I. BÖLÜM
2.3. Dış Denetimin Kapsamı
Para estas páginas finais, quero ressaltar que escravos e mulheres, na construção e desconstrução de laços sociais, familiares e conjugais, foram também sujeitos protagonistas de suas histórias.
Escravas obrigadas por seus senhores a se casarem, utilizaram os mesmos recursos que mulheres brancas da elite para pôr fim ao casamento. A escrava Caetana acusou o marido de maltratá-la e fazer-lhe ameaças, bem como Dna. Maria Francisca, mulher da elite, acusou o marido de atacá-la fisicamente. Ambas, apesar de ocuparem posições opostas na sociedade senhorial paulista, recorreram ao mesmo Juízo eclesiástico com o mesmo intuito: se emanciparem de seus maridos.
Incontestavelmente, as diferenças sociais aparecem e trazem á tona conflitos distintos. Enquanto a escrava buscava livrar-se de um homem por quem alimentava repulsa, a senhora branca, por trás das acusações de sevícias, intencionava libertar-se do casamento porque seu marido não permitia que ela usufruísse de forma plena da herança deixada por seu primeiro marido.
Enquanto a escrava implorou pela benevolência de seu senhor, e por vezes foi atendida, a mulher da elite refugiou-se nas terras de uma senhora de engenho.
As mulheres, que deveriam enquadrar-se na sociedade como honradas, boas mães e
esposas utilizaram justamente esse argumento para conseguir o divórcio. Ser boa mãe, mulher
distinta e honrada lhe concedia o direito de não aceitar os maus tratos dos companheiros. Fica claro também que algumas delas utilizaram este discurso para lançarem dúvidas sobre o comportamento de seus maridos, ainda que essas acusações não fossem verdadeiras.
Foi possível concluir ainda que escravas e senhoras poderiam vir a ocupar, na prática, uma o lugar da outra, ao passo que esposas legítimas reclamam da proximidade dos maridos com as escravas, tratando-as como senhoras, acarinhando e dispensando atenção ás negras da
casa, enquanto, não raras vezes, esposas afirmavam serem obrigadas a fazer o serviço da casa e serem tratadas como escravas.
Os processos de divórcio revelam que os papéis de cada sujeito na sociedade eram flutuantes e extremamente complexos. Escravos comprados e vendidos como mercadorias, formaram famílias e construíram laços de parentesco permanentes, como o compadrio. Portanto, cativeiro e parentesco, de fato, não foram experiências excludentes.
Eclesiásticos que deveriam zelar pela religião e bons costumes mantiveram escandalosos relacionamentos com mulheres casadas.
Mulheres casadas se entregavam á prostituição de maneira pública e notória, enquanto mulheres solteiras pariam filhos de homens sabidamente casados.
Senhoras atacadas pelos maridos esmolavam ajuda aos escravos. Acredito ser pertinente ressaltar que o laço construído entre senhoras e escravos em alguns casos, deu-se de maneira tão significativa, que despertou desconfiança nos maridos, como foi citado nos autos do processo de divórcio requerido por marido da vila de Bragança em 1814, discutido no segundo capítulo deste estudo.
Na movediça sociedade paulista, os próprios membros do Juízo Eclesiástico alertavam sobre as manobras utilizadas para se obter o divórcio.
Ao indeferir uma petição de divórcio requerido por uma esposa de São Paulo em 1812, o promotor do Juízo argumenta:
[...] muitas pessoas procuram este Juízo para saírem do poder de seus maridos pretextando o ser por meios competentes com o fim de se divorciarem; e logo que conseguem [...] nunca mais cuidam em promover os termos do divórcio; e despótica e arbitrariamente [...] viverem desenfreadamente [...]282.
A colocação do promotor indica que esta era uma prática freqüente, o que significa não só que os fundamentos da lei não acorrentaram os colonos em seu discurso, como demonstra que os conflitos familiares, sociais e conjugais borbulhavam incessantemente no cotidiano dos paulistas.
Destaco conjuntamente para estas considerações finais, a violência presente nos autos analisados. Violência esta que, quando comprovada no depoimento das testemunhas, vinha a ser considerada pelas autoridades eclesiásticas como injúria gravíssima.
As mulheres e seus advogados alegavam que a atitude e o comportamento masculinos foram violentos a tal ponto, que um milagre salvou a esposa da morte, como se Deus não permitisse que a tentativa de homicídio se concretizasse.
Em 1821, uma esposa conseguiu um resultado positivo para sua petição após provar ás autoridades que viver com seu marido podia levar á morte. No depoimento das testemunhas são evidentes a ira violenta do marido e a presença dos vizinhos como fator decisivo para impedir a morte certa da mulher.
[...] indo elle testemunha do lugar onde reside como de visita à casa da supplicante no dia 14 de Setembro do ano próximo passado, e vindo a supplicante recebe-lo, o dito marido com um modo tão extraordinário principiou logo a dar repetidas pancadas na supplicante, que denegriu-lhe o rosto, quase lhe furou o olho esquerdo, fez-lhe ferimentos pela cabeça, quebrou-lhe um braço e não contente com tudo isto puxou uma faca que trazia para a matar, que se não acudissem os vizinhos armados para tão grande desordem certamente o dito marido mataria a supplicante [...]283.
A violência, muitas vezes comprovada nos autos, configurou-se como a acusação mais freqüente que encontrei nos autos, seguida pela infidelidade de um dos cônjuges.
Acredito que dentre mentiras e verdades de escravas como Caetana ou senhoras como Dna. Maria Francisca; pude concluir que de fato a criação de laços sociais, familiares e conjugais construídos por escravos e mulheres sujeitos protagonistas não somente deste
trabalho como de suas histórias, constituiu-se como fator relevante para a vivência, convivência e sobrevivência destes sujeitos; bem como os conflitos que emergiam desta densa zona de afetos e desafetos.
Por entre compadres, casados, divorciados, pais, mães e filhos da escravaria, encontrei histórias que me levaram ao meu primeiro objetivo: evidenciar que os escravos construíram bases familiares e laços de parentesco, usufruindo de recursos sociais e conjugais semelhantes aos experimentados por homens brancos livres da sociedade senhorial paulista, construindo e desconstruindo vínculos e parentescos. Escravos se casaram e se divorciaram frente ás autoridades eclesiásticas; ainda que fique em aberto para discussão o porquê de tantos senhores terem obrigado seus escravos a se casarem ou até mesmo permitido que seus escravos se casassem por vontade própria.
As acusações de sevícias e adultérios somadas aos depoimentos das testemunhas me permitiram argumentar meu segundo objetivo: sinalizar a condição feminina em meio ao conflito do divórcio. As agressões que sofreram e também cometeram como intencionaram usar os fundamentos da lei a seu favor, do que acusaram e do que foram acusadas.
A bibliografia e as fontes me permitiram ainda discussões sobre a religiosidade e a sociabilidade na colônia e em São Paulo, as condições da vida na cidade, os tumultos sociais cotidianos e os limites da vigilância eclesiástica. Acredito desta forma, que alcancei meus objetivos principais para este trabalho, possibilitando, do mesmo modo, discussões diversas sobre este tema.
“... são histórias recuperadas, coletadas e reunidas a partir de fontes registradas e guardadas por razões muito diferentes e particulares”. Sandra Lauderdale Graham para a introdução de Caetana diz não.