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Essa mulher, era também, sem dúvida, uma pessoa maravilhosa, por tudo que foi capaz de transmitir a Cecília. Todo aquele mar que Ce- cília fala de Copacabana que ela conheceu, mas sim, todo aquele mar das ilhas que a avó lhe falava e, por isso, Cecília diz: “tudo é mar e mais nada”. A avó transmitiu-lhe este mar solitário onde está o início, a origem, o começo da vida toda de Cecília. É esse mar dos Açores, a herança que lhe vem do passado; como um potencial ma- ravilhoso de beleza, e magia, de amor, de solidão – de tudo42! Na introdução, comentamos que a lírica portuguesa teve forte influência na poesia ceciliana. Neste sentido vale destacar, não apenas a lírica portuguesa que teve forte influên- cia na poesia ceciliana, mas acrescentar também a influência açoriana. Ao ouvir as histórias contadas pela avó açoriana sobre a sua terra Natal, despertou-se o desejo poético de conhe-

42 Maria Fernanda, filha de Cecília Meireles, em entrevista cedida a Carolina Matos ao Jornal de Fall River de 29 de março de 1978, ao falar sobre a importância da avó da poetisa. (MEIRELES, V. 1998, p.46).

cer todo aquele território de mares, flores, frutas tão vivamente contado e cantado pela sua avó. Como sua avó não a levou para conhecê-lo43, tudo isso se transformou em poesia can- tada em verso e prosa pela poeta.

Nédias vacas, encaracoladas ovelhas, arroios sussurrantes, os carros pesa- dos de frutos relutantes... Os barcos de pesca... as procissões pisando ruas de flores...Tudo isso é a Ilha do Nanja: mas a Ilha do Nanja não é nada dis- so. É difícil explicá-la, pois certamente ela o é o que não é; sua beleza não está no que se vê, nem sua riqueza depende do que suas terras ou águas possam produzir (MEIRELES, 1976, p.110).

A Ilha do Nanja ceciliana é algo difícil de explicar. Ela é um pouco daquilo que sua avó lhe contou dos Açores (os barcos de pesca, as procissões), mas ao mesmo tempo ela não é o que se vê. Está muito além de um lugar físico num mapa. É pura poesia. Diz diretamente do encontro da poeta com seu mundo interior. Seu lirismo místico. Seu mundo transfigurado em sonho numa Ilha que somente ela tem o privilégio de tê-la. Estes dados revelam caracte- rísticas da açorianidade na poesia de Cecília Meireles. Esta Ilha do Nanja é uma Ilha açoria- na.

Rui Galvão de Carvalho, em seu artigo “A açorianidade na poesia de Cecília Meire- les44” (1957), comenta que o primeiro escritor açoriano a empregar o termo açorianidade foi Vitorino Nemésio para referir-se aos habitantes do Arquipélago atlântico. Para Carvalho (1957), de fato a característica de todos os que nascem “nestes verdes e floridos penedos é o seu açorianismo, ou seja, - no comentário do autor dos Exilados – aquele ‘apego à ter- ra...amor elementar que não conhece razões, mas impulso; - e logo o sentimento de uma herança étnica que se relaciona intimamente com a grandeza do mar” (CARVALHO, 1947, p.8). Ainda citando Nemésio (1949), na literatura açoriana há “uma espécie de embriaguez do isolamento impregna a alma e os atos de todos os ilhéus, estrutura-lhe o espírito e procu- ra uma fórmula quase religiosa de convívio de quem não teve a fortuna de nascer, como o logos, na água. (NEMÉSIO, 1949, p.46). Para Carvalho,

43 Agradeço-lhe o que me promete sobre os Açores, que hoje são para mim como os álbuns que eu via na infân- cia com aqueles vestidos, aqueles rostos, aqueles aléns... Acho que minha avó passou grandes dores com sua família. Mas era muito reservada, e o temor de magoá-la sempre me impediu fazer-lhe perguntas sobre mui- tas coisas. Quando uma vez lhe sugeri viajarmos por aí, entristeceu-se muito. E não se falou mais nisso. Tal- vez fossem uns naufrágios que aconteceram. Há muito mar por detrás de nós. (SACHET, p.8, carta do dia 21 de abril de 1946).

44 Segundo o autor, “este ligeiro trabalho literário, foi em primeira redacção, lido ao microfone do Emissor Regi- onal dos Açores, da Emissora Nacional, (12 de fevº de 1947)”.

o mar como que gira no sangue de todo ilhéu, na sua sensibilidade e tempe- ramento - búzio ecoando nos seus ouvidos de cantor e de poeta; e assim, como herança fatal, tem vindo sendo transmitido de pais a filhos, de geração a geração, a semelhança de uma cadeia ininterrupta... (CARVALHO, 1947, p.8)

O mar é a maior herança que um ilhéu pode deixar como herança para os seus herdei- ros. A ilha do Nanja é uma herança poética deixada pela avó açoriana à Cecília Meireles.

Apenas uma vez visitei a minha Ilha – herança obscura, propriedade remo- ta, inalienável, usufruto de outros, que a julgam sua, que não sabem da mi- nha pessoa por um direito mais decisivo e profundo que os das fórmulas ju- rídicas. E apraz-me ouvir falar seus moradores e visitantes na sua inocente ignorância, louvando lugar e clima e horizontes, certo de tudo conhecerem, do que os cerca, mas sem nenhuma noção exata da minha Ilha – da Ilha do Nanja (MEIRELES, 1976, p.110).

Esta herança poética, apenas Cecília Meireles tem conhecimento. Outras pessoas mo- radoras de lá não tem noção da Ilha ser herança recebida de sua avó açoriana. Ou seja, os anos vividos com a avó açoriana, as histórias contadas e recontadas, as cantigas açorianas carrega- das de sentimento e saudades, Cecília Meireles recebeu em cada minuto de sua vida. Este le- gado açoriano a avó passou-lhe a escritura nos anos vividos no silêncio e na solidão, amando aquela neta com toda intensidade de sua alma. Com certeza não tinha muitos bens materiais para lhe dar como herança, então lhe deu tudo que possuía em bens espirituais. Se a Ilha era da avó, agora ficava como herança para a neta. Uma vez que é patrimônio ceciliano, ela podia transformá-la no que quisesse.

Segundo Carvalho (1957), “sem dúvida que é isto o açoriano: alma feita concha mari- nha, receptiva por conseguinte” (CARVALHO, 1947, p.8). Sendo assim, por onde for leva consigo estes elementos do mar que teimam em lhe seguir em cada passo dado. “Lá dentro ouve-se o marulhar incessante do oceano, a volta espelhando-se a paisagem da ilha, o céu aos farrapos, tonalidades estranhas que mais parecem sonho e fantasia do que propriamente reali- dade e efeitos da luz solar.” (CARVALHO, 1947, p.8-9).

E ao estudar seriamente os poemas de Cecília Meireles, o autor se deparou com estas características tão impregnadas de açorianidade que para ele não restou dúvida de que a avó açoriana deixou este legado para a neta, ou seja, a poetisa tem traços de açorianidade em sua poesia. “Mas há uma circunstância predominantemente que se surpreende logo a primeira vista nos poemas de Cecília Meireles: é a influência do mar – elemento que, como é sabido, aparece sempre na poesia de todo açoriano que verseja” (CARVALHO, 1947, p.9). Além dis- so, o autor ainda complementa: “(...) raríssimo é o poeta açoriano que não cita o mar; o mes-

mo quando não o menciona, está ele presente no ritmo de seus versos, na linguagem secreta dos seus poemas. Daí a poesia açoriana sobressair, neste sentido, do resto da poesia portugue- sa” (CARVALHO, 1947, p.9). E acrescenta-se: se é esta característica que difere o açoriano das demais poesias portuguesas, Cecília Meireles difere dos poetas açorianos ao criar sua pró- pria Ilha do Nanja, lugar até para passar as férias. Em “Férias na Ilha do Nanja” aparece bem esta experiência de quem tem uma Ilha e vai para lá quando todos estão sofrendo as conse- quências de uma vida urbana e suas complicações.

Meus amigos estão fazendo as malas, arrumando a mala nos seus carros, olhando para o céu para ver que tempo faz, pensando nas suas estradas – barreiras, pedras soltas, fissuras – sem falar em bandidos, milhões de ban- didos entre as fissuras, as pedras soltas e as barreiras... meus amigos par- tem para suas férias, cansados de tanto trabalho, de tanta chuva, de tanto sol; de tantas notícias ruins; de tantos colegas, chefes ou subalternos in- competentes; de tanta luta com os motoristas da contramão; de tanta espe- rança, de tantas decepções; enfim, cansados, cansados de serem obrigados a viver numa grande cidade, isto que já está sendo a negação da própria vi- da.

Pois meus amigos lá se vão de camisa nova, muito cuidadosos e escanhoa- dos, fazendo todos os sinais possíveis e adequados para não receberem ne- nhuma pancada que detenha o seu plano de viagem antes do primeiro cru- zamento.

Eu vou para a Ilha do Nanja.

Termas? Pois as termas são ao ar livre, com encanações vulcânicas a subi- rem do chão por mil furinhos invisíveis enquanto se houver a grossa voz do fogo subterrâneo contar histórias do princípio do mundo. O ar está cheio de nuvens sulfurosas; e as crianças brincam de fazer comidas nas pocinhas no chão, onde a água ferve (MEIRELES, 1980, p.26).

Esta herança recebida um dia, dá a poeta o privilégio de sair deste mundo agitado, tur- bulento do Rio de Janeiro e ir em busca do seu mundo interior onde não tem as agitações do mundo moderno.Lá tem as histórias contadas e cantadas por sua avó açoriana. As termas são ao ar livre. As crianças brincam de fazer pocinhas no chão, onde a água ferve. Está aí a avó Jacinta contando histórias da Ilha de São Miguel para sua neta Cecília. Esta Grande Mãe con- tadora de histórias fez também que a Ilha se transformasse em uma Grande Mãe. Quando o mundo estava agitado, as pessoas não se entendiam mais, e o cansaço de tudo isso pedia um aconchego. Este aconchego a poeta encontrava nos braços maternos de sua Ilha do Nanja. A Ilha do Nanja é também esta Grande Mãe. Neste mundo misturado entre imaginário da poeta e de histórias imaginadas e contadas pela sua avó, estava a criação da Ilha do Nanja, esta Grande Mãe. É um refúgio para quem nasceu e viveu num mundo carregado por doloridas perdas humanas e materiais. A conquista dos planetas não tem alguma coisa a ver com esta busca da ilha? “A ilha seria o refúgio onde a consciência e a verdade se uniriam para escapar

aos assédios do inconsciente: contra os embates das ondas o homem procura o socorro do rochedo”.(CHEVALIER & GHEERBRANT, p.502).

Neste universo de perdas e ganho poético é muito natural ter uma Ilha como refúgio. “A ilha é simbolicamente um lugar de eleição, de silêncio e de paz, em meio a ignorância e à agitação do mundo profano. Representa o Centro primordial sagrado por definição, e sua cor fundamental é o branco”. (CHEVALIER & GHEERBRANT, p.501- 502). É neste lugar de paz e silêncio que a poeta se refugiava quando seu mundo externo está turbulento e ela preci- sando de paz. É o seu centro primordial sagrado. É neste aconchego que ela encontrava o sos- sego para sua alma. Ou melhor, é acolhida e nutrida por esta Grande Mãe, da qual nascem suas poesias. A Ilha do Nanja é este espaço de criação poética.

Segundo José Osório de Oliveira “O segredo de sua poesia, tão carregada de símbo- los, tão saturada de bruma, tão repassada de melancolia, tão impregnada de mistério e de amargura, mas velada angústia” (apud CARVALHO, 1947, p.9). Esta é uma característica que denuncia esta açorianidade ceciliana.

Como exemplo da presença desta açorianidade na poesia ceciliana, Carvalho (1947) destaca as três obras Viagem (1939), Vaga Música (1942) e Mar Absoluto e outros Poemas (1945). O autor questiona se é coincidência estas três obras tratarem diretamente da simbolo- gia do mar. Pode ser uma coincidência “Ou então quem sabe se em obediência ao inconscien- te hereditário?!...” (p.10). Se por um lado a poetisa recebeu de sua avó açoriana esta herança marítima, por outro esta herança não deixa margem para que ela soubesse usufruí-la, multipli- cando-a cada dia em milhares de poemas sobrecarregados de espumas do mar. É muito co- mum os críticos se referirem a esta herança poética, traduzida em imagens criativas no labor poético. O que temos em Cecília é puro mar açoriano.

É que tantas são as citações do mar e tantas as comparações que a poeta bra- sileira faz com o mar, que somos levados a considerar isso como um sinal bem evidente da sua ascendência açoriana; além de que estamos plenamente convencido não haver na Poesia brasileira Poeta algum que se refira ao mar como a Autora destes três livros de poemas. (CARVALHO,1947, p.10).

Se há fortes evidências nestes três livros, podemos dizer que foram neles que a auto- ra mais se impregnou de espumas do mar. Por outro lado, devido a essa herança poética marítima, as espumas do mar deixaram seu cheiro em toda poética ceciliana. Um olhar mais atento perceberá esta herança poética em cada palavra escrita. Fazer versos é falar dessa herança.

Beira-mar

Água densa do sonho, que navega? Contra as auroras, contra as baías: Barca imóvel, estrela cega.

Bate o vento na vela, e não arqueia. -Não foi por mim!

Partiram-se as cordas, rodaram os mastros, Os remos entraram por dentro da areia... Os remos torceram-se, e trançaram-se raízes. Inútil forçá-los – alastraram-se, fogem Na sombra secreta de eternos países... Mudou-se a vela em nuvem clara!

Choraram meus olhos, minhas mãos correram... - Alto e longe!- Não foi por mim...

E apenas para

Um corpo na barca vazia, A mercê das metamorfoses,

Olhos vertendo melancolia!... (MEIRELES, 2001b, p.488).

Segundo Carvalho (1947): “temos mesmo a impressão de que os poemas de Cecília Meireles estão impregnados do ar salgado da maresia, de que cheiram a musgo marinho. Do princípio ao fim há mar nestes poemas, e por sinal mar que lembra os dos Açores.” (CAR- VALHO, 1947, p.10). Observou-se que a medida que o autor avançou em sua análise na poé- tica ceciliana, convenceu-se desta açorianidade na poeta. E não é uma açorianidade superfici- al, mas uma profunda herança que não tem como negar ao analisar esta neta de açoriana.

A crítica portuguesa mostrou a poesia de Cecília Meireles impregnada de mar. Tudo isso foi a herança de sua avó açoriana. Aonde um açoriano vai, ele leva a ilha consigo. E ao levar a ilha, ela é contada e cantada a ponto de se transformar em um dos maiores símbolos da poesia ceciliana. O próximo tópico apresentou o arquétipo da Grande Mãe no aspecto da avó, dela a poeta guardou as melhores recordações.

Benzer Belgeler