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Ciente que este estudo exige uma visão multidisciplinar e interdisciplinar10, não somente pelas características do objeto de pesquisa, mas também pelas especificidades próprias do conhecimento sociológico, como afirmam Almeida, Freitas, e Santos (2012, p.158):

A busca do conhecimento sociológico se emaranha na rede de acontecimentos entrelaçados em relações sociais e culturais no sentido de compreender a dinâmica da realidade. Esta põe em xeque paradigmas teóricos tradicionais e contemporâneos voltados tanto para perspectivas macroestruturais quanto para olhares microcotidianos.

Nessa perspectiva, atendendo a necessidade de situar o objeto de estudo e suas análises no campo das Ciências Sociais, deparei-me com esse desafio e sobre o qual me questiono: como compreender a subjetividade, o sofrimento psíquico no campo das teorias socioantropológicas? Como explorar as subjetividades e histórias de adoecimento sem gerar polaridades, dicotomias ou abismos separadores da subjetividade humana? Como usar inventividade linguística11 para dar nome às coisas, isto é, para nomear as práticas cotidianas da Casa do Professor e dos saberes e fazeres da educação estadual, de tal modo que possa preservar a ética da pesquisa, escapar de juízos de valores, aproximando este estudo aos padrões exigidos pelas ciências sociais? E, conforme os dizeres de Becker (2009): como fazer uma ―representação eficiente‖ do social?

Com base nesses questionamentos e nos pontos norteadores da pesquisa, faço, aqui, um esforço voltado para um diálogo epistemológico inter e multidisciplinar, entre as áreas de conhecimento que abordam a subjetividade em suas particularidades, e dimensões psíquico- socioculturais com os aportes de um olhar inter e multidisciplinar de campos de distintos saberes, como forma de compreender estados de sofrimento e de adoecimento psíquico relacionados ao trabalho docente.

Jacques Rhéaume (2015, p. 137) destaca a relevância de uma epistemologia pluralista quando se trata, mormente, da análise de uma prática social, exigindo uma leitura multidisciplinar das ciências: psicologia, sociologia e antropologia. Minayo (1991, p. 236) enfatiza o papel da Antropologia na compreensão da subjetividade. Para a autora, ―a

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Bastide (2016, p. 204) lembra que a pesquisa multidisciplinar é ao mesmo tempo interdisciplinar porque se realiza através de uma ―encruzilhada de ciências‖, isto é, ela se faz nos pontos de convergência entre diversas ciências e tem como função principal permitir o acréscimo de múltiplos sentidos sobre o objeto de estudo.

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Capacidade observada por Becker (2009, pp. 227-230) em Goffman (1974), quando discute ―instituições totais‖.

Antropologia introduz de forma positiva a importância do ‗subjetivo‘ em qualquer abordagem do social, oferecendo instrumentos para sua apreensão‖.

Mauss ([1950] 2005), na obra Sociologia e Antropologia, dedica um capítulo à relevância interdisciplinar para discutir ―as relações reais e práticas entre a Psicologia e a Sociologia‖. Nesse texto, ele distingue o lugar dessas ciências e aponta, ao mesmo tempo, a interdependência entre as duas ciências no estudo do ser humano enquanto ser individual e coletivo. O autor, no decorrer do texto, trabalha a ideia de inseparabilidade dessas ciências, pois as duas tratam do estudo do homem, da sua totalidade. Mauss (2005) discute a impossibilidade de compartimentá-lo para estudos isolados, porque ―fragmentar o ser humano, seria assumir uma visão atomística‖. Seguindo esse olhar, Mauss discute sobre os confins entre Psicologia e Sociologia, sobre as intersticialidades entre individual e coletivo; consciência individual e consciência coletiva; em suas bordas exteriores, seus espaços limítrofes e centrais, que as duas ciências avançam, como ele próprio diz: ―não nos preocupemos com essas nuanças [...]. Pois é nos confins das ciências, em suas bordas exteriores, com tanta frequência quanto em seus princípios, seu núcleo e seu centro, que se fazem os progressos‖ (MAUSS, 2005, p. 324).

Mauss (2005, p. 336) compõe uma bela síntese sobre a colaboração comum da Sociologia e da Psicologia na compreensão do fato psicológico, pois em sua concepção este se revela em toda a sua nitidez no social: ―ele é comum a todos os que dele participam, e, por ser comum, despoja-se das variantes individuais‖. Dessa maneira, o autor admite a articulação e a cumplicidade das duas ciências para a compreensão da complexidade humana, dos fenômenos da totalidade, que misturam corpo, alma, sociedade, materialidades e imaterialidades que interessam às duas ciências:

Todos os que vos assinei e todos os que achei interessantes nas novas descobertas da psicologia, pertencem não apenas à ordem da consciência pura, mas àquela que os implica em sua relação com o corpo. Com efeito, em nossa ciência, em sociologia, nunca ou quase nunca encontramos, exceto em matéria de literatura ou de ciência puras, o homem dividido em faculdades. Lidamos sempre com seu corpo, com sua mentalidade por inteiro, dados de maneira simultânea e imediata. No fundo, tudo aqui se mistura, corpo, alma, sociedade. Não são mais fatos especiais dessa ou daquela parte da mentalidade, são fatos de uma ordem muito complexa, a mais complexa imaginável, que nos interessam. É o que chamo fenômenos de totalidade, dos quais participam não apenas o grupo, mas também, por ele, todas as personalidades, todos os indivíduos em sua integridade moral, social, mental e, sobretudo, corporal e material (MAUSS, 2005, p. 336).

Dessa forma, na concepção de Mauss (2005, p. 40) os fenômenos sociais são de abordagem social, mas, ao mesmo tempo, os fatos são psicológicos e sociológicos. Minayo

(1991) observa que os estudos de Mauss (1950), do ponto de vista antropológico, mostram que os fenômenos saúde-doença informam sobre:

a visão de mundo do grupo social; as atitudes coletivas face à infelicidade dominadora; o rompimento do indivíduo com as normas e as regras de sua sociedade, frequentemente traduzidos em códigos morais e religiosos e o encontro do homem com o que considera ―infeliz‖ e ―alienante‖ em sua sociedade (MINAYO, 1991, p. 234).

Sendo assim, Minayo (1991, p. 233) entende a doença como um fenômeno tanto clínico quanto sociológico, e faz a seguinte defesa:

a doença é tanto um fato clínico quanto um fenômeno sociológico. Ela exprime hoje e sempre um acontecimento biológico e individual e também uma angústia que pervaga o corpo social, confrontado com as turbulências do homem enquanto ser total. À medida que cristaliza e simboliza as maneiras como a sociedade vivencia coletivamente seu medo de morte e seus limites frente ao mal, a doença importa tanto por seus efeitos imaginários: ambos são reais do ponto de vista antropológico. A doença é uma realidade construída e o doente é um personagem social. Portanto, tratar o fenômeno saúde-doença unicamente com os instrumentos anátomo- fisiológicos da medicina ou apenas com as medidas quantitativas da epidemiologia clássica constitui uma miopia frente ao social e uma falha no recorte da realidade a ser estudada. (MINAYO, 1991, p. 233).

Gaulejac, Roche e Hanique (2012, p. 20) também consideram que a Sociologia Clínica inova com um convite para revisar as fronteiras disciplinares, em particular entre as ciências humanas e ciências sociais. Esses autores observam a necessidade de uma abordagem interdisciplinar para explorar as dimensões psíquicas dos fenômenos sociais e convidam o leitor a redefinir os conceitos de ―objetividade‖, de ―subjetividade‖ e de recursos metodológicos na produção de conhecimento:

A exploração das dimensões psicológicas de fenómenos sociais, colocadas em diferentes questões das formas de produção de conhecimento, a redefinição dos conceitos de objetividade e subjetividade, utilizando metodologias relativas à produção do conhecimento, bem como a análise das anotações sobre o sujeito durante o processo de consulta, mostra muito sobre a postura do pesquisador e do palestrante, e são todas essas questões que demarcam o interesse completo da abordagem clínica em sociologia (GAULEJAC, ROCHE e HANIQUE, 2012, p. 32)12.

12 Texto original: ―Exploration dês dimensions psychiques dês phénomènes sociaux, remise em question des diferentes formes de production dusavoir, redéfinition desconceptions de lóbjectivité et de lasubjectivité, recours à dês méthodologies subjectivantes danslaproduction de laconnaissance, anliyse de lanotion de sujet face auxpreocessus d‟assujettissement, interrogation sur la posture du chercheur et de l‟intervenant, autant d‟enjeux qui démontrentl‟intérêt d‟intégrerla démarche clinique dans une perspective sociologique” (GAULEJAC, ROCHE e HANIQUE, 2012, p. 32).

Nessa perspectiva, Gaulejac (2012, p. 42) evidencia que ―os fenômenos sociais são de abordagem social, mas são também, ao mesmo tempo, psicológicos. Os fenômenos sociológicos são da vida. Sociologia e Psicologia são recortes complementares dos fatos humanos‖ (GAULEJAC, 2012, p. 41). Assim, a ênfase subjetiva da Sociologia Clínica é evidentemente uma questão central para o autor (GAULEJAC, 2012, p. 29). Ferrarotti (2013, p.18) também confirma as noções de interdisciplinaridade e multidisciplinaridade, quando afirma:

A investigação científica contemporânea é multidisciplinar, chegando a ser pós- disciplinar em determinados aspectos. O objeto de investigação é simultaneamente atacado por diversas ciências, sobre o qual impõem os seus recursos metodológicos e materiais.

O objeto em estudo, pela sua complexidade, demanda um olhar multidisciplinar, por isso, dialoga com várias disciplinas porque, cada vez mais, nas teses e nas pesquisas há objetos que Melucci (2004) classifica como ―complexos‖, ou seja, que resistem a uma apreensão disciplinar rígida. Dessa forma, frente à complexidade da realidade social, das possibilidades de conhecê-la e da natureza do estudo proposto, aventuro-me a navegar em diferentes olhares e aportes teóricos analíticos de vários campos do conhecimento.

Portanto, reconhecendo a relevância dos diversos campos de saberes e a polissemia do objeto deste estudo, cabe-me acatar o desafio explícito na linguagem de Becker (2009, p.67): sinto-me instigada a ―desembrulhar‖ a ―representação social‖ da qual me ocupo nesta pesquisa.

Benzer Belgeler