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O primeiro nível necessário para o desenvolvimento de uma condição cosmopolita é o desenvolvimento de uma lei doméstica361 (direito constitucional e/ou político). Nesse primeiro nível, trata-se do desenvolvimento do direito interno de cada país e do estabelecimento dos direitos e dos deveres que devem existir entre os cidadãos e o seu governo. Portanto, trata-se de uma relação entre os cidadãos, ou seja, trata-se de uma relação de cidadão para cidadão, ou, como ainda se poderia dizer, entre o governo e os cidadãos, ou seja, trata-se de uma relação do Estado para com os seus cidadãos. As normas dessa relação encontram-se estabelecidas em uma o stituiç o . No aso de Ka t, [a] o stituiç o i il e ada Estado de e se epu li a a ZeF VIII, . Co o j fora afirmado anteriormente, uma constituição contém as prescrições fundamentais sobre a organização do Estado, da divisão do poder soberano e a garantia dos direitos fundamentais para os indivíduos.

Nesse sentido, o estabelecimento, ou seja, a instituição de uma constituição republicana – a i a ue esulta da ideia do o t ato o igi io e ue toda a legislaç o jurídica de um povo deve ser fundada ZeF VIII, – obedece a três princípios básicos:

primeiro, de acordo com o princípio da liberdade dos membros de uma sociedade (como homens), segundo, de acordo com o princípio da dependência de todos à uma única legislação comum (como súditos), e, terceiro, de acordo com a lei da igualdade dos mesmos (como cidadãos) (ZeF VIII, 349-50).362

Esses princípios são o fundamento de uma república e a pedra de toque para toda sociedade que se defina como orientada à liberdade e à paz.363 Além disso, esses princípios ainda fornecem quatro características básicas que toda constituição deveria conter.364 Em primeiro lugar, uma constituição republicana exige o assentimento dos cidadãos sobre a

359„[…] ei e e ei igte Ge alt . 360

Sobre o caráter coercitivo ou não-coercitivo dessa organização internacional, veja-se a próxima seção. 361 Do esti La B

ROWN, G. W. Grounding Cosmopolitanism. p. 95).

362 „Die erstlich nach Principien der Freiheit der Glieder einer Gesellschaft (als Menschen), zweitens nach Grundsätzen der Abhängigkeit aller von einer einzigen gemeinsamen Gesetzgebung (als Unterthanen) und d itte s die a h de Gesetz de Glei hheit de sel e als Staats ü ge gestiftete Ve fassu g .

363 Cf. G

ERHARDT, V. I a uel Ka ts E t u f ‚Zu e ige F iede . p. 79.

364

guerra e a paz.365 Em segundo lugar, todos os seus súditos são também cidadãos, isto é, membros do poder legislativo. Isso ocorre, porque a constituição republicana se fundamenta sobre os princípios da liberdade jurídica e da igualdade jurídica, de modo que o chefe de Estado também é considerado como um membro do Estado e não como o seu proprietário.366 Em terceiro lugar, tal constituição contém o princípio da divisão dos poderes.367 Em quarto e último lugar, uma constituição republicana também é representativa.368

A explicação dessas quatro características básicas de uma constituição pode ser mostrada analogamente ou semelhantemente com a explicação do reino dos fins contida na Grundlegung zur Metaphysik der Sitten, onde o homem – como ser racional – pode contar-se não apenas como membro do mundo sensível, mas também como membro do mundo inteligível.

Um ser racional pertence ao reino dos fins como membro, quando ele, na verdade, é legislador universal, mas também está submetido a essas mesmas leis. Pertence-lhe como chefe, quando ele, como legislador, não está submetido à vontade de outro (GMS IV, 433).369

Assim, se estabelece dois pontos de vista, em que um e o mesmo ser racional deve considerar-se a si próprio, isto é, na condição de membro do mundo inteligível, como legislador, e, na condição de membro do mundo sensível, como súdito. Com esse mecanismo metodológico-explicativo, Kant encontrou, em primeiro lugar, a possibilidade de assegurar uma única legislação – racional – para todos os homens, na qual eles são, ao mesmo tempo, legisladores e súditos, ou seja, promulgadores da lei e também obrigados a obedecê-la. Em segundo lugar, a igualdade também está assegurada por esse mecanismo metodológico-explicativo, simplesmente porque ele depende de outra condição, a saber, o princípio de universalidade, isto é, o imperativo ateg i o: age apenas segundo aquela máxima pela qual tu possas ao mesmo tempo querer que ela se torne em uma lei universal

365 „We ie es i diese Ve fassu g i ht a de s sei ka die Beisti u g de Staats ü ge dazu e fo de t i d ZeF VIII, .

366„Da hi gege i ei e Ve fassu g, o de U te ta i ht Staats ü ge , die also nicht republikanisch ist, es die u ede kli hste Sa he de Welt ist, eil das O e haupt i ht Staatsge osse, so de Staatseige tü e ist (ZeF VIII, 351).

367„De Republikanism ist das Staatsprinzip der Absonderung der ausführenden Gewalt (der Regierung) von der gesetzge e de ZeF VIII, .

368 „Alle Regie u gsfo li h, die i ht representativ ist, ist eigentlich eine Unform ZeF VIII, .

369„Es geh t a e ei e ü ftiges Wese als Glied zum Reiche der Zwecke, wenn es darin zwar allgemein gesetzgebend, aber auch diesen Gesetzen selbst unterworfen ist. Es gehört dazu als Oberhaupt, wenn es als gesetzgebend keinem Willen eines andern unterworfen ist t aduç o odifi ada .

(GMS IV, 421).370

Hipoteticamente falando, essa é uma situação em que ninguém quer ser prejudicado. Portanto, nada é mais justo do que o estabelecimento de um princípio que regule a ação humana. Em termos jurídico-político, o estabelecimento desse tipo de princípio deve ser assegurado em uma constituição. Como argumentado anteriormente, Kant acreditava ter dado bons fundamentos para que uma constituição republicana assegurasse aquilo que é básico: liberdade e igualdade jurídica e dependência dos membros de um Estado de uma mesma legislação.

Além desses elementos, uma constituição também deve ser representativa, pois como Kant mesmo argumentava: u a fo a de go e o ue ão é representativa, é propriamente uma não forma ZeF VIII, .371 Sob esse aspecto, Kant é claramente contra a fo a de o ti a de go e o, po ue ela go e a o po o, ou seja, todos ue e se o so e a o ela ZeF VIII, .372 Kant não conheceu nenhum tipo de democracia

representativa – como se conhece hoje373 –, por isso ele argumentava que somente um governo republicano poderia ser representativo. No entanto, o que quero mostrar aqui, é que a elho fo a de go e o o a uela, o de se i e o o máximo de comodidade eudai o ia , as a uela e ue assegu ado ao idad o o seu di eito .374 Além disso,

esse primeiro artigo definitivo à paz perpétua apresenta as condições de possibilidade – básicas – para o desenvolvimento do primeiro nível de uma condiç o os opolita, pois o decisivo nesse primeiro artigo definitivo é, portanto, que ele permite o início da paz com o sistema jurídico nos Estados .375 Cabe ainda ressaltar, como já feito no terceiro capítulo, que Kant não considerou a necessidade de proteger os indivíduos contra a opressão de um governo despótico em seu país natal, quando esse ainda não adotou a forma republicana de

370„Handle nur nach derjenigen Maxime, durch die du zugleich wollen kannst, daß sie ein allgemeines Gesetz werde . So e esse es o p i ípio de u i e salidade, ai da pode ia ita : „i h soll ie als a de s e fah e als so, daß ich auch wollen könne, meine Maxime solle ein allgemeines Gesetz werden GMS IV, ; „handle so, daß du diese Menschheit sowohl in deiner Person, als in der Person eines jeden andern jederzeit zugleich als Zweck, niemals bloß als Mittel brauchst GMS IV, .

371

„Alle Regierungsform nämlich, die i ht ep se tati ist, ist eige tli h ei e U fo . 372„da hi gege die de ok atis he es u gli h a ht, eil Alles da He sei ill . 373 Cf. E

BERL, O. & NIESEN, P. Immanuel Kant. Zum ewigen Frieden. p. 220ss; cf. CAVALLAR, G. Pax Kantiana. p. 143;

cf. KERSTING, W. „Die ü ge li he Ve fassu g i jede Staate soll epu lika is h sei . In: HÖFFE, O. Immanuel Kant. Zum ewigen Frieden. p. 99ss; cf. DOYLE, M. W. Die Stimme der Völker. In: HÖFFE, O. Immanuel Kant. Zum ewigen Frieden. p. 221ss; cf. HÖFFE, O. Demokratie im Zeitalter der Globalisierung. p. 107ss.

374 „Die este Regie u gsfo ist i ht die, o i es a e ue ste ist zu le e Eud o ie , so de o i de Bü ge sei Re ht a eiste gesi he t ist AA, XXIII, .

375„Das E ts heide de a diese e ste Defi iti a tikel ist also, daß e de F iede ei de Rechtsordnung im Inneren der Staaten egi e l ßt GERHARDT, V. I a uel Ka ts E t u f ‚Zu e ige F iede . p. 79).

governo. Em contrapartida, Kant considerou somente a necessidade de garantir os direitos básicos dos cidadãos na constituição do Estado. O que, por um lado, não se mostra como uma coisa má, mas, por outro lado, mostra deficiências e limitações em sua teoria cosmopolita por estar muito conectada a uma forte concepção de Estado.

Benzer Belgeler