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Relatavam os autos que, no dia 22 de julho de 1937, entre as 9 e as 10 horas da manhã, Inácio Batista Marinho, Cícero Batista Marinho e Severino Florentino da Costa, acompanhados de dois sujeitos desconhecidos, emboscaram Sabiniano Dias de Araújo e seu vaqueiro Antonio Nicolau de Andrade no lugar Serrote do Urubu, do distrito de Fagundes na comarca de Campina Grande. Àquela ocasião, as vítimas foram alvejadas por toda a carga das armas de fogo que portavam, tendo o primeiro saído morto e o segundo levemente ferido. O corpo baleado foi abandonado na estrada e furtado na quantia de 700$000 (setecentos mil réis). Acrescentavam os autos que o latrocínio fora arquitetado a mandado de Francisco Bezerra de Lima, José Bezerra de Lima e Antonio Nicolau de Andrade, os quais planejaram todo o desenrolar do crime, concederam armas e animais para que viajassem na sequência do ato delituoso, tendo ainda recebido os executores em suas residências e ocultado as armas que haviam sido utilizadas.

Apesar das provas apresentadas, todas devidamente citadas quando da elaboração da sentença ainda no tribunal de primeira instância, o júri da comarca inocentou o acusado Inácio Batista Marinho, “individuo perigoso e fortemente protegido, que, cometido o crime, recolheu- se, calma e confiantemente, à Cidade de Campina Grande”, não havendo outras informações que indicassem o destino dos outros réus. Em razão da citada disparidade de evidências, o representante local do Ministério Público solicitou a reforma da sentença, que foi deferida pelo Tribunal de Apelação. Os motivos que levaram à execução do crime tinham sido, sobretudo, o desejo de vingança da família em questão quanto ao assassinato do cunhado e inimigo de Sabiniano Dias, Irineu Bezerra, história essa que teria despertado a “benevolência do tribunal popular, que quasi se deixa levar pelos impulsos do coração, esquecendo que está em causa a

segurança social, que não prescinde de severa punição do crime”.

A primeira testemunha, Manuel Matias de Souza, disse ter visto, naquela semana, o acusado Inácio Batista na casa do acusado Xixi Bezerra, que ficava no lugar Jardim, onde ainda teria ouvido o referido acusado convidar Cicilio Herculano para a execução do crime, para o qual receberia 2:000$000 (dois contos de réis), o qual, no entanto, o havia recusado. Essa informação, a propósito, foi confirmada na sequência dos depoimentos pelo próprio Cicilio Herculano. A segunda testemunha, José Pedro, achava-se em um roçado próximo ao local do crime, do qual ouviu muitos disparos. Aproximando-se disse ter visto Inácio, na companhia de Cícero Batista, metendo a mão no bolso da vítima. O numerário Severino Bezerra da Silva, testemunhou que no dia seguinte ao crime encontrou Inácio em Campina Grande, que lhe informara da novidade que fora aquele assassinato, quando assumiu a autoria do crime que realizara na companhia de outros três sujeitos. A confissão, a propósito, havia sido testemunhada ainda por José Pereira e Manuel Damião, que confirmaram a versão apresentada.

Dizia-se ser o réu um indivíduo tagarela e inconveniente que costumava contar suas proezas, mencionando o nome de seus protetores. Desde o momento no qual fora levado a termo o retumbante ato criminoso, o acusado foi parado diversas vezes por diligências policiais. Foi ouvido até mesmo pelo delegado da cidade de Princesa, onde conseguira emprego, que, desconfiado das razões que o levaram até aquela localidade, manifestou a intenção de buscar informações em Alagoa de Monteiro quanto ao que de fato havia acontecido. Na passagem por Campina Grande, o acusado e outro indivíduo que fora visto em sua companhia abandonaram um cavalo rosilho e uma burra por volta das 23 horas do mesmo dia em um rancho próximo à cachoeira de Manuel Luiz, os quais foram fotografados e reconhecidos como pertencentes à dupla.

Como álibi, o réu alegou que estava em São João do Cariri e viajara dali para Campina Grande às dez horas do dia 22 de julho, informação que restara destituída de indícios que a assegurassem. Havia relatos de que o acusado passou pelo segundo município em atitudes das mais suspeitas e a testemunha José Inácio da Silva confirmou que no dia 22 de julho estava em seu roçado no lugar Jardim quando Inácio Batista e outro indivíduo trocaram cumprimentos, evidência que se pelas condições geográficas do estado se chocavam com a possível veracidade daquele argumento. No dia anterior, a propósito, teria o mesmo sujeito alcançado a casa de Celestino Gonçalves de Araújo, em Cachoeira de Cebolas, por volta das três horas da tarde, onde deixou no rancho o animal no qual chegara montado, seguindo em direção à rua. Ali, procurou por Severino Bezerra, comerciante local, do qual retornara com a ordem para que lhe

preparassem um potro castanho, bem como uma roupa caqui e um chapéu de abas largas, roupas com as quais fora visto em Campina Grande na noite seguinte.

Como estratégia de defesa, os acusados se valeram dos ataques à idoneidade moral das testemunhas. Manuel Luiz foi acusado de ter omitido que os acusados abandonaram dois animais em sua propriedade e depois apareceu ali para retirá-los. No entanto, as testemunhas de defesa também não estavam bem calçadas quanto às informações que prestavam. A primeira disse ter visto o acusado em São João, mas não apresentou maiores detalhes sobre o fato. A segunda, José Ferreira de Lima, alegou que o irmão da vítima, Padre Epitácio, teria oferecido dinheiro a João Rodrigues para que esse dissesse o que se queria que fosse dito quando do seu depoimento. Enquanto isso, João Pedro de Andrade alegou que as testemunhas de acusação estavam ali a pedido de alguém, mas sem maiores informações que dessem respaldo à afirmação. Enfim, na sequência da avaliação das provas apontadas, o Superior Tribunal de Justiça decidiu sentenciar Inácio Batista Marinho a trinta anos em prisão simples, somada ao pagamento de uma taxa de 20% sobre o valor roubado64.

Pelas trilhas misteriosas dos sertões paraibanos, os chefes políticos inscreviam as suas redes de poder e solidariedade boicotando as prescrições institucionais da pretensa modernização que tomava conta do mundo rural. Na esteira desses jogos de forças, não havia oposição declarada entre os grandes latifundiários e os camponeses e as camponesas, que não raro se filiavam a uma corrente política, defendendo o coronel até o limite da sua honra. Foram esses habitantes do mundo rural que acoitaram os criminosos em suas casas, levando a polícia a perder o lastro desses sujeitos. Essa gente camponesa parecia, de fato, interessada na manutenção da ordem tradicional. Mas nem todo camponês era bandido, alguns se entregavam a essa tarefa, que, por vezes, assumia as vestes de justiceira, servindo à ordem política pregada pelas famílias tradicionais.

As famílias Batista Marinho e Dias de Araújo disputavam suas influências na região de Fagundes, articulando correligionários e as autoridades locais pera a execução do crime e/ou para o mesmo fosse disfarçado. Até o júri da cidade foi contaminado pela influência daqueles homens, cujo poder político levou à absolvição de um dos réus, conforme a gramática dos autos processuais movido pela benevolência da referida população. A propósito, tudo parecia mesmo tomado pelo poder das famílias, que se coligavam em uma articulação de poderes que perdurou como uma cultura política na história paraibana, sobrevivendo aos séculos em suas variadas

64Acórdão da apelação criminal n.36, da comarca de Campina Grande. Consultado na Revista do Fôro, n.45,

estratégias. Durante o processo de colonização dos sertões brasileiros, a guerra dos bárbaros se tornou, conforme Linda Lewin (1993[1987]), um negócio de família e em família, articulando casamentos endógamos no propósito de fortalecer os laços de dominação. No Nordeste, foi a Revolta de 1817, e consequente formação das instituições nacionais que a lógica colonial foi substituída pelas alianças matrimoniais, vide Evaldo Cabral de Mello (2002[2000]). Foi também nessa época, lembrava Serioja Rodrigues Cordeiro Mariano (2014[2010]), que se consolidou uma nova forma de associação do poder familiar na Paraíba, por meio dos partidos políticos.

O acusado, dito tagarela, não escondia, pelas esquinas do mundo rural, aquilo que ele havia feito e nem quem foram os seus padrinhos. Esse tipo de filiação, a propósito, conferia identidade política e condensava, em torno de si, os principais conflitos que se davam entre os habitantes do mundo rural. Emergia daquelas aproximações uma economia moral que movia a ordem social por aquelas localidades. Inscrita pelos padrões culturais dos habitantes do campo, a economia moral desenhava valores e normas sociais que incitavam reações políticas das mais variadas formas, vide Edward Palmer Thompson (1998[1971]), quando se alimentava de uma lógica de hierarquias marcadas pelo patriarcalismo.

A lógica das vinganças familiares confrontava, portanto, a afirmação do poder das instituições modernas. As parentelas dos aliados políticos se estendiam sertões afora montando redes de articulação que a modernização demorou muito para acessar. Mas pesava contra elas o peso das máquinas, observe-se a testemunha da câmera fotográfica no flagrante dos cavalos abandonados quando da fuga. Todavia, era tudo ainda muito precário, as informações tardavam a chegar e, por isso, a inabilidade do delegado de Princesa em dar execução à identidade do acusado. A modernização estava a caminho, mas eram muito variadas as possibilidades de execução do projeto moderno, em muitos casos, reguladas por preceitos que valiam para uns e não valiam para outros: aos inimigos a lei, aos amigos casa.

O caso ilustrava esse mundo em transição que a modernização anunciava. Ao longo do caminho, os signos do moderno atestavam a mudança, as migrações internas ao mundo rural tomavam dimensões nacionais com as mudanças fundiárias nordestinas e consequente estreitamento do vínculo entre as localidades outrora distantes; os coronéis perdiam força para o poder público, que em alguma medida se mostrava mais democrático; o cerco policial inventava uma ordem racional para as hábitos das gentes do mundo rural, desmontando lógicas paralelas de exercício de poder; os dogmas religiosos estreitavam as fronteiras das suas práticas; a cidade se distanciava do mundo rural, criando conceitos para si que eram alheias ao que aquele outro mundo era capaz de produzir. Estruturavam-se novas hierarquias que, no mundo marcado pelo

mistério, àquela ocasião, perdiam a sua magia.

Os enquadramentos implicariam ainda na consolidação de algumas práticas de inclusão e exclusão social. As populações sertanejas eram qualificadas pelos discursos sobre as secas, como se tudo fosse miséria quando das estiagens; as apropriações que a elite fazia do bem público tornava-se corrupção, os juristas e a imprensa diagnosticavam os sujeitos que fugiram à ordem como bandidos; os médicos e religiosos tratavam práticas confessionais particulares como loucura; o mundo rural era lido pela falta do que havia na cidade, marcando a sua gente pelo atraso, pelo degenerado e tudo mais que se opusesse ao progresso prometido pela ciência. As tradições perdiam cada vez mais o seu sentido. Em outras palavras, tomava fôlego o desencantamento do mundo, abrindo espaço para o império da razão. Contudo, o progresso planejado como uma seta, dotou-se de muitos desvios, protagonizados pelos diferentes grupos que o ensaiaram. Aquele universo de referências culturais, afinal, rapidamente se converteria em uma arena de batalhas e suas consequentes disputas por territórios, os quais esquadrinhavam os espaços da fotografia publicada na revista Parahyba Agricola.

Figura 6: Maquinas Agrárias Fonte: Parahyba-Agricola, jan.1922, p.7.

A imagem divulgada naquele periódico mostrava como alguns trabalhadores experimentaram as máquinas agrícolas, decerto compradas a pouco pelo senhor, ainda naquele

início de século. A imagem não poderia ser mais sugestiva, ao centro dela, uma árvore fazia sombra para o fazendeiro, sentado sobre um dos arados, com seu terno fechado, chapéu escuro, gravada alinhada, botas de cano alto, e postura ereta, com a qual se investia na direção do fotógrafo como um homem de futuro que ele pretendia se mostrar. Ao seu lado, estavam aqueles que, possivelmente, eram trabalhadores da sua fazenda. As vestes faziam desconfiar a intenção do fotógrafo em montar a cena, a julgar pelo tom muito alvo de alguns tecidos e de certo cuidado com a postura dos sujeitos fotografados. É provável, observada a prática das fotografias em estúdio que marcaram as primeiras décadas do século XX, pensar que aquelas roupas não eram dos sujeitos em questão. Em alguma medida, tudo havia sido detalhadamente arquitetado para expor os investimentos do latifundiário na modernização iminente e na paz social que reinaria com o sucesso daquela empreitada agrícola. O primeiro plano da fotografia guardava, assim, os planos de futuro das elites agrárias nordestinas, mas que, como tudo mais, carecia de outros atores para que seguisse adiante.

Apesar de congelados em um cenário bidimensional estanque, os agricultores e criadores reagiram àquela prometida modernidade de maneiras muito variadas. Ao canto direito, por trás do coronel, três daqueles homens escondiam a face, olhavam em outra direção, gesto que, em sinal de timidez ou vergonha, dizia do estranhamento de um aparelho que assustava e, marcadas as alegorias que estavam em jogo, bem representava a modernidade. Por trás deles, um cavalo ou burro restou escondido, talvez o fosse o animal que estava chamando a atenção, mostrando que para aquela gente, naquele momento, a modernização ainda interessava pouco, ou pouco interferia, sendo possível estar alheio a ela, tão logo fosse disparado o flash e o coronel ordenasse que voltassem todos ao trabalho. Era como se desenhassem outra possibilidade de futuro, em tudo diferente daquilo que lhes era oferecido, esquivavam-se daquele mundo que as máquinas, dentre elas a fotográfica, por certo a que mais intimidava, prometiam.

Os sujeitos mais ao fundo traziam roupas mais desconsertadas, talvez por isso estivessem em segundo plano, e olhavam pra frente com alguma curiosidade, ainda que o sol não deixasse que percebessem com maior nitidez o que estava à sua frente. Ao que tudo indicava, naquele cenário, só mesmo o coronel podia encarar o futuro, como era possível compreender aquele estúdio improvisado no mundo rural, margeado pela câmera fotográfica na posição mais extrema da linha do tempo, enquanto o gado ao fundo apontava para o passado e para o retorno à labuta de todo dia. Talvez essa perspectiva também fosse ordem do fotógrafo, que, em seus projetos iconográficos, tinha um protagonista previamente definido. Mas os planos costumam fugir às rédeas dos seus chefes e a fotografia não precisava de circunstâncias menos estanques para

definir quem iria se sobressair no jogo de gestos. Por essa razão, o trabalhador rural da direita roubou a cena. Com sua pose ereta e seu olhar de soslaio, o sujeito definiu outro rumo para o futuro inventado pelo coronel, em um horizonte que não era uma seta na direção do progresso, posto que tinha suas curvas.

Ao ler o cenário, o agricultor reinventava a sua relação com o coronel e deixava para o futuro o registro de outra relação com a máquina. A parceria do arado com o coronel, inventada pela pose comportada daquele chefe, negava-se quando da posição escolhida pelo camponês, o qual colocava a bota sobre a barra de ferro, mostrando em que pé deveria se dar a relação dos seres humanos com o moderno. Conforme Jacques Rancière (2012[2003]), as imagens jogam pela alteração da semelhança, agenciando alegorias. Se isso é verdade, a autonomia da máquina ali se perdia de todo, redesenhando uma hierarquia inscrita pelo ângulo fotografado. Nele, o sujeito estava não só mais alto como mais central do que a máquina. Aqueles eram os rumos da modernização, que, em seus caminhos tortuosos, teria diferente significados para os diferentes sujeitos, e que, nessa linguagem de padrões parciais, inventaria um destino comum.

Figura 7: Motores “Otto Legitimo”

Fonte: Parahyba-Agricola, jul.1922, caderno de propagandas.

Ao passo disso, a propaganda dos motores “Otto Legitimo” embaralhava a máquina, os animais e as temporalidades. O sujeito representado de branco, com fenótipo branco e vestido de branco mirava o horizonte com o corpo curvado para frente. O futuro era uma máquina, a qual se desfazia até mesmo do arado, grande mercadoria das propagandas da época. Essa temporalidade

seria, a partir de então, a referência para o presente, era o regime de historicidade moderno que se investia no horizonte coletivo, como mostrava François Hartog (2014[2003]), a máquina tomava o lugar do sol, era ela que iluminava o destino coletivo. A experiência restava esquecida, ela tinha pouca importância diante da tecnologia que pulsava, e que poderia ser comprada por qualquer senhor que tivesse capital suficiente, bastava solicitar pelos correios e aguardar o tempo necessário para que ela chegasse até o comprador.

Aquele mundo comunicava ainda que a cena, outrora centrada nas figuras dos burros e dos cavalos, estaria sendo tomada pela máquina, mesmo que o animal ainda estivesse lá, como toda a beleza que lhes era cabida. A posição que lhe restava no novo tempo era secundária, fechada ao segundo plano, pelo menos até o momento no qual o seu poder era devido à sua força de trabalho. Os animais só teriam poder quando inventados como mercadoria, leia-se aqueles produzidos nos estritos limites do cruzamento induzido no sentido de manter os rebanhos o mais próximo possível de uma pureza de raça. Ainda nesse espaço, essa paisagem dizia do arado já como uma realidade, comum às práticas dos homens do campo com seus cavalos de porte e bem equipados. Em tempo, antes de tomar por passado esse período de mudanças que antecedeu a modernização agrária paraibana, atente-se para um derradeiro flagrante:

Figura 8: Fazenda Bonito – Esbrarejamento de um burro – Município de Pilar

Fonte: Parahyba-Agricola, fev.1922, capa.

Publicada na capa do segundo número da revista Parahyba-Agricola, a fotografia em questão anunciava das práticas da população camponesa que habitavam o estado paraibano. A dispersão do campo foi roubada por alguma ocasião especial que a documentação não permitiu

acessar, mas que, tomadas as referências mais cotidianas, bem poderia ser um dia de feira. O certo é que se encontraram, em alguma parte de uma larga estrada, criadores que habitavam diferentes localidades, mesmo que não distantes o suficiente para que não se conhecessem e compartilhassem entre si a fama de bom vaqueiro. No primeiro plano da imagem, deixavam-se fotografar duas estrelas, o burro arredio e o vaqueiro que, montado sobre ele, tentava domá-lo, provavelmente munido de algum tempo de experiência na arte do esbrarejamento de muares, decerto apreendida com os mais velhos. Em meio àquela cena, o camponês guardava um pouco da sua honra, essencializada pelo seu ofício e posta em combate no jogo que todos pararam para assistir.

Diante do exposto, observe-se um pouco o mundo que o leitor do periódico em questão seria capaz de ler. A imagem, em parte montada pelo fotografo, apresentou a maioria dos seus personagens em vestes bem mais claras do que aquelas que habitualmente utilizavam. O mundo rural que se apresentava, portanto, apesar de guardar parte significativa dos seus rituais, revestia- se de um polimento que a modernização queria lhe vender: mostrava-se higienizado e embranquecido. O programa político, daquela maneira apresentado, contudo, não se encerrava com aquela agenda. Ele trazia em sua esteira aspectos de um projeto nacionalizador, em defesa da tão pregada vocação agrícola brasileira, que não parecia poder se afirmar sem uma estética diversa daquela que de fato tinha. Em se querendo berço da nacionalidade brasileira, o mundo rural teria de se revestir de uma imagem análoga à que o romantismo europeu pregou sobre os cavaleiros da Idade Média. Com o advento da Revolução Industrial, lembrava Raymond Williams (2011[1973], p.56), o romantismo inglês tratou de empreender sobre o campo as imagens de um ambiente bucólico, tomado pela moral e pela valentia. Contudo, acrescentava o autor, “quando a examinamos, vemos que a moralidade não é fruto da economia, e sim um

Benzer Belgeler