• Sonuç bulunamadı

4. ARAŞTIRMA SONUÇLARI VE TARTIŞMA

4.1. Deney Sonuçları

4.1.2. Deney elemanı-2 (KL2)

Alessandro Hirata

Gostaria de agradecer o convite e dizer que é uma honra partici- par desta homenagem ao professor Tercio [Sampaio Ferraz Jr.]. Meu tema é relativo à metodologia de pesquisa – mais especifica- mente na área histórica do direito –, utilizando a dogmática como instrumento de pesquisa.

A pesquisa científica em campos não tradicionais da história do direito antigo, ou seja, em campos diversos do direito romano, ou, no caso que apresentarei, do direito grego ou nos direitos de escri- ta cuneiforme, apresenta dificuldades metodológicas intimamente ligadas à dogmática jurídica. O exemplo que trago para mostrar a importância da dogmática como instrumento metodológico está relacionado aos direitos de escrita cuneiforme, o direito mesopo- tâmico nos primeiros milênios antes de Cristo.

Inicialmente, darei os pressupostos da pesquisa. Ao estudar as fontes de escrita cuneiforme que chegaram até nós, temos a con- frontação com uma massa de textos diversos que, em sua grande maioria (cerca de 70%) tem conteúdo jurídico: contratos, códigos – lembrando que a palavra “código” é sempre problemática –, proto- colos processuais e outros documentos que descrevem o cotidiano econômico e social na Mesopotâmia a partir do segundo milênio antes de Cristo. A primeira questão que se apresenta nesse contex- to é se o objeto desses documentos pode ser chamado de direito; em outras palavras, se estamos diante de documentos de conteúdo jurídico ou, mais ainda, se é possível determinar se se trata de direi- to ou não.

Não pretendo, obviamente, discutir o que seja direito ou conteú- do jurídico, mas é preciso traçar alguns parâmetros metodológicos para análise de material em escrita cuneiforme. Em Roma, no campo do direito romano, temos claramente a presença da chamada ciência do direito, no conceito de “ius”, que revelará o pensamento jurídico romano, pensamento do objeto do direito para os romanos. Essa carac- terística do direito romano e de seu estudo, responsável também pela importância deste para os estudiosos modernos da matéria, é decisi- va para a compreensão das fontes romanas e, consequentemente, do

direito em Roma. Entretanto, não temos essa característica na Meso- potâmia. Não foi possível observá-la em documentos cuneiformes até então encontrados.

Sobre a questão dos documentos até então encontrados, é pre- ciso fazer uma ressalva, pois nunca se sabe o que ainda pode aparecer. Até agora não foi detectado nenhum sinal de atividade do estudo do direito. Há documentos sobre a formação de escri- bas, mas não sobre a formação técnica para escrever documentos. Os escribas eram responsáveis por esses documentos ditos com conteúdo jurídico: contratos, protocolos processuais e assim por diante, mas não se tem notícia de formação jurídica, não existia uma escola jurídica. Sendo assim, na sociedade mesopotâmica, não havia a atividade do chamado jurista, do cultor do direito. Esse seria um argumento contrário à classificação dos documentos como sendo de conteúdo jurídico. Por outro lado, esses documen- tos trazem situações tipicamente reguladas de modo jurídico, como atividades econômicas cotidianas de uma sociedade primitiva de base agrícola; troca de mercadorias por determinada quantidade de material de valor ou outra mercadoria; uso de imóvel tendo, em contrapartida, pagamento de material de valor; entrega de bens, da noiva para o noivo, para celebração de união conjugal; e assim por diante. Estas são apenas algumas das situações encon- tradas em documentos de escrita cuneiforme.

Entendo que o fator determinante para considerar tais documen- tos como jurídicos é a vinculação das partes envolvidas perante uma autoridade competente. Os documentos eram providos, em sua maio- ria, ou de testemunhas, ou de lacre de uma autoridade. Esses sinais de autoridade [demonstram] que as placas de argila podiam ser leva- das à autoridade competente, possivelmente o templo ou o rei, no caso do não cumprimento do estabelecido por uma das partes, levan- do a sanções cabíveis, ou seja, estamos diante de um material vinculante, de documentos que precisavam ser respeitados pelas par- tes, o que leva ao argumento pela juridicidade desses documentos. Além disso, temos os chamados grandes documentos legislativos, os grandes códigos, como o Código de Eshnunna31 e o Código de

Hammurabi.32Como já disse, a palavra código é sempre problemá-

tica, não sei se esses documentos podem ser chamados de código (discussão esta que não se faz necessária aqui), mas constituem, sem

dúvida, em normas que prescrevem condutas e sanções com a vigência garantida por essa autoridade constituída do rei.

Diante disso, não vejo como não classificar esses materiais de escrita cuneiforme como sendo de conteúdo jurídico, o que jus- tifica o interesse e o estudo deles por juristas, sem prejuízo em relação aos aspectos históricos intrínsecos à matéria.

Outro problema para o estudo desses documentos está intima- mente ligado à dogmática jurídica. Ao estudarmos as instituições de direito privado em direito romano sempre temos como base as instituições de Gaio e Justiniano, que trazem, de forma básica, a estrutura dogmática dos estudos de direito romano. Nessas insti- tutas, juntamente com Digesto,33 temos a principal fonte do

direito romano e, ainda, a classificação dos conceitos jurídicos para os romanos e, em consequência, para o sistema de direito roma- no-germânico, de direito privado europeu continental.

Para os direitos de escrita cuneiforme, entretanto, não existe nenhum documento que tenha a função das institutas; não há nenhum documento que aponte figuras jurídicas ou apresente alguma explicação para essas figuras jurídicas. Isso dificulta enor- memente o trabalho de análise desses documentos.

Para exemplificar como enfrentar isso, preparei um tema [que inclui] certos documentos privados de período neobabilônico, que fundamentará a constituição de parcerias de negócios. Ao pesqui- sar sobre o tema, encontra-se um termo característico, a palavra ḫarrânu a primeira impressão que se tem é que esse termo signi- ficava, anteriormente, no período paleobabilônico ou caminho, ou rua e, também, viagem, caravana. Mas nos documentos do período neobabilônico, o significado é “empreendimento de negócios”. Essa palavra é, então, escrita com ideogramas cuneiformes sumérios KASKAL, que correspondem ao termo acádio “ḫarrânu”. Isso mos- tra mais ou menos, no ideograma de escrita cuneiforme, o símbolo de um cruzamento de caminhos, com muita imaginação, é claro.

As fontes sobre as sociedades ḫarrânu são compostas de contra- tos e protocolos judiciários. Não é surpresa que não haja nenhuma norma legal sobre esse tema. Isso em contraste com o período paleobabilônico, do qual conhecemos, por exemplo, o Código de Hammurabi; deste, chegou até nós apenas um fragmento de lei do período neobabilônico.

Cronologicamente, os documentos ḫarrânu pertencem a um período entre os reinados de Assurpanipal3 e Xerxes3. Da última

fase da história babilônica, ou seja, das eras tardo-persa e selêuci- da, não temos nenhum documento ḫarrânu.

Os documentos de constituição de sociedades ḫarrânu foram apresentados detalhadamente por [Hugo Lanz] em sua monogra- fia, Die neubabylonischen ḫarrânu-Geschäftsunternehmen, [As empresas de negócios- ḫarrânu neobabilônicas], e podem ser divididos em dois grupos: O primeiro é o grupo de participação de capital das duas partes. O segundo, grupo com participação no capital de ape- nas uma das partes.

Como exemplo do primeiro grupo, podemos citar uma certidão de 595 a.C., décimo ano do reinado de Nabucodonosor da Babilô- nia. [Esse documento] refere-se a duas minas de prata que Nabû-ahhê-šullim, e Kudurru empregaram conjuntamente para um empreendimento de negócios, em que tudo em que trabalhassem, na cidade ou no campo – depois explicarei o problema gramatical que há nele –, teriam a mesma parcela. O aluguel da casa será dado por “alguém” (termo não claro), do seu patrimônio de negócios. Seguem, então, as testemunhas e a data da certidão.

Tanto Nabû-ahhê-šullim como Kudurru deram duas minas de prata cada um, tendo como finalidade o empreendimento ḫarrânu. Uma mina tem, na Mesopotâmia, aproximadamente meio quilo. Os lucros dessa sociedade seriam divididos igualmente entre eles; na linha cinco, está presente o termo “ana ḫarrâni”, as partes investi- ram o capital “ana ḫarrâni” em um empreendimento de negócios. Essa cláusula é característica desse tipo de documento.

Na linha oito, há uma cláusula sobre os frutos de um imóvel; “ele” dará o aluguel da casa do seu patrimônio de negócios. Aqui não está claro se inamdin, o verbo dar (ou seja, o “ele” do documento), refe- re-se ao sócio que não administra a sociedade. Também não é possível saber se a casa pertence a uma das partes ou a um terceiro.

Benzer Belgeler