• Sonuç bulunamadı

3. GENÇLİK VE GENÇLİK KATILIMI

3.2. Demokrasi Tipleri

O livro “Ensaios Fotográficos”, lançado em 2000 pela editora Record, é dividido em duas partes. Tal forma, desde já, sugere uma estrutura dual ou bipolar do texto, que está assinalada pela importância de certas idéias, como a de um “outro” em relação a um “eu”, e da construção de pares, dentro do processo de formação da imagem poética manoelina.

A primeira parte, assim denominada pelo autor, tem o título de Ensaios Fotográficos, repetindo o título do livro. Se se descarta a possibilidade de ser o título da obra apenas uma repetição (na falta de um nome melhor) de um título de capítulo – procedimento comum em várias obras de nossa literatura poética e prosaica – encontrar-se-á uma intenção clara de reforço, ou eco, da apresentação do tema: novamente – ou inicialmente, no caso isolado do livro – a relação entre palavra e imagem.

O termo “ensaio” tem pelo menos dois sentidos usuais. Um primeiro e mais abrangente, pois abre a possibilidade para vários outros sentidos ligados entre si, em graus sinonímicos maiores ou menores, remete à idéia de “prova”, “experiência”, “teste” ou “preparação”. Assim, o livro, e mais especificamente o primeiro capítulo, seriam apenas uma espécie de tentativa do autor, algo que já, na sua intenção criadora, não tem a pretensão de estar pronto, ou de transmitir uma concepção acabada. Expressa-se aqui, já no título, um significado que aparecerá em vários poemas, a idéia de “ruína”. Essa figura é bastante recorrente em toda a obra, sendo inclusive o título de um dos poemas da primeira parte.

Manoel de Barros persegue esse tema da “desconstrução”, não como uma maneira de elaboração teórica ou crítica sistematizada dentro dos seus poemas, mas o faz mais à maneira de quem sente uma certa inquietação. Esse tipo de “incômodo” do autor, que é na verdade uma de suas principais matérias-primas, está ligado a uma preocupação que é uma espécie de lugar-comum da poesia do século XX, o problema da fragmentação, que se verifica das mais diversas formas e em vários níveis.

Em Barros isso se apresenta algumas vezes como a própria temática geradora do poema, a qual desembocará em outros caminhos, em outros assuntos e com diversas formas de roupagem. Como no caso do poema já citado:

RUÍNA

Um monge descabelado me disse no caminho “Eu queria construir uma ruína. Embora eu saiba que ruína é uma desconstrução. Minha idéia era fazer alguma coisa ao jeito de tapera. Alguma coisa que servisse para abrigar o abandono, como as taperas abrigam. Porque o abandono pode não ser apenas de um homem debaixo da ponte, mas pode ser também de um gato no beco ou de uma criança num cubículo. O abandono pode ser também de uma expressão que tenha entrado para o arcaico ou mesmo de uma palavra.

[...]

(Ensaios Fotográficos, p.31)

Aqui a temática da fragmentação – a própria palavra “descontrução” aparece no poema – é dada como uma maneira de construção, ou seja, o modo de engendrar o texto, onde o monge passa a ser o poeta, e a ruína, o poema que se constrói. A partir daí, as outras figuras vão surgindo a esse propósito ou abrigadas por essa ruína.

Esse é um exemplo de como a idéia de processo inacabado está presente na poética manoelina e como ela é importante em determinados textos, além de ela ser bastante recorrente, principalmente, no livro em análise.

Nesse mesmo texto, a fala do monge, que é praticamente todo o poema, sobrepõe-se à voz do sujeito lírico e constrói, através da relação de sentido entre imagens como “tapera” e “ruína”, um desejo pelo abandono, pelo vazio, o qual pode ser – acompanhando o raciocínio expresso na continuidade do poema – realizado pelo uso de algumas palavras, como é o caso da palavra “amor”.

Outro sentido da palavra “ensaio”, que aparece no título dessa parte, é o que se dá no âmbito das ciências acadêmicas, onde esse é, geralmente, um texto crítico no qual o autor expressará suas impressões, opiniões ou teorias sobre determinado assunto. Aqui, revela-se um aspecto interessante da poesia de Barros: o autor visto como crítico.

Manoel de Barros expressa sua opinião, ou sua teoria, não de uma forma sistemática e formal, mas tudo isso pode ser apreendido de seus poemas como uma espécie de didática de sua própria poesia. Ou seja, colocada dentro do poema, a teoria manoelina, qualquer que ela seja, ou sua simples opinião que se revele, ganha um caráter dialético.

A questão de Barros como crítico, portanto, está presa ao embate com o texto poético, com a própria obra. E isso pode ser encarado de duas formas.

Uma onde crítica e poesia estariam misturadas de maneira confusa, ou seja, onde a crítica passasse a criar um tipo de interferência no discurso poético no qual o ruído gerado torna-se mais alto que a tentativa do som que se pretende produzir, e o poema passa a ser um pretexto (ou um “pseudotexto”) para a exploração de questões teóricas que, dessa forma, estariam sendo expostas com um caráter dogmático.

Outra forma é ver a crítica como mais um elemento de composição do jogo de sentidos gerado pelo texto. Assim, as teorias ou opiniões expressas ganhariam um contorno dialético, pois passariam a compor o cenário movediço do poema. Da mesma maneira, sob esse ponto de vista, crítico e poeta passam a ser um só, sendo impossível distinguir em que momento do texto está sendo expressa a voz do crítico e em que momento está se ouvindo a voz do poeta.

Ainda podemos ver no título do livro a palavra “fotografia” que carrega, já em si, os dois conceitos que serão trabalhados durante a obra: imagem e escrita. Foto-grafia pode ser a representação gráfica da imagem, ou o próprio poema, em que a foto, ou seja, uma imagem passasse em determinado instante pelo processo de concreção do ato de grafar. Fotografia pode ser ainda, literalmente, a escrita deixada pela luz. Sendo a marca que a imagem por si só imprime, uma espécie de registro natural deixado pela luz ou por aquilo que ela reflete ou revela.

Portanto, “Ensaios Fotográficos” é um título que, mais do que sugerir, na verdade, já revela bastante daquilo que virá no livro.

Benzer Belgeler