KAVRAMSAL ÇERÇEVE
2.4.2. Değişimin Yararına İnanma
[...] A gente foi pra barra sem casa, sem paradeiro, sem saber o que fazer. Dois dais depois conseguimos arrumar uma casa, aí foram doze pessoas pra uma casa de 2 cômodos (Cleiton do Prado Carneiro, In: Nova Cartografia Social dos Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil. p.11).
A saída forçada da Jureia colocou o caiçara em pleno convívio com a vida badalada57 da Barra do Ribeira. Viver na presença das luzes, turistas, carros importados, bebidas, som alto, praia com corpos expostos a imaginação consumista e outros pseudos prazeres capitalistas propôs ao corpo vibrátil58 do caiçara, um mergulho num mundo de infinitas possibilidades que a modernidade líquida, que trata da passagem da modernidade mais consistente para uma modernidade mais leve e infinitamente dinâmica, instiga o prazer e o consumo, conforme comenta Bauman.
Um mundo cheio de possibilidades é como uma mesa de bufê com tantos pratos deliciosos que nem o mais delicado comensal poderia esperar provar de todos. Os comensais são consumidores, e a mais custosa e irritante das tarefas que se pode pôr diante de um consumidor é a necessidade de se estabelecer prioridades: a necessidade de dispensar algumas opções inexploradas e abandoná-la. A infidelidade dos consumidores deriva do excesso e não da falta de escolha (BAUMAN, 2001. p.74).
Como lidar com esse canto da sereia em um novo território sem perder o compromisso com os valores tradicionais? Como manter a consciência de luta pelo território e pela cultura caiçara diante do novo?
A deliciosa mesa de bufê, com suas irresistíveis guloseimas sugeridas pelos prazeres das temporadas, amortecem as preocupações sociais do caiçara. Os corpos são territórios de passagem por onde transitam as múltiplas sensações advindas das suas experiências com o novo que por sua vez cria expectativas da repetição das experiências. Seria uma forma de alienação?
57 Vida badalada, significa nesse contexto, a alteração do ritmo cotidiano da vida dos barreanos nos períodos de
temporadas e feriados quando os nativos entram no ritmo dos turistas mudando, de certa forma, seus valores e a identidade local.
A realidade concreta exige decisão. Como dizia Paulo Freire (1987) é no desafio da hora atual que os homens propõem a si mesmo como problema. Os problemas dos caiçaras que foram obrigados a deixar o território para viver na Barra do Ribeira foram vários: Onde encontrar um terreno para morar? Com que dinheiro comprar o terreno? Onde trabalhar?
Quando foram obrigados a deixar o território, atitude de espoliação pela lei ambiental, os caiçaras descobriram que poucos sabiam de si, de seu “posto no cosmo” e, por isso, se inquietam por saber mais (FREIRE, 1987, p.29). Uniram-se para lutar pelos seus direitos à vida.
Passando a perguntar e querer saber mais da vida, eles começaram inicialmente buscando as respostas nos trabalhos da pesca da manjuba, na construção civil e nos bicos feitos nas casas dos turistas.
A pescaria da manjuba na vila e em todo município de Iguape, até a década de 1990, foi uma atividade economicamente rentável, pois quase toda a população conseguia sobreviver da atividade pesqueira.
No entanto, com o aumento do número de pescadores na região e também do tamanho das redes de arrasto, a pescaria de manjuba, que é uma pesca predatória, começou a declinar no final da década de 1990 chegando atualmente a um patamar inviável economicamente para a população local.
Com o declínio da pesca da manjuba no rio, passou-se a explorar a pesca no mar, pois o financiamento para aquisição de equipamentos para este tipo de pesca se tornou mais acessível ao pescador.
Além da pesca, o serviço na área da construção civil, como o trabalho de pedreiro e carpintaria, bem como cuidar de casas de turistas também constituíam opções e trabalho uma vez que o turismo começava a crescer na região. As duas últimas atividades foram as que mais os caiçaras expatriados exercem na época e ainda continuam a exercê-la atualmente.
Adaptar-se a Barra do Ribeira não significou um comodismo ou uma aceitação passiva da imposição do governo, mas se tornou um tempo de reflexão, busca e construção da história pela liberdade da cultura caiçara.
Diante desse contexto, formas de resistências foram surgindo na luta pelo território e pela preservação da identidade local. Dentre elas, pode-se destacar a criação das
associações de bairro e a valorização do fandango através de ensaios e oficinas de instrumentos.
Dauro Marcos do Prado, uma liderança caiçara da Jureia, ao lado de seu ex- companheiro de luta, Arnaldo das Neves Jr, fundaram em 1992 a União dos Moradores da Jureia-UMJ com objetivo de representar a população caiçara e denunciar as opressões que vinham sofrendo por conta da Secretaria do Meio Ambiente que forçava a saída dos moradores de suas casas sem qualquer direito indenizatório.
Um exemplo pulsante dessa luta é a vida do senhor Onésio do Prado e dona Nancy do Prado, casal caiçara que resistiram e ainda resistem bravamente à opressão do governo estadual que desde a implantação da Estação Ecológica tenta estrategicamente retirá- los da comunidade do Grajaúna, local onde nasceram há quase um século.
A mais recente ação coerciva do governo paulista aconteceu no mês de agosto 2014, quando a Fundação Florestal, órgão que gerencia a Estação Ecológica da Jureia, iniciou uma obra de ampliação do alojamento de pesquisadores tentando obstruir o caminho de servidão da casa do seu Onésio do Prado, na comunidade do Grajaúna.
A comunidade caiçara se mobilizou para resistiu à ação da Fundação Florestal encaminhando primeiramente oficio solicitando diálogo com a Fundação, mas não foi ouvida e continuou o trabalho na comunidade.
Diante da falta de diálogo como governo, a comunidade veiculou uma petição pública nas redes sociais e organizou um acompanhamento na comunidade do Grajaúna forçando o diálogo com o governo.
Usando de truculência, o governo paulista através da Secretaria do Meio Ambiente tentou usar força policial para coibir a manifestação, mas a comunidade caiçara neutralizou a ação governamental provando a ilegalidade da obra que se pretendia realizar em beira de cachoeira, área que a própria Secretaria do Meio Ambiente diz preservar.
A exemplificação dessa situação mostra o contexto por aonde as comunidades tradicionais da Jureia vem, ao longo de vinte anos, construindo sua história e defendendo seus direitos.
A atuação da UMJ na defesa dos direitos da população caiçara, tanto da Jureia como do território nacional, continua acontecendo em parceria com a AJJ que, atualmente, conta com uma nova força feminina, a caiçara Adriana Lima do Guaraú, que junto com Dauro
da Jureia reforçam a luta de formação e empoderamento das comunidades tradicionais caiçaras da Jureia e do território nacional.