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Como um dos reflexos territoriais do pocesso de consolidação da cidade e de sua expansão numérica, a questão dos limites do RN com outras províncias volta a ser retomada em vários momentos deste período entre 1846 e 1889, tanto com a Paraíba como com o Ceará. A primeira referência identificada neste sentido ocorre em 1849, quando o Presidente Benvenuto Augusto de Magalhães Taques informa problemas de limites entre a Freguezia de Santos Cosme e Damião da Serra do Pereira, na Provincia do Ceará, e a Freguezia de Pau dos Ferros no RN. De acordo com o Presidente Taques, uma representação promovida pelo vigário do Ceará solicitou que o Governo Imperial determinasse os limites entre as províncias – ao que o Governo repassou para que fosse delimitado em comum acordo entre os Presidentes locais – o que foi acertado, tomando como referência uma fazenda situada no vale entre ambas as serras do Frade e Jardim e do Pereira. Em 1861, o problema de limites agora era

com a Paraíba: o Presidente José Bento da Cunha Figueiredo Junior atesta a invasão do “lugar denominado – Marcos”, no RN, pelo subdelegado de polícia da Bahia da Traição (da Paraíba), chegando a efetuar prisões. O Presidente Figueiredo Junior solicitou esclarecimentos ao Presidente da Paraíba, que logo demitiu o agente policial; pouco tempo depois, agentes agora de Mamanguape (também na Paraíba), novamente haviam estendido sua jurisdição ao mesmo lugar “Marcos”. Considerando a possibilidade de frequentes problemas com tais fronteiras, o Presidente Figueiredo Junior tratou de:

[...] exigir informações sobre a questão de limites que suscitava-se entre esta e a provincia da Parahiba no referido lugar. [...] Toda a difficuldade da questão consiste em verificar-se a primitiva posição de um marco, que servindo de balisa entre as duas provincias fora mudado para o norte com prejuizos desta, segundo me levam a crer as allegações contidas nas peças officiaes que vos serão presente. Por mais liquido que me pareça o direito desta provincia, aliás contestado pelas autoridades da Parahiba com razões que não podem destruir as nossas, cumpre que se proceda a uma demarcação ou aviventação de rumos, conservando-se entretanto e posse no status quo até que o poder competente resolva como for mais justo.[...] Convém entretanto consultar ainda os archivos publicos, e invertigar qualquer prova que tenha por fim helucidar a questão de limites entre as duas mencionadas provincias. (FIGUEIREDO JUNIOR, 1861).

No ano seguinte, 1862, o Presidente Pedro Leão Velloso retoma o problema da falta de uma definição mais precisa de limites com a Paraíba, pois havia recebido um aviso do Ministério do Império, e precisou montar uma equipe de engenheiros (composta tanto por representantes da Paraíba como do Rio Grande do Norte) para examinar os marcos entre as províncias e emitissem um parecer a respeito (possivelmente, um desdobramento do processo encetado em 1861 pelo Presidente Figueiredo Junior). Além disto, levantou, pela primeira vez neste período, o problema sério que ocasionava à província, a falta, tanto de dados estatísticos cadastrais, como de uma carta corográfica, e suas providência neste quesito:

Não é so de um cadastro, tão necessário aos estudos administrativos, e cuja confecção virá facilitar o estudo e solução de diversos problemas, que sente falta esta província; não tem Ella carta coreographica, nem ao menos imperfeita e em esboço, como outras possuem. Quando entrei para a administração pretendi supprir esta lacuna, e ao engenheiro ao serviço da provinvia encarreguei do trabalho, que não foi effeituado á falta de instrumentos próprios e de recursos para occorrer ás respectivas despezas. (VELLOSO, 1862).

Apontar a falta de mapas no RN, relacionada às questões de limites com as províncias vizinhas, nos dá a dimensão da recorrência com que o problema de limites

estava acontecendo e do quanto a província tinha pouco conhecimento para lidar com a situação. Além disto, reforça o quanto a população estava crescendo, bem como a sua dinâmica de ocupação territorial, cada vez mais sendo impulsionada para as áreas incultas – seguindo de encontro para os indefinidos limites do RN. É importante também constatar a importância dos engenheiros, nas tomadas de decisão nestes embates, através da sua produção técnica (relatórios e pareceres), confeccionada por equipes de profissionais, com representantes das respectivas províncias envolvidas, buscando soluções. Em 1867, o Presidente Luiz Barboza da Silva recupera a discussão da falta de “uma carta corographica da província, onde figurassem todos os seus portos, rios, lagoas, montanhas, estradas, cidades, villas, povoações, accidentes de terreno”, apontando este documento como um instrumento indispensável para a adequada administração pública, sobretudo na decisão do empreendimento de obras. O Presidente Silva alerta ainda que, caso o Governo Imperial não se posicionasse enviando auxílios para que se realizasse o levantamento corográfico do RN, a própria província deveria providenciar esta confecção, e menciona uma escassa informação de conhecimento público, sobre a área total do RN: “A superfície da província é calculada em 150,000 legoas quadradas” – e só. Neste mesmo Relatório, o Presidente Silva relembra os problemas ainda persistentes dos limites do RN tanto em relação à Paraíba, como em relação ao Ceará, neste último caso, “[...] a respeito de margem esquerda do rio Mossoró desde a sua foz, até poucas léguas a cima”, sendo que nas duas situações, o Presidente acredita, o “bom direito está sem duvida do lado desta província [...]”.

FIGURA 42 – Limites do RN (1846)

Fonte: autoria própria, a partir de vetorização da “Carta do Império do Brazil, reduzida no arquivo militar em

conformidade da publicada pelo coronel Conrado Jacob de Niemeyer em 1846 e das especiais das fronteiras com os estados limítrofes organizadas ultimamente pelo conselheiro Duarte da Ponte Ribeiro. Rio de Janeiro, 1873”. Acesso em julho de 2014, através do site: http://dl.wdl.org/1035.png

FIGURA 43 – Limites do RN (1910)

Fonte: autoria própria, a partir de vetorização do “Mappa dos estados do Ceará, Rio Grande do Norte e Parahyba, com parte dos estados limitrophes”, produzido pelo “Ministério da viação e obras públicas, Inspectoria de Obras contra as Seccas, M. Arrojado Lisbôa, Inspector, pelo Serviço Geológico e Mineralógico do Brasil ”e sob a direção dos engenheiros Horace E. Williams e Roderic Crandall”, de Outubro de 1910. Obtido na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

LEGENDA:

Obs.: Não foi possível identificar os povoados (nomes ilegíveis)

Por fim, a última referência acerca de problemas com limites do RN, ocorreu em 1874, quando o Presidente João Capistrano Bandeira de Mello Filho tratou de uma solicitação feita pela Câmara Municipal de Jardim, pela definição de uma clara fixação dos limites entre a freguezia do Jardim (RN) e a de Santa Luzia do Sabugy (PB), visto que já há muitos anos aconteciam problemas de jurisdição entre as autoridades vizinhas e conflitos entre particulares – e igualmente mencionou a necessidade da edificação de uma cadeia, onde também funcionasse a própria Câmara Municipal. Em linhas gerais, estes problemas de limites do RN, em relação às províncias limítrofes, ainda se alastram para além deste período, só se resolvendo efetivamente já no século XX. É notório, neste debate sobre a questão dos limites do RN, que embora os

Presidentem em sua maioria se queixem das parcas finanças, da morsidade do desenvolvimento do RN, este se encontrava em franco processo de crescimento, começando a atingir seus limites territoriais e abrindo um debate acerca da precisão destes – que dadas as incertezas oficiais, entravam em conflito com as províncias vizinhas. Além disto, a definição dos limites relacionam-se, igualmente, com a necessidade de planejamento e da organização político-administrativa das províncias, e não só do RN, fruto do surto de desenvolvimento geral, o que não significava necessariamente que isso ocorresse como resultado do crescimento do número de localidades e de sua expansão no território.

É importante atentar também para fatores além de questões físico-espaciais e territoriais, que são os interesses econômicos que estão por trás destes debates: desde o século XVII, as salinas de Macau e mesmo de Mossoró já haviam sido assinaladas como importantes produtoras de sal, de boa qualidade e abundância – e foi somente o não-protecionismo da indústria brasileira que impediu seu franco desenvolvimento há mais tempo. No momento em que os impostos começam a incentivar a produção brasileira, o Ceará identifica neste manancial – e na fragilidade política do RN – uma oportunidade para reivindicar esta área. Da mesma forma, temos o limite para com a Paraíba, sobretudo nas proximidades de uma importância zona de cotonicultura do RN, para onde inclusive afluía grande parte da produção potiguar, sob a forma de contrabando (fazendo evadir-se grande parte dos impostos que deveriam ser do RN, mas que ficavam na Paraíba). Diferentemente do que acontecia no Ceará (para onde os lucros com a produção do sal potiguar não se evadiam), uma vez que parte dos lucros da produção algodoeira efetivamente ia para a Paraíba, os problemas mencionados nos Relatórios, além da perda de capitais, diz respeito à tensão de segurança pública na região. Criminosos vindos da Paraíba frequentemente obtinham asilo na RN, levando autoridades paraibanas a invadirem a jurisdição potiguar, o que estava ocasionando atritos diversos. Em resumo, nos dois problemas de limites, a falta de definições fragilizava a autonomia potiguar, sobretudo vinculada a questões econômicas e de segurança pública, o que guardadas suas proporções, impactavam negativamente o desenvolvimento da cidade potiguar, seja pelas tensões, seja pelas perdas de capitais.

4.5 O MAU QUE VEM PARA O BEM: CALAMIDADES PÚBLICAS E A

Benzer Belgeler