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Um aspecto do “trabalho intermitente” e seus respectivos contratos merece ser analisado à luz da aplicação intertemporal da lei no âmbito do direito trabalhista pátrio.

É sabido que o direito brasileiro adota a máxima “tempus regit actum”, em bom português, o tempo rege o ato. As normas em direito do trabalho, em geral, tem aplicação imediata, seguindo o artigo 6° da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (LINDB), cujo texto diz que “a Lei em vigor terá efeito imediato e geral, respeitados o ato jurídico perfeito, o direito adquirido e a coisa julgada.” O artigo 5°, inciso XXXVI da Constituição Federal de 1988 fala ainda da proteção ao ato jurídico perfeito.

De acordo com Vólia Cassar, é justamente a proteção ao direito adquirido

e à coisa julgada que faz que seja vedada a retroatividade da lei no Brasil60: os

contratos em curso, as obrigações contínuas sofrem alteração, mas os contratos

encerrados não, pois são ato jurídico perfeito.

O primeiro questionamento que deve ser feito, cuja finalidade é meramente ilustrativa é: é possível exigir que se considerem quitadas aquelas obrigações trabalhistas que foram cumpridas antes da Lei 13.467/2017? O texto do artigo 507-B da Consolidação das Leis do Trabalho aduz que “é facultado a empregados e empregadores, na vigência ou não do contrato de emprego, firmar o termo de quitação anual de obrigações trabalhistas, perante o sindicato dos empregados da categoria”. Destarte, pode ser exigível o referido termo de quitação para as obrigações cumpridas antes da implementação legal do instrumento.

Adequando à realidade deste trabalho, pergunta-se: há a possibilidade de aplicar os dispositivos da Nova Lei às relações empregatícias pré-existentes, bem como às situações contratuais por ela abrangidas?

Francisco Gérson Marques de Lima faz uso dos questionamentos relativos à quitação das obrigações e aponta que a resposta está no estudo da aplicação

intertemporal61 e, para tanto, norteia-se pelo doutrinador Campos Batalha. No

entanto, essa mesma resposta é a chave do questionamento geral. Segundo Paul

Roubier, citado por Batalha62,

A regra é não se aplicarem as leis novas aos contratos em curso, mesmo que se trate de contratos sucessivos. Entende, porém, ser necessária uma distinção entre situações legais e situações contratuais: se as leis relativas a estas não têm efeito imediato, o mesmo não ocorre em relação àquelas; portanto, se se trata de obrigações legais sucessivas, como a obrigação de prestar alimentos, as leis novas tem ação imediata, embora não retroativa, o contrário ocorrendo com as obrigações contratuais.

Baseando-se em Roubier, Campos Batalha acredita que a obrigação resultante de fato continuado é alcançado por lei nova: a incidência legal é imediata. Destarte, a legislação antiga incide sobre o fato até o momento da entrada em vigor da nova lei, sendo esta aplicada ao fato continuado a partir de sua vigência.

Roubier aduz que há situações-obrigações legais e contratuais. As obrigações trabalhistas possuem caráter misto: a legislação do trabalho no Brasil determina uma série de obrigações; no entanto, há a possibilidade de negociação coletiva, como sabido, além das próprias obrigações oriundas do contrato bilateral.

Lima considera três situações específicas. Na primeira, a lei nova passa a

61 LIMA, Francisco Gérson Marques De. Quitação anual: estudos em direito sindical. 1 ed.

Fortaleza: Premius Gráfica e Editora, 2018. 216 p.

admitir renúncias, compensações e transações quando a lei antiga era proibitiva. Na segunda, a lei nova não trata de irrenunciabilidade, compensação ou transação. E, por último, na terceira situação a lei nova é proibitiva, enquanto a antiga era permissiva.

Tem-se como consequências, respectivamente, a aplicação imediata, porém não retroativa da lei nova, a inocuidade da nova lei perante uma discussão vazia e, finalmente, a afetação direta e conflituosa da relação trabalhista. Nesta última, cabe aos contratantes decidir se é mais vantajoso preservar o vínculo ou desfazê-lo.

De acordo com Campos Batalha, o que ocorre é que a transação deve ser vista pela ótica da lei do tempo em que ela se efetua, não da lei anterior que era

vigente à época do surgimento da obrigação63. É a lei mais nova, nesse caso, que

dará as diretrizes necessárias acerca da transação.

Embora a análise feita se refira precipuamente a direito sindical, é possível trazer alguns pontos para este estudo. É fato que a nova lei trabalhista acrescenta modalidades contratuais ao ordenamento brasileiro, como a modalidade que aqui se estuda, contrato de trabalho intermitente.

A Lei n° 13.467/2017, que guia este trabalho, entrou em vigor no dia 11 de novembro de 2017, após 120 dias de sua publicação. Por sua vez, a Medida Provisória 808/2017, de caráter passageiro e modificativo, passou a vigorar no dia 14 do mesmo mês.

Suponha-se que tenha havido contratação intermitente dentro desse período de 3 dias, já surtindo efeitos e com obrigações correntes. O § 4° do artigo 452- A da CLT, a título exemplificativo, foi um dos dispositivos suprimidos pela MPV 808/2017, e estipula o pagamento de multa de 50% da remuneração devida no caso de descumprimento de oferta para comparecimento ao trabalho.

Considerando que o empregado foi contratado no dia 11 e convocado para trabalhar no dia 14 pela manhã, tendo a medida provisória sido assinada à noite: caso o empregado, após convocação por parte do empregador e concordância, não tivesse comparecido ao serviço, este deveria pagar a multa no valor de 50% ao seu patrão. A medida, porém, suprimiu tal dispositivo, tornando a lei mais benéfica para o trabalhador.

Em tese, o descumprimento contratual que ensejaria a multa aconteceu

63 LIMA, Francisco Gérson Marques De. Quitação anual: estudos em direito sindical. 1 ed.

antes da mutação legal provisória. Destarte, nascida a obrigação, dever-se-ia aplicar a lei vigente no período do seu surgimento, conforme pensamento doutrinário majoritário.

Entretanto, há discussão acerca da aplicabilidade dos princípios do direito

do trabalho. Américo Plá Rodrigues afirma64 que, na realidade, o tema está pouco

“sedimentado”, havendo divergências relativas inclusive a enumeração dos princípios. Diz ainda que acredita que os princípios do direito do trabalho não podem ser considerados fontes do direito. Continua:

A única função de caráter normativo que exercem é operar como fonte supletiva em caso de lacuna da lei. E essa função é exercida não por serem princípios, mas por constituir uma expressão da doutrina. A nosso ver, os princípios de Direito do Trabalho situam-se em outro plano, diferente daquele em que se acham as fontes.65

A enumeração de princípios feita por Plá Rodriguez é considerada referência pela doutrina clássica em direito trabalhista. Dentre os princípios clássicos, há o chamado princípio da proteção, que se subdivide em três regras: in dubio pro operario, condição mais benéfica e aplicação da norma mais favorável.

A partir da regra da aplicação da norma mais favorável ao trabalhador, é possível defender – ainda que de modo questionável – a possibilidade de o empregado não pagar a multa, apesar de a obrigação ter ganhado vida no período anterior à medida provisória. A chegada de norma mais favorável ao empregado criaria uma situação jurídica mais cômoda para ele, considerado pela lei hipossuficiente dentro do vínculo empregatício.

Vislumbre-se outra situação, mais palpável: no período final da vigência da referida medida provisória, o trabalhador deixa de comparecer ao trabalho apesar de ter respondido convocação. Não há justa causa. Nessa hipótese, o inadimplemento não está em desconformidade com a lei. A queda da MPV 808/2017 e consequente superveniência do dispositivo que havia sido suprimido não obrigam o empregado ao pagamento da multa, pois a situação-raiz nasceu durante a vigência da medida.

As discussões sobre aplicação do direito intertemporal perduram, uma vez que alguns vínculos empregatícios, sob a modalidade contratual intermitente, estabeleceram-se no período da vigência da medida provisória

64 RODRIGUEZ, Américo Plá. Princípios do direito do trabalho. 3 ed. São Paulo: LTR, 2000. 65 RODRIGUEZ, Américo Plá. Princípios do direito do trabalho. 3 ed. São Paulo: LTR, 2000. p. 18.

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