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A cultura açucareira foi implantada na região hoje denominada Nordeste brasileiro em torno de 1550. A atividade atingiu tal grau de desenvolvimento que, mesmo enfrentando sérias crises ao longo do tempo, o açúcar pernambucano continuou como destaque da pauta de exportações brasileiras até o final do século XIX (EISENBERG, 1977).

A decadência do setor, verificada nas primeiras décadas do século XX, foi ocasionada por dois grandes fatores: a) concorrência externa acirrada, que contava inclusive com outras fontes de produção, como a beterraba, e baixava consideravelmente os preços internacionais; b) política cambial interna, que desvalorizava continuadamente a moeda local, em prejuízo de uma atividade que dependia acentuadamente das importações de insumos, inclusive equipamentos. Esta crise mergulhou toda a região Nordeste, especialmente Pernambuco, em um grande declínio econômico (EISENBERG, 1977).

Ao estudar tal problemática, o Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste (GTDN), concluiu, em 1959, que “a absorção de grandes massas de mão-de-obra, [...] em regiões onde são escassos os recursos da terra, só é possível com a instalação de indústrias manufatureiras” (SUDENE, 1978, p. 83). Segundo o mesmo Grupo de Trabalho, o atraso econômico verificado só poderia ser superado por meio de uma política de industrialização, a qual contribuiria para a geração de empregos, para o surgimento de uma nova classe dirigente e para a fixação de capitais na região.

Diversos autores, notadamente aqueles de orientação keynesiana11, têm corroborado com esta posição ao asseverar que a indústria de transformação é o motor de crescimento de uma região, sendo bem mais importante do que os setores agrícola e de serviços, os quais não conseguem produzir efeitos para trás e para frente com a mesma intensidade.

A década de 1960 foi marcada pelo descobrimento do Nordeste, ou, na explicação de Vergolino e Rocha (2003), pelo conhecimento das potencialidades econômicas da região e dos principais fatores que obstaculizavam o seu desenvolvimento econômico. Os autores destacam as obras estruturantes que surgiram a partir da criação da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste – SUDENE. Foram dessa época, por exemplo, o incremento da produção regional de energia elétrica e a significativa ampliação dos serviços de telecomunicações e das vias de transportes. Dessa forma, o grau de industrialização nordestino deu um salto, apesar de o setor continuar muito vinculado e, portanto, dependente, da conjuntura econômica do País. Observou-se, ainda, considerável redução das áreas ditas decadentes na região.

Como resultado desses investimentos, a década de 1970 foi considerada positiva para o Nordeste. Os projetos de irrigação do semi-árido, principalmente aqueles localizados na calha do rio São Francisco, e a ampliação e modernização das indústrias de tecelagem, as quais utilizavam como matéria-prima o algodão produzido na região, trouxeram certo grau de desenvolvimento para Pernambuco que, embora figurando em segundo lugar entre os estados nordestinos em crescimento econômico, perdendo para a Bahia, viu o seu Produto Interno Bruto (PIB) crescer 121%, índice superior à média nordestina (VERGOLINO e ROCHA, 2003).

A crise política e econômica em que o regime militar lançou o País fez com que os anos 80 ficassem conhecidos como a década perdida. Mesmo assim, os investimentos realizados anteriormente propiciaram que o Nordeste mantivesse ainda as suas taxas de crescimento acima da média nacional.

11 Myrdal, Hirschman e Kaldor apud Martinho (2005); Thirwall e Tregenna apud Oreiro e Feijó

Entretanto, a continuidade da recessão, bem como o fracasso dos sucessivos planos econômicos e a falta de novos investimentos, tanto públicos como privados, mergulhou o Nordeste, notadamente nos primeiros anos da década de 1990, em profundo declínio. Tal evento permitiu evidenciar, inclusive, o alto grau de integração da indústria nordestina à do Brasil, uma vez que o desaquecimento econômico das regiões Sul e Sudeste, potencializado também pela abertura do mercado brasileiro aos produtos estrangeiros, produziu efeitos negativos e impactantes no setor industrial do Nordeste (VERGOLINO e GOMES, 1995).

O desempenho de Pernambuco foi ainda mais dramático, pois os seus indicadores econômicos mostraram-se inferiores aos apresentados pelos principais estados nordestinos, como a Bahia e o Ceará. Assim, em meio a uma “perda relativa econômica” ou “declínio relativo”, o seu PIB ficou abaixo não apenas do baiano, mas também do cearense. Vergolino e Neto (2001) afirmam que o fator determinante desse resultado desfavorável foi a perda de força da base industrial. A análise de alguns números corrobora, de fato, tal proposição. Observando o valor do PIB pernambucano por setores, no período de 1985 a 1998, constata-se que enquanto o setor de serviços teve incremento de 70%, a agropecuária teve queda de 11% e a indústria, mais aderente à crise que assolou o Estado, amargou um decréscimo de 28%. No mesmo período, o PIB industrial do Ceará cresceu 63%.

A estabilização da economia brasileira, ocorrida a partir de 1995, permitiu ao Nordeste não apenas a sua recuperação econômica no início do novo século, mas o seu crescimento a taxas maiores do que as demais regiões do País. No período 1995-2008, enquanto o Sudeste perdeu participação no PIB nacional e o Sul praticamente se manteve, o Norte e o Centro-Oeste cresceram 0,9 pontos percentuais, ficando ambos um pouco abaixo do patamar de 1,1% apresentado pelo Nordeste (IBGE, 2009).

Em Pernambuco, os sinais da recuperação econômica ficaram bem mais evidentes. Projetos de infra-estrutura, como o Complexo Industrial Portuário de Suape e o polo de agricultura irrigada nas margens do rio São Francisco, já em

atuação há três décadas, finalmente receberam novos investimentos e impulsionaram um novo ciclo de desenvolvimento (ALBUQUERQUE, 2005).

A situação pernambucana é, de fato, inédita. Duas obras de grande impacto no interior, como a ferrovia Transnordestina e a transposição do rio São Francisco, unem-se a pesados investimentos no litoral. O Complexo Industrial Portuário de Suape, com instalações modernas e estrategicamente bem localizado, tem se revelado, por si só, um grande impulsionador da economia estadual. Cerca de 140 empreendimentos de grande impacto, incluindo capital estrangeiro, já foram realizados e estima-se que os recursos a serem aplicados, até 2016, girem em torno de R$ 60 bilhões. Todos estes fatores fizeram com que o PIB do Estado apresentasse sucessivos crescimentos, até acima da média nacional. Em 2010 o crescimento foi de 9,3%, o que fez Pernambuco retomar a segunda posição regional, ficando abaixo apenas da Bahia. As projeções indicam que o PIB de 2011 ficará em torno de R$ 110 bilhões (FIEPE, 2011b).

Apesar de todos os setores econômicos se beneficiarem, é justamente na área das indústrias de transformação que as mudanças são mais visíveis. Este setor tem atraído novos e importantes blocos de investimentos, como as cadeias produtivas de petróleo e gás, petroquímica, naval, automobilística, têxtil, entre outras. Como resultado, enquanto no Brasil e no Nordeste o estoque de emprego formal, entre 2004 a 2010, cresceu 40,3% e 48,5%, respectivamente, em Pernambuco o crescimento alcançou o índice de 50,3%. (FIEPE, 2011b).

Não obstante o inconteste desenvolvimento, a geração de riqueza não é distribuída com equidade entre os municípios, de sorte que os recursos locais disponíveis funcionam como atrativos ou repulsores dos investimentos. Buscando mediar essas diferenças internas, e após uma série de fóruns e deliberações, o Governo do Estado de Pernambuco aprovou a Lei Estadual n°12.427, de 25.9.2003, criando doze Regiões de Desenvolvimento ou RD. Esse mapa microrregional permite, entre outras abordagens, a visualização das potencialidades e entraves geopolíticos de cada setor, buscando viabilizar o desenvolvimento em cada localidade (CONDEPE/FIDEM, 2009).

A Figura 5 apresenta as doze Regiões de Desenvolvimento de Pernambuco:

Figura 5: As doze Regiões de Desenvolvimento de Pernambuco. Fonte: Condepe/Fidem, 2003).

Com relação ao processo de industrialização, três RD se destacam no cenário pernambucano. A RD Metropolitana, que agrega os municípios no entorno de Recife, abrange a maior concentração de indústrias, de maneira que os cincos maiores PIB, medidos nos anos de 2007-2008, encontram-se nessa microrregião. O sexto maior PIB, Petrolina, centraliza a RD São Francisco, enquanto Caruaru, sétimo PIB estadual, lidera a RD Agreste Central. A Figura 6, a seguir, apresenta o Valor Adicionado Bruto – VAB do Setor Industrial, por município. Observa-se claramente que as indústrias estão concentradas nas RD Metropolitana, São Francisco e Agreste Central. O município que aparece em destaque na RD Itaparica, Petrolândia, foi desconsiderado por se tratar de Serviços Industriais de Utilidade Pública – SIUP, que, no caso, refere-se a geração de energia elétrica e não a indústrias de transformação (GOVERNO DO ESTADO DE PERNAMBUCO, 2009).

Figura 6: VAB do Setor Industrial, por município de Pernambuco em 2008. Fonte: Governo do Estado de Pernambuco, 2009.

As três maiores regiões metropolitanas do Nordeste, que ficam no entorno das cidades de Fortaleza, Recife e Salvador, abrigam os grandes complexos industriais da região. No caso de Pernambuco, a RD Metropolitana respondeu, em 2008, por quase 65% do PIB do Estado (GOVERNO DO ESTADO DE PERNAMBUCO, 2009). Com a implantação do Complexo Industrial Portuário de Suape, já relatado, a microrregião tende a crescer ainda mais, estimulando, em consequência, outras indústrias de apoio, como de metal-mecânica, alimentos, bebidas, tecelagem, etc., que, por sua vez, poderão impulsionar a produção de matérias-primas, contribuindo, em última análise, para a diversificação das atividades industriais do Estado (VERGOLINO e GOMES, 1995).

Nas margens do rio São Francisco, mais precisamente nos arredores do município de Petrolina, surgiu um polo de agricultura irrigada que utiliza técnicas intensivas de grande produtividade e é sustentado em produtos de alta elasticidade-renda. Assim, a fruticultura irrigada propiciou o surgimento de várias indústrias ligadas às atividades de alimentos e bebidas, envolvendo frutas in natura, doces, sucos e vinhos, inclusive para exportação. Outras atividades industriais, como as de artigos do vestuário, são observadas na RD São Francisco, embora com menor expressão (ALBUQUERQUE, 2005). Os polos irrigados nordestinos, não apenas o de Pernambuco, vêm se destacando, juntamente com às áreas metropolitanas, como as regiões de maior dinamismo

econômico. Por exemplo, a participação da microrregião do São Francisco no PIB de Pernambuco, não obstante o grande crescimento das cidades litorâneas, saltou de 1,97%, em 1985, para 4,5% em 2008 (GOVERNO DO ESTADO DE PERNAMBUCO, 2009).

A RD Agreste Central, capitaneada por Caruaru, destaca-se como grande aglomeração urbana. Não sendo uma região metropolitana, nem polo de irrigação ou semi-árido, constitui um espaço heterogêneo, com atividades agrícolas, pecuárias e também turísticas. Apresenta índices econômico-sociais inferiores aos do Nordeste, como um todo, muito embora tenha permanecido como a segunda microrregião mais importante do Estado até o surgimento do polo de irrigação do rio São Francisco (ALBUQUERQUE, 2005). Observa-se, porém, que enquanto a participação do PIB da cidade de Petrolina, em relação ao Estado, passou de 2,7%, em 1999, para 3,4%, em 2008, o PIB de Caruaru ficou estagnado em 3,0%, o que a fez perder a sexta posição para a própria Petrolina. As indústrias de transformação mais importantes do Agreste Central envolvem as atividades de confecções, alimentos, bebidas, material elétrico e metalurgia (GOVERNO DO ESTADO DE PERNAMBUCO, 2009).

Conforme o Cadastro Industrial de Pernambuco 2011-2012 (FIEPE, 2011a), a produção de alimentos, bebidas e vestuário existem nas três Regiões de Desenvolvimento abordadas, o que permite uma análise comparativa envolvendo as três atividades industriais.

Pode-se concluir que Pernambuco, que conheceu a industrialização desde a chegada dos portugueses, vivenciou o apogeu, o declínio e a estagnação do seu mais precioso bem: a produção do açúcar. Entretanto, a região hoje vive, após décadas de investimentos, um processo de reindustrialização em larga escala, cuja diversificação de atividades tende a superar as limitações da monocultura açucareira. O Estado, já considerado um novo polo industrial do País, busca diminuir a cada dia a sua dependência de outros centros mais avançados. Para que tal propósito seja alcançado, faz-se necessário que todas as indústrias, e não apenas as de grande porte, se adéqüem às novas regras de gerenciamento de riscos operacionais, sejam elas exigidas pela legislação, pelo mercado ou por ambos.

Benzer Belgeler