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Ao contrário da Sede do Grêmio Politécnico, de 1944, o projeto da Casa do Estudante, de autoria também de Miguel Badra Júnior, foi uma proposta que logrou sucesso e veio a ser construída. As concepções, anteriormente apresentadas, datando desde 1932, representam o anseio de construir uma sede própria para o Grêmio Politécnico, local onde alunos pudessem se congregar socialmente. No final da década de 1940, o Grêmio Politécnico envidou esforços para realizar a construção da futura Casa do Politécnico, atendendo, assim, duas importantes aspirações de caráter sociocultural: a construção da sede social do Grêmio Politécnico, e dos alojamentos para estudantes residentes fora da cidade de São Paulo. Conforme palavras do diretor da Escola, da época, Antonio Carlos Cardoso (1950, p. 25):

A “Casa do Politécnico” proporcionará valioso auxílio material para os estudantes cujas famílias não morem em São Paulo, constituindo para eles um colégio residencial, organizado de modo a servir-lhes como um segundo lar, de ambiente saudável e de conforto, onde haja sempre um generoso acolhimento e aonde reine constante alegria e entusiasmo.

Terá, sobretudo, uma elevada significação de ordem moral. Constituirá um centro de cooperação intelectual e de fraternidade como expressão do mais sadio espírito universitário, de relevante valor educativo, capaz de vincular mais intimamente os estudantes à sua Escola e às suas tradições, estabelecendo sólidos laços efetivos entre as várias gerações de alunos e dando-lhes o pleno sentimento de sua participação na família acadêmica.

Para a realização desta obra, o Grêmio Politécnico contou com o apoio do IPT e do Instituto de Eletrotécnica, assim como de não poucas pessoas e entidades que também viram o alcance social desta obra e apoiaram a causa, seja contribuindo financeiramente ou mesmo com o fornecimento de materiais de construção durante a execução das obras. Até mesmo, foram abertas contas especiais para recebimento de contribuições voluntárias e depósitos de contribuições diretas, que também seriam registradas em livro especial para este fim. Também, uma Comissão Executiva, composta por quatro membros da Escola Politécnica, fora criada para cuidar dos assuntos administrativos e financeiros, e com a missão de se obter subvenções dos governos estadual e municipal e de particulares, para que se completasse o volume dos recursos requeridos para construção deste empreendimento. A responsabilidade e administração geral das obras ficaram sob direção do engenheiro-

177 arquiteto Amador Cintra do Prado103 (n. 1897), que a pedido do Grêmio Politécnico, a cuja diretoria pertenceu, aceitou de pronto a incumbência e se prontificou em colocar à disposição a estrutura e aparelhamento de seu próprio escritório técnico. Não apenas Prado, mas outros professores e profissionais, egressos da Politécnica, também acolheram as solicitações do Grêmio e contribuíram com os projetos técnicos de engenharia (elétrica, hidráulica, fundação). Os desenhos artísticos para publicação foram executados pelos professores Felisberto Ranzini e José Maria da Silva Neves.

Fig. 50: Imagem da maquete do projeto para a Casa do Politécnico, projeto de Miguel Badra Júnior. Fonte: Casa [...] (1949).

Fig. 51: Capa da Revista Politécnica, n. 158, set./out. 1958, com desenho da Casa do Politécnico.

A Comissão organizou intensa campanha para obtenção dos fundos necessários para as obras iniciais até a sua conclusão. O lançamento da pedra fundamental ocorreu em outubro de 1949, mas as obras só foram iniciadas, e entraram num ritmo contínuo, a partir de maio do ano seguinte, quando foram executados os serviços preliminares da obra. No dia 2 de junho, sob a presença dos membros da Congregação da Escola Politécnica, foi lançada a "1ª camada de concreto na sapata n. 1". (Leite, 1950, p. 36). Em 04 de junho de 1950, a

Folha da Manhã, havia noticiado o fato do lançamento da primeira camada de concreto da

Casa do Politécnico. Na ocasião, o então diretor da Escola Politécnica, Antonio Carlos Cardoso, salientou a importância de construção da Casa do Politécnico, que “é a mais recente obra de caráter social do Grêmio Politécnico”, bem como se referiu a outras

103 Formado em 1921, manteve escritório até 1956, quando se transferiu para Amparo, dedicando-se à política

local. Seguiu orientação estética influenciada por seu professor Alexandre Albuquerque. Colaborou na campanha de arrecadação de fundos para a construção da primeira sede do Instituto de Engenharia. Durante sua gestão (1951-1953) como presidente do Instituto de Engenharia, foi inaugurada a nova sede, o Palácio Mauá.

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realizações como as Escolas Noturnas “Paula Souza’ e “Alexandre Albuquerque”.104 Mas uma vez destacou o caráter social deste projeto, destinado ao abrigo de estudantes vindos do interior de São Paulo e do Brasil, possibilitando também a reunião fraternal entre os politécnicos, conforme Cardoso (1950, p. 1):

A Casa do Politécnico constitui assim uma das primeiras experiências em termos de moradia estudantil no âmbito da Escola Politécnica, e recebeu projeto específico para atender a esta função. A proposta é semelhante a de outras instituições congêneres como a Faculdade de Direito da USP, que possui a “Casa do Estudante” da Faculdade de Direito. Na segunda metade da década de 1940, Badra estava envolvido com o projeto e a construção de 60 casas econômicas na Vila Oratório. Anos depois, foi o construtor de dois projetos do arquiteto Rino Levi: o Hospital Central do Câncer (1947-1954) e a sede do IAB (1947), de São Paulo.105 Este último exerceu influência na elaboração do projeto da Casa do Politécnico, podendo-se notar um desenho bastante semelhante na composição de ambas as fachadas frontais, em que foi desenhado um terraço no primeiro andar que se projeta além do alinhamento frontal e circunda as. A parede em ângulo, na fachada frontal, dando destaque aos pilares da fachada, os caixilhos contínuos com as janelas “maxim-ar” entre pilares, o mezanino que se projeta para fora formando também um terraço são características que também remetem ao edifício do IAB.106 Acima destes dois pavimentos, Badra procurou seguir uma arquitetura mais convencional, sem requintes arquitetônicos, que até mesmo se contrapõe à linguagem adotada nos andares inferiores de linhas modernizadas, optando por uma fachada revestida de pastilhas cerâmicas, com janelas venezianas, que sinalizam a suposta compartimentação do espaço; enquanto os dois primeiros andares e o mezanino receberam tratamento arquitetônico típico da linguagem corbusiana.

Quanto ao programa, além dos alojamentos para estudantes e a sede do Grêmio Politécnico, o projeto também previu o apartamento da zeladoria do edifício na cobertura do edifício dotada de um terraço-jardim. Assim suas plantas foram distribuídas da seguinte maneira: o andar térreo dispõe de espaço para a secretaria, presidência do Grêmio, salão de barbeiro, arquivo e depósito; o primeiro andar destina-se ao salão de jogos e pequeno bar, e dispõe também de um mezanino reservado para salão de leitura e jogos de xadrez; o

104 Estas duas escolas foram destinadas “a ministrar, gratuitamente, ensino primário e educação cívica a jovens e

adultos, em condições idênticas às dos cursos normais oficiais” (Cardoso, 1950, p. 25). Criadas, respectivamente, em 1918 e 1945, eram mantidas pelo Grêmio Politécnico.

105 O projeto foi desenvolvido “por grande equipe de arquitetos responsáveis pelos projetos considerados de

melhor qualidade, quando do concurso havido em 1947 [...]” (Xavier; Lemos; Corona,1983).

106 Tão logo foi construído, “se tornaria ele mesmo um dos principais modelos da estética em São Paulo. Tal foi

sua influência que até hoje sua janela ‘maxim-ar’, conforme detalhada por Rino Levi, faz parte do repertório corrente entre os arquitetos paulistas” (Ficher, 2005, p. 248). Não só o prédio de Rino Levi se tornou uma referência de arquitetura, mas o próprio local serviu de escritório para vários arquitetos e consequentemente um centro de debate e propagação dos preceitos da arquitetura moderna.

179 segundo andar é um grande salão que será ocupado pelas salas das diversas comissões do Grêmio; os cinco andares posteriores abrigam 65 apartamentos, com capacidade para alojar até 130 estudantes (Casa, 1949, p. 70). A circulação entre os andares é realizada por meio de uma escada reta que acessa a todos andares, e uma em forma de “U”, que chega aos espaços até o salão do Grêmio Politécnico, no segundo andar.

Fig. 52: Plantas da Casa do Politécnico (Térreo, Mezanino, 1º andar; 2º andar; 3º e 4º andar; 5º 6º e 7º andar; Cobertura). Fonte: A Casa [...] (1950).

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Fig. 53: Elevação frontal e elevação lateral direita da Casa do Politécnico. Fonte: A Casa [...] (1950).

[...] Que ela constituirá, sobretudo, um centro de cooperação intelectual de fraternidade, como expressão de sadio espírito universitário, capaz de vincular mais intimamente os estudantes à sua escola e às suas tradições estabelecendo sólidos laços afetivos entre as várias gerações de alunos e dando-lhes pleno sentimento de sua participação na família acadêmica. Como uma das mais acalentadas aspirações dos estudantes de engenharia de São Paulo [...], a Casa do Politécnico tem constituído, de há muito, o ponto máximo das atenções e estudos do Grêmio Politécnico: por isso mesmo, resolveu a congregação da Escola prestigiar com todo seu apoio o empreendimento (Solenemente [...], 1950).

Na trajetória profissional de Badra, este projeto veio a consolidar o repertório moderno em suas obras. Posteriormente, projetou muitos edifícios tributários da arquitetura de Rino Levi

181 e das obras modernas do Rio de Janeiro. No âmbito educacional, Badra também projetou o “Colégio Estadual de São Paulo, no Parque Dom Pedro II, e o Colégio Técnico e Industrial Getúlio Vargas [...]. Sua obra mais conhecida é a Fundação Getúlio Vargas, à Avenida 9 de Julho [...]” (Ficher, 2005, p. 334). No projeto para o Paço Municipal de Marília (1954), realizado em conjunto com Ginez Velanga, Badra já havia incorporado a linguagem típica moderna. Um artigo, publicado no jornal Folha da Manhã (O Paço [...], 1958), a respeito deste projeto, comenta que a cidade de Marília teria “um dos paços municipais mais arrojados de todo o país concebido e executado em obediência ao estilo da moderna arquitetura funcional”. Há, portanto, o entendimento de que a arquitetura moderna era uma estética contemporânea, assim como o estilo Art-déco, também era considerado uma arquitetura à frente de seu tempo.

De linguagem funcional-racionalista, pelo que se sabe, este edifício foi um dos últimos a integrar o complexo arquitetônico da Escola Politécnica de São Paulo. Trouxe para aquele quarteirão aspectos da estética moderna que, nas décadas seguintes, seria também aplicada em várias cidades brasileiras. Ao mesmo tempo, confronta-se com os vários estilos arquitetônicos presentes nas edificações que faziam parte da Escola Politécnica e do Instituto de Pesquisas Tecnológicas.

Com a transferência das instalações da Escola Politécnica para a Cidade Universitária, a Casa do Politécnico foi perdendo sua função de alojamento. Posteriormente, foi ocupado por moradores e grupos artísticos diversos não vinculados à Escola Politécnica. Mais tarde, o edifício degradou-se, até chegar, nos dias atuais ao estágio de completo abandono. Um relatório sobre as condições de conservação deste edifício, que era conhecido como CADOPÔ, elaborado por Lara Melo Souza, do Departamento do Patrimônio Histórico, da Secretaria Municipal de Cultura da cidade de São Paulo, traz mais informações sobre este processo. Na década de 1980, já havia pouquíssimos moradores, e com o tempo foi sendo abandonado e invadido. Em 2000, novos contatos foram articulados pelo Grêmio Politécnico junto à Secretaria de Cultura com a intenção de recuperar o prédio. Somente em 2007, “a Secretaria Municipal de Cultura começou a fazer os atuais estudos e a articular a desapropriação do CADOPÔ [...] com o intuito de abrigar anexo do Arquivo Histórico Municipal “Washington Luiz”, uma solução satisfatória que daria ao prédio uma finalidade de interesse cultural. No ano seguinte, este patrimônio foi transferido para o município (Souza, 2008, p. 2-3). Este é o último edifício que se tem notícia, da safra produzida pelos arquitetos da Poli para os espaços da Escola Politécnica.

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Benzer Belgeler