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5.2.1 Professor de música Dó

A entrevista com o Professor Dó aconteceu no dia 03 de março de 2017, na biblioteca

de uma das escolas do Município de Fortaleza, na qual referido professor leciona, entrevista

essa que durou cerca de 44min27s. Cabe ressaltar que ele é licenciado em Música pela UFC e

leciona em escolas da esfera municipal, além de desenvolver atividades docentes em uma

organização não governamental - ONG em Fortaleza, instituição onde atua na formação de

jovens e adolescentes, mais especificamente no campo da formação artística, justamente

porque reconhece a importância da Arte como inclusão.

A relação desse professor com a Música é para ele uma experiência inerente a sua

condição humana. Em sua narrativa, revela que essa relação se deu “desde sua vida intra-

uterina”. Segundo ele, desde a gravidez, sua mãe já cantava, tocava e o embalava com sons

musicais. Entende ele que é de fundamental importância na formação humana uma

aproximação com a Música desde a tenra idade, assim como extremamente necessária essa

experiência musical na fase escolar, conteúdo que não vivenciou em sua formação na

Educação Básica. Este professor foi inicialmente músico autodidata, de práticas aurais

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e

somente veio a ter uma experiência de formação musical institucional e formal na

Universidade, instituição na qual se formou como professor de Música de fato. Vale ressaltar

que, quando optou pelo Curso de Música em sua formação, não houve um apoio da família, o

que é comum com outros estudantes que fazem a escolha por este curso. Este mesmo

professor ainda destaca que sua trajetória de vida é fortemente marcada por instrumentos

musicais, como o teclado e a sanfona, adicionando-se a prática do canto coral.

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Segundo Couto 2008, definem-se por práticas aurais aquelas relacionadas com o tocar de ouvido, ou seja, fazer música sem o auxílio de notação musical escrita. Para saber mais ver [http://revista.uemg.br/index.php/modus/article/viewFile/767/483]

5.2.2 Professor de música Ré

Ré é licenciado em Música pela UFC desde 2014 e atua como docente em duas escolas

da rede estadual e duas escolas do sistema municipal de ensino de Fortaleza.

O momento de escuta no qual Ré narrou sua trajetória de vida e formação aconteceu

no dia 15 de fevereiro de 2017 na “sala de vídeo”, em uma das escolas da rede estadual de

ensino na qual leciona, tendo uma duração de 56min07s. Sua narrativa revela que a Música

para ele é algo apaixonante, além de ter significativa importância na sua história de vida. Suas

experiências iniciais com a Música remetem à sua infância, quando vivenciou em outro país

aulas de Música com elementos próprios da linguagem musical, onde a vivência dentro de um

coral na escola e as apresentações deste coral o levaram a trilhar o caminho da Música e, mais

tarde, escolher o curso de Música para sua formação. Percebemos que o canto o encantou. A

ênfase que é dada na voz e no canto pelo curso de Música da UFC foram determinantes para

sua decisão pela sua formação nessa academia. O fascínio pelo canto mais tarde o fez

integrante do Coral da UFC no ano de 2012. Para Ré ser professor de Música é cantar na

escola. É desencantar a ideia de que ser músico é um dom. Para ser um músico, impõem-se

estudo, prática e dedicação. As estratégias pedagógicas utilizadas pelo professor Ré no ensino

de Música em sala de aula são trabalhar o canto coral e os ritmos com os estudantes.

5.2.3 Professor de música Mi

A entrevista do Professor Mi ocorreu em 2 de março de 2017 em uma das salas da

coordenação da escola municipal de Fortaleza onde ele leciona. Durou 41min17s. Ele

destacou que a escola funciona em regime de tempo integral e que nesse modelo de escola é

bem mais fácil de trabalhar com a Música como elemento pedagógico, justamente porque os

alunos dispõem de mais tempo para esse tipo de atividade.

Cabe destacar que o professor Mi, assim como os demais, teve contato com a Música

logo na infância, quando seu pai o levou para fazer parte de um projeto de canto coral no qual

aprendeu e vivenciou a Música, primeiro como aprendiz e, tempos depois, como professor-

formador. Fez parte de um projeto bastante conhecido – “Um canto em cada canto” – e foi

multiplicador dessa proposta, formando professores nos municípios do Estado do Ceará.

Relativamente a formação, é licenciado em Música pela UECE.

Sua narrativa revela que utiliza a Música para atrair os estudantes para as aulas de

Artes, mas que ainda não existe o professor de Música nas escolas. Faz uma crítica à forma

como a música foi “jogada” nas escolas, sem uma reflexão anterior de tempo e espaços,

apenas porque era necessária. Mesmo assim, ante a polivalência deparada, na disciplina de

Artes, com a Música, ele consegue trabalhar em somente uma aula, mas adverte a grande

dificuldade no domínio das outras linguagens e em se trabalhar o Teatro, a Dança e as Artes

Visuais em apenas uma aula de 50 minutos, esta última, principalmente, pois necessita da

fruição sem uma delimitação temporal e, por vezes, utiliza-se da aula seguinte quando

trabalha com Artes Visuais. Sua narrativa revela que trabalha com os estudantes o canto coral

em suas aulas de Música e, quando há interesse dos estudantes em aprender um instrumento

musical, esbarra nas dificuldades da escola pública de não possuir instrumentos e espaços

apropriados para as aulas de Música.

5.2.4 Professor de música Fá

A entrevista com Fá se deu em 18 de fevereiro de 2017. Esta transcorreu na residência

do professor, tendo um tempo de 1h12min59s de duração. Ele também é formado em Música

pela UECE. Essa entrevista trouxe um aspecto importante de ser destacado: entre os

entrevistados, este professor é o único que possui formação no patamar de doutorado.

O professor Fá revela em sua narrativa aspectos de sua formação que demostram a

grande dificuldade que teve em obter os capitais necessários para ampliar o seu conhecimento

sobre Música, pois morava numa cidade pequena, tinha dificuldades financeiras, o que não

possibilitava pagar um professor de Música, e que dificilmente os métodos de ensino

chegavam lá, “[...] era muito mesmo nessa de autodidata e pegar dicas de colegas, trocas e

experiências muito colaborativas, muito no âmbito da colaboração mesmo, você aprendia uma

música, passa pra um, e vai”.

Segundo o professor Fá, hoje mudou muito a consciência da importância da Música no

contexto escolar e na formação do educando. No passado, a Música era vista com uma

característica de recreação e não se encaixava como disciplina escolar. Ele ressalta em sua

fala sobre a importância de um local apropriado para serem desenvolvidas as aulas das

linguagens artísticas e musicais. Considera-se um sortudo, porque, durante a sua trajetória

como professor de Música, sempre conseguiu montar nas escolas que trabalhou uma sala de

Artes, deixando de ser um pouco o professor “pinga-pinga”, como ele mesmo enfatiza, aquele

que vai aula por aula, sala por sala. Sua fala suscita e reafirma os propósitos defendidos por

nós em outro trabalho no qual defendemos a criação, nas escolas públicas, de laboratórios

específicos de Música, nos quais os professores e alunos pudessem desenvolver habilidades

musicais e artísticas. Muito da experiência desse professor se relaciona com projetos com o

aporte da SEDUC e do Governo Federal, como “Mais Educação”, onde afirma “Eu tive pouca

experiência nessa prática de sala de aula, essa de pinga-pinga, uma aula aqui outra ali. Então a

minha experiência é mais com projetos”. Comenta então a dificuldade de ser professor da

disciplina de Música em Fortaleza,

A não ser que você consiga trabalhar com sala de artes, eu tive o privilégio de ter minha sala, isso foi um benefício, então eu não tive muito sofrimento não, a gente sabe que o trabalho do professor de música, do professor de artes é bem penoso, é muito mais difícil até porque também não tem essa cultura artística, não existe essa disseminação da cultura artística como um valor.

Ao falar em sua narrativa, porém, de uma visão de futuro, comenta a recente

conquista, “essa da inserção da música como uma disciplina obrigatória acho que só vem

confirmar a importância da música na formação do jovem, da cultura, principalmente na nossa

cultura brasileira”.

5.2.5 Professor de música Sol

A entrevista com Sol ocorreu no dia 24 de fevereiro de 2017. Aconteceu na residência

dele e durou 56min59s. Esse professor também tem formação acadêmica pela UECE e atua

nas escolas públicas da esfera estadual de Fortaleza.

Sua narrativa revela o contato com a Música desde a infância. Admite sua facilidade

em compor e fazer melodias desde os quatro anos, o que o faz perceber hoje que a criação

musical é um exercício fundamental na formação do músico e que, inclusive, deveria fazer

parte do exercício musical na formação de qualquer músico. E admite: “o que eu compreendo

de música, grande parte eu devo à questão do exercício de compor”. Reconhece que sua

formação em técnico de Música no IFCE na adolescência contribuiu muito para sua trajetória

musical de músico e compositor, mas a possibilidade da docência só veio a aflorar após a

licenciatura, o que lhe permitiu ver a sala de aula como um lugar agradável para compartilhar

a música e o conhecimento. Entende Sol que, os professores de Arte sofrem a intermitente

necessidade de justificar e de provar a utilidade da Arte. Para ele, “essa questão da utilidade

ela precisa ser repensada, porque toda arte é útil”.

5.2.6 Professor de música Lá

Essa entrevista na qual obtivemos a narrativa do Professor Lá aconteceu na sua

residência, no dia 24 de fevereiro de 2017, perfazendo um tempo total de 44min21s.

Identificamos, de início, que esse professor, além de ser licenciado em Música pela UECE,

também possui mestrado pelo Prof-Artes, da UFC. Atua como professor de Artes, tanto em

escolas estaduais quanto municipais há pelo menos 17 anos.

Sua narrativa revela o contato com a Música desde a infância, tendo o seu pai como

principal influência e o violão como um instrumento essencial na sua trajetória como músico

nas noites e nos bares de Fortaleza. O professor Lá percebeu em seu percurso a importância

em aprofundar seus conhecimentos na Música, fato que mais tarde o fez se transferir do curso

de História, já com três anos cursados, para o curso de Música, que o levou a uma

especialização em Metodologias no Ensino das Artes e, mais recentemente, ao mestrado

profissional em Artes. Em sua trajetória, percebe-se experiências significativas na docência,

sua prática em conservatório e escolas de Música como professor, experiências que foram

incorporadas em suas práticas nas escolas públicas onde ensina e na execução de projetos de

Música implementados por ele dentro das escolas. São projetos que, segundo Lá, não têm uma

continuidade, pois sem o apoio das secretarias estadual e municipal da educação, e que

querem apenas uma atividade temporári,a onde argumentam que “o lugar do professor é na

sala de aula”, segundo o professor Lá.

[...] se você chegar com uma proposta dessas lá nas regionais, na SEDUC, no geral, eles barram. A não ser que seja uma necessidade deles. Mas se você chegar: não! Não pode não, professor tem que estar em sala! Essa é a realidade para os projetos, que é algo que me desestimulou muito.

Com relação à obrigatoriedade do ensino de Música, percebemos a expectativa com a

obrigatoriedade da Música gerada no professor Fá, de início, em 2008. Achava que, então,

com a lei seria a vez dos músicos dentro da escola; mas hoje, em 2017, segundo ele, “minha

euforia com a questão da implementação do ensino de música perdeu um pouco do encanto”,

na realidade atual em que a atividade docente se resume à sala de aula, exclui-se a

possibilidade da execução de projetos que tenham à sua frente os professores efetivos da rede.

Para ele, “não é fácil você implementar um projeto de música nas escolas nesse contexto”.

5.2.7 Professor de música Si

A entrevista mais curta de nossa pesquisa se deu com a narrativa do Professor Si,

ocorrida no pátio da escola no dia 02 (dois) de março de 2017 na escola municipal onde ele

leciona. Essa entrevista foi de 14min34s.

A narrativa do professor Si revela que seu contato com a Música foi aos 11 anos,

dentro da igreja que participava, frequentando o canto coral. Em sua narrativa, além de relatar

experiências pessoais com o campo musical, ele também trouxe informações sobre sua

formação acadêmica na UFC acerca de sua atuação como professor de Música na rede

municipal de ensino em Fortaleza.

Podemos destacar o fato de que este professor considera quase impossível trabalhar a

Música apenas com a voz ou somente com a teoria musical. Segundo ele, “trabalhar música

dentro de sala de aula, também tem esse desafio, não só de trabalhar aquele instrumento que

aquele professor domina, mas de dominar vários instrumentos”. Ele acredita que a dificuldade

em obter instrumentos, em manter e/ou até mesmo a falta de espaço e tempo adequados (aulas

fracionadas em tempo de 50 min) para se trabalhar a Música na escola, assenta no pressuposto

teórico desta como uma linguagem promotora do desenvolvimento humano, podendo isto ser

destacado como importantes obstáculos à consolidação dessa proposta. Consoante ele, no

entanto,“[...] dá pra se trabalhar música com certeza, eu trabalho muito em cima da questão

da apreciação musical, da composição”.

Um aspecto relevante em sua narrativa é que sua experiência como bolsista do

Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência – PIBID, em turmas da Educação

Infantil, fez com que percebesse a importância do ensino de Música nessa modalidade de

ensino, e que, em sua opinião, facilita aprofundar conteúdos e obter melhores resultados com

o ensino de Música nas turmas do Ensino Fundamental I, fato este que aponta na direção do

que Bastian (2009, p. 101) considera, pois “[...] vista a longo prazo, a música, a prática da

música e a educação musical melhoram sensivelmente os valores da inteligência da criança”.

No intuito de atender a essa etapa imprescindível da pesquisa – análise dos resultados

obtidos por meio da coleta de dados – foi necessário inicialmente elencar as principais

categorias evidenciadas nas narrativas dos professores, com o auxílio do programa

IRAMUTEQ, ferramenta utilizada para categorizar as informações evidenciadas nas

narrativas. Após essa fase, transcrevemos as referidas entrevistas na íntegra, que foram

submetidas a uma análise do software IRAMUTEQ. O uso desse software é bem recente no

Brasil, desde 2013, apresentando distintos tipos de análises textuais, o que nos possibilitou a

identificação de palavras-chaves e a frequência de sua ocorrência. Essa é uma ferramenta de

análise de corpus textual que permite uma visão estatística, ilustrada com gráficos, o que nos

permitiu recorrer a um olhar criterioso sobre as narrativas dos professores entrevistados. A

seguir expomos a análise feita pelo programa IRAMUTEQ trazendo alguns gráficos que

apontam o entrelaçar das entrevistas narrativas.

Benzer Belgeler