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Desde o princípio do século XVIII, a penetração na colônia, a partir de Salvador, dispersava-se por toda a extensão do atual território baiano, chegando ao sul do Piauí, do Maranhão e do Ceará, enquanto que a incursão a partir de Recife chegou ao Ceará pelo leste, mas não utilizou o mesmo modelo de interiorização a partir da Cidade da Baía (Ibid., p. 62-63). Desde o Setecentos muitos caminhos ligavam a capital baiana à localidades interioranas e, de acordo com Neves & Miguel (2007), a coroa portuguesa mandara construir sete caminhos objetivando facilitar a apropriação do território.

A província da Bahia, no período colonial, comunicava-se com as capitanias do norte e com as províncias do interior em muitas frentes e pelo menos quatro caminhos iniciavam-se no Recôncavo Baiano. A primeira dessas vias originava-se em Salvador com destino à região central da capitania do Piauí, passando por Juazeiro e percorrendo a margem esquerda do rio São Francisco até a região de Oeiras, antiga capital piauiense. Essa foi a via mais importante na história colonial, pois foi por ela que os primeiros migrantes portugueses adentraram o sertão, bem como foi por ali que transitou a maior parte do gado consumido no Recôncavo Baiano naquele período, dispondo a vila de Juazeiro até de uma alfândega para produtos secos. Outro caminho importante ligava a Bahia ao Ceará, tendo como origem Salvador e chegando a Ibó (um dos atuais distritos do município baiano de Abaré), atravessado pelo rio São Francisco, passando por Jeremoabo. Desse ponto dirigia-se à Chapada do Araripe para chegar a Icó, pelas margens do rio Jaguaripe, atravessando o Ceará de norte a sul. Esse foi o caminho utilizado pelos serviços de Correios entre Salvador e a capital cearense, iniciados em 1821. Outros dois caminhos dirigiam-se para o oeste baiano, sendo que um deles conectava Salvador à província do Piauí, alcançando o rio Preto, afluente do rio Grande (PRADO JÚNIOR, 1994, p. 241-242). Esses caminhos eram usados para o transporte de gado e para o deslocamento de migrantes, sobretudo, durante períodos de estiagem.

As vias que interligavam a Bahia com a província de Minas Gerais distribuíam- se em três vertentes: a primeira, partindo do Recôncavo, com pousos nas localidades de Cachoeira, João Amaro e Tranqueira, acompanhava o rio Paraguaçu e o rio de Contas onde se bifurcava em dois percursos, um desses encontrava o rio São Francisco e seguia até o rio das Velhas, onde alcançava as minas no centro da

57 capitania. Essa estrada ficou conhecida como Caminho da Bahia ou Caminho do São Francisco, como se observa na Figura 02 e, segundo Antonil (1997, p. 186), era melhor que as veredas do Rio de Janeiro e de São Paulo porque era mais aberta, fácil de percorrer e abundante em alimento. Atravessava também extensas áreas mais povoadas, oferecendo maiores comodidades aos condutores de bens para as Minas (ZEMELLA, 1951, p. 71). Outras duas picadas também são descritas: uma que chegava ao arraial de Rio Pardo, na capitania de Minas Gerais, passando pelo rio Gavião e a outra mais curta (aberta no início XIX), que atravessa o alto curso do rio Cachoeira, passando pela então vila originária da cidade de Vitória da Conquista - por aí chegava-se também ao Rio Pardo (Ibid., p. 244).

Existiam mais duas vias que ligavam a Bahia à capitania mineira, e o ponto de partida eram as vilas de São José do Porto Alegre (atual sede do município de Mucuri) e a vila de Ilhéus. A primeira acompanhava o leito do rio Mucuri até a vila de Minas Novas, e a segunda via seguia o leito do rio Cachoeira, chegando à vila de Rio Pardo, passando pela vila de Conquista no Sudoeste Baiano. O primeiro percurso compunha parte da rede que conectava a Bahia à província de Minas pelo Sul, enquanto o segundo trajeto foi abandonado, conforme relato feito pelo príncipe Maximiliano em 1816, quando visitou a região (Ibid., p. 246-247). O príncipe escrevera:

Haviam-me prevenido de que, nessa estrada obstruída por matagais, eu não poderia caminhar sem o recurso de machados e foices; mandei, por conseguinte, fabricar várias dessas ferramentas de boa qualidade, e confiei-as a Hilario, Manuel e Inácio, três homens que eu contratara para a viagem. O primeiro era um mameluco, o segundo um mulato de notável força, afeito à fadiga e acostumado a percorrer as florestas, e o terceiro um índio (WIED-NEUWIED, 1940, p. 333- 334).

Boa parte do comércio era feito por meio das duas vias acima descritas, embora as trocas também se realizassem pelos cursos d´água, como o Pardo e o Jequitinhonha. No final do Setecentos e início do Oitocentos, Belmonte (elevada à condição de vila em 1764), situada na desembocadura do Jequitinhonha, teria sido um importante nó na rede de localidades dispostas entre Bahia e Minas Gerais, em razão do contrabando de ouro (ANTONIL, 1997; SPIX & MARTIUS, 1981, p. 146; PRADO JÚNIOR 1994, p. 343-345 e FERREIRA 1999, p. 51, 68).

58 Figura 02

O mais conhecido desses caminhos era o da Bahia, identificado na Figura acima como Caminho do São Francisco, que ligava a Baía de Todos os Santos à província mineira (ATAYDE, 2007, p. 23). Esse caminho foi usado até o século XIX como via de transporte de mercadorias entre a região central mineira e o Nordeste Brasileiro, sendo que as primeiras expedições que chegavam às Minas Gerais

59 partiram da Bahia ainda no primeiro século de ocupação portuguesa, através do curso do referido rio (PAULA, 1988, p. 127-128). Outros caminhos partiam de diferentes pontos do interior da Capitania da Bahia, objetivando chegar à margem sanfranciscana e dali abastecer o território mineiro (SILVA JÚNIOR, 2010, p. 72).

Na Figura 03, outro percurso pode ser observado: o que representa a estrada que se iniciava no porto de São Félix, defronte da vila de Cachoeira, no rio Paraguaçu - Recôncavo Baiano - e acabava na Serra dos Montes Altos17. A observação atenta da “planta” permite identificar a localização de fazendas e/ou localidades em toda a extensão do caminho, que atravessava a Bahia no sentido leste - oeste. Os círculos vermelhos observados nesse sentido representam a vila de Cachoeira, a vila de Curralinho (atual sede do município de Castro Alves), a vila do Rio das Contas (atual cidade de Rio de Contas) e o povoado denominado de Vila Velha do Rio das Cotas (atual sede do município de Livramento de Nossa Senhora), a oeste.

A “planta” foi idealizada por Manoel Cardozo de Saldanha - sargento mor da Infantaria e membro da comissão criada para averiguar se existia salitre na referida serra - e elaborada por José Antônio Caldas, membro da Academia Militar da capital da província da Bahia. Trata-se de um dos documentos mais importantes sobre a comunicação no interior da Bahia em meados do século XVIII, se não o mais relevante, tendo sido elaborado por volta de 1758. Além do tráfego existente entre a capital e localidades situadas no atual oeste baiano por meio do rio São Francisco, o serviço de trocas também se fazia via terra, como descrito anteriormente. Outras informações relevantes estão representadas na planta, como a serra do Sincorá e o rio das Rãs, importante afluente da margem esquerda sanfranciscana.

17 Localiza-se entre o rio São Francisco e a Serra do Espinhaço e se distribui nos territórios municipais

60 Figura 03

Parte da Planta Chorografica da estrada, que principiando na Serra dos Montes Altos [...] vem finalizar no Porto de S. Felis - 1758 Fonte: Arquivo Histórico Ultramarino. CALDAS. 1958.

61 No Oitocentos, a área interiorana da colônia mais representada pela cartografia lusitana foi a província de Minas Gerais, em decorrência das atividades desenvolvidas nas jazidas de ouro. Trataram de representar não somente os povoados e vilas que originaram em função da mineração, mas também rastros de ocupação em todo o território provincial. Encontramos um exemplo dessa estratégia na Figura 04, que representa a localização de pontos de ocupação ao longo do alto rio São Francisco e seus afluentes. As setas vermelhas com círculos indicam localização de paróquias e guardas militares, situadas na margem do referido rio e outra num dos lados do rio Pardo, importante curso d´água que desemboca no Oceano Atlântico, na cidade de Canavieiras. Ainda é possível observar capelas, representadas pelos círculos de menor diâmetro - e fazendas representadas pelas estrelas. Na parte superior esquerda do mapa identifica-se a capela de Carinhanha, que originaria, no século seguinte, o município homônimo. Chama a atenção na figura a representação de parte da capitania de Pernambuco, a comarca do Rio São Francisco, anexada à Bahia em 1824. Como o processo de ocupação do espaço nem sempre se atém às fronteiras políticas, acredita-se que as terras baianas não representadas, mas localizadas em volta da província de Minas Gerais, eram ocupadas, uma vez que não existiam barreiras naturais intransponíveis. Essa ocupação deu-se em duas frentes, uma comandada pelos baianos e pernambucanos e outra pelos mineiros e paulistas.

As Figuras 05 e 06 são relevantes em função das informações que trazem, pois é possível identificar no recorte das duas cartas acidentes geográficos, rios, localidades e vilas situadas no litoral e no interior do território baiano no século XVIII. Na Figura 05 vê-se a vila de Santo Antônio do Urubu (atual sede do município de Paratinga); o arraial de Cardoso (atual município de Matias Cardoso), que na época pertencia à província da Bahia e que, no Oitocentos, constituía importante nó na rede de conexão entre localidades da Bahia e da então província de Minas Gerias, para onde convergiam muitos caminhos (SILVA JÚNIOR, 2010, p. 71). Na Figura 06, de maneira diferente da anterior, observam-se muitas localidades situadas no interior, conectadas por um sistema de caminhos18. Mesmo que a posição geográfica desses povoamentos não corresponda à exata localização atual, sua representação no final do século XVIII confirma a hipótese de ocupação territorial.

18 Os círculos representam, em sentido norte - sul, as atuais sedes municipais de Barra, Serrinha, Água

62 Figura 04

Parte do Mappa da capitania de Minas Geraes

63 .

Figura 05

Parte da carta Suite du Bresil. Depuis la Baye de Tous lês Saints jusqu`a St Paul. Pour servir a l` historie gen.le des voyages - 1754

64

Figura 06 - Parte da Carta geographica de projeção espherica ortogonal da Nova Luzitânia ou América Portuguesa e Estado do Brazil - 1798 Fonte:Mapoteca do Exército Português - Divisão de Infra-Estrutura. LEME, 1798.

65 Verifica-se uma maior ocupação no litoral (sobretudo no Recôncavo Baiano) e nos arredores do rio São Francisco, ao passo que a região central aparenta ser menos ocupada. A importância da vila de Santo Antônio do Urubu, vista nas duas Figuras, e da vila de São Francisco das Chagas (atual cidade de Barra) reflete o peso do rio são Francisco como principal eixo de ocupação do espaço regional; no caso da primeira, a centralidade estava vinculava à existência de jazidas de sal situadas na margem direita do rio, que abastecia consumidores das províncias do Piauí, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso. Esse era um dos fatores que favorecia a pecuária na região, onde se produzia mais de 35.000 surrões19 (PRADO JÚNIOR, 1994, p. 190). Já a vila de São Francisco das Chagas da Barra do Rio Grande, fundada em 1752, teve sua origem vinculada, sobretudo, a necessidade de apropriação de uma vasta área drenada pelo rio.

Embora a análise dos fragmentos dessas cartas não aponte a existência de uma rede de cidades como aquela que se verificou no Recôncavo Baiano no mesmo período (ANDRADE, 2010), as informações retratadas atestam a existência de caminhos, fazendas, povoados e vilas no interior da província da Bahia, sugerindo uma incipiente rede de localidades para além dos arredores de Salvador, que alimentavam-se de trocas coma capital, o Recôncavo Baiano (RB), o interior e as Minas Gerais, graças à navegação fluvial, ao papel da pecuária e, sobretudo, daqueles que “obedecendo” a uma dispersão migratória, adentravam-se pelos sertões da Bahia.

Benzer Belgeler