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B- AHİRET

3. Deccal:

Esta seção tem por intuito a descrição da relação entre as três principais categorias da dialética para a análise do materialismo histórico, assim como situar as posições contraditórias entre totalidade e particularidade, sujeito e objeto, pensamento e realidade na produção científica. Tal discussão justifica-se pela própria contradição do objeto da Psicologia Social e da relação entre Sociologia e Psicologia, considerada por Adorno (1991) como uma ciência parcelar, com um objeto particular.

A “Introdução” de 1857 pode ser pensada tanto como um ponto de chegada, quanto um ponto de partida. Primeiro, como ponto de chegada, por ser o resultado de um longo percurso intelectual que resultou na adequação investigativa então evidenciada em relação ao movimento contraditório do objeto de investigação, o que lhe exigiu um novo tratamento teórico. Segundo, como ponto de chegada, porque “este tratamento teórico, por sua vez, implica uma depuração ainda maior da formulação metodológica” (NETTO, 2011, p.55) constituindo assim uma unidade entre teoria e método, que se tornam indissociáveis.

Segundo Netto (2011), três categorias são nucleares na concepção teórico- metodológica de Marx e que são apresentadas nos Grundrisse: totalidade, mediação e contradição.

Como já discutido anteriormente, a totalidade concreta fundamental para Marx é a moderna sociedade burguesa. Esta, no entanto, não é apenas um “todo” cujas partes se “somam”. Trata-se de uma totalidade “inclusiva e macroscópica, de máxima complexidade, constituída por totalidades de menor complexidade” (NETTO, 2011, p.56), ou seja, é a unidade de “múltiplas determinações”. Trata-se de uma “categoria de categorias, um conceito de conceitos” tanto no nível real, quanto no nível espiritual (DUSSEL, 2012, p.327), portanto, é a síntese de diversificadas determinações menos complexas, totalidade de outras totalidades. A síntese, como um procedimento ativo do pesquisador, é “a visão de conjunto que permite (...) descobrir a estrutura significativa da realidade (...) numa situação dada. E é essa estrutura significativa que é chamada totalidade” (KONDER, 2012, p.36). Por outro lado, a totalidade deve ser vista como “um momento de um processo de totalização (que (...) nunca alcança uma etapa definitiva e acabada). Afinal, a dialética (...) negar-se-ia a si mesma, caso cristalizasse ou coagulasse suas sínteses” (KONDER, 2012, p. 38). Ora, este processo de

constante síntese e totalização caracteriza exatamente a abstração, cujo fundamento é separar a parte do todo e transformá-la numa nova totalidade (de menor complexidade), assim sucessivamente até a “viagem de volta”, como descrito anteriormente. Mais do que isso, o processo analítico da abstração já deve partir de uma síntese (mesmo que seja a representação inicial “caótica”). Portanto, “uma certa compreensão do todo precede a própria possibilidade de aprofundar o conhecimento das partes” (KONDER, 2012, p. 42). O conhecimento a que se chega, a totalidade, o “concreto”, “não é um ato e sim processo” (KONDER, 2012, p.43), é um resultado a que se chega após longo trabalho que se dá pela abstração.

Essas totalidades constitutivas (de menor complexidade) possuem suas próprias tendências internas de desenvolvimento e têm diferentes momentos de determinação, ou seja, há aquelas que são mais determinantes que outras, como, por exemplo, o momento da “produção” como determinante sobre o “consumo”, “a troca” e a “distribuição”. Todas elas, formando uma unidade:

O resultado a que chegamos não é que a produção, distribuição, troca e consumo são idênticos, mas que todos eles são membros de uma totalidade, diferenças dentreo de uma unidade. A produção estende-se tanto para além de si mesma na determinação antitética da produção, como sobrepõe-se sobre os outros momentos. É a partir dela que o processo sempre recomeça. É autoevidente que a troca e o consumo não podem ser predominantes. Da mesma forma que a distribuição como distribuição dos produtos. No entanto, como distribuição dos agentes da produção, ela própria é um momento da produção. Uma produção determinada, portanto, determina um consumo, uma troca e uma distribuição determinados, bem como relações determinadas desses diferentes momentos entre si (MARX, 2011, p.53).

O fato de terem diferentes tendências operantes é o que permite que a sociedade burguesa se configure como uma “totalidade estruturada e articulada”, com um movimento “dinâmico” a partir do “caráter contraditório de todas as [outras] totalidades” (NETTO, 2011, p.57). Do contrário, seria amorfa e sem movimento, eternizada, como queria a economia política.

O trabalho da abstração (síntese e totalização) que leva ao “concreto pensado”, é precisamente o procedimento analítico que vai da aparência à essência do fenômeno estudado, ou seja, que vai da sua manifestação imediata à sua dimensão mediata, conforme suas mediações. O procedimento analítico de romper a aparência imediata desses processos, acessando o seu núcleo racional, a sua essência, é possível porque eles estão em “inter-relação dialética e dinâmica e passam a ser compreendidos como aspectos dialéticos e dinâmicos de um todo igualmente dialético e dinâmico” (LUKÁCS, 2003, p.84).

Assim, o movimento dinâmico daquelas diferentes totalidades se torna inteligível a partir da relação entre essas totalidades constitutivas em seu nexo interno, da relação que estabelecem entre si, assim como em relação à totalidade inclusiva que faz a síntese de todas, portanto, a partir das mediações (internas e externas) que fazem a articulação de todas essas totalidades (NETTO, 2011). Sem a mediação, “a totalidade concreta que é a sociedade burguesa seria indiferenciada – e a indiferenciação cancelaria o caráter do concreto, já determinado como ´unidade do diverso` (NETTO, 2011, p.57).

Como já citado anteriormente, o movimento dinâmico das totalidades se dá pelo jogo dialético de suas contradições. O trabalho do pensamento dialético é de identificar as “contradições concretas e as mediações específicas que constituem o ‘tecido` de cada totalidade, que dão ´vida` a cada totalidade” (KONDER, 2012, p.44), trazendo à tona tanto os momentos de oposição quanto de união de suas partes constitutivas. Ao contrário do senso comum:

...no caso da realidade social, essas contradições não são indícios de uma imperfeita compreensão científica da realidade, mas pertencem, de maneira indissolúvel, à essência da própria realidade, à essência da sociedade capitalista. Sua superação no conhecimento da totalidade não faz com que deixem de ser contradições. Pelo contrário, elas são compreendidas como contradições necessárias, como fundamento antagônico dessa ordem de reprodução (LUKÁCS, 2003, p.80).

Daí o motivo de Marx escolher o método dialético segundo o movimento do seu objeto de pesquisa - que se mostrava contraditório - e, por isso, o fato do método dialético ser o único capaz de reproduzir o real no plano do pensamento, justamente por considerar as contradições da realidade como necessárias e não como erros do percurso metodológico. Pela articulação das três categorias da dialética: “Marx descobriu a perspectiva metodológica que lhe propiciou o erguimento do seu edifício teórico. Ao nos oferecer o exaustivo estudo da ´produção burguesa`, ele nos legou a base necessária, indispensável, para a teoria social” (NETTO, 2011, p.58).

9.6 Pseudoconcreticidade e formas fetichistas de objetividade: a abstração da

Benzer Belgeler