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II. BÖLÜM

3.2. Araştırmanın Bulguları

3.2.8. Değişkenler Arası İlişkilerin İncelenmesi (Motivasyon, İçsel Motivasyon,

Em meu método de escrita, costumo aplicar a mesma tática do fazer artístico: penso/reflito/considero à medida que vou fazendo/criando/escrevendo1. Parece que as ideias me surgem com mais facilidade no lidar com a própria matéria da palavra — no seu

enformar, diria Vilém Flusser2. Contudo, em sua concepção platônica de forma imperfeita que subjuga a matéria, procurando, através dela, uma solução ideal e sempre impossível (em virtude mesmo das limitações da última)3, Flusser ainda pensa matéria/forma como dicotômicas; já eu, nem isso. A forma adquirida pela matéria (e por matéria entendo a substância dinâmica energia/corpo, em existência no tempo e no espaço4) nasce de uma ação exterior, claro, mas também de dentro dela. Ela não é estática, imutável, mas um em-processo permanente — nenhum “corpo, nenhum objeto, pode ser concebido fora das interações que lhe constituíram e das interações das quais ele participa necessariamente”5. No ato da escrita, a palavra grafada na tela do computador pode alterar o rumo do meu discurso — ou ser

1 Confirma Fayga Ostrower: “Ao criar, ao receber sugestões da matéria que está sendo ordenada e se altera sob

suas mãos, nesse processo configurador o indivíduo se vê diante de encruzilhadas. A todo instante ele terá que se perguntar: sim ou não, falta algo, sigo, paro... Isso ele deduz, e pesa-lhe a validez, eventualmente a partir de noções intelectuais, conhecimentos que já incorporou, contextos familiares à mente. Mas, sobretudo, ele decidirá baseando-se numa empatia com a matéria em vias de articulação. [...] A atividade criativa consiste em transpor certas qualidades latentes para o real. As várias opções, frutos recentes das opções anteriores, já vão de encontro às novas opções, propostas surgidas no trabalho... [...] Propondo, optando, prosseguindo, ele [o artista] parece impulsionado por alguma força interior a induzi-lo e a guiá-lo, como se dentro dele existisse uma bússola.” (OSTROWER, 1987: 70-71.)

2 “[...] a matéria não aparece (é inaparente), a não ser que seja informada, e assim, uma vez informada, começa a

se manifestar (a tornar-se fenômeno).” (FLUSSER, 2007: 28.)

3 “A ideia básica é esta: se vejo alguma coisa, uma mesa, por exemplo, o que vejo é a madeira em forma de

mesa. É verdade que essa madeira é dura (eu tropeço nela), mas sei que perecerá (será queimada e decomposta em cinzas amorfas). Apesar disso, a forma “mesa” é eterna, pois posso imaginá-la quando e onde eu estiver (posso colocá-la ante minha visada teórica). Por isso a forma “mesa” é real e o conteúdo “mesa” é apenas aparente. [...] Há uma fatalidade nesse ato: os carpinteiros não apenas informam a madeira (quando impõem a forma de mesa), mas também deformam a ideia de mesa (quando a distorcem na madeira). A fatalidade consiste também na impossibilidade de se fazer uma mesa ideal.” (FLUSSER, 2007:26)

4 “O átomo não é mais a unidade primeira, irredutível e indivisível: é um sistema constituído de partículas em

interações mútuas. [...] A partícula não conhece apenas uma crise de ordem e uma crise de unidade [...], ela sofre sobretudo uma crise de identidade. Não se pode mais isolá-la de maneira precisa no espaço e no tempo. Não se pode mais isolá-la totalmente das interações da observação. Ela hesita entre a dupla e contraditória identidade de onda e de corpúsculo. Ela perde às vezes toda substância (o fóton não tem massa em repouso).” (MORIN, 2003:126.)

alterada por ele. Minhas ideias perseguem determinados vocábulos — e outros vocábulos surgem devido a um determinado percurso de ideias. Meu pensamento entrelaça sua configuração à linguagem da qual me sirvo; assumiria outra expressão se eu, ao invés de escrevê-lo, optasse por desenhá-lo, dançá-lo ou cantarolá-lo. Não dizemos o que pensamos, o que sentimos, e nem nossas lembranças mais recônditas são registradas somente através da palavra (melhor dizer que ela sempre virá em segunda instância na consciência6): não enformamos pensamentos, sentimentos e lembranças somente através dela. Mais: um pensamento/emoção será suas próprias nuances, será os tons, os sons, as texturas de seu meio/modo de expressão, ou não se tornará cognoscível, nem por um outro, nem por mim mesma. Ou seja: não será.

Eu não começaria o capítulo dessa maneira, se não houvesse um bom motivo para fazê-lo. Estamos diante de uma tese. Mas esta tese está sendo escrita por alguém que, nesse exato momento, empenha-se como pesquisadora e teórica. Esse empenho, que classifico, ao modo de Felix Guattari7, como um tipo de agenciamento8(em que a autora que aqui se projeta agencia uma máquina transversal9 feita de signos de forma a operar sobre seus

significados, produzindo uma subjetividade discursiva), retorna a mim de modo que eu nele me reconheça: trata-se de uma identidade transitória, mas que eu logo trato de incorporar às

6

“A explicação da consciência baseada na linguagem é improvável, e precisamos ver por trás da máscara da linguagem para encontrar uma alternativa mais plausível. Curiosamente, a própria natureza da linguagem nega que ela tenha um papel primordial na consciência. (...) Palavras e sentenças traduzem conceitos, e estes consistem na ideia não linguística do que são as coisas, as ações, os eventos e as relações. Necessariamente, os conceitos precedem as palavras e as sentenças tanto na evolução da espécie como na experiência cotidiana de cada um de nós. Palavras e sentenças de seres humanos física e mentalmente sadios não vêm do nada, não podem ser uma nova tradução de um nada anterior a elas.” (DAMÁSIO, 2000: 239 e 240). Ou, como diria Felix Guattari: “não são os fatos de linguagem nem os de comunicação que produzem a subjetividade.” (GUATTARI; ROLNIK, 2008b: 42.)

7

GUATTARI, 2008a.

8 “Agenciamento: noção mais ampla do que as de estrutura, de sistema, ou forma, processo, montagem, etc. Um

agenciamento comporta componentes heterogêneos, tanto de ordem biológica, quanto social, maquínica, gnosiológica, imaginária.” (GUATTARI; ROLNIK, 2008b: 381.) Guattari utiliza o termo para identificar os processos de produção de subjetividade através das operações efetuadas sobre/a partir das máquinas coletivas (teóricas, sociais, estéticas, etc.).

9 Não é bom confundir o conceito de máquina de Guattari com o de Morin, teóricos citados nesta tese, cuja rede

filosófica — rizomática (para Guattari) ou sistemática (para Morin) — interconecta-se em vários pontos, apesar de expandir-se a partir de centros diversos. Para o primeiro, a noção de máquina (seja abstrata, desterritorializada ou transversal) precede o de técnica ou de ferramenta, pois se trata de um saber e não de um fazer

(GUATTARI, 2008a: 45-70). Essa máquina é inconsciente e coletiva, ela é dinâmica e autopoiêutica (ver nota 21 deste capítulo), está presente no — e ao mesmo tempo transcendente ao — ser. Ela não exclui, mas antes integra o conceito de máquina tal como Morin o descreve: uma organização (retro)ativa, “um ser físico práxico, ou seja, efetuando suas transformações, produções ou performances em virtude de uma competência

outras, por exemplo, àquela que hoje (falo do dia 5 de outubro de 2011) finalizou uma ilustração para seu próximo livro, àquela que é mãe de uma filha que logo completará 14 anos, àquela que acaba de tomar um café justamente para poder se concentrar melhor e poder forjar — com apoio de um corpo que se assenta sobre uma cadeira diante do computador e que articula braços, mãos e dedos, letra por letra —ideias, pensamentos, emoções. Se for bem sucedida, eu farei — espero — com que parte de mim seja cognoscível aos que lerem este trabalho. E, neste momento, você que me lê entrará em contato com uma subjetividade que sou eu — não inteiramente eu, mas uma parte de mim em andamento, que está sendo através destas palavras, deste texto. Sou, para você que me lê, uma vivente10: subjetividade enformada num discurso agenciado a partir de uma máquina de signos que nos atravessa, nos une e que — outra vez, espero — será percorrido até a última linha, quando então nos despediremos. E eu assumirei outras formas, e outras formas me assumirão, como também você.

Como podemos perceber, estou propondo um tipo de sujeito11; não posso partir de outra teoria senão aquela gerada a partir da experiência do meu ser. Mesmo os nomes Guattari, Morin, Damásio ou Flusser – mencionados em minhas notas e citações – e ainda outros sobre os quais me fundamento, nada significariam se não tivessem contribuído de alguma forma com a minha subjetividade em-processo, ou seja, se suas subjetividades teóricas não tivessem encontrado na minha uma máquina pronta a agenciá-los, operando a partir de suas colocações. É a esse processo, que provoca em mim o desejo de interagir, de operar, responder, agregar tudo o que se apresenta ao meu ser cognoscível, ampliando a minha subjetividade em ação, que eu quero chamar de leitura. E ao ser em processo ou

10 Palavra muito utilizada no interior do Rio Grande Sul para significar pessoa. Faço justiça a sua beleza poética:

para mim, ela reproduz o sentido exato do Dasein heideggeriano: criatura viva, em existência.

11

A concepção de sujeito como ser em processo ou vivente pode ser compreendida a partir da diferença apontada por Felix Guattari entre indivíduo e subjetividade. Tanto um quanto o outro serão adotados tendo em vista o sujeito em operação de leitura de um dado livro: “Para mim, os indivíduos são o resultado de uma produção de massa. O indivíduo é serializado, registrado, modelado. Freud foi o primeiro a mostrar até que ponto é precária a noção de totalidade de um ego. A subjetividade não é passível de totalização ou de centralização no indivíduo. [...] É claro que sempre se reencontra o corpo do indivíduo [nos] diferentes

componentes de subjetivação; sempre se reencontra o nome próprio do indivíduo; sempre há a pretensão do ego de se afirmar numa continuidade e num poder. Mas a produção da fala, das imagens, da sensibilidade, a produção do desejo não se cola absolutamente a essa representação do indivíduo. Essa produção é adjascente a uma multiplicidade de agenciamentos sociais , a uma multiplicidade de processos de produção maquínica, a mutações de universos de valor e de universos de história.” (GUATTARI; ROSNIK, 2008b: 40.)

vivente, permeável a um dado objeto a ser lido, ao qual ele transfere — e a partir do qual ele produz — uma subjetividade12, leitor.

Pensemos o significado do verbo ler: para muitos, ele está circunscrito ao ato de decodificação em varredura, linear, do discurso feito verbo13 e expande-se, no máximo, ao ato de compreender e interpretar14 uma sequência de palavras — de enunciados — tal como enformadas na escrita gráfica. Mas por que ler se referiria somente ao verbo? Não há um consenso em torno do significado do termo leitura. Conforme a área de estudos, conforme o ponto de vista teórico ou do pesquisador, iremos encontrar quem defenda uma diferença entre as operações realizadas por um sujeito ora visto como leitor, ora perceptor, receptor ou

interagente. Para o trabalho que aqui desenvolvo, ficarei com o termo leitor em seu sentido

12 Essa transferência, ampliada por Guattari a partir de Melanie Klein e de Jacques Lacan, implica “levar o

objeto parcial psicanalítico, adjascente ao corpo e ponto de negatividade da pulsão, na direção de uma

enunciação parcial.” (GUATTARI, 2008a: 25, grifo meu.) Ou seja, diferente de Lacan ou de Klein, que previam a construção de uma identidade única do sujeito a partir do objeto parcial, Guattari prevê uma subjetividade múltipla, processada a partir de vários objetos de transferência (estéticos, ecológicos, políticos, culturais, econômicos, etc.). Para Guattari, os objetos estéticos (artísticos e poéticos) serão aqueles que proporcionarão uma maior ampliação, em termos qualitativos e quantitativos, do ser em-processo.

13

Contudo, Julian Hochberg explicita a leitura verbal por varredura não como uma experiência de decodificação linear, pura extração abstrata do código, mas assemelhada a qualquer outro modo de percepção visual, ou seja, o olho recolhe significados com base numa percepção fisiológica dos conjuntos visuais de sinais gráficos: palavras e blocos de texto. Essa percepção é multidirecional — “The better the reader, the more widespread can be the

fixations by which he samples the text” [“Quanto melhor o leitor, mais espargidas serão as fixações através das

quais ele capta o texto” (HOCHBERG, In: PETERSON; GILLIAM; SEDGWICK, 2007: 144, tradução minha.)] —, conjugando movimentos oculares e processos cognitivos visuais. Assim: “[...] the praticed reader should

learn to sample a page or text (rather than ‘read it’ in the strict sense of the term), moving his eyes in ways much closer to those used in viewing the normal world, therefore closer to those long and irregular excursions of normal vision.” [“o leitor hábil aprenderia a captar uma página ou texto (mais do que ‘lê-lo’ no sentido estrito

do termo), movendo seus olhos de maneira mais próxima àquelas usadas para ver o mundo normal, e, portanto, mais próxima daquelas excursões longas e irregulares da visão normal.” (HOCHBERG, In: PETERSON; GILLIAM; SEDGWICK, 2007: 127-128, tradução minha.)]

14 Utilizo os termos compreensão e interpretação no sentido que lhes atribui Paul Ricoeur. Contudo, a

hermenêutica proposta por Ricoeur não considera parte do fenômeno de leitura os aspectos emoafetivos ou pré- simbólicos – sendo simbólico para o filósofo: “estrutura de significação em que o sentido direto, primário, literal, designa por acréscimo um outro sentido indireto, secundário, figurado, que apenas pode ser apreendido a partir do primeiro” (RICOEUR, 1978: 14.) –, atendo-se apenas aos seus aspectos computativos, conforme definição de Morin: “a computação realiza o que bem indica a origem latina de computare: analisar em conjunto, com- parar, com-frontar, com-preender.” (MORIN, 2005: 47.). De minha parte, eu apoiaria o ato de leitura não em dois pés, mas num tripé, incluindo o termo apreensão, que implica dados sensíveis, emocionais e imediatos aos cognitivos, refletidos nos aspectos sentimentais da consciência múltipla ou hologramática, tal como concebida por Antonio Damásio e Morin.

de legens, derivado do verbo legere15: colher, juntar, escolher, eleger, apoderar-se, percorrer, e ⎯ até mesmo ⎯ roubar. E o leitor [legens] será para mim tudo isso, inclusive ladrão (caso da turma das fanfictions, do autor de paródia ou do pastiche, do adulto que lê ficção infantil ou vice-versa, do leitor de Ítalo Calvino, que lê nos textos algo que o autor não sabia que havia escrito16): aquele que toma posse de um discurso que não necessariamente lhe foi destinado. Diferente de lector, legens sugere alguém em ação de ler, refere-se mais ao processo/operação ⎯ visível ou invisível, do leitor ao hiperleitor17⎯ do que a um comportamento individual em relação ao coletivo. Lector seria uma qualidade atribuída à operação leitora realizada por um profissional, por um hermeneuta ideal (declamador) ou especialista (os monges medievais que recuperavam, traduziam ou interpretavam os manuscritos, o linguista, o tradutor, etc). Já legens atribuo a um tipo de ação leitora que prefiro e procuro detectar nesse momento: vivente e em produção de subjetividade através

da ação legere, na busca de algo que contribua com sua sobrevivência (a sua origem está na atividade da agricultura) e dela participe; aquele que seleciona, que coleta, (es)colhe e recolhe dados (estéticos, informativos) para incorporá-los como alimento do corpo e do espírito; aquele que erra, que acerta, é heterogêneo, inclassificável em sua variação, em seus acessos e retrocessos, seja qual for o seu gênero, sua idade ou capacidade

15 A ideia de utilizar o termo latino legens ou legere como referência para um conceito de leitor e de leitura

aproxima-se — embora não tenha sofrido influência, uma vez que a informação da publicação desse artigo ocorreu posteriormente — da concepção de Flusser em “Ler, uma forma mágica de interpretação das letras”, publicado na Revista Pau Brasil no final de 1985, artigo produzido a partir das reflexões elaboradas em maior profundidade na obra A escrita: há futuro para a escrita? (publicada originalmente em alemão em 1987 e só recentemente traduzida para o português pela Annablume). No artigo ele começa, de modo muito semelhante: “Empregamos o verbo ‘ler’ como se significasse apenas o gesto de decifrar textos. A etimologia sugere que seu significado é mais amplo. O verbo latino ‘legere’, (raiz do ‘ler’ em português), o grego ‘legein’ e o alemão ‘lesen’ significam, todos, o gesto de catar (picar) grãos, como galinhas o executam.” (FLUSSER, 1985: 27.) Também a metáfora que dá à leitura uma conotação de colheita e de alimentação é coincidente. Embora eu tenha em vista um conceito de leitura e de leitor envolvente de todo tipo de linguagem ou mídia, tratarei

prioritariamente, para efeitos desta tese inserida na área de Letras, do leitor de literatura e de livros literários e ilustrados.

16

CALVINO, 1999: 189.

17

Termos de Ana Cláudia Munari Domingos Pelisoli (PELISOLI, 2011), aplicados para os processos de leitura relativos às novas mídias. O leitor invisível seria o leitor silencioso, o que não se revela ou não se publica; o

leitor visível refere-se, sobretudo, ao leitor fanficcer ou ao hiperleitor: aquele não restrito às operações verbais,

mas o leitor de todas as linguagens, em todas as mídias, e que responde a elas, tornando-se visível. Dado o meu conceito de mídia, já explanado, e de leitura associada à ação leggere, ou seja, de leitura como ação, posso incluir, mas não aplicar a terminologia de Pelisoli em minha tese. O leitor legens é orgânico e processual; ele inclui todos os demais modus operandi, além de escapar a uma abordagem categorizante. Assim, da mesma forma, ele pressupõe o escrileitor, outro termo de Pelisoli para situar o leitor-escritor fanficcer. A ação de

leggere não é uma operação passiva, mas interferente e atuante, ainda que nem sempre compartilhada, bastando

sua inclusão nos processos de produção de subjetividade, como pretendo comprovar a partir da amostra das crianças da Escola Tietbohl.

psicocognitiva. Homo lector é o ser social, objetivo; homo legens é o ser singular que, sem

deixar de estar inserido em determinado contexto (cultural, social, histórico), será compreendido em sua permeabilidade a ele. Legere está na raiz de intellegere: ação ou capacidade de eleger valores18. Inteligente é aquele que é capaz de discernir os dados do mundo e sabe o que fazer com a sabedoria conquistada, que associa e aplica — e não meramente acumula — conhecimento (estético ou informativo). Em resumo: todo vivente que estiver em ação e desejo de operação cognitiva (decodificadora) com finalidades ligadas ao ato perceptual de legere — e pouco importa se o seu objeto de transferência é formal (visual, gráfico ou plástico), se sonoro, se gestual, se olfativo —, será homo legens. A partir daí, ele poderá se estabelecer, inclusive, como um homo lector.

Ler/legere, portanto, pressupõe gestos de escolha, de decisão. Não é um ato passivo. Não se traduz num processo do qual se possa destituir as noções de tempo e de espaço (sendo uma ação, seria um contrassenso). Ao colher, separamos — ou procuramos separar — aquilo que achamos que presta daquilo que não presta. Pode acontecer que se acabe colhendo algo que não se esperava (de bom ou de ruim). Pode ocorrer que os olhos não bastem como ferramenta de leitura (e, com mais frequência do que imaginamos, é o que de fato acontece). Lemos de corpo inteiro, pelas terminações nervosas espalhadas desde a ponta do fio de cabelo até a sola dos pés, ainda que, em geral, circunscrevamos o ato de ler à massa cinzenta que jaz dentro de nossas cabeças, a qual damos o nome de cérebro. Contudo, a mente não é apenas o cérebro. E o leitor que configuro não será circunscrito a uma mera massa cinzenta — ele não ficaria nada bonito assim.

Um exemplo? Fui à praia, mais precisamente, Garopaba, no estado brasileiro de Santa Catarina. Fazia muito calor. Trazia comigo um exemplar de O assassino e outras histórias, de Anton Tchechov, uma antologia de contos ambientada no congelante inverno russo, repleto de personagens miseráveis e encasacados. Imagine: eu, de biquíni, em pleno sol à beira-mar, lendo Tchekhov. Nunca me esquecerei da sensação de frio, vinda de dentro e entrando em choque com o calor daquela manhã de verão. Meu corpo inteiro afetado e confuso pela leitura, que de puramente intelectiva não teve nada. Não se trata de uma descrição de rara sensibilidade. As impressões emocionais e sensitivas são, em geral, aquelas que geram maior prazer durante a ação cognitiva e se perpetuam em nossa memória com maior vividez. Esse

18 Novamente, uma aproximação com Flusser: “Inteligência é a capacidade de ler entre-grãos (‘inter-legere’ =

acontecido – Tchekhov ter me proporcionado tal sensação em pleno balneário catarinense – causou assombro e maravilhamento. Todos nós poderíamos citar exemplos semelhantes ocorridos em qualquer ocasião de leitura, mesmo a mais banal (até as contraindicações em uma bula de remédio podem nos causar arrepios). Ocorre que as impressões de ordem do emocional e do sensível assumem um potencial diferente quando na leitura de uma obra em função estética, como uma música, um filme, uma peça de arte ou de teatro: ela fornece uma via de acesso a um tipo de conhecimento de maior complexidade, dada a dificuldade de justificá-lo logicamente ou traduzi-lo em conceitos.

Tais experiências não se criam do nada ou exclusivamente a partir de um dado objeto