BÖLÜM III: POLİTİKALAR
A. Dergiler Arasındalık
Maria Helena Câmara Bastos (2002), ao se dedicar à repercussão da obra e pensamento de Célestin Hippeau (1803-1883) no Brasil no século XIX, preocupa-se em responder “que pensadores a elite ilustrada brasileira privilegiava em suas leituras, na segunda metade do século XIX” (p.67). Ao que responde:
As inúmeras referências a Célestin Hippeau levam à necessidade de melhor conhecer a trajetória desse pensador e as ideias que tanto atraíram a intelectualidade brasileira. A partir de 1870, Hippeau edita uma série de volumes sobre o ensino em diversos países, com o objetivo de que na França fosse conhecida a organização da instrução pública de outros países, e também de que os países “pudessem introduzir inovações no seu sistema de ensino público e implantar reformas que excelentes espíritos já pensaram”. Analisa o
que era considerado necessário e importante para integrar todo sistema de educação pública no século XIX: um sistema que evidenciasse progresso, numa visão de mundo ideal – otimista e triunfante, expressão de uma modernidade educacional e de um projeto liberal de educação. (BASTOS, 2002, p. 67).
Autor francês igualmente presente nos relatórios da instrução pública mineira, na apresentação de sua obra A Instrução Pública nos Estados Unidos — para confecção da qual ficara um ano nos Estados Unidos “sob encomenda” do governo francês — assim se reporta ao ministro da instrução pública francesa:
Não dissimulei os sentimentos de admiração que me inspirou o espetáculo por uma grande nação, que considera a educação pública como o primeiro e mais indispensável dever, e que a si mesma se impõe os mais pesados sacrifícios para lhe dar uma organização sem igual no mundo.
Espero que ninguém considere os elogios que faço àquela nação como crítica indireta à França. Graças a Deus, o nosso belo país, pode sustentar comparação com as nações mais florescentes. Compensa tão brilhantemente com os dotes que tem aqueles que não possuem, que bem podemos elogiar as instituições alheias sem parecer que criticamos ou rebaixamos as nossas. Nenhuma vergonha há em que uma nação reconheça que pode achar em outras bons exemplos e tirar deles proveito. (HIPPEAU, 1871, p. 6-7).
Nos discursos mineiros analisados, Hippeau é citado pelo Inspetor Geral da Instrução Pública, Leônidas Marcondes de Toledo Lessa, em seu relatório dirigido ao presidente o Barão de Vila da Barra, no ano de 1876. O autor francês é mobilizado para citar a experiência dos Estados Unidos que, na ocasião em que este país não contava com professores já habilitados para o ensino, basearam-se apenas na “aptidão” dos mestres, tão imperiosa era a necessidade de tirar o povo das “primitivas trevas”. O inspetor ainda justifica: “pior que o professor ruim é não ter nenhum”. (MINAS GERAIS: Relatório de 1876, Anexo Inspetoria da Instrução Pública, p. 91. Grifos do autor).
Partindo do que nos fala Bastos (2002) sobre a importante repercussão das obras de Hippeau junto à elite ilustrada do dezenove brasileiro, e, seguindo os rastros, emblemas e sinais, próprios a uma investigação, como nos ensina o historiador italiano Carlo Guinzburg (1990), encontramos informações nos relatórios mineiros que nos trazem indícios — além da explícita apropriação, já citada — da
circulação obra de Hippeau, A Instrução Pública nos Estados Unidos54 , nas mãos
dos dirigentes mineiros. Dois casos nos levaram a construir tal conjectura: um deles, quando o Inspetor Geral da Instrução Pública, João Vieira de Azeredo Coutinho, em seu relatório dirigido ao presidente Antônio Gonçalves Chaves, em 1883, diante da precária situação em que se encontravam as casas escolares da Província, traz os parâmetros das construções de edifícios escolares nos Estados Unidos para declarar:
Se as casas escolares oferecem-nos o meio de avaliar os sentimentos de um país acerca da educação, como afirma o superintendente do Tennessee , a falta absoluta na província de tais edifícios atestaria a nossa incúria em um assunto tal vital. (MINAS GERAIS: Relatório de 1883, Anexo Inspetoria da Instrução Pública, p. 15)
Já o segundo caso, como indício da circulação da qual falamos, podemos trazer o discurso de Teófilo Otoni, de 1882, no qual o presidente tece elogios aos edifícios escolares norte-americanos, dada não apenas sua suntuosa e elegante arquitetura, mas os preceitos de higiene adotados em sua construção. Ocasião na qual lamenta a indiferença dos particulares — no auxílio financeiro à educação — para que na província mineira se procedesse à construção dos prédios, baseada nos exemplos dos Estados Unidos.
Em todas as vilas não seria muito obter em curto lapso de tempo a construção desses edifícios com todas as regras de higiene, das comodidades e da elegância que devem acompanhar semelhantes construções, e que nos Estados Unidos tornam notável sua arquitetura, de magnificência deslumbrante. (MINAS GERAIS: Relatório de 1882, p. 34).
A necessária ponderação da possibilidade de circulação, em outros meios, das imagens dos prédios escolares norte-americanos, avaliados nos discursos, como o reflexo do sentimento que um país atribui à causa da educação, não nos isenta aqui de considerar — assentados, como fora dito, no paradigma indiciário de Guinzburg (1990) — uma possível apropriação dos exemplos norte-americanos por
54 “A primeira edição do livro L’instruction publique aux États-Unis é traduzida no Brasil por ordem do
Governo Imperial, em 1871, e publicada no Diário Oficial do Império do Brasil, de 17 de fevereiro a 17 de março de 1871. Posteriormente, sai em forma de livro, sendo editado pela Tipografia Nacional, com 349 páginas, no formato in-8 e com gravuras do original francês” (BASTOS, 2002, p. 100-101).
meio de A Instrução Pública nos Estados Unidos, Hippeau, considerando para isso as ilustrações — estampadas na obra — que mostram a suntuosidade e elegância dos prédios escolares daquele país. Para fortalecer mais os indícios aqui evocados, as ilustrações contidas no livro de Hippeau podem ser conferidas no anexo B.
Ainda seguindo os rastros deixados pelos sujeitos investigados por este trabalho, a edição da obra de Hippeau, com a qual trabalhamos — a primeira edição brasileira, de 1871, traz em sua contracapa a assinatura de posse “C. Belém”. O que nos permite construir a hipótese de tal exemplar ter pertencido ao vice-presidente da Província de Minas Gerais, Francisco Leite da Costa Belém. As pistas que nos levaram a tal conjectura: ele foi vice-presidente da província mineira por cinco vezes, nos seguintes anos: 1871; 1872 ; 1873; 1874; 1875. Podemos trazer mais elementos para alimentar a hipótese, na medida em que se mostra flagrante nos relatórios de Costa Belém uma preocupação contínua com a administração do orçamento da educação. O fato do orçamento da educação compor o índice das matérias tratadas por Hippeau em sua obra nos forneceu mais pistas. A assinatura de posse de “C. Belém”, no exemplar A Instrução Pública nos Estados Unidos, consultado para a pesquisa pode ser conferida no anexo C.
Os exemplos aqui reportados nos permitiram aproximar da circulação e apropriação da obra A Instrução Pública nos Estados Unidos, de Hippeau, por parte dos dirigentes políticos e educacionais da província mineira. Alguns desses exemplos, explicitados nos discursos. Já outros, considerados de forma indiciária.