Além do Mapa sobre o Consumo Cultural da Aldeia, a pesquisa envolveu uma entrevista em profundidade tendo como foco a televisão, da qual participaram o índio mais velho da aldeia, Aleixo Bogado, cento e quinze anos; o pajé benzedor, Lírio Chamorro, oitenta e um anos; Dionísia Chamorro, setenta e um anos; o pajé rezador, Luiz Carlos Coronel, cinquenta e nove anos; a mulher do atual cacique, Lorenza Chamorro Alvez, trinta e quatro anos, e Graciela Alvez, dezessete anos. O encontro na casa de Lírio e Dionísia Chamorro foi no dia 10 de setembro, às onze horas.
Naquele momento a caminhonete da Fundação Nacional do Índio (Funai) levava mais um morador para o hospital. Em janeiro, o surto de varicela havia atingido os netos que moravam com o casal, e uma das netas, também levada ao hospital, havia sido vítima de picadas de abelha, também levada para o hospital.
O cargo de pajé curador da aldeia não tem evitado que a família de seu Lírio Chamorro fique doente e também escape do atendimento do Posto de Saúde da Aldeia e dos hospitais da região. No dia 13, às dez horas, a caminhonete da Funasa levava mais um neto para o hospital. Ele havia passado a noite com febre e tosse.
A presença dos agentes parecia incomodar Chamorro, que queria saber antecipadamente o que fariam com a criança. A nora de Chamorro parecia também irritada, mas era com a insistência do pajé curador em reter o veículo por mais tempo. Ao final de uma conversa em guarani intermediada pelo agente, o índio Julinho, o
carro deixa a casa com a criança e a mãe no interior do automóvel e desaparece na estrada.
Questionado se estava disposto a conversar, ele respondeu que seria indiferente e que sua mulher responderia a maioria das perguntas. Antes de morar na aldeia, Chamorro e a mulher Dionísia viveram no Mato Grosso, em uma fazenda de gado leiteiro, motivo que fazia com que o casal entendesse e falasse fluentemente o português. Mesmo assim, o pajé pouco falou. Mostrou-se irônico, preferindo falar em guarani com a mulher. Ela, quando questionada sobre a resposta, evitava ser fiel à fala do marido.
– Hoje, para saber o que acontece na cidade, vocês assistem pela TV. Se não tivesse a TV, seria como?
Chamorro – Não sei.
– E dona Dionísia, se não tivesse a TV como se informavam? Dionísia – Com visita.
– Hoje o que a senhora gosta de fazer? Dionísia – Comida, lavar roupa, tudo, queijo... – E o senhor gosta de fazer o quê?
Chamorro – Ficar sentado, tomando tererê.
– Esse é esperto, sentar, tomar tererê e assistir à TV, não é? Chamorro – Sim e dormir também.
[Digo “se pudesse faria o mesmo” e eles riem aprovando o modo de vida].
“Quando eu tinha doze anos minha mãe me deu um remédio caseiro que era para não ter filhos, mas se eu quisesse ter eu tinha de tomar outro para ter filhos, mas eu ainda não quero ter filhos”, diz a jovem Graciela Alvez, dezessete anos, casada há um. Ela tem, no corpo, três tatuagens: uma do grupo KLB, a outra com o nome de um homem que não é o marido e na coxa esquerda a tatuagem com o nome da irmã que ela mais gosta.
A família de Graciela chegou à aldeia quando ela tinha seis anos. Hoje, aos dezessete, ela representa a primeira geração de adolescentes do lugar. Carrega a responsabilidade de suceder o legado indígena cada vez mais desconfigurado. Casada, mora com os pais, irmãos, cunhadas e sobrinhos. Um deles, Inácio, doze anos, refere-se a ela como “gorda”, devido ao excesso de peso.
Quando questionada sobre qualquer assunto, inicia as frases com “olha, eu não me incomodo”. Ela fala fluentemente o guarani, o português e o espanhol. Destaca-se entre o grupo de meninas da mesma idade pelas ideias. Ao contrário da maioria, não quer filhos. “Eu quero criar os meus filhos, e agora estudando não poderia
criar eles”. Usa tatuagens no corpo e diz “amar” o grupo KLB e suas canções melosas sobre garotas maravilhosas e apaixonadas.
Quer ser professora de história, e a ideia de escrever romances tendo como cenário a aldeia faz com que ela se esforce em ir à aula na escola de Diamante do Oeste, onde cursa a sexta série. Ela se ofereceu para acompanhar a pesquisa, mas tornou-se extremamente atenciosa com as entrevistas, principalmente nas traduções. Seu encontro com o sogro, o seu Aleixo, cento e quinze anos, foi simbólico. Ali havia uma diferença de quase cem anos entre as duas gerações.
– Hoje quando você assiste à televisão e percebe que ela traz um universo que não é indígena, o que você pensa?
– Como assim?
– Tanto a novela como os programas não focam o índio diretamente e nem têm o índio como elemento principal, apesar da grande população indígena.
– Eu não me incomodo de assistir TV e não ver os índios.
– Mas você gostaria de ver o índio mais presente e com maior autoridade?
– Eu gostaria de ver, mas...
– Foi você que respondeu o questionário e escreveu que quando o índio aparece na TV ele é representado como sendo “burro”?
– Não é como burro, mas às vezes eu acho isso, nas novelas eles protagonizam os índios e às vezes eles fazem uma coisa que os índios não fazem.
– Por que você acha que eles colocam o índio assim?
– É por falta de conhecimento. Porque que eles não vão conhecer mais antes de fazer essas coisas, porque a gente assiste e gosta da novela, mas ofende os índios.
Se computadas apenas as respostas sobre as perguntas “O que vocês gostam de assistir na televisão?” E “O que você não gosta de assistir na televisão”, temos o seguinte quadro:
GOSTO NÃO GOSTO
Notícias Filme de ação
Notícia, filme e novela Não tem do que eu não goste
Muita coisa: a novela, o filme... Não tem do que eu não goste Mostrou sobre o indígena na
Amazônia Quando falam mal do indígena
Reportagem hoje sobre a água, mostrando que nos Estados Unidos cada agricultor tinha obrigação de cuidar da água.
Sobre a política atual do Brasil
Notícias Notícias sobre crimes
Tabela 1: Os gostos e as rejeições na aldeia
Verificadas as respostas, os seis disseram gostar de notícias. Mesmo quem não utilizou a palavra “notícias”, deu pistas seguras de que o conteúdo que mais agrada está nos telejornais. Neste aspecto, é possível dizer que, diante da cobertura feita atualmente pelos veículos de comunicação, a aldeia é contemplada por toda sorte de informações – saúde, política, policial, geral e cidade –, e com elas todos os atores sociais que fazem com que os fatos ganhem repercussão.
Também há o gosto pelos filmes, sendo que, ao se considerar o conteúdo dos exibidos pela tela pequena, um repertório bastante plural também invade a casa do índio. Mesmo considerando a notícia como elemento preferido, esses telespectadores fazem distinção, isto é, as notícias podem acontecer desde que “não falem mal do próprio índio”, não tenham abordagem política. Nesses dois casos específicos, a opinião deles se aproxima à do branco.
Desligue a televisão quem afirma gostar de ver-se execrado em praça pública, ou de ouvir as prolongadas promessas no campo político. Neste aspecto, o índio parece também ter adquirido o gosto do colonizador no consumo do conteúdo noticioso.