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O pentecostalismo distancia-se da origem protestante, divergindo da teologia liberal norte-americana e sua comunhão com a modernidade. Refuta o padrão institucional e sua racionalidade doutrinal e cúltica. Reage à secularização, prometendo a volta e conservação das origens cristãs, mediante a leitura literal e fundamentalista169

da Bíblia, como fonte de comportamento ético-social que conduzirá à santidade salvífica.

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“O fundamentalismo é um meio para a reconquista simbólica do espaço vital em situações de crise, porquanto ao permitir a reconstrução simbólica do mundo, responde a uma perda de orientação por parte das pessoas. Vale sublinhar que, no contexto fundamentalista, as pessoas lêem a escritura sagrada ignorando a bagagem cultural na pré-compreensão e suprimindo a distância entre elas e o texto. Por conseguinte, interpreta-se o texto e supõe-se „resultados‟ imediatos. Assim sendo, o fundamentalismo consegue converter a dimensão particular das pessoas, principalmente os desejos, em universais

absolutos.” (BITTENCOURT J, Fº, Do Messianismo Possível: Pentecostalismos e Modernização. In: Sociologia da Religião no Brasil, p.97.

Faz um resgate de um deus autoridade que incute o dever de submissão obediente das criaturas, através da rigidez moral, sectarismo grupal(puros), e, em detrimento do racional, enfatiza-se a liberdade às experiências de fé emotivas e espontâneas.

O paradigma pentecostal configurou, em pouco mais de um século, um modo de ser cristão que soma posturas anti-modernas e modernas em um mesmo sistema religioso, na medida em que retoma posturas mágicas e fundamentalistas, porém respondendo à lógica do sujeito moderno como centro da experiência religiosa e consumidor de bens simbólicos.170

O pentecostalismo segue a compreensão de que o fenômeno de pentecostes não está preso à historicidade do evento bíblico, mas dinâmico como permanente oferta de sentido e salvação, aberto ao trânsito entre os variados contextos culturais e espaços sociais. Numa leitura mítica, resgatando enfoques arcaicos e processando-os numa ritualização permanente, alegoriza e dramatiza as situações de crise. Seus líderes religiosos, hábeis nas técnicas de manejo da oralidade do senso comum, incutem uma experiência espiritual imediata e sensível, centrada no emocional extasiante, o que não deixa de servir ao indivíduo em crise como uma invertida terapia, geradora de reflexos psíquicos pelo enfoque miraculoso. Desprezando o tempo histórico, prioriza-se o tempo das origens míticas, a autoridade, o poder do texto sagrado, ofertando ao indivíduo a oportunidade de crença direta, subjetiva, a autonomia na produção simbólica em sua crença sem interferência do erudito e institucional.

O evangelismo pentecostal constrói e distribui sua oferta de sentido, permeada pela visão mítica das origens cristãs e estabelece na clientela um prisma de permanente tempo de salvação (justificação-santificação) que se sobrepõe e relativiza as instabilidades do caminhar mundano. Na atribuição de superioridade do sagrado, nega- se a dimensão de enfoque racional sobre a existência das coisas e organizações terrenas, o que leva o pentecostalismo a nutrir permanente comunhão com a mentalidade arcaica, centrada na tradição, oralidade e fragmentos do senso comum da cultura popular. O tempo e espaço histórico são relativizados e submetidos ao enfoque mítico e ritual, a memória das origens constrói força interpretativa à leitura do momento profano, justificando situações precárias e contraditórias da existência.

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A partir da erudição judaica, o cristianismo estabeleceu o tempo sagrado, dentro do tempo histórico(profano). Com o movimento messiânico de Jesus, a fé cristã iniciou racionalizada e a igreja primeva estabeleceu doutrina e ritualidades com perfil desmistificador, em um processo que recebeu muita contribuição da filosofia grega. Porém, as vicissitudes humanas e históricas na expansão do cristianismo, os contatos e confrontos com diferentes contextos culturais, fazem balançar a gangorra, entre a visão dualista do sagrado e o profano. Os sincretismos e o religioso conduzido como fonte de poder sobre o temporal, acabou gestando conflitos, divisões pela contradição solidificada na política da cristandade medieval.

A Reforma Protestante (séc.XVI) firmada na base de crença direta, mediante só a

fé, a graça e a escritura, oportunizou ao indivíduo aproximar-se do tempo das origens

salvíficas, mediante ter Cristo como centro da salvação, em detrimento da vida profana, tida como decadente. Neste prisma de resgate do sagrado, como sentido norteador do indivíduo perante o profano, a Reforma Metodista (séc.XVIII) incute a visão de que a salvação acontecerá não somente mediante o mistério redentor de Jesus, mas, acrescentada a necessidade de experiência individual sensível, via santificação no Espírito Santo. Portanto, a salvação deve ser externalizada no viver de quem crê, refletindo o permanente fenômeno de pentecostes: justificação em Cristo (Lutero) mais santificação no Espírito Santo(Wesley).

O movimento pentecostal, partindo da teologia da salvação/santificação de Jonh Wesley, configura e recria seu in illo tempore, ao que parece reforçando a idéia de uma hegemonia do tempo sagrado sobre o profano, à semelhança das religiões arcaicas.(...) Ser pentecostal é sair da prisão da precariedade do tempo profano do mundo, com todos os seus malefícios e entrar para o grupo dos que vivem o hoje a salvação de Deus.171

O Protestantismo buscou o resgate da racionalidade capaz de ligar o ser humano sem mediações, às origens cristãs, a recolocação do tempo sagrado dentro da relatividade histórica. Mas, mesmo no período dos reformadores, o tempo das origens já começou a receber maior ênfase e se sobrepor ao tempo profano. Assim, dentro das igrejas reformadas surgem movimentos místicos, disputas internas, centralização institucional, onde entre combates e resistências, marcaram época a justificação luterana, a doutrina da predestinação calvinista, a santificação metodista, além de outras

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seitas protestantes que foram combatidas e deixaram fragmentos doutrinais a serem resgatados em outros movimentos e épocas. Nesta longa ebulição religiosa cristã com seus movimentos místicos em disputas de sobreposição, entre os tempos sagrado e profanos é que no contexto histórico da modernidade, a gestação do pentecostalismo ocorre, radicalizando o domínio de um sagrado mítico, arcaico sobre o espaço e tempo mundano.

Na Europa, nos séc. XVII-XVIII, muitos líderes de seitas protestantes, perseguidos em geral por governos monárquicos e igrejas reformadas, buscaram refúgio nos EUA, a Colônia da Nova Inglaterra marcada por segregação racial, mas com liberdade religiosa. Estes grupos religiosos dissidentes são contestadores da oficialidade, institucionalização, poder político, erudição e elitismo que as igrejas protestantes envolveram-se, entrando em contradição com a utopia e definições doutrinárias e eclesiásticas de Lutero e outros líderes da Reforma Protestante(1517-séc.XVI). Este fenômeno religioso e social, mostra o contraponto, em que diversas igrejas vindas do movimento da reforma, sofredoras de perseguição das monarquias e Igreja Católica, tempos depois, estruturaram-se em diversos países anglo-saxônicos e tornaram-se, também, igrejas oficiais que unidas ao poder político e econômico irão gerar e combater suas dissidências. Os movimentos/seitas fazem acusação à falta de seguimentos aos princípios originais do cristianismo que a Reforma Protestante almejava e, logo na caminhada histórica, desviou-se em muitos países, regiões mais ricas. Assim, vemos que a religião como fenômeno inserido na organização social, apresenta e está em permanentes condicionamentos culturais e históricos, moldando-se ou contestando a dinâmica das coletividades.

Contra a estruturação religiosa, geradora de instituições eclesiásticas hierárquicas, secularizadas e de monopólio ritual e doutrinal, estes movimentos religiosos da Europa, perseguidos vão se refugiar na América do Norte, gestando o pentecostalismo. No meio de contingentes pobres e desesperançados pelos poderes corrompidos da sociedade, gestarão mecanismos religiosos de base, produtores de bens simbólicos, como compensação ao que lhes é negado pela religião institucional e estruturas sociais excludentes. Esta expressão da nova religiosidade atuará como utopia às carências de esperanças e necessidades materiais à sobrevivência. Estes movimentos de reavivamento metodista e santidade batista, gestaram o pentecostalismo nos EUA, aglutinando em congregações e despertando os indivíduos ao proselitismo,

divulgando a experiência de fé e sentido existencial que lhes era negado pela religião e sociedade instituída. Esta expressão religiosa marginal, apresenta simplicidade, imediatez e liberdade do indivíduo sentir-se em relação de pares na solidariedade e apoiado por uma força superior (divindade), animar-se como sujeito que encontra e gesta valores simbólicos. Os deserdados encontram uma mística de contestação que produz razões existenciais e não depende de mediadores que os submetem ao controle do sagrado, a mais uma, entre tantas formas de dominação em que já vivem na sociedade. Porém, logo também, os movimentos/seitas dissidentes e pentecostais se institucionalizam e geram seus mediadores, hierarquias, oficialidades, ortodoxias, o que em parte não deixa de refletir, da mesma forma, o contraponto ao que era criticado.

O pentecostalismo contrapõe-se à modernidade secularizadora, racional e de estruturas institucionalizadas, mas acabou também, correspondendo ao que afirmava rejeitar. Surge inserido na época do desenvolvimento das ciências, técnicas, industrialização, constantes mudanças e produção do novo. Também, ocorria a efervescência das filosofias iluministas, defensoras do indivíduo, liberdade, sujeito e democracia. Na contraposição, a santidade pentecostal que insiste em demonstrar a concretude da crença e promessa de salvação, mediante a visibilidade de experiências de justificação-santificação pelo batismo, dons, línguas, curas. E, acaba colocando também, o fenômeno religioso no plano da mediação, via presença física corpórea, externalização secular pelo uso midiático, simbolismos, grandes templos, política partidária. “... a salvação pode, agora, ser verificada pelo sentimento da santificação, experimentada como emoção santa e confirmada pela evidência de determinados comportamentos, que o fiel e o grupo assumem”.172

Da mesma forma, quanto aos valores individuais e popularização das experiências de salvação, a produção de sentido simbólico religioso, tudo adquire valor na verticalidade da relação com Deus. Pois, quanto à horizontalidade do grupo e instituição, o pentecostalismo aplica o arcaísmo da obediência ao líder carismático e sua tradição formada, portanto, também acontecendo controle, mediações humanas e hierarquia, o que antes rejeitava.

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Este prisma conservador, incute o zelo pela autoridade e a ordem estabelecida nas instituições no âmbito religioso e civil, tidas como sagradas e legítimas, devendo o indivíduo ser submisso a seus líderes. Isso reflete a visão hierárquica, priorizando o enfoque espiritual na compreensão do mundo, donde acredita-se que provém uma descendência de ordem, em graus diferentes de autoridades humanas, portadoras de reflexos divinos: Deus, o soberano e seus anjos... principados celestes e terrestres, chegando aos líderes, os homens de Deus. Do mesmo modo, reflete-se a sujeição do corpo ao espírito, devido ser considerado um entrave mundano(carnal) ao crescimento santificado do convertido. Vemos que o evangelismo pentecostal, contrapõe-se às compreensões protestantes e modernas, sobre a racionalidade da fé e doutrina, ao indivíduo autônomo e atuante no desenvolvimento da sociedade(poupança e progresso), à pregação cúltica erudita, ao estudo científico da sagrada escritura, à formação religiosa isenta dos misticismos.

(...) os pentecostais, diferentemente dos protestantes históricos, acreditam que Deus, por intermédio do Espírito Santo e em nome de Cristo, continua a agir hoje da mesma forma que no cristianismo primitivo, curando enfermos, expulsando demônios, distribuindo bênçãos e dons espirituais, realizando milagres, dialogando com seus servos, concedendo infinitas amostras concretas de Seu supremo poder e inigualável bondade.173 A visão de crença do espiritualismo pentecostal clássico, nutre a permanente esperança e incentiva os crentes à preparação de si, como indivíduos e do mundo para o derradeiro julgamento universal. Será eminente, desafiando o crente na permanente vida devocional santificante e militância missionária, via proselitismo, em busca de resgatar mais almas a Deus. Imprime a seus membros, o desafio de evangelismo sectário, em meio aos excluídos do progresso modernista, realizando uma inserção proselitista, entre os desassistidos pelos poderes públicos. Desta forma, o reino celeste estaria no além histórico numa estrita dimensão sobrenatural, visto que a terra e sua sociedade mundana são locais de tormentos e perdições. Também, local de provação a quem for resistente e predestinado à salvação, via santidade.

Neste sentido, o pentecostalismo, desde as origens, até as versões menos ortodoxas (neopentecostalismo), envolve grandes contingentes excluídos da sociedade em evolução, permeada pela modernidade capitalista. Envolve as massas mais carentes

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em condições econômicas e escolaridade, como nos mostram as estatísticas174 de comparação com as demais denominações religiosas, cristãs ou não. O movimento pentecostal aparece como oportunidade de inserção e sociabilidade solidária, entre os deserdados dos bens materiais e bens simbólicos da sociedade e igrejas históricas. O pentecostalismo trouxe ao indivíduo crente a possibilidade autônoma de produção de sentido, através da expressão de fé corporal, sensível, emotiva, envolvedora da realidade pessoal vivida, permeada de sofrimentos psíquicos e carências materiais. Oferece referenciais de vida, às massas em meio à caótica realidade, estabelecendo definições de comportamento em relação ao criador e entre criaturas, formando sólida coesão comunitária, mediante mensagem simples e direta, embasa na lei que Deus enviou a Bíblia.

O pentecostalismo desenvolveu-se no Brasil com enorme diversidade de perfis evangelísticos, inserido no contexto de migração-urbanização, um processo acelerado e com desorganização, gerador de instabilidade às massas populares em suas periferias geográficas e do progresso. “Os grupos pentecostais exercem a função de guardar uma religiosidade marcada pela produção autônoma de bens simbólicos, pela proximidade do sagrado e pela eficácia simbólica, incorporando, entretanto, as necessidades e valores da grande cidade.” 175

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Quando ao grau de educação formal, o Censo Demográfico 2000-IBGE, mostra que os Pentecostais têm 15,38% de não-alfabetizados. Um percentual semelhante à média nacional de 15,77%. Por outro lado, o Protestantismo Histórico tem apenas 8,68% “...Comparativamente, pode-se dizer que os pentecostais acolhem mais pessoas não-alfabetizadas, o que não deve causar estranheza por dois fatores: um é a oralidade desenvolvida especialmente pelas Igrejas pentecostais das últimas décadas. Mas, isso também, acontece no pentecostalismo mais antigo, por exemplo na Congregação Cristã no Brasil. O outro fator é constituído pelo desenvolvimento de práticas mágicas no culto pentecostal, que inibem o uso da Bíblia como texto, privilegiando seu sentido simbólico. É claro que a esses dois fatores internos ao próprio sistema religioso, devem adicionar-se outros fatores sociais e econômicos. Limitamo-nos apenas a sublinhar elementos característicos desses cultos que, muito provavelmente, facilitam a chegada de não-

alfabetizados.” BARRERA P, Matrizes Protestantes do Pentecostalismo. In: MOVIMENTOS DO ESPÍRITO, p.102-103.

Outros grupos, ver: Jornal Folha de São Paulo, p.4-C. Os espíritas são os mais escolarizados. Leonildo Silveira CAMPOS, Protestantismo Brasileiro e Mudança Social, Sociologia da Religião e Mudança Social, p. 106-136. JACOB, César R., HESS, Dora R. (orgs). Atlas da Filiação Religiosa e Indicadores Sociais, 2003 e Idem, Eleições presidenciais no Brasil: uma nova geografia eleitoral? Revista Alceu, p. 287-307; Censo 2000, Jornal Folha de São Paulo, Caderno Especial A.

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Benzer Belgeler