“A família do futuro deve ser mais uma vez reinventada” Elisabeth Roudinesco
Friedrich Engels, em A Origem da Família, da Propriedade Privada e do
Estado, adverte que no estágio primitivo das civilizações, o grupo familiar não se assentava em relações individuais. As relações sexuais se davam entre todos os integrantes da tribo. Em conseqüência, conhecia-se sempre a mãe, mas nunca o pai, o que faculta a constatação de que a família teve início a partir de um caráter matriarcal. Com as guerras e a carência de mulheres, os homens passaram a buscar relações com mulheres de outras tribos. Com o passar do tempo, o homem marchou para relações individuais, com caráter de exclusividade. E assim se deu a organização moderna de inspiração monogâmica.
Em uma perspectiva católica, a família é o reflexo e a encarnação da comunidade trinitária, sendo assim engendrada como uma comunidade. Por ser o homem a mais perfeita expressão da constituição divina, tendo sido criado à imagem e semelhança de Deus, ele também é ser pessoal e comunitário. A família, por intermédio desse pensamento, nasce da união interpretativa do amor divino, e é proposta como pequena comunidade de vida e amor. A família nuclear – pai, mãe e filho – remete à sagrada família, símbolo máximo da união e amor familiar.
Não se pode, portanto, teorizar sobre a família na sociedade contemporânea sem ter em conta as profundas transformações por que passou a instituição, a ponto de só guardar remota identidade com seus antecedentes históricos. A substituição, de um lado, da “grande família”, que compreendia a própria linha dos escravos, pela “família nuclear”, centrada na tríade “pai-mãe-filho”, operada nos séculos XIX e XX, e sobretudo o aprofundamento afetivo no interior do grupo deu-lhe um novo rosto. De unidade proposta a fins econômicos, políticos, culturais e religiosos, a família passou a significar um grupo de companheirismo e lugar de afetividade.
Há, portanto, “uma solidez muito maior dos laços conjugais que já não podem ser rompidos por vontade de qualquer uma das partes”. (ENGELS: 1991, p. 66) Em um outro momento, a família passa a ser construída como fruto de um amor romântico. Nessa nova família, o pai vai, aos poucos, sendo destituído de autoridade e começa então a surgir a figura feminina. O pai não é mais visto como o único responsável pela formação familiar; a mãe assume, a partir de agora, responsabilidades nessa tarefa. Inicia-se, assim, a feminilização da sociedade.
No tocante a essa nova constituição familiar brasileira, face ao Realismo brasileiro, Nélson Werneck Sodré considera que:
A família brasileira atravessa, na segunda metade do século XIX, e particularmente no seu final, uma transformação a que os escritores se adaptaram, conscientes ou inconscientemente. O grande tema, o tema por excelência, o do amor – a que a família, desde o início da colonização, fornecia um regido e estrito molde – já não poderia receber o tratamento antigo, uma vez que, na realidade, as coisas não se passavam da mesma maneira do que dantes. (...) Tudo denunciava as mudanças que, na intimidade social, vinham sofrendo um rápido processo, deteriorando-se relações antigas, ao mesmo tempo que irrompiam relações novas, a que o ambiente urbano fornecia a moldura natural.(...) A literatura não poderia ficar imune a alterações tão importantes. (SODRÉ: 2004, p. 398)
Essas transformações às quais Sodré se refere são, principalmente, a transformação da família extensa em família nuclear, e a função do casamento como aliança comercial, para uma união em que os laços afetivos eram mais importantes. Uma das mais relevantes análises se faz a partir da constituição familiar dos menos favorecidos socialmente, procurando-se verificar de que forma esses grupos – chamaremos aqui de grupos populares – constituíam-se. Um estudo mais profundo vai mostrar que esses grupos tinham uma formação diferenciada, bem mais parecida com a que temos atualmente. Estabelece-se a família fundada na afetividade, em que não há
mais a necessidade de um vínculo presente no papel; ou seja, o casamento não é mais a base única dessa família; questiona-se, assim, a idéia de família exclusivamente matrimonial; da família extensa, patriarcal, passou-se à família nuclear. Para Lobo Neto,
A família, tendo desaparecido suas funções tradicionais, no mundo do ter liberal burguês, reencontrou-se no fundamento da afetividade, na comunhão de afeto, pouco importando o modelo que adote, inclusive o que se constitui entre um pai ou mãe e seus filhos. A comunhão de afeto é incompatível com o modelo único, matrimonializado, que a experiência constitucional brasileira consagrou, de 1824 até 1988. A afetividade, cuidada inicialmente pelos cientistas sociais, pelos educadores, pelos psicólogos, como objeto de suas ciências, entrou nas cogitações dos juristas, que buscam explicar as relações familiares contemporâneas.
No romance analisado, os casais se uniam por interesses afetivos ou não, de maneira livre e descompromissada, como é o caso de Rita Baiana e Firmo, João Romão e Bertoleza; ou pelo casamento formal, como o dos portugueses Jerônimo e Piedade, Miranda e Estela, Alexandre e Augusta Carne-Mole – estes últimos geradores de uma numerosa prole. Essas uniões também se desfazem e se refazem, como ocorreu com Jerônimo e Piedade, Rita e Firmo, que passaram a constituir um novo par – Jerônimo e Rita. Serve também como exemplo da mesma situação o casal Bruno e Leocádia.
O modelo de família nuclear burguês foi difícil de ser implantado nas camadas mais pobres da sociedade. Há, nessas camadas, o surgimento de uma nova classe com suas próprias formas de organização social, pois esse grupo seguiu uma linha de evolução diferente. Constatam-se semelhanças entre o comportamento familiar de nossos personagens com o das populações contemporâneas de fins do século XIX. Pois, assim como os pertencentes às camadas populares brasileiras de então, nossos personagens juntavam-se sem casar, pariam filhos dos quais não providenciavam a certidão de nascimento e separavam-se sem fazer divórcio.
Segundo Rachel Soihet, a organização familiar dos populares assumia uma multiplicidade de formas, sendo uma delas a de famílias chefiadas por mulheres sós. Isso se devia não apenas às dificuldades econômicas, mas igualmente às normas e valores diversos, próprios da cultura popular. A implantação dos moldes da família burguesa entre os trabalhadores era encarada como essencial, visto que no regime capitalista, que então se instaurava, com a supressão do escravismo, o custo de
reprodução do trabalho era calculado considerando como certa a contribuição invisível, não remunerada, do trabalho doméstico das mulheres. (STOLKE, apud SOIHET: 1989)
É sob essa ótica que se fundamentam as famílias no romance em questão, em que outros valores se sobrepõem. No caso da obra literária de Aluísio Azevedo procurou-se isolar no texto o desencadeamento do amor, dos tipos de família e das relações advindas dessa instituição – relações internas ou externas – apresentadas em inúmeros segmentos e aspectos. Essa fragmentação do conteúdo não ignora o poder literário dos escritos, detendo-se, contudo, nos problemas de verossimilhança, ou seja, em que medida a forma escolhida corresponde a condições vividas ou testemunhadas e de quais recursos de linguagem o autor se utilizou para representar essas verossimilhanças. Procura-se dessa forma, mostrar a correspondência entre ficção e realidade, buscando sempre que possível um confronto entre ambas. Segundo Martha Esteves,
Levar em conta apenas a existência de uma família “normal” não foi privilégio das teorias da “cultura da pobreza”, ou da “patologia social”. Muitos estudos no Brasil conceituaram “família” como se houvesse um único padrão de desenvolvimento, formulado a partir do modelo familiar das elites – da família patriarcal à família nuclear, sua única descendente. Os outros modelos de organização apareceram como subsidiários ou de uma forma inexpressiva. Esses estudos são influenciados pela chamada teoria da modernização, que defende a evolução histórica da família através do número de membros. De extensas, teriam atingido a forma nuclear a partir das irresistíveis pressões da industrialização e modernização. Não perdem de vista também as transformações, influenciadas pela chamada modernização dos papéis familiares, das relações entre pais e filhos, da estabilidade conjugal e da importância do parentesco. (ESTEVES: 1989, p. 122)