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É importante lembrar que as práticas descritas a seguir têm como metas últimas dos adeptos a longevidade em vida, e a imortalidade espiritual, também chamada de ascensão ao Céu ou união com o Dào. Suas práticas podem ser mais pessoais ou propriamente comunitárias, havendo também intercâmbio entre os dois tipos. A prática comunitária depende de uma série de ações individuais que formam as liturgias, vidas monásticas e manutenções em geral do grupo. Por outro lado, a dimensão individual tem como guia um mestre que transmite a tradição, têm como amparo textos socialmente reconhecidos pelas comunidades daoistas e não é feita distante de uma comunidade. Existem, ainda, elementos transversais a todo modo de viver o Daoismo, como a busca por longevidade através de moderações e técnicas, e a purificação prévia aos ritos e meditações.

No que concerne à busca por longevidade, segundo Kohn (2009, p. 131), daoistas não seguem uma estrutura fechada, mas adaptam suas práticas as suas necessidades do momento e locais específicos. Historicamente, a preocupação com longevidade tem raízes na fase formativa chamada de proto Daoismo, antes do século II (Miller, 2008). Tem como raízes, então, os círculos fāngshì e suas técnicas “médicas” ou profiláticas que visavam manter o corpo em ótimo estado de saúde. Os textos proto daoistas Zhuāngzi e Lǎozi (ou Dàodé jīng) também fazem alusões a formas de cultivo corporais e mentais. Ainda nessa fase, muitos textos foram produzidos abordando técnicas de treinamento e refinamento do qì, como o já citado Nèiyè. E este tipo de texto nunca cessou de ser produzido.

Na fase clássica (142 até aproximadamente século IX) a busca por longevidade teve como forte expoente a prática chamada de wài dān ou alquimia externa. Isso consistia na procura por elixires da imortalidade, sobretudo por ingestão de alimentos produzidos com tal fim. Um dos grandes líderes dessa fase, Géhóng, deu muita importância essa forma de cultivo (Robinet, 1997). Com os séculos deixou-se de lado esse tipo de técnica, ou mais precisamente, houve um processo de interiorização da prática. Destacamos, no entanto, o legado do wài dān para além do próprio Daoismo: o que chamamos em idiomas latinos de

acupuntura também deve muito a esses desenvolvimentos feitos por daoistas (Dulcetti, 2012); além disso, houveram importantes descobertas, como a pólvora, que foi criada por um monge daoista em experiências sob os conceitos das cinco fases e a busca por elixires24.

A crescente interiorização dessa busca levou ao surgimento do nèi dān ou alquimia interna. Diversas técnicas não nomeadas de nèi dān, e serão tratadas quando falarmos do pólo meditativo das práticas. Contudo, o nèi dān também envolve práticas de transformações corporais por processos de visualizações, gestos ou sons, que estão presentes também nas liturgias, onde os sacerdotes as usam em determinados momentos do rito. Por hora, basta dizer que na busca pela imortalidade, daoistas utilizam bastante o nèi dān, seja em práticas mais interiorizadas e solitárias, seja nos rituais comunitários ou mágicos.

Outra forma bastante utilizada em meios daoistas – e até fora deles – é o dǎoyǐn (fluxo interno), chamado por Kohn (2009, p. 133) como “exercícios de cura”, que visam purificar o qì. Eles seriam exercícios corporais de tendência profiláticas já existentes na dinastia Hàn por diversos grupos, e os daoistas tem desenvolvido, expandido, e os sistematizado. Dentre os exercícios, há referências a imortais divinizados e animais que apresentam grande significância tanto para a cultura chinesa em geral quanto ao Daoismo especificamente; Alguns desses tipos de exercícios podem ser chamados também de qìgōng, literalmente trabalho com o sopro, onde se usa movimentos corporais para favorecer a circulação do sopro vital (qì) nos canais de qì do corpo, e assim melhorar e manter a saúde plena.

Além de exercícios corporais, daoistas praticam também técnicas respiratórias que não envolvem movimentos com o corpo. Elas têm função tanto profilática quanto espiritual, já que, do ponto de vista daoista, tais técnicas não trabalham somente o ar em si, mas o qì também, e de uma maneira mais sutil. Em tais práticas é comum a recomendação de engolir a saliva, vista como elixir de longevidade, podendo haver até mesmo técnicas específicas de como fazer isso (Kohn, 2009, p. 134).

Há uma série de práticas específicas que poderiam ser citadas dentro do escopo que acabamos de descrever, e existem muitas obras que tratam deste tema25. No entanto, é preciso chamar atenção agora para o outro aspecto da busca por longevidade e imortalidade, e na própria vida daoista como um todo: a moderação. De modo geral a moderação no Daoismo visa estabelecer harmonia em nível pessoal, o que significa em termos concretos ter uma vida

24 Sobre essas informações, entre outras fontes, ver o documentário Follow me in chinese – Chinese Religions:

chinese taoism (2005), indicado na bibliografia.

25 Cf., por exemplo, LOEWE, Michael. Ways to Paradise: The Chinese Quest for Immortality. London: George

Allan and Unwin, 1979. Ou KOHN, Livia. Chinese Healing Exercises: The Tradition of Daoyin. Honolulu: University of Hawai’i Press. 2008.

saudável e adaptada ao ciclo natural do macrocosmo – estações, alterações de temperatura, do meio onde reside, entre muitas outras mutações do mundo.

Destarte, para ter sucesso nesse constante processo de adaptação ao que acreditam ser o fluir do Dào, é aconselhado ter moderação em tudo, de forma que se preserve o qì. Há duas formas básicas de manter o qì forte e fluente. A primeira forma foi descrita acima: como exercícios profiláticos e espirituais que trabalhem o corpo, a respiração e o qì. A segunda trata-se justamente de abstenções e seleções, o que implica a modos singulares de viver o caminho daoista.

Os adeptos são indicados a restrições e seleções de certos alimentos antes de certos ritos, para complementar alguma prática e até para tonificar o qì com um alimento em questão. Em algumas linhagens, como o Caminho da Completa Perfeição, chegam a cobrar uma alimentação vegetariana dos monges e monjas. Noções dos Cinco Agentes e da correspondência entre macrocosmo e microcosmo moldam também a vida daoista. Há então, indicações e restrições a exercícios, alimentações e até mesmo a sexualidade dependendo do momento no ciclo de estações, de calendário litúrgico, das datas das divindades adoradas.

Sobre o sexo no Daoismo, há inclusive um recente artigo que aborda um antigo rito sexual do Caminho da Ortodoxia Unitária (Schachter, 2013b). Como pode ser visto neste texto citado, já houve ritos sexuais nas primeiras comunidades daoistas, dentro do período clássico. Tais ritos deixaram de ser praticados há muitos séculos, sobretudo devida à crítica dos budistas a esse tipo de prática, e não há mais conhecimento de liturgias sexuais atualmente no Daoismo. Hoje, a questão de como deve ser feito o sexo está ligada, novamente, ao axioma da moderação. Isso significa que pode haver sugestões do sacerdote ou monge para haja menos ejaculações nas suas relações, ou recomendações de exercícios tonificadores. Da mesma forma, há a abstenção de sexo por um período limitado, como antes da iniciação ritual, ou como complemento a uma forma de qìgōng, por exemplo.

Como o leitor ou leitora deve ter percebido, as ações voltadas ao que chamamos de busca por longevidade são também formas de purificação. As técnicas corporais ou respiratórias, bem como as diversas formas de moderação citadas podem servir como fim específico de purificação. Há, no entanto, uma constante nas ações daoistas em geral: práticas prévias de purificação. Sobretudo a partir da fase moderna do Daoismo entre os Sóng houve a inclusão, desenvolvimento e forte uso de magias e talismãs (Kohn, 2001, p. 139). Da mesma forma, o nèi dān foi especialmente desenvolvido, com destaque para o desenvolvimento feito pelo então recente Caminho da Completa Perfeição, tendo como marca a purificação espiritual do adepto (idem; Robinet, 1997).

Do ponto de vista “de dentro” ou êmico, a escritora e professora daoista, Eva Wong (1997), praticante de várias tradições daoistas, explica que as purificações servem para limpar os corações, mentes e corpos dos adeptos. Isso é feito para que eles possam fazer contato com as divindades celestiais e abraçar os princípios do Dào. Essa autora descreve que existem três tipos de purificação (zhāi): 1) oferendas para perdão dos “erros” (zuì) e para acúmulo de méritos; 2) jejum ou abstenções de certos alimentos; 3) purificação mental/espiritual em relação aos desejos (idem, p. 122-123).

Para realizar todos estes tipos de purificação, os daoistas criaram todo um arsenal. Talismãs (fú) e feitiços sagrados (zhóu) são usados para solicitar proteção, sendo uma forma de exorcismo espiritual das deidades malévolas, e também servem para fazer petições as deidades celestiais. Outras formas de ações mágicas também são muito utilizadas: os sons de Brahma ou encantamentos divinos; os gestos com as mãos ou mudras (Shǒu jué) que utilizam pontos de acupuntura; ou também cantos de purificação, feitos antes das liturgias e das meditações. Como pode ser notado, houve emulações diretas de elementos do Budismo Tântrico, como a noção de Brahma e o uso de gestos mágicos chamados de jué, ou mudrā, em sânscrito (Kohn, 2001, p.141).

Basicamente, foram apontados elementos transversais a toda prática daoista, ainda que hajam muitos outros que não caberiam neste espaço. Sabendo desses constituintes constantes do modo de agir daoista, vamos finalmente a descrição sucinta dos dois pólos das práticas dessa religião.