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A fim de levantar aspectos relevantes atinentes à institucionalização de mecanismos consensuais pelo Judiciário, foram estudados ao todo 18 programas, sendo nove no Brasil, em cinco diferentes estados251, e nove nos EUA252, em sete diferentes estados253.

Antes de se escolherem os programas, foi realizado um estudo exploratório na Semana de Conciliação de 2011, cujo foco era, justamente, a conciliação em demandas repetitivas254. Nessa oportunidade, foram acompanhadas mais de 20 audiências no setor processual (dentro do Fórum João Mendes), pré-processual (no recém-inaugurado Centro Judiciário de Resolução de Conflitos e Cidadania [CEJUSC]-SP) e na tenda montada no Memorial da América Latina, onde estavam sendo realizadas audiências da Justiça Estadual, da Justiça Federal e da Justiça do Trabalho. Em sua maioria, as audiências versavam sobre renegociação de dívidas bancárias, dívidas com a Companhia de Desenvolvimento Habitacional Urbano do Estado de São Paulo (CDHU) e com a Eletropaulo e renegociação de contratos do Sistema Financeiro de Habitação (SFH).

Assim, com base nesse mapeamento exploratório, definiu-se um recorte e uma primeira minuta do roteiro de entrevistas, baseada no estudo da literatura acerca de demandas repetitivas, promoção de meios consensuais no Judiciário, desenho de solução de disputas e tribunais multiportas, dentre outros temas trabalhados nos capítulos 1 e 2.

251 Distrito Federal e Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.

252 É necessário ressaltar que o objetivo central do trabalho não é a realização de uma pesquisa comparada entre Brasil e Estados Unidos, mas sim a análise dessas duas realidades para identificação de práticas, estruturas e procedimentos voltados para o tratamento consensual de demandas de massa. Nada obstante, é certo que quaisquer análises avaliativas e prescritivas levarão em consideração as diferenças culturais e econômico- sociais entre os sistemas normativos, os costumes judiciários, a formação profissional e cultura jurídica dos atores envolvidos, fatores esses que certamente refletem na estrutura, no desenho e no funcionamento de mecanismos de resolução de conflitos.

253 Connecticut, Distrito de Columbia, Illinois, Indiana, Nova Jersey, Nova York e Pensilvânia. 254 Ver capítulo 2, item 2.5.

A escolha dos programas a serem visitados levou em consideração, primordialmente, a diversidade de estrutura e de âmbito de atuação (Justiça Federal, Justiça Estadual e juizados especiais cíveis):

Quadro 2 – Programas estudados no Brasil: jurisdição, estrutura e entrevistados

Nome do programa Jurisdição Estrutura Entrevistados

Posto Avançado de Conciliação Extraprocessual (PACE) – São Paulo

Justiça Estadual (parceria com Associação Comercial de São

Paulo)

Pré-processual Coordenador administrativo e

conciliadores Centro Judicial de Solução de Conflitos

(CEJUSC-SP) – São Paulo

Justiça Estadual Processual e pré- processual

Coordenador administrativo e

conciliadores Central de Conciliação da Justiça Federal

(CECON) – São Paulo

Justiça Federal Processual e pré- processual

Juiz coordenador e coordenador administrativo Centro Permanente de Conciliação dos

Juizados Especiais Cíveis – Rio de Janeiro

Juizados Especiais Cíveis Processual e pré- processual

Juiz coordenador e servidor Centro Judiciário de Solução de Conflitos e

Cidadania (CEJUSC-MG) – Minas Gerais.

Justiça Estadual Processual e pré- processual

Juízes coordenadores e mediadores Centro Judicial de Solução de Conflitos de

Brasília (CEJUSC-Brasília) – Distrito Federal

Distrito Federal Processual Coordenador

administrativo e mediador/conciliador Centro Judicial de Solução de Conflitos dos

Juizados Especiais Cíveis de Brasília (CEJUSC-JEC Brasília) – Distrito Federal

Distrito Federal - Juizados Especiais Cíveis

Pré-processual Juiz coordenador

Núcleo Permanente de Métodos Consensuais de Solução de Conflitos – Mato Grosso do Sul

Justiça Estadual Processual Coordenador

administrativo e mediador Conciliação nos Juizados Especiais Cíveis do

Mato Grosso do Sul

Juizados Especiais Cíveis Processual Coordenador administrativo Fonte: elaboração própria

Definido esse recorte, a coleta de dados envolveu as seguintes ações: (i) análise de documentação legislativa para conhecer os termos em que o mecanismo foi instituído (contexto normativo); (ii) elaboração do guia para realização do estudo de campo, com principais pontos a serem observados e questionamentos aos entrevistados; (iii) realização das entrevistas semiestruturadas e em profundidade com atores envolvidos na concepção, na implantação e na coordenação do programa; e (iv) observação in loco do funcionamento do projeto e dos processos cotidianos (atendimento das partes, sessões de conciliação e de mediação, trâmites burocráticos, comportamento dos atores, etc.).

Desde o início, o intuito era a realização de um estudo qualitativo sobre o desenho desses programas, de modo a identificar não só escolhas e práticas especificamente voltadas para a identificação e o tratamento de disputas repetitivas, mas também como a estrutura, os objetivos, os critérios de triagem, os papéis exercidos pelos atores envolvidos, as condições de acesso e os critérios de avaliação adotados poderiam influenciar o tratamento conferido a essas disputas.

Com esse objetivo, as entrevistas foram transcritas para operacionalizar a análise das falas dos atores, o que foi feito por meio do preenchimento de um roteiro analítico (frame de análise), através do qual as informações foram organizadas de acordo com os principais pontos de interesse da pesquisa:

Quadro 3 – Eixos de análise dos dados coletados na pesquisa empírica

FRAME DE ANÁLISE Implementação e trajetória

Quando o programa foi criado? Quais eram seus principais objetivos?

Quem eram os atores envolvidos no processo?

Quais foram as principais mudanças que o programa implementou desde sua criação e por quê?

Objetivos, estrutura e recursos

Quais são os objetivos do programa?

Quais são os mecanismos de solução de disputas utilizados? De onde vêm os seus recursos?

Atores Partes Mediadores/Conciliadores Advogados Prepostos Adequação

Disputas que são direcionadas ao programa Critérios de triagem / encaminhamento

Condições de acesso

Com quais custas as partes têm de arcar (taxas, honorários do neutro, etc.)? O programa oferece assessoria e/ou orientações jurídicas?

Tratamento de demandas repetitivas

Há disputas envolvendo questões de fato ou de direito semelhantes cujo volume seja especialmente representativo?

Há práticas específicas que sejam adotadas nesses casos? Há a presença de litigantes repetitivos? Quem são eles?

O programa recebe muitos processos repetitivos? O que são considerados processos repetitivos? Como o programa lida com a relação entre o litigante repetitivo e o litigante ocasional?

Avaliação do programa

Quais são os critérios de avaliação do programa? Número de acordos realizados?

Satisfação das partes? Há metas? Quais?

Fonte: Elaboração própria

Ao longo da coleta e análise dos dados, confirmou-se a importância da percepção dos atores envolvidos para compreensão das repercussões da litigiosidade repetitiva sobre os programas de conciliação e de mediação e dos impactos e das possibilidades do uso desses meios para tratamento de disputas repetitivas. São os atores envolvidos com os programas

judiciais que criam os procedimentos de gerenciamento e que vivenciam o dia a dia dos centros e dos núcleos de mediação e conciliação anexos ao Judiciário. Também são eles que possuem informações (e percepções) sobre como as características dessas disputas e a atuação dos litigantes repetitivos repercutem no âmbito das vias conciliatórias.

Os resultados são descritos e analisados com base nos eixos propostos, destacando-se as informações e as percepções relatadas pelos entrevistados julgadas mais relevantes para investigação das perguntas propostas.

Benzer Belgeler