• Sonuç bulunamadı

Para uma mulher ter atravessado tudo isso fiel as suas saudades, absolutamente só, em suas aflições, é necessá- rio possuir qualidades muito poderosas, que não se en- contram nessa proporção, e com esta eficácia (Cecília Meireles).

Para Jung (2000), além do arquétipo da Grande Mãe possuir aspecto na própria mãe, ele também é variável na avó. A avó de Cecília Meireles foi uma pessoa de extraordinária influência em sua vida. Após a morte de sua mãe, a tutela da neta passou-se para Jacinta Garcia Benevides. Neste tópico, primeiro fez-se uma demonstração de como a avó chamou a atenção de Cecília Meireles para o valor de Portugal e da Índia. Em seguida, como a poeta apresentou sua avó na narrativa de Olhinhos de Gato (1983b), onde tem o apelido carinho- so de Boquinha de Doce. Finaliza-se com a análise de Elegia (Mar absoluto – 2001b)

Segundo entrevista a Pedro Bloch “À casa de minha avó chegavam continuamente malas, de gente da família que ia faltando e eu, muitas coisas, em vez de conhecê-las em seus lugares, via-as saindo de malas” (Pedro Bloch, 1964, p.35). Além disso, a poeta con- fessa que “quanto a Portugal, basta dizer que minha avó falava como Camões”. Entre ou- tras coisas, o rico folclore açoriano entrava para a vida da poeta também através da avó: “minha avó que me cantava romances e me ensinava parlendas” (BLOCH, 1964, p.37). Vale também destacar a incomparável religiosidade de sua avó açoriana merecedora de destaque pela poeta:

Vovó era uma criatura extraordinária. Extremamente religiosa, rezava to- dos os dias. E eu perguntava: "Por quem você está rezando?" "Por todas as pessoas que sofrem." Era assim. Rezava mesmo pelos desconhecidos. A dignidade, a elevação espiritual de minha avó influiu muito na minha ma- neira de sentir os seres e a vida. (BLOCH, 1964, p.35).

A avó foi uma pessoa extremamente importante para a formação do pensamento de Cecília Meireles. Dela a poeta herdou a sua elevação espiritual. Não dá para pensar em Ce- cília Meireles e deixar de lado a profunda intimidade poética dos cuidados maternos de sua avó açoriana. A avó açoriana trouxe dos Açores para a neta, toda bagagem de experiência e vivência alheia. Herança deixada para a neta e tão bem aproveitada em sua criação poética.

As histórias contadas pela avó despertaram-lhe o interesse pelas coisas orientais, principalmente pela Índia. Dilip Loundo (2001) em seu artigo “Cecília Meireles e a Índia: viagem e meditação poética” assim comentou:

As conexões multidimensionais e duradouras de Cecília Meireles com a Índia, remontam, literalmente, à sua infância. Ela cresceu ouvindo histórias de sua avó materna açoriana e de sua pajem sobre as viagens marítima dos portugueses a Índia durante os tempos coloniais e sobre a multiplicidade de costumes e mercadorias que foram trazidos dali e de outras regiões da Ásia para o Brasil (LOUNDO, 2001, p.142).

A Índia tinha as coisas valiosas. Por isto, sua avó estava sempre atenta aos produtos indianos e chamava-lhe a atenção quando os viam:

Foi ela quem me chamou a atenção para a Índia, o Oriente: "Cata, cata, que é viagem da Índia", dizia ela, em linguagem náutica, creio, quando tinha pressa de algo, Chá-da-índia, narrativas, passado, tudo me levava, ao mes- mo tempo à Índia e a Portugal. Em Portugal me encanta aquele "catecismo rural", aquele “classicismo”. (BLOCH, 1964, p.35).

Índia e Portugal estão muito ligados na poética ceciliana. A Índia das viagens marí- timas e das grandes especiarias. Portugal, terra natal de sua avó. Esses dois países estavam conexos no imaginário poético ceciliano. Como apareceu nesse poema “Cata, Cata que é viagem da Índia”:

“Cata, cata, que é viagem da Índia...” As horas de navegação minha filha, Os adeuses dos lenços,

A morte nos barcos. Rezemos pelos naufrágios. A ordem do rei,

O rei que Deus tenha em sua glória

-mas por que os reis querem ser donos do mundo? Por que o rei queria o marfim e o ouro,

A seda e a prata,

E mandava seus galeões para bem longe, Ao lugar onde o sol nasce

E os ares são de jasmim?

Não se poderia viver sem cravo e cinamomo, Sem erva-doce e açafrão

E aquela curva pimenta coral?

“Cata, cata, que é viagem da Índia” foi o refrão ouvido pela poeta por longos anos em sua vida. E era tão forte a ponto de despertar-lhe interesse pelos produtos indianos, e, também, o estudo de textos orientais, a mística oriental. Através do estudo dos textos orien- tais Cecília Meireles descobriu a Índia, uma das suas grandes paixões. A Índia foi um espa- ço místico onde a poeta se inspirou para escrever seus Poemas escritos na Índia (1953). Então, está além de um espaço geográfico localizado no Oriente. Para Cecília Meireles, a

Índia representa muito mais. Como ela afirmou em entrevista a Pedro Bloch: “Na Índia foi onde me senti mais dentro de meu mundo interior. A canção de Tagore, que tanta gente can- ta como folclore, tudo na Índia me dá uma sensação de levitar. Note que não visitei ali nem templos nem faquires. Não é exótico. É o espírito, compreende?” (BLOCH, 1964, p.37). Este foi um dos poemas que conseguiu traduzir o sentimento ceciliano ao se sentir dentro do seu mundo interior:

Canção do menino que dorme Quente é a noite,

O vento não vem.

E o menino dorme tão bem! Menino de rosto de tâmara, Tênue como a palha do arroz,

Os bosques da noite vão tirando sonhos De dentro de cada flor.

Águas tranquilas, com búfalos mansos, Elefantes de arco-íris na tromba.

Pássaros que cantam nas varandas verdes

Nas mangueiras redondas. (MEIRELES, 2001b, p.982).

Este poema revela as singelezas da arte poética ceciliana ao tocar em paisagens mais pitorescas indianas e criar, a partir delas, sua poesia refletida no menino que dorme mesmo naquela noite sem vento para refrescar seu sono. Ou seja, um menino desapegado para entre- gar-se completamente àquele sono. Característica esta presente na poesia de Tagore, influên- cia da filosofia e religiosidade indiana, ou melhor, hinduísta. Cecília Meireles tinha em Ra- bindranath Tagore uma de suas mais preciosas inspirações. A poesia e a música de Tagore a influenciaram muito no seu fazer poético. Seu misticismo e seu desapego das coisas materiais

contribuíram para Cecília encontrar sua filosofia de vida e também aprimorar sua identidade mística poética45.

Pelo fato de Cecília ter estudado o Oriente com dedicação e se identificado com as ideias, principalmente de personagens com Tagore e Gandhi, há forte influência no amadure- cimento de sua criação poética. A pacifista Cecília Meireles, como foi denominada muitas vezes, encontrou na Índia a sua inspiração poética.

Passa-se agora, ao estudo de como a poeta apresentou sua avó sua narrativa infantil. Em Olhinhos de Gato (1983b) são fortes as imagens de costura e roupas. Viu-se antes a mãe de Olhinhos de Gato como uma ótima bordadeira, as mulheres da ilha do Nanja são tecedei- ras e Boquinha de Doce é costureira. Entre máquina, tesoura, linhas, agulhas, tecidos, reta- lhos, roupas prontas, roupas por fazer, roupas prontas e guardadas, há a costura da poesia ceciliana que une todas estas imagens em sua criação poética. É neste clima poético que o ranger da tesoura inspira os devaneios poéticos infantis a criar imagens permanentes marca- doras de sua poesia.

Quanto a Boquinha de Doce, sua tesoura range o dia inteiro por cima da mesa, cortando corpinhos, blusas, aventais. Os olhos da menina ficam ren- tinhos ao pano. O cheiro do morim, as figuras coloridas que vêm coladas às peças, andam pertinho do seu rosto. Boquinha de Doce está sempre com medo de espetá-la com a tesoura. "Tira-me esses olhinhos daí!" E continua a cantar46, mas baixinho e triste:

"Quisera amar-te, mas não posso, Elvira, porque gelado sinto o peito meu,

não me crimines, que não sou culpado,

amor no mundo para mim morreu." (MEIRELES, 1983b, p.34).

Costurar é uma das atividades de Boquinha de Doce. Atividade esta que prendia o olho de Olhinhos de Gato. Ela ficava o tempo todo de olho na tesoura de Boquinha de Doce, a ponto de ela lhe chamar atenção para não machucá-la. Esta atitude deixa transparecer o cuidado materno para com a menina. E há uma aproximação tão grande entre ela e o tecido a ponto dela sentir o cheiro do “morim”. Existia uma curiosidade em ver aqueles tecidos

45 Tagore nasceu em 07 de maio de 1861, em Calcutá, Índia, que neste tempo estava sob o domínio da Inglaterra. Tagore era filho do reformador religioso hindu chamado Devendranath Tagore. O pai educou o filho pelo fa- to de não concordar com as coerções do ensino clássico. Entre 1878 e 1880, o poeta esteve em terras britâni- cas e conheceu a música e a literatura europeias.

com suas cores, seus desenhos, seus cheiros transformados em corpinhos, blusas, aventais por isso seu rosto ficava “rentinho” ao pano.

É nesta curiosidade, sentido este cheiro que a imaginação infantil da poeta viajou pa- ra mais tarde, já adulta, costurar palavras e palavras no labor poético. E enquanto cortava e costurava, Boquinha de Doce também cantava. Foi através do canto da avó que ela aprendeu a riqueza do folclore açoriano. Tudo estava unido, tudo estava costurado, ponto por ponto; verso por verso. No ritmo da máquina de costura, no ritmo da música que a avó cantava, estava o ritmo e a música da criação poética. A poesia ceciliana foi criada em seu compasso de melodia e ritmo vindo desta infância ao lado de sua avó na máquina de costura e no can- to da música açoriana.

Neste excerto, há o “cheiro do morim”. Segundo Bachelard (2006, p.132) “quando é a memória que respira, todos os cheiros são bons. Os bons sonhadores sabe assim respirar o passado (...) que evoca o encontro obscuro dos dias que se foram”. O cheiro de “flor mur- cha” e do “morim” são cheiros bons, pois é a memória de uma poeta a respirar. Esses chei- ros falam do seu passado. O cheiro de flor murcha a faz lembrar-se de sua mãe morta. En- quanto que o cheiro do morim lhe traz à memória Boquinha de Doce e todos seus cuidados maternos.

Neste excerto mostra Boquinha de Doce costurando e cantando. Certamente estas músicas Olhinhos de Gato registrou em sua memória para repeti-las depois. Ao passo que nesta outra, ela está lendo e o gosto pela leitura também vem da convivência com Boquinha de Doce:

Boquinha de Doce sentava-se na sua cadeira de vime, abria também seu livro, que era pequenino, mas grosso, e de beiras douradas, e ali fi- cava, entre nuvens. E a menina ajoelhava-se, levantava-se, chegava-se para perto dela, aninhava-se no seu colo, ficava entre o seu rosto e o livro. E as figuras passavam: homens de outros tempos abriam os braços fa- lando para multidões; a cabeça do santo gotejava sangue, sob os es- pinhos; o corpo do santo se arrastava entre soldados; o santo morria na cruz, e as mulheres choravam ajoelhadas. (MEIRELES, 1983b, p.138).

Temos uma imagem de aconchego nesta intimidade de Boquinha de Doce e Olhi- nhos de Gato. Ao mesmo tempo perpassa a imagem de Boquinha de Doce sentada em sua cadeira com um livro na mão e Olhinhos de Gato envolvida com suas ilustrações. Em senti- do geral, é muito comum apresentar a simbologia de Deus sentado em seu trono com um livro na mão, no qual anota os pecados das pessoas. O que temos aqui é a deusa sentada em

sua cadeira (trono) e também com um livro na mão. Ultrapassando a simbologia patriarcal para adentrar no princípio feminino da deusa com seu livro sentada em seu trono. Nesta imagem literária, a deusa está sentada em seu trono com um livro em suas mãos.

Na correspondência com Armando Côrtes-Rodrigues, a poeta menciona sua avó com muita frequência. Para ela, a avó é uma criatura com características extraordinárias. Na car- ta do dia 29 de novembro de 1946, ela assim se expressa ao amigo poeta:

Eu tenho conhecido muita gente: do mundo inteiro, de todas as idades, reli- giões, níveis de cultura e educação. Sempre penso em minha Avó era uma raridade. Se ela tivesse vivido noutros ambientes, com outros recursos ao seu alcance, quem sabe quem sabe eu seria apenas a sombra do que ela deixou de ser? Sua força de vontade era tanta que aqui aprendeu a ler, e sempre sus- pirava sem amargura: ‘Deus perdoe a minha Mãe, que não quis tomar lição com a mestra”. Essa mestra parece que tinha inaugurado um curso por aque- la altura (pela infância da minha Avó) nas proximidades da sua casa. E a cri- ança ambicionava loucamente aprender, a Mãe prendia-a, pelo velho precon- ceito das “cartas aos namorados”...Ora, o que a cultura não lhe deu ela trazia em si com uma força quase explosiva. E era uma mulher de tão bom senso que nunca deixou de resolver com acerto os seus problemas de tão bom gos- to que ainda hoje eu mesma sou a sua aluna de estética; de tanto sentido prá- tico, que conseguiu desembaraçar-se de todas as confusões em que mergu- lharam dez anos de mortes consecutivas e dinheiros esparsos, e ainda me le- gou a sua casa, ao morrer (...) (SACHET, 1998, p.71).

A avó era uma raridade no olhar de Cecília Meireles. Se ela tivesse mais oportunidade na vida, certamente teria feito muito mais do que fez. Apesar de pouco estudo, conseguiu educar a neta com a bagagem cultural, espiritual, material usando de todas as suas forças para educá-la da melhor forma possível. O que ela tinha deixou à Cecília como herança. Não ape- nas bens materiais, mas bens espirituais como o misticismo. Como comentou a poeta em uma correspondência à Armando Cortês-Rodrigues:

Ela era de um misticismo muito especial. Tudo se passava dentro do seu co- ração e da sua casa. Por isso sempre estive convencida de que ela teria co- nhecido pessoalmente a Cristo e aos santos todos, e teria ajudado a Virgem Maria a cardar e cuidar do Menino. Hoje isso não me sai da cabeça. Mas era anti-clerical, sabe? Dizia-me sempre que respeitava os padres no momento em que estava no altar (SACHET, 9 de junho de 1947).

A imagem da Grande Mãe na avó que a educou para o sonho da vida, fez dela uma grande sonhadora. E esta imagem criada em sonho de sua avó, certamente não é a avó real. É a Grande Mãe imaginada, sonhada, transfigurada em sonho de uma menina que um dia perdeu toda sua família. Então, diante dessa realidade, a poeta criou novas imagens para esta Grande Mãe transfigurada em seus versos e em sua prosa poética. Foi a esta avó que a poeta dedicou uma elegia com características açorianas.

Considerando Elegia como composição destinada a exprimir tristeza ou sentimento melancólico, Cecília Meireles a dedicou para sua avó após sua morte. Ele foi composto por 8 poemas. Em Olhinhos de Gato, a poeta narrou cenas de seu cotidiano na infância quando sua avó era viva. Em Elegia, dolorosamente tratou da profunda tristeza sentida após sua morte. Nela, o eu lírico estabeleceu um diálogo com seu interlocutor (um cadáver). Observe o primeiro poema: 1

Minha primeira lágrima caiu dentro dos teus olhos.

Tive medo de a enxugar: para não saberes que havia caído. No dia seguinte, estavas imóvel, na tua forma definitiva. Modelada pela noite, pelas estrelas, pelas minhas mãos.

Exalava-se de ti o mesmo frio do orvalho; a mesma claridade da lua. Vi aquele dia levantar-se inutilmente para as tuas pálpebras,

E a voz dos pássaros e das águas correr,

- sem que a reconhecessem teus ouvidos inertes.

Onde ficou teu outro corpo? Na parede? Nos móveis? No teto? Inclinei-me sobre o teu rosto, absoluta, como um espelho. E tristemente te procurava.

Mas também isso foi inútil, como tudo mais. (MEIRELES, 2001, p.584).

Neste primeiro dístico, do primeiro poema, há indícios da avó ainda estar viva e o eu lírico deixou cair sua primeira lágrima dentro daqueles olhos vivos, mas que em breve mor- reriam. Há um medo do eu lírico de enxugar aquela lágrima, pois ela é uma forma da avó se lembrar dela, após a morte. Ela estava levando consigo um pedaço do eu lírico, a primeira lágrima. Naquela ocasião, era o demais precioso para aquela pessoa, prestes a morrer, levar. Pode-se, também, recordar o segundo capítulo em que discutimos a simbologia do olho. Supõe-se que “Olhinhos de Gato” foi um apelido dado por Boquinha de Doce. E aqui o eu lírico deixou uma lágrima cair dentro daqueles olhos prestes a morrerem no desejo de sua primeira lágrima de dor ir junto com o cadáver. Ou seja, uma lágrima caída dos “Olhi- nhos de Gato” diretamente para os olhos da avó Boquinha de Doce. Imagem de aconchego mais profunda de uma neta para com sua avó, sua Grande Mãe, que embora morrendo a levava consigo dentro dos seus olhos. Não importa se estava morrendo, mas o importante

era ir também, mesmo em forma de lágrima acolhida naqueles olhos maternos, que em vida tanto olharam por ela.

No segundo dístico, o verso se inicia com a expressão: No dia seguinte... Após dei- xar cair àquela lágrima, no dia seguinte o cadáver estava em sua imobilidade, assumiu a forma definitiva de quem morreu. E ele foi modelado “pela noite, pelas estrelas, pelas mi- nhas mãos”. Aqui, evoca-se o tempo do velório, da noite com sua escuridão, apesar das es- trelas brilharem. Este cadáver não é um cadáver qualquer. Ele tem conotação de sagrado. Em Olhinhos de Gato o eu lírico beijou o rosto frio de sua mãe: rosto sagrado. Aqui é o ros- to da avó que em sua constituição traz a mesma conotação de sacralidade. Pelo fato de ser uma criança, ela não pode dar atenção devida ao cuidado com o cadáver materno, mas, para o corpo da avó, ela já é uma poeta crescida e pode modelá-lo com suas mãos. Este corpo modelado pela noite, pelas estrelas, foi também modelado pelas mãos de quem escreveu poesias, pelas mãos que modelaram, também, os versos com suas rimas, imagens e símbo- los. Mãos que se ocuparam do labor poético. Aquele cadáver tinha o de mais triste para a alma do eu lírico, mas ao mesmo tempo foi daquele corpo imóvel e triste que a arte poética ceciliana atingiu um dos ápices de sua criação. Há em Cecília Meireles esta força poética criadora de poesia das situações mais cômicas da vida. É doloroso falar de uma pessoa mor- ta. Mas a poesia também nasce da dor. Para quem nasceu cantando a dor, morrerá cantando- a. Com Cecília é assim: a rima nasce da dor.

No quinto verso o eu lírico se utiliza da imagem poética “orvalho e lua” para falar da frieza do corpo. Aquele corpo frio como o orvalho tinha também a brancura da lua. “Exala- va-se de ti o mesmo frio do orvalho; a mesma claridade da lua”. Já vimos que para Jung a lua é também um arquétipo da Grande Mãe.

Na quarta estrofe, as imagens são telúricas. O dia nasce sem utilidade para aquela morta. Os pássaros cantam e as águas correm sem se aqueles ouvidos ouçam. Ou seja, a atividade terrena continua seu percurso, mesmo morrendo aquela pessoa muito querida para o eu lírico. Procurar pela avó viva é inútil. Ela não estava mais neste plano terrestre. Nas imagens da terra, não há mais o seu corpo.

O segundo poema tem seis estrofes e há uma evocação da natureza nele todo. As imagens do cíclo da natureza continuavam seu percurso, mas para o eu lírico tudo isso era sem utilidade para uma morta. Não precisava mais de nada disso.

2

Neste mês as cigarras cantam

E os trovões caminham por cima da terra, Agarrados ao sol.

Neste mês, ao cair da tarde, a chuva corre pelas montanhas E depois a noite é mais clara,

E o canto dos grilos faz palpitar o cheiro molhado do chão. Mas tudo é inútil,

Porque os teus ouvidos estão secos como conchas vazias, E tua narina imóvel

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Benzer Belgeler