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1. Değerlendirme
A tradição do direito brasileiro aponta no sentido de repelir o sistema de precedentes vinculantes, não podendo o Poder Judiciário, salvo expressa autorização constitucional, estabelecer regras genéricas e abstratas, aplicáveis a casos futuros.
Essa tradição histórica ficou evidente pela resistência de significativa parcela de magistrados e jurisconsultos à introdução do instituto da súmula vinculante no ordenamento jurídico brasileiro. Antes de abordar alguns aspectos da súmula vinculante, faz-se uma rápida referência ao procedimento de uniformização de jurisprudência diante da sua correlação com o tema.
O procedimento de uniformização de jurisprudência, de uma forma ou de outra, atenua essa resistência, já que configura um mecanismo introduzido formalmente no ordenamento jurídico por força da lei processual (Código de Processo Civil, em seus arts. 476 a 479).
Trata-se de um procedimento incidenter tantum, o que acarreta a aplicação da decisão do tribunal a respeito da questão suscitada apenas ao caso concreto, não tendo força vinculante para os demais órgãos jurisdicionais.
Contudo, como bem apontado por Luiz Guilherme Marinoni e Sérgio Cruz Arenhart, constitui-se em precedente considerável, “que espelha, com certa tranqüilidade, o entendimento da corte a respeito da específica questão jurídica”265.
Ressalte-se que o julgamento do incidente de uniformização de jurisprudência pode ser tomado por votação da maioria simples e valerá, nesse caso, para a solução do caso no órgão suscitante.
Porém, se for tomado pela maioria absoluta dos membros que integram o tribunal, será objeto de súmula, e constituirá precedente na uniformização da jurisprudência, conforme se verifica da leitura do art. 479 do Código de Processo Civil.
265 MARINONI, Luiz Guilherme & ARENHART, Sérgio Cruz. Manual do Processo de Conhecimento: a tutela
Como acentua Humberto Theodoro Júnior, a súmula não tem força de lei para os casos futuros, mas funciona, de acordo com o regimento Interno do Tribunal, “como instrumento de dinamização dos julgamentos e valioso veículo de uniformização jurisprudencial, como tem evidenciado a prática do Supremo Tribunal Federal”266.
Em recente mudança no texto constitucional, houve alteração significativa com relação ao posicionamento da jurisprudência no ordenamento normativo nacional. A Emenda Constitucional nº 45, denominada de Reforma do Poder Judiciário, introduziu em nosso sistema normativo a figura da súmula vinculante, por meio do acréscimo do art. 103-A, transcrito a seguir:
Art. 103-A. O Supremo Tribunal Federal poderá, de ofício ou por provocação, mediante decisão de dois terços dos seus membros, após reiteradas decisões sobre matéria constitucional, aprovar súmula que, a partir de sua publicação na imprensa oficial, terá efeito vinculante em relação aos demais órgãos do Poder Judiciário e à administração pública direta e indireta, nas esferas federal, estadual e municipal, bem como proceder à sua revisão ou cancelamento, na forma estabelecida em lei.
§ 1º A súmula terá por objetivo a validade, a interpretação e a eficácia de normas determinadas, acerca das quais haja controvérsia atual entre órgãos judiciários ou entre esses e a administração pública que acarrete grave insegurança jurídica e relevante multiplicação de processos sobre questão idêntica.
§ 2º Sem prejuízo do que vier a ser estabelecido em lei, a aprovação, revisão ou cancelamento de súmula poderá ser provocada por aqueles que podem propor a ação direta de inconstitucionalidade.
§ 3º Do ato administrativo ou decisão judicial que contrariar a súmula aplicável ou que indevidamente a aplicar, caberá reclamação ao Supremo Tribunal Federal que, julgando-a procedente, anulará o ato administrativo ou cassará a decisão judicial reclamada, e determinará que outra seja proferida com ou sem a aplicação da súmula, conforme o caso.
Além da alteração no próprio texto constitucional, a referida Emenda tem disposição importante em seu art. 8º, in verbis:
Art. 8º As atuais súmulas do Supremo Tribunal Federal somente produzirão efeito vinculante após sua confirmação por dois terços de seus integrantes e publicação na imprensa oficial.
Podemos considerar que a súmula vinculante apresenta uma força impositiva aos órgãos de aplicação do direito, sobretudo aqueles integrantes do Poder Judiciário, de certo
266
modo, mais rígida do que a própria lei já que esta pode ser interpretada. A súmula vinculante, ao contrário, já é fruto de um trabalho interpretativo sedimentado pelo Supremo Tribunal Federal estando pronta para a sua aplicação imediata e com contornos bem definidos. Nesse sentido são as palavras de José Marcelo Menezes Vigliar:
A regra da vinculação é extremamente clara e tem força que, convenhamos, supera em alguns aspectos a força da lei, pois a lei pode ser interpretada e levada aos tribunais. A decisão, nos limites previstos na Constituição Federal, não. Terá eficácia erga omnes e efeito vinculante aos demais juízes e Administração!267.
Nesse sentido, a súmula vinculante apresenta-se no ordenamento jurídico na manifestação potencializada da jurisprudência, atingindo o seu ponto ótimo de eficiência já que vai deitar sobre os demais órgãos do Poder Judiciário e da Administração Pública a sua máxima eficácia obrigatória e não apenas um efeito orientador ou influenciador.
A vinculação ao entendimento esposado na súmula é tão premente que o seu desrespeito, seja por ato administrativo ou decisão judicial, permitirá o ajuizamento de reclamação ao Supremo Tribunal Federal que, julgando-a procedente, anulará o ato administrativo ou cassará a decisão judicial reclamada, e determinará que outra seja proferida com ou sem a aplicação da súmula. Deve-se lembrar que a reclamação é uma medida extrema pois leva ao STF o conhecimento de que as suas decisões não estão sendo devidamente acatadas pela Administração ou pelos demais órgãos judicantes.
Em 19 de dezembro de 2006 foi promulgada a Lei nº 11.417268 que regulamente o
art. 103-A da Constituição Federal, disciplinando a edição, a revisão e o cancelamento de enunciado de súmula vinculante pelo Supremo Tribunal Federal.
O tratamento dado por essa Lei à não observância por parte da Administração Pública dos enunciados da súmula vinculante adotada pelo STF revela a força normativa geral que ostenta. O art. 9º da Lei nº 11.417/06 acresceu à Lei nº 9.784/99269 os arts. 64-A e 64-B,
sendo que este último tem a seguinte redação:
267
VIGLIAR, José Marcelo Menezes. A Reforma do Judiciário e as Súmulas de Efeitos Vinculantes. In: TAVARES, André Ramos, LENZA, Pedro & ALARCÓN, Pietro de Jesús Lora (Coord.) Reforma do Judiciário
analisada e comentada. São Paulo: Editora Método, 2005. pp. 285-293. p. 288.
268 Para ver uma análise específica dessa lei consultar a obra de André Ramos Tavares incluída na bibliografia. 269
Art. 9º. A Lei 9.784, de 29 de janeiro de 1999, passa a vigorar acrescida dos seguintes arts. 64-A e 64-B:
(...)
“Art. 64-B. Acolhida pelo Supremo Tribunal Federal a reclamação fundada em violação de enunciado da súmula vinculante, dar-se-á ciência à autoridade prolatora e ao órgão competente para o julgamento do recurso, que deverão adequar as futuras decisões administrativas em casos semelhantes, sob pena de responsabilização pessoal nas esferas cível, administrativa e penal.” (sem grifo no original)
Portanto, em sede de reclamação, o descumprimento da súmula vinculante é reparado pela anulação do ato administrativo, conforme prescrito no art. 7º, § 2º da Lei nº 11.417/99. Para os casos futuros, a autoridade administrativa e o órgão competente para o julgamento do recurso serão cientificados para adequar as futuras decisões sob pena de tríplice responsabilização (cível, administrativa e penal). Diz André Ramos Tavares que é um mecanismo que procura, “de maneira radical, cercar a Administração Pública para que cumpra o estabelecido na súmula vinculante”270, sendo que a idéia é a diminuição de
contendas envolvendo a Administração Pública, maior litigante em nossos Tribunais.
Como última questão a ser abordada nesse momento, fazemos referência en passant em relação a certa similaridade entre a súmula vinculante e os enunciados do Conselho de Recursos da Previdência Social, servindo como introdução para a próxima parte do trabalho. E qual seria a razão de considerarmos a existência dessa similitude?
Em primeiro lugar, temos que os enunciados do CRPS são vinculantes, quanto à interpretação do direito, para toda a Administração Pública previdenciária, conforme se verifica do disposto no art. 62 do Regimento Interno do CRPS. Tal vinculação não é diferente em relação à observância das súmulas vinculantes.
Em segundo lugar, o desrespeito ao enunciado do CRPS pelas Juntas de Recursos é passível de interposição de recurso para uma das Câmaras de Julgamento do CRPS funcionando a infringência do enunciado como pressuposto de conhecimento do recurso. Desta forma, as Câmaras de Julgamento fazem uma espécie de controle do acatamento e observância dos enunciados pelos órgãos de primeira instância do Conselho.
270 TAVARES, André Ramos. Nova Lei da Súmula Vinculante. Estudos e Comentários à Lei 11.417, de
Em terceiro lugar, o fundamento de adoção de um enunciado pelo Pleno do CRPS é semelhante aos motivos que levam o Supremo Tribunal Federal a adotar uma súmula vinculante, ou seja, estabelecer a forma de interpretar o direito em uma questão específica revelando a diretriz de sua aplicação e, por via de conseqüência, prevenindo a subida de recursos às instâncias superiores em decorrência da aplicação do direito em sentido diverso ao sumulado.
A partir da previsão constitucional, e quando adotada pelo quorum estabelecido no art. 103-A da Constituição Federal, a súmula vinculante passaria a ser fonte formal do direito, e quanto a ela, não se aplicaria a divergência doutrinária apontada nas linhas anteriores (em relação ao seu enquadramento, ou não, entre as fontes formais).
Por derradeiro, lembrando o que se falou sobre a jurisprudência no direito romano, sobretudo no período de decadência de Roma, e observando a sua evolução até a introdução em nosso ordenamento jurídico da súmula vinculante, pode-se identificar um percurso da jurisprudência no sentido da proibição da interpretação contra legem até a obrigatoriedade de seu acatamento em sua manifestação vinculante (do proibido ao obrigatório).
Na próxima etapa do trabalho, adentra-se na discussão sobre a jurisprudência administrativa, densificando a análise do processo administrativo que se desenvolve perante o Conselho de Recursos da Previdência Social e a sua atuação como órgão colegiado de controle jurisdicional dos atos exarados pelo Instituto Nacional do Seguro Social.