• Sonuç bulunamadı

Partindo da presente introdução, em que apresento o percurso pessoal, teórico e metodológico da pesquisa, cabe-me, nesse momento, apresentar o trabalho realizado nesses quatros anos de doutoramento, experiência enriquecedora, com muitos ganhos em todas as dimensões da minha vida. Organizar em capítulos essa produção que tem como objeto principal o sofrimento e o adoecimento humano não foi uma tarefa fácil, portanto, essa organização é resultado de exercícios reflexivos, de ―arruma e desarruma‖ e ―faz de novo‖. Sendo assim, para melhor disposição dos conteúdos desenvolvidos, os capítulos da Tese foram distribuídos em três partes: primeira parte — Por uma analítica da relação entre trabalho e saúde; segunda parte — A instituição, a doença e o professor; e a terceira — o

pathos docente em narrativas.

Primeira parte — Nesse segmento inicial do trabalho faço uma abordagem teórica

sobre o mal-estar no trabalho, refletindo sobre o modo de gestão gerencialista no atual mundo do capital e do trabalho, isto é, como esse sistema fundamentado pela ideologia neoliberalista,

constrói suas formas de subjetivações e contribui para o mal-estar dos trabalhadores docentes. Também discuto a saúde, a doença mental e as práticas de cuidados relacionadas ao sofrimento psíquico, situando aspectos históricos e ideológicos, para posicionar a atenção psicossocial, nesse conjunto de cuidados, sugerida pela rede de saúde para pessoas com transtornos mentais e em sofrimento psíquico. Essa parte inicial está dividida em dois capítulos:

No capítulo 2, intitulado O mal-estar no trabalho e as subjetividades docentes, dou continuidade à discussão teórica iniciada na introdução. Nele, procuro desenvolver um diálogo com teóricos que analisam a noção de trabalho no mundo contemporâneo, sob a lógica do capitalismo neoliberalista e gerencialista, suas novas formas de construção de subjetivações e captura das subjetividades dos trabalhadores e as consequências para o adoecimento e sofrimento psíquico de trabalhadores. Faço uma discussão geral, conversando com autores que me iluminaram nessa complexa engrenagem do mundo do capital e do trabalho, empenhando-me para compreender como esses processos repercutem no trabalho docente e na saúde desses profissionais; considero, portanto, as suas particularidades, na qualidade de trabalhadores da educação que lidam com subjetividades humanas em construção e como harmonizam as exigências e as demandas próprias do oficio docente com as contradições estruturais com as quais se defrontam em seus cotidianos do trabalho escolar. Trabalho, assim, com diferentes autores, embora privilegie alguns: Lazzarato (2006); Lazzarato e Negri (2013). Sennett (2006; 2012b); Bourdieu (1998); Giddens (1991); Gaulejac (2007); Ehremberg (2010); Enriquez (2006), Birman (2012); Giovanni Alves (2011); Antunes (2006; 2009a; 2009b; 2013a; 2013b); Pelbart (2010; 2013a; 2013b), entre outros.

No capítulo 3, intitulado A saúde, doença mental e formas de cuidados: para situar a atenção psicossocial, pontuo elementos da captura do sofrimento e do adoecimento psíquico pelas estratégias do poder ―psi‖; discuto sobre o modo com que os professores se deparam com o saber médico, que será identificado nas narrativas; trago alguns elementos para me ajudar a entender como esse sofrimento se encontra com o saber médico e com as vivências dos professores. Para tanto, faço um recuo sobre a noção de saúde e doença mental, com o objetivo de compreender o modo com que a doença mental era tratada, em outras épocas, o que me ajudou a situá-la, hoje, na propalada moderna época da atenção psicossocial. Para tanto, parto das seguintes questões: como se chegou às práticas de cuidado da atenção psicossocial e quais as ideologias médicas relacionadas à saúde e doença mental? Sendo assim, me empenho para entender as formas de atenção psicossocial que se desenvolveram

para dar conta da doença mental. Visando compreender o modo com que o mal-estar foi captado e cuidado pelo saber e poder médico da atenção social, me pergunto: como o sofrimento mental e como as narrativas docentes entram nessa história? Meus autores privilegiados nesse capítulo foram: Foucault (2006, 2012, 2014); Pessotti (1995, 1996, 1999) e Amarante (1994, 1995, 2007).

A segunda parte desta Tese também está organizada em dois capítulos, o quarto e o quinto. Nesta, volto-me para a apresentação da Casa do Professor, sua dinâmica de funcionamento, suas práticas, ritos e forma de encaminhamentos dos cuidados direcionados aos docentes que buscam ajuda nesse dispositivo de atenção psicossocial. Também apresento o resultado do mapeamento elaborado a partir da pesquisa documental dos prontuários clínicos consultados.

No capítulo 4, intitulado Da sala de aula para o consultório: Casa do Professor, dedico-me à descrição do meu locus de pesquisa, e faço uma tentativa de apresentar uma inserção etnográfica no cotidiano do dispositivo de Apoio e Atenção Psicossocial à saúde dos docentes da rede de ensino estadual do Amapá, mais recentemente denominado Casa do Professor, instituído pela Secretaria de Educação do Amapá (SEED-AP). Procuro, assim, apresentar elementos históricos, sua caracterização, o funcionamento, a rede e os itinerários clínicos, administrativos, realizados pelos docentes e pelos profissionais da equipe multidisciplinar que operam nesse aparelho de atenção e cuidados aos professores em sofrimento e adoecimento psíquico.

No capítulo 5, sob o título Quem são os professores do psicossocial? Analisando prontuários, queixas e diagnósticos, dedico-me à apresentação e discussão do mapeamento de dados quantitativos elaborados a partir da pesquisa documental dos prontuários clínicos; de documentos de encaminhamentos dos docentes a Casa; das fichas de registros de atendimento psicossocial, dos laudos médicos, pareceres clínicos, relatórios técnicos, receituários, entre outros. Esse capítulo tem por objetivo delinear um ―rosto‖ dos docentes que buscam ajuda para suas diversas formas de mal-estar na Casa do Professor, no qual, a partir do conjunto de informações obtidas na consulta documental, apresento tabelas, quadros e gráficos com as análises dos resultados, que considero indicativos e complementares às análises das narrativas docentes.

A terceira e última parte, segmento central da minha tese, é composta pelos capítulos seis, sete, oito e nove. Nesses capítulos apresento as narrativas das trajetórias docentes e as histórias de adoecimento, as subjetividades docentes, verbalizações do cotidiano

escolar, queixas, relatos sobre as condições e contradições do trabalho docente e outras temáticas abordadas pelos professores e professoras no decorrer de suas narrativas. Também dedico um capítulo aos professores e professoras do Modular. Procuro, assim, fazer uma apresentação dos modos de vida desses educadores que se dedicam a essa modalidade de ensino, e conto um pouco da sua história e dos desafios e adversidades que enfrentam. Do conjunto da pesquisa foram selecionados eixos temáticos concernentes às vivências docentes e suas realidades de trabalho, que procuro analisar no corpo desse terceiro bloco da Tese. No capítulo nove apresento parte da minha experiência no estagio doutoral em Trento-Itália, faço uma breve comparação entre o trabalho docente dessas distintas realidades, em alguns aspectos mais próximas, e discuto a problemática do trabalho docente precário, vivenciado pelos professores italianos. Portanto, a terceira parte desta Tese contém os capítulos a seguir apresentados.

No capítulo 6, intitulado O pathos docente nas histórias em narrativas: as relações entre saúde, subjetividades docentes e escola, dedico-me às narrativas sobre as experiências docentes e histórias de adoecimento, visando exercitar a análise e a interpretação do objeto de investigação aqui proposto. Para tanto, apresento oito trajetórias docentes, evidenciado os relatos de adoecimento e superação dos estereótipos pessoais e sociais vencidos para buscar ajudar no dispositivo de atenção psicossocial – Casa do Professor. Nesse sentido, fiz um esforço para sintetizá-las e, ao mesmo tempo, não esvaziá-las de seus sentidos, contextos e riquezas subjetivas. Realizei o exercício analítico para discutir as representações, valores, conteúdos, sentidos, subjetividades, queixas, tipos de adoecimento e sofrimento, e conhecer as práticas desenvolvidas para a ―cura‖ e a ―reinserção‖ dos docentes na sala de aula e como eles desenvolvem suas estratégias e táticas no agenciamento dos diagnósticos e do próprio adoecimento (CERTEAU, 2005).

O capitulo 7, intitulado ‗Guerreiros‘ e ‗desbravadores‘: os professores do

Modular, é destinado ao Sistema de Organização Modular de Ensino (SOME e SOMEI), no Amapá, com maior foco no SOME. Nesse capitulo discorro sobre alguns elementos históricos, trajetórias, experiências docentes, realidade de trabalho e narrativas de adoecimento do coletivo de professores e professoras que atuam no interior do estado, em comunidades rurais, ribeirinhas, indígenas e afrodescendentes. Procuro, assim, fazer uma apresentação dos modos de vida dos professores e professoras que se dedicam a essa modalidade de ensino. Conto um pouco da sua história e da realidade encarada por esse grupo de professores e professoras, com o intuito de mostrar algumas de suas experiências e

trajetórias — histórias e experiências marcadas por abnegação, insuficiências e sofrimento, mas também caracterizadas por dedicação e paixão. A decisão de apresentar um pouco da experiência desse coletivo de educadores foi movida pelo desejo de evidenciar a relevância desse grupo de profissionais para a área de educação do Amapá e o conjunto de adversidades enfrentadas para a realização do trabalho docente nas áreas rurais do estado. Esse conjunto de professores representa um provável grupo de risco para o adoecimento em suas distintas formas. Também exploro a história de adoecimento de dois professores do Modular, sendo uma trajetória docente do SOME e outra do SOMEI, identificando dimensões das vivências de trabalho desses professores que se constituem variadas formas de sofrimento e adoecimento

No capitulo 8, intitulado Compreendendo a experiência do adoecimento nas trajetórias docentes: percepções, apropriações e dilemas, apresento e analiso alguns eixos temáticos e dimensões analíticas identificadas a partir do material empírico construído. Momento fundamental de elaboração analítica da pesquisa e de maior desafio: o de saber lidar, manejar e interpretar sociologicamente o material denso, produzido durante a pesquisa para a realização deste estudo. Para tanto, das várias dimensões identificadas, discuto algumas, aquelas que, no meu entendimento, são as mais recorrentes na análise do material produzido e que podem representar, com base no grupo investigado, parte relevante associada às dificuldades enfrentadas pelos professores no Amapá e que ainda poderão estar conectadas às suas distintas formas de sofrimento e adoecimento.

E, por último, no capítulo 9, sob o título Doença mental e trabalho docente precário: relatos e reflexões sobre a experiência italiana - um olhar aproximativo-

comparativo, apresento um relato da minha experiência no doutorado ―Sanduiche‖ realizado

em Trento, Itália. Insiro elementos da minha experiência durante o período do estágio doutoral (setembro a dezembro de 2015) que visou dois aspectos relevantes relacionados ao meu objeto de estudo: 1) aprofundar aspectos relativos à história da Psiquiatria Democrática Italiana e suas contribuições políticas e ideológicas para o movimento contra a institucionalização de pessoas com transtornos mentais e a implantação dos serviços de atenção psicossocial no Brasil16; 2) compreender um pouco sobre as prováveis conexões entre trabalho docente e formas de cuidados dos professores italianos com experiências de sofrimento e adoecimentos psíquico; com o esforço de lançar um breve olhar aproximativo sobre essas duas realidades (Amapá-Brasil – Trento-Itália).

16 Aqui, solicito permissão para citar autores italianos, pela relevância de alguns deles para a Reforma

Ao finalizar a introdução desta Tese convido o leitor a debruçar-se sobre o texto que ora apresento, tendo ciência de que, no produto da investigação que realizei, tive a intenção de discutir, refletir e compreender melhor os dramas e histórias desse objeto fronteiriço, em que trabalho docente e sofrimento psíquico se encontram, conflitam e se estimulam.

PRIMEIRA PARTE: POR UMA ANALÍTICA DA RELAÇÃO ENTRE TRABALHO E SAÚDE

Nesse segmento inicial do trabalho faço uma abordagem teórica sobre o mal-estar no trabalho. Reflito sobre o modo de gestão gerencialista no atual mundo do capital e do trabalho; como o sistema gerencialista, fundamentado pela ideologia neoliberalista, contrói suas formas de subjetivações e como contribui para o mal-estar dos trabalhadores docentes. Discuto, também, a saúde, a doença mental e as práticas de cuidados relacionadas ao sofrimento psíquico, situando aspectos históricos e ideológicos, para posicionar a atenção psicossocial, nesse conjunto de cuidados, sugerida pela rede de saúde para pessoas com transtornos mentais e em sofrimento psíquico.

2 O MAL-ESTAR NO TRABALHO E AS SUBJETIVIDADES DOCENTES

―A ‗matéria prima‘ do trabalho imaterial é a subjetividade e o ‗ambiente ideológico‘ no qual, esta subjetividade vive e se reproduz. [...] O fato de que o trabalho imaterial produz ao mesmo tempo subjetividade e valor econômico demonstra como a produção capitalista tem invadido toda a vida e superado todas as barreiras que não só separavam, mas também opunham economia, poder e saber‖ (LAZZARATO; NEGRI, 2013, p. 67).

Neste capítulo amplio as ideias contidas na Introdução. Exponho leituras e análises de estudiosos que discutem o mundo do trabalho na sociedade contemporânea, dita pós-fordista; acerco-me de categorias analítica: o trabalho imaterial; a captura da subjetividade através dos mecanismos de precarização, intensificação e flexibilidade do trabalho, mediante novos modelos de gestão do trabalho e do capital, suas repercussões nos processos de subjetivações do trabalhador e, mais especificamente, as implicações desses processos para o profissional docente.

Faço uma abordagem teórica com o intuito de discutir as racionalidades atuais do mercado de trabalho em relação à globalização do capital e do modelo neoliberal, visando entender suas repercussões e de que modo afetam a saúde do trabalhador docente.

O propósito nesse capítulo não é o de entrar nas infindáveis discussões sobre o complexo mundo do trabalho, mas há o interesse, principalmente, de fazer algumas reflexões teóricas sobre as consequências da mundialização do capital para a construção de novas formas de subjetivação, conforme Birman (2013); e sobre as formas de captura as subjetividades no mundo contemporâneo através do trabalho imaterial, como sugerem Lazzarato (2006), Pelbart (2010; 2013), Lazzarato e Negri (2013). Além disso, busco compreender o modo com que as mudanças provocadas pela ideologia neoliberal e pelo trabalho pós-fordista afetam o trabalho docente e como o docente é afetado por essas estruturas derivantes do capitalismo.

Para tanto, também dialogo com outros autores que abordam essa temática: Sennett (2004; 2006; 2012a, 2012b); Bourdieu (1998); Bauman (1999, 2001, 2009; 2013); Giddens (1991); Gaulejac (2007), Ehremberg (2010), Enriquez (2006), Lazzarato (2006), Birman (2012), entre outros. Discuto as repercussões desses processos para a saúde mental dos trabalhadores docentes, considerando que essa classe trabalhadora, provavelmente seja afetada pelos processos de flexibilização, intensificação e precarização do trabalho, pois a natureza do trabalho docente além dos esforços e desgaste de energias físicas também exige competências cognitivas, afetivas e a captura da subjetividade, nos dizeres de Giovanni

Alves (2011, 2013), Santos (2000), Antunes (2006; 2009a; 2009b; 2013a; 2013b); Mèszaros (2007; 2011), Lazzarato e Negri (2013); Pelbart (2010; 2013a; 2013b17), entre outros.

Benzer Belgeler