A partir da década de 1970, o Ensino Comunicativo de Línguas Estrangeiras (ECLE) vem passando por diversas mudanças em vários níveis, tanto em seu planejamento, quanto em suas metodologias. Vejamos uma breve apresentação das três correntes de ensino de línguas segundo Richards (2006, p. 8), detendo-nos especialmente na mais atual:
22 El conocimiento, la percepción y la comprensión de la relación entre el “mundo de origen” y el “mundo de la
comunidad objeto de estudio” (similitudes y diferencias distintivas) producen una consciencia intercultural, que incluye, naturalmente, la conciencia de la diversidad regional y social de ambos mundos, que se enriquece con la conciencia de una serie de culturas más amplia de la que conlleva la lengua materna y la segunda lengua, lo cual contribuye a ubicar ambas en su contexto. Además del conocimiento objetivo, la consciencia intercultural supone una toma de conciencia del modo en que aparece la comunidad desde la perspectiva de los demás, a menudo, en forma de estereotipos nacionales.
Primeira fase: abordagens tradicionais (até o final da década de 1960) – priorizavam a competência gramatical, e estavam embasadas nos conceitos iniciais da competência comunicativa;
Segunda fase: ensino comunicativo de línguas clássico (desde 1970 até 1990)
– a competência gramatical ainda era importante. No entanto passou-se a dar importância também a outros aspectos linguísticos como as necessidades comunicativas dos aprendizes (fazer solicitações, dar conselhos, sugestões, entre outras funções e noções);
Terceira fase: ensino comunicativo de línguas (final dos anos 1990 até os dias
atuais) está baseado em vários paradigmas e tradições diferentes, assim como também o é a sua base: constituída de diversas fontes. Vale salientar, no entanto, que o ensino comunicativo atual considera o contexto de ensino, o tipo de aprendiz, seu nível, suas expectativas, entre outros aspectos. Assim, podemos dividir as abordagens atuais de ECLE em duas correntes:
- (1) Abordagens de ECLE com base em Processos, gerando: - o ensino23 com base no conteúdo
- o ensino com base em tarefas
- (2) Abordagens do ECLE com Base no Produto, originando: - o ensino com base em textos
- o ensino com base na competência
Para termos uma ideia geral do que se propõe nessas abordagens, construímos dois quadros-resumo baseando-nos em Richards e Rodgers (2003) e Richards (2006), apontando os aspectos principais dos dois tipos de Abordagens com base em Processos, e dos dois tipos de Abordagens com base no Produto trazendo informações quanto a objetivos, programa, tipos de atividades, papel do aluno, do professor e dos materiais didáticos:
Base no Conteúdo Base em Tarefas
Objetivos A aprendizagem do idioma é
secundária ao aprendizado do conteúdo.
A seleção de tarefas deve estar baseada numa minuciosa análise das necessidades dos estudantes no mundo real. (LONG e CROOKES, 1993).
Programa Temático. Exemplo: drogas,
crenças religiosas, publicidade, etc.
Tarefas do mundo real (prática e ensaio das tarefas normalmente realizadas); Tarefas pedagógicas (não necessariamente se refletem naquelas do mundo real)
(NUNAN, 1989)
23O texto traduzido para o português aponta a palavra “instrução com base em textos”. Em nosso contexto,
Base no Conteúdo Base em Tarefas Tipos de atividades/ tarefas - melhoria das habilidades
linguística; formação de vocabulário; organização do discurso; habilidades de estudo; usos da gramática e materiais de conteúdo. (STOLLER, 1997)
1. compreensão oral; 2. Classificação e ordem; 3. Comparação; 4. Resolução de problemas; 5. Compartilhamento de experiências pessoais; 6. Tarefas criativas.24 (WILLIS, 1996)
Papel do aluno - adquirir autonomia, cooperação entre grupos. Para isso é necessário preparar os alunos (STRYKER e LEAVER, 1993)
- participar de grupos ou duplas; - dispor-se a “riscos”: uso de paráfrases e sinais paralinguísticos.
Papel do professor - selecionar e adaptar materiais autênticos, analisar as necessidades do aluno, para criar aulas verdadeiramente centradas nos alunos.
- selecionar, adaptar ou criar tarefas, organizando-as de maneira lógica de acordo com as necessidades, interesses dos alunos.
- apresentar ‘pré-tarefas’, para preparar os alunos para as tarefas;
- empregar técnicas para suscitar a atenção à forma (pré-tarefa), testes e usos de materiais com algumas partes em destaque.
Materiais didáticos - uso de materiais “autênticos” (artigos de jornais, revistas, etc), material audiovisual. Esses materiais podem sofrer modificações, para a garantia da compreensão pelos alunos.
- além dos materiais específicos criados para o enfoque por tarefas, defende-se o uso de tarefas autênticas com o apoio de materiais autênticos. Meios de comunicação como jornais, TV e internet também são sugeridos.
Quadro 1 – Tipos de abordagens com base em Processos e Produtos: de Richards e Rogers (2003) e Richards (2006).
A seguir, comparamos os aspectos principais dos dois tipos de Abordagens do ECLE com base no Produto. Estas abordagens baseiam-se na identificação da competência que o estudante pode desenvolver após sua instrução. Assim, essas abordagens primam pelos tipos de linguagem que os alunos utilizarão ao fim de suas instruções.
No ensino com base em textos ou abordagem com base em gêneros, o texto será o ponto de partida para estudar sequências estruturadas da linguagem tanto em contextos como em formas específicos.
Já o ensino com base na competência, amplamente usado desde os anos de 1970, é muito utilizado na elaboração de programas de ensino de idiomas para fins profissionais25 e para adultos. Há registros de que estruturas com base na competência foram
24 Barbirato (2005, p. 83) aponta em sua tese a diferença entre exercício, tarefa pré-comunicativa e tarefa
comunicativa. Para o desenvolvimento de nosso trabalho, julgamos que a tarefa comunicativa é a que mais se adapta às necessidades atuais dos aprendizes, devido às suas características. Vejamos: quanto à interação, é implicitadora; não há estruturas linguísticas pré-determinadas; momentos de explicitação podem ocorrer; em relação ao planejamento, refere-se ao temático, com foco no sentido e as tarefas organizadas em torno de um tema. Seu objetivo é a comunicação. O tipo de ensino é aquele centrado no aluno (que desempenha as tarefas em pares ou pequenos grupos). As tarefas são, portanto, geradoras de interação. Para a estudiosa, é um lugar de vanguarda.
25 É importante apontarmos este tipo de ensino, uma vez que os aprendizes participantes da pesquisa pertencem
adotados em vários países em planejamento de cursos de educação profissionalizante e técnica (RICHARDS, 2006, p. 81).
Descrevemos, a seguir, os mesmos itens do quadro anterior: objetivos, programa, tipos de atividades, papel do aluno, papel do professor e os materiais didáticos.
Instrução com base em Textos Instrução com base na Competência26
Objetivos - Ensinar estruturas e
características gramaticais (textos falados e escritos);
- Associar textos falados e escritos ao contexto cultural de seu uso;
- Elaborar unidades de trabalho com textos completos;
- Apresentar prática guiada de acordo com suas habilidades linguísticas com textos completos.
- O idioma não se ensina isoladamente, mas como consequência de uma função comunicativa relacionada a tarefas concretas.
Programa - Textos: principais unidades (identificados por meio de levantamento de necessidades); - Gramática (tratada através do texto), vocabulário, funções, leitura, escrita e comunicação verbal.
- instrução modularizada. O ensino ocorre em blocos significativos
Tipos de atividades - apresentação do contexto (ilustrações, materiais audiovisuais, objetos, etc); - definição da finalidade social por meio de discussões, pesquisas;
- atividades interculturais (comparação do uso do texto em duas culturas);
- comparações entre textos.
- depende muito do foco em que se baseie o ensino, mas basicamente temos:
- identificação de vagas em anúncios de empregos;
- descrição da experiência pessoal e profissional;
- preenchimento de formulários diversos; - compreensão das instruções básicas para pedir esclarecimentos;
- demonstração de tratamento apropriado com colegas.
Papel do aluno - explora características, contextos e faz relações desses pontos com aspectos de sua vida.
- tornar-se autônomo, isto é, decidir se as competências são úteis e relevantes para ele;
- aprender formas e habilidades linguísticas necessárias para a sua vida: o aluno tem um papel ativo;
- ser avaliado continuamente; Papel do professor - reduz gradativamente a sua
contribuição nas atividades, tornando os alunos mais autônomos.
- levantar necessidades dos alunos; - centrar as instruções no aluno e também individualmente,
- apresentar instruções específicas acerca das tarefas a ser trabalhadas.
- selecionar atividades e apresentar um planejamento de acordo com as competências que os estudantes devem adquirir.
26 As informações que apresentamos na Instrução com base na Competência, foram resumidas de AUERBACH,
E. R. (1986). Competency-based ESL: One step forward or two steps back? TESOL Quarterly 20(3): 411 – 415.
Instrução com base em Textos Instrução com base na Competência Materiais didáticos - Textos em geral. - Livros que apresentem idiomas para fins
específicos e materiais autênticos com as atividades anteriormente levantadas. Os materiais incluem tarefas de leitura e competência escrita.
Quadro 2 – Objetivos, programa, tipos de atividades, papel do aluno e professor, materiais didáticos. (RICHARDS, 2006).
Quando se trata de ECLE, Jacobs e Farrel (2003) alertam que é preciso mudar a forma de pensar sobre o aprendizado, os professores e o ensino. Os autores sugerem uma mudança de paradigma, baseados em mudanças que deveriam ser adotadas no ensino de idiomas: (1) Autonomia do aluno: os alunos deveriam escolher seu próprio tipo de aprendizado – tanto em termos de conteúdos, quanto de processos. Para tanto, os autores sugerem que se façam pequenos grupos, e auto-avaliações; (2) A natureza social do
aprendizado: promover a aprendizagem cooperativa e não individual; (3) Integração curricular: os autores sinalizam a importância de associar diferentes linhas de programas de
estudo, para que, assim, o ensino de LE não esteja isolado no currículo. Há sugestões de trabalhos com textos ou projetos que podem suscitar no aluno, o interesse pela investigação no ambiente externo à sala de aula. Voltaremos a tratar deste aspecto oportunamente, quando focalizarmos a análise dos dados; (4) Diversidade: no ensino é necessário considerar as distintas formas que os alunos desenvolvem para aprenderem uma LE, fato que deve ser observado pelos próprios estudantes, o que os levará a desenvolver estratégias de aprendizado; (5) Avaliação alternativa: as formas tradicionais de avaliação devem ser revistas. Os autores sugerem observações, entrevistas, periódicos, portfólios, entre outras; (6)
Professores como co-aprendizes: o professor deve ser visto como aquele que está
constantemente experimentando, aprendendo com seus alunos.
É importante que neste último item pensemos também nos tipos de professor apresentados no trabalho de Barbirato (2005) quando se refere à abordagem comunicativa27: “o professor como ‘diretor’, que é visto como um maestro de orquestra ou diretor de uma peça de teatro; o professor como ‘gerenciador’, que planeja cursos e aulas, além de incentivar a criatividade dos alunos; o professor como ‘facilitador’, que deve facilitar o processo de aprendizagem pelos alunos tornando-a mais fácil e, por fim, o professor como ‘fonte de conhecimento’, que tem o papel de aconselhar os alunos quando o procuram.” Esta última é, portanto, a função menos controladora das apresentadas. Percebemos, portanto, que o
27 A Abordagem Comunicativa enfatiza o processo de comunicação, isto é, o uso da língua em diferentes tipos
de situações com foco no significado e não na forma, privilegiando-se, assim, o uso da língua para a interação. (ALMEIDA FILHO, 1993).
“professor facilitador” de Jacobs e Farrel (2003) e o apresentado por Barbirato (op. cit) não são modelos exatamente iguais, mas tipologias que se complementam.
Nesse sentido, podemos afirmar que, há mais de vinte anos, a abordagem comunicativa está sendo utilizada em vários centros de ensino de línguas estrangeiras. Hoje em dia, tanto a teoria quanto a prática do ensino comunicativo estão baseadas em vários paradigmas e tradições educacionais. Isso significa que tal abordagem está alicerçada em várias fontes, ou seja, não há práticas que a caracterizem de uma única maneira nos dias atuais. Nesse sentido, Richards (2006, p. 42) sinaliza “Dez pressupostos básicos do ensino comunicativo de idiomas na atualidade”, que serão oportunamente comentados neste trabalho. 1. O aprendizado de uma segunda língua é facilitado quando os alunos se envolvem em interações e comunicações significativas.
2. Tarefas e exercícios de ensino eficazes realizados em sala de aula oferecem oportunidades para o aluno negociar o significado, expandir seus recursos linguísticos, observar como é utilizada a linguagem e participar de trocas significativas entre os interlocutores.
3. A comunicação significativa é o resultado do processamento pelos alunos de um conteúdo relevante, pertinente, interessante e motivador.
4. A comunicação é um processo holístico que normalmente requer a utilização de várias habilidades ou modalidades linguísticas.
5. O aprendizado de idiomas é facilitado tanto por atividades que envolvem o aprendizado indutivo ou por descoberta das regras subjacentes ao uso e à organização da linguagem, quanto por aquelas que envolvem análise e reflexão sobre linguagem.
6. O aprendizado de idiomas é um processo gradativo que envolve o uso criativo da linguagem e o processo da tentativa e erro. Embora os erros sejam um produto natural do aprendizado, a meta final é conseguir usar o idioma estrangeiro com precisão e fluência.
7. Os alunos desenvolvem seus próprios caminhos para o aprendizado de idiomas, progridem em ritmos diferentes e apresentam necessidades e motivações distintas para aprender uma língua.
8. O aprendizado de idiomas bem sucedido envolve a utilização de estratégias eficazes de aprendizado e comunicação.
9. O papel do professor em um curso de idiomas é o de um facilitador que cria um ambiente propício na sala de aula, levando ao aprendizado e oferecendo oportunidades para que os alunos utilizem e pratiquem a língua estrangeira, além de refletir sobre a utilização e o aprendizado linguístico.
10. A sala de aula é uma comunidade em que os alunos aprendem por meio da colaboração e compartilhamento. Quadro 3 – Dez pressupostos básicos do ensino comunicativo de idiomas. (RICHARDS, 2006).
Existem inúmeras tentativas de se adaptar o ECLE aos dias atuais, pensando-se em mudanças, basicamente em seis pontos do processo de ensino-aprendizagem: (1) no aprendizado: que deve ser facilitado, envolvendo a reflexão sobre a linguagem, processo que deve ser gradativo; (2) nas tarefas, que devem ser eficazes e representativas para os alunos; (3) na comunicação, que deve ser significativa, fazendo-se uso de habilidades ou modalidades
linguísticas; (4) nos alunos, que devem se tornar cada vez mais autônomos; (5) no professor, que deve ser um facilitador, fazendo com que seus alunos reflitam sobre o aprendizado linguístico e, por fim, (6) na sala de aula, que deve ser vista como uma comunidade em que se dá a colaboração e o compartilhamento.