros à humanidade, ligados à família e à afabilidade.

21 U a o de p s -tradiconal não é uma ordem na qual a tradição tenha desaparecido – longe disso. É uma

ordem em que a tradição muda de status. As tradições devem explicar-se, tornar-se abertas à interrogação ou ao dis u so. Gidde s, 1994, p. 39).

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O nascimento dessa nova sociedade teve início no século XVI com a chegada da Idade Moderna na Europa, tendo sido consolidada nos séculos XVIII e XIX, marcando um período de intensas mudanças políticas, econômicas e sociais. Com ela, houve a sobreposição dos valores da sociedade tradicional com o predomínio da “objetividade sobre a subjetividade, do individual sobre o coletivo, da regra sobre o espontâneo”. O espírito trazido pela modernidade veio envolvido pelo cálculo, pela “racionalidade instrumental”, pela “dominação burocrática” e, principalmente, pelo “desencantamento do mundo” fato que levou à “perda do poder da magia e da religião como fontes explicativas da realidade” (NEILA & VILELA, 2010). O quadro abaixo sintetiza essas transformações:

Quadro 1- Diferenças entre sociedade moderna e sociedade tradicional

Sociedade Moderna Sociedade Tradicional

Estado liberal Estado absolutista

Predomínio do individualismo e da destradiconalização

Predomínio do coletivismo e da tradição Sociedade predominantemente urbana Sociedade predominantemente rural Predomínio da indústria Predomínio da agricultura

Predomínio da razão (racionalização e secularização – separação entre igreja e Estado)

Predomínio do sagrado, da magia e do mito (sacralização) nas esferas social e política

Fonte: NEILA & VILELA, 2010, p. 1

No entanto, muitos autores apregoam que a era em que vivemos nos dias de hoje superou a modernidade e estaríamos vivenciando uma nova era descrita por eles como pós- moderna. De acordo com Queiroz, Guedes e Oliveira, a modernidade, “inaugurada há centenas de anos, (...) envelheceu e de longa data vem manifestando sinais inequívocos de esgotamento”. Em vista disso, há poucas décadas atrás surge nas ciências sociais e humanas o debate acerca do nascimento de uma pós-modernidade, o que amplia as discussões sobre as condições da sociedade atual e a sua denominação.

Entretanto, segundo estes autores, tal debate encontra-se em construção e o conceito de pós-moderno nos dias de hoje ainda levanta mais indagações que certezas: “quando teve início? Como se caracteriza? Qual a sua abrangência? Rompe com a modernidade ou é apenas

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um prolongamento dela?” (QUEIROZ, GUEDES & OLIVEIRA, 2008, p. 94). Não nos cabe aqui adentrar nessa polêmica, pois o nosso objetivo não está em discutir se estamos ou não vivenciando uma realidade que necessita de uma denominação nova, mas sim questionar até que ponto essa realidade afeta os valores transmitidos pelas tradições e se estas encontram lugar dentro da sociedade atual. Em vista disso, preferimos adotar o termo sociedade contemporânea na qual os estilos de vida e as novas formas de organização trazidas pela modernidade são vividos ao extremo e encontram-se, segundo Giddens, totalmente radicalizados (GIDDENS, 1990).

Dentro deste novo contexto então, de “interrupção, incoerência, surpresa” em que os seres humanos são dominados constantemente por mudanças repentinas e estímulos sempre renovados, Zygmunt Bauman afirma que na sociedade atual “não podemos mais tolerar o que dura”. Fluidez - é o que resume e rege a vida na sociedade contemporânea. Uma sociedade fluida, sempre em mudança. Uma “realidade que deveria ser emancipada da “mão morta” de sua própria história - e isso só poderia ser feito derretendo os sólidos”, ou seja, “dissolvendo o que quer que persistisse no tempo e fosse infenso à sua passagem ou imune a seu fluxo”:

Essa intenção clamava, por sua vez, pela “profanação do sagrado”: pelo repúdio e destronamento do passado, e, antes e acima de tudo, da “tradição” - isto é, o sedimento ou resíduo do passado no presente; clamava pelo esmagamento da armadura protetora forjada de crenças e lealdades que permitiam que os sólidos resistissem à “liquefação”. Lembremos, no entanto, que tudo isso seria feito não para acabar de uma vez por todas com os sólidos e construir um admirável mundo novo livre deles para sempre, mas para limpar a área para novos e aperfeiçoados sólidos para substituir o conjunto herdado de sólidos deficientes e defeituosos por outro conjunto, aperfeiçoado e preferivelmente perfeito, e por isso não mais alterável (BAUMAN, 2000, p. 4/5).

De acordo com Bauman, as tradições pré-modernas ligadas às “lealdades tradicionais, aos direitos costumeiros” e às obrigações de parentesco e solidariedade, vivenciam hoje um processo de desintegração em estágio avançado. Isso se dá em função da necessidade de construção de uma sociedade fundamentada pela razão, pelo cálculo e pela necessidade, segundo o autor, de “libertar a empresa de negócios dos grilhões dos deveres para com a família e o lar e da densa trama das obrigações éticas” que causam embaraços políticos e culturais (BAUMAN, 2000, p. 5). Neste sentido, Bauman enfatiza que o mundo atual é transgressor, rompedor de fronteiras e “capaz de tudo desmoronar” (BAUMAN, 2000, p. 7).

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De acordo com Giddens as tradições perderam na atualidade o lugar privilegiado que ocuparam nas sociedades pré-modernas em favor de uma nova realidade marcada pelo que o autor chamou de “reflexividade institucional” e “reflexividade social”. O termo institucional diz respeito à era em que vivemos hoje significando que o fenômeno da reflexividade acontece na vida social atual, enquanto que a “refexividade social” se constitui na capacidade que os seres humanos, nos dias hoje, têm de escolher o seu próprio caminho, de acordo com as suas próprias decisões formadas em uma realidade na qual os discursos existentes têm o poder de transformá-la. Essa reflexividade, por sua vez, de acordo com Giddens, pressupõe uma autonomia de ação:

A reflexividade da vida social moderna consiste no fato de que as práticas sociais são constantemente examinadas e reformuladas à luz de informação renovada sobre essas próprias práticas, alterando assim seu caráter (GIDDENS, 1991, p. 45).

Assim, Giddens entende que nas culturas pré-modernas as tradições eram mais valorizadas, pois tinham como uma de suas funções perpetuar os ensinamentos através das gerações. Essa reflexividade, portanto, se dava subordinada às tradições, o que não acontece nos dias atuais em função dessa autonomia de ações alcançada pelos indivíduos. As relações de parentesco, segundo o autor, são um exemplo de como o diálogo e a confiança, nos dias de hoje, substituiu a autoridade total dos pais e membros mais velhos da família. Os sistemas político, econômico e social atualmente também garantem aos homens o poder de escolha e a possibilidade de tomadas autônomas de decisões que vão de encontro aos padrões formalizados e não questionados das tradições. Em vista disso, acontece na atualidade o que Giddens caracterizou de “destradicionalização” social (GIDDENS, 1993).

Contudo, conforme o autor, este é um processo em andamento, pois a sociedade ainda convive com velhas tradições que impedem que o homem aja livre totalmente atrapalhando, assim, o desenvolvimento da reflexividade. A tradição, neste sentido, apresenta-se como um empecilho para a formação do sujeito, na medida em que impõe padrões e normas de conduta “pré-fabricadas”. “Os vícios e desvios são vistos como reminiscências de modos sociais antigos que ainda resistem no presente. São produtos de uma dinâmica social na qual a reflexividade não está desenvolvida” (Paixão et al, 2004, p. 99).

Onde o nível de reflexividade social permanece razoavelmente baixo, a legitimidade política continua a depender, em certa parte substancial, do

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simbolismo tradicional e de maneiras preexistentes de se fazer as coisas. Todo tipo de clientelismo e corrupção pode não somente sobreviver, mas no interior da liderança política, tornar-se um procedimento aceitável (GIDDENS, 1994, p. 51).

Neste sentido, Giddens entende que a reflexividade preserva a individualidade das pessoas e proporciona um convívio mais humano baseado no diálogo e no poder de decisão que cada um deve ter. Apesar de ela oferecer riscos em vista desse próprio poder de decisão se tornar compulsivo na mão de pessoas que não possuem controle sobre o seu próprio eu, o autor defende que é a melhor maneira para se desenvolver uma sociedade mais democrática e mais justa. No entanto, o autor não acredita no fim das tradições nessa sociedade pós- tradicional, como veremos a seguir, mas defende que somente através de uma sociedade altamente reflexiva podemos alcançar tanto a autonomia privada como a democracia nas instâncias públicas. Democracia essa que finalmente levará à formação de uma nova era.

Benzer Belgeler