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H. Kenar Temizleme Özellikleri

V. DEĞERLENDİRME

A constituição de sujeito na sociedade moderna vai além de uma amálgama de experiências, da relação com o outro e de sua formação identitária fixa. Discutiremos o cuidado de si repercutindo em governo de si como prática de liberdade. Para tais discussões, recorreremos ao curso dado no Collège de France nos anos de 1981 e 1982, intitulado" A Hermenêutica do Sujeito". Nesse curso, Foucault traz à tona a questão do sujeito e da verdade no ocidente, à luz de filósofos clássicos greco-romanos. Perpassar conhecimentos por entre o cuidado de si na constituição da subjetividade dos sujeitos tatuados, levando-os à prática da liberdade é nosso objetivo.

Foucault (2006, p. 267) elabora uma questão a ser pensada acerca da ética como expressão da liberdade: “Como se pode praticar a liberdade?”. E então conclui que essa é condição primeira para a ética, bem como o agir eticamente é uma premissa da liberdade. Voltemos à questão de como os sujeitos tatuados traduzem essa prática como liberdade, como

se apresentam, construindo uma ética e uma liberdade, aproximando-se de um ethos, de subjetividade.

Cuidado de si através de suas impressões na pele, impressões essas como continuidade de eventos ou sensações, demarcam corpos em construção, mas, ao mesmo tempo, diferenciação do outro. Le Breton (2002) afirma que as marcas corporais são pontos de intersecção entre as experiências vividas, a cultura, a relação de exterioridade consigo e com o outro. Le Breton traz um fragmento do Le livre de l’intranquillité, do poeta português Fernando Pessoa, afirmando que o sujeito está tão exteriorizado de si que não consegue mais viver sem tal exteriorização. Assim são as inscrições na pele. São postas na superfície de si – pele – suas sentimentalidades, que os põem expostos ao outro, às suas interpretações, suas intervenções com questionamentos acerca do sentido e da história para tantos observadores que conjuntamente dão sentido às marcas inscritas. A relação com a exterioridade de si através de tatuagens como práticas de subjetividade e de liberdade. Souza Filho (2011, p. 16) retoma Foucault acerca das experiências subjetivadoras no sujeito em trânsito.

A liberdade é da ordem dos ensaios, das experiências, dos inventos, tentados pelos próprios sujeitos que, tomando a si mesmos como prova, inventarão seus próprios destinos. Assim, experiências práticas de liberdade, sempre sujeitas a revezes, nunca como algo definitivo, como numa vitória final.

Podemos observar que a marca de suas experiências objetiva exteriorizar-se para que continuem vivas no social. O outro participa das vivências exteriorizadas e ajudam-na a compô-la também. Os sujeitos apresentam-se em construção de si, do outro e da história que os cerca. Assim, temos a formação histórica e social de si, a constituição de sua subjetividade, de seu eu a partir de experiências e de infindáveis fragmentos de si, acrescentamos o que PálPelbart (2013, p. 45) afirma: “Precisamente uma concepção de experiência concebida como metamorfose, transformação, na relação com as coisas, com os outros, consigo mesmo, com a verdade.”

A socialização de suas experiências, seja para tornar-se um membro igual aos demais, seja para torná-lo singular devido suas estampas na pele, apresentam-se como uma possibilidade baseada na liberdade. Os pesquisados apresentaram-se preocupados consigo, com seu corpo, com suas histórias de vida e de experiências, a ponto de expô-las artisticamente em seu corpo. Exteriorizando suas experimentações, seus desejos e suas passagens por momentos importantes como uma linguagem, o outro se torna seu leitor. Os signos elencados para tais escritas comungam sua intencionalidade semântica, bem como com

sua compreensão. Mas não podemos esquecer que o cuidado consigo é uma premissa ontológica ao cuidado com o outro. Foucault (2006) aponta para o cuidado de si estando eticamente em primeiro lugar. Prossegue afirmando que o cuidado de si é uma conversão de poder, de controle de si, evitando, assim, a imposição de poder sobre o corpo do outro, a escravidão. Essa conversão de si põe no cenário subjetivo a relação do sujeito com os jogos de verdade para a manutenção de si, de suas crenças, de sua história. Essa conversão se configura como um possível espaço para a inscrição de práticas de liberdade.

Foucault (2006) afirma que para se ter liberdade, é preciso lidar com as relações de poder. Se há relações de poder no espaço social, é porque há liberdade também.

Isso significa que, nas relações de poder, há necessariamente possibilidade de resistência, pois se não houvesse possibilidade de resistência violenta, de fuga, de subterfúgios, de estratégias que inventam a situação, não haveria, de forma alguma, relações de poder.

As tatuagens são concebidas como ponto de fuga, uma vez que, em nossa sociedade judaico-cristã, é uma forma de macular o corpo, de usá-lo negativamente, de adjetivar os sujeitos como descompromissados, alternativos, entre outros créditos negativos. Os sujeitos em questão apresentam-se enredados nesse jogo de verdade entre o livre arbítrio na construção de seu corpo e sua subjetividade, e de olhares preconceituosos da sociedade. Além de se tornarem, também, mais próximos da visão biopolíticado outro. (FOUCAULT, 2008). Construção social de corpos, de saúde, perigo, higiene, entre tantas facetas que as instituições impõem para controlar os corpos na sociedade moderna.

Os corpos tatuados também servem para essa manutenção do olhar daquele que pode ser contraventor, transgressor do social. Assim, suas marcas corporais servem para enquadrá- los nos cânones institucionalizados da justiça, da religião, do cidadão ético e moral. Para além de ser uma subjetivação de seus desejos e vivências, as tatuagens também os enquadram aos olhos institucionais.

O cuidado consigo mesmo aponta, como afirma Foucault (2006), para práticas de experiências e vivências com a liberdade, e assim, a concepção do sujeito ético. Trazemos para a concepção de subjetividades tatuadas, produzindo, desta feita, outros sujeitos, outras subjetividades, outros ethos que reconstituem sujeitos pelas artes do cuidado consigo. Foucault aponta para esta liberdade:

[...] para praticar adequadamente a liberdade, era necessário se ocupar de si mesmo, cuidar de si, ao mesmo tempo para se - eis o aspecto familiar do gnôthi seauton – e

para se formar, superar-se a si mesmo, para dominar em si os apetites que poderiam arrebata-lo. (2006, p. 268)

Recortamos “nunca como definitivos” e vislumbramos as peles de nossos sujeitos de estudo. Ela está sempre à mercê de novas escritas que as complementam, e tantas outras vezes, que as substituem com novas formas, cores e sentidos, formando, assim, a ideia de palimpsesto. O que se apresenta como definitivo é a vontade de registrar momentos importantes em sua derme, em textualizar seu corpo e transformá-lo em corpo a ser explorado, lido, vivenciado e interpretado em cores, formas e sentimentos.

Acreditamos ter chegado ao conceito de liberdade foucaultiana. Vivenciar tais práticas de liberdade é torná-la comum para consigo e com o outro, além de ser alcançada a partir do pressuposto socrático-platônico Epimeléia Heautoû para se alcançar o Gnôti

seautón, produzindo o governo de si. Liberdade de produzir iconografias, trazer um corpo

saltitando sentimentalidades, por meio de coragem, dor e sangue, traduzir vivências em palavras e imagens, uma pele em forma de rascunho a ser corrigida e colorida para deixá-la bela. Sousa Filho (2011, p. 23) conclui: “O objetivo estético da ética: fazer de si uma obra artística, estilizar e embelezar a vida”. É dessa forma que os pesquisados se sentem: obra de arte a ser vivenciada por si e pelos outros. Concluo com o conceito de Naves (2004, p. 146) acerca da liberdade: “E a liberdade, como a verdade, também nunca está pronta”.

3.2 Corpo-arte, corpo-sentido, corpo-linguagem: a constituição do eu transgressor a

Benzer Belgeler