2.5. Kısıtlar Teorisinin Bileşenleri
2.5.1. Kısıtlar teorisinin lojistik bileşeni
2.5.1.1. DBR (drum-buffer-rope) ve tampon yönetimi
Essa concomitância de um tipo de poder ao mesmo tempo individualizante e totalizante, disciplinador e normalizador foi possível ser verificada por Foucault devido à elaboração das noções de governo e governamentalidade, apresentadas na aula de 1º de fevereiro de 1978, do curso Segurança, território e população, posteriormente à publicação da Vontade de saber e da realização do curso Em
defesa da sociedade, ambos de 1976.
A noção de governamentalidade é uma ferramenta teórica que muito ajudou a analisar e explicar o poder na perspectiva histórico-filosófica, microfísica e imanentista a que Michel Foucault se propunha17 estudar. Foucault (2000b) declara
17 As noções de governo e governamentalidade, segundo Castro (2009) “dominam a análise
foucaultiana do poder” e foram elaboradas, em parte, porque os instrumentos teóricos de análise de poder das teorias totalitárias eram insuficientes para explicar o poder na perspectiva histórico-filosófica, microfísica e imanentista, proposta por Foucault e, em parte, porque a própria proposta de análise foucaultiana do poder encontrava dificuldades teóricas a serem respondidas (CASTRO, 2009, p. 190). Essas noções, assim como a perspectiva
que, para chegar à questão do governo e da governamentalidade, analisou alguns dispositivos de segurança com o intuito de compreender, em um primeiro momento, a emergência do problema da população. Essa análise dos dispositivos de segurança, feita em Segurança, território e população, levou-o a pensar sobre a relação entre a segurança, a população e o governo. Nessa aula, Foucault demonstra a preocupação em entender como a emergência da população conduz à questão do governo, em outras palavras, como as tecnologias de poder se articulam com o governamento e com os processos de subjetivação, ou de constituição do sujeito, tema central na obra foucaultiana.
As noções de governo e governamentalidade, elaboradas por Foucault para analisar o poder são, então, um dos elos entre os três momentos de pesquisa vivenciados pelo filósofo francês. Conforme Castro (2009), apesar das pesquisas de Foucault, a partir dos anos de 1970, se deslocarem do eixo do saber para o eixo do poder e, depois, para o eixo da ética, muitas vezes apresentadas em três momentos distintos: a arqueologia, a genealogia e a ética18, não há segmentação nem abandono das problematizações anteriores, pois é, de outra forma, resultado de uma lógica de ampliação na prática de pesquisa de Foucault (CASTRO, 2009, p. 189). Isso quer dizer que essa classificação da obra de Foucault é uma continuidade em torno daquilo que constitui o sujeito. Conforme Castro,
o deslocamento-inclusão da episteme na noção de dispositivo responde à necessidade de incluir o âmbito do não discursivo na análise do saber. A formação das ciências humanas, por exemplo, já não será somente consequência de uma disposição epistêmica, mas encontrará nas práticas disciplinares sua condição histórica de possibilidade. Do mesmo modo, a importância das noções de governo e governamentalidade será uma consequência das insuficiências dos instrumentos teóricos para analisar o poder. (CASTRO, 2009, p. 190).
Em outras palavras, a problematização do saber não foi abandonada para que se tratasse do problema do poder e nem esse foi esquecido para que Foucault abordasse o tema da ética; esses três momentos compõem uma continuidade de um trabalho que, conforme foi sendo aprofundado, foi necessitando de novos
histórico-filosófica, fazem parte desse instrumental teórico-metodológico, elaborado por Foucault, no decorrer do seu trabalho ao analisar o poder.
18 Ética, no sentido foucaultiano, são as muitas formas de subjetivação/objetivação pelas
instrumentos teóricos e metodológicos de análise. Como bem ressalta Castro (2009, p. 189), “a noção de dispositivo incluirá a noção de episteme, e a noção de prática incluirá a noção de dispositivo”, porque uma noção exigiu a elaboração da outra para que se entendesse, afinal, quais as formas de subjetivação e objetivação que constituem o sujeito.
Para Castro (2009, p.189), então, o trabalho de Foucault é “uma análise filosófico-histórica das práticas de subjetivação”, não sendo, portanto, nem o saber nem o poder a grande preocupação do filósofo francês, mas sim o que constitui o sujeito, ou seja, a ética no sentido foucaultiano. Ainda segundo Castro (idem, ibidem), “essas práticas de subjetivação [...] são também formas de objetivação, isto é, dos modos em que o sujeito foi objeto de saber e de poder, para si mesmo e para os outros”. Nesse sentido, as noções de governo e governamentalidade são fundamentais para a análise das formas pelas quais o poder se exerce, pois são essas noções que explicam que o poder não é da ordem do enfrentamento entre dois adversários, mas da ordem do planejamento estratégico do campo de possibilidade de ação do outro ou dos outros, por um lado, e, por outro, da ordem do autogoverno.
Castro (2009, p. 190) explica que a noção de governo tem dois eixos:
o governo como relação entre sujeitos e o governo como relação consigo mesmo. No primeiro sentido, [...] trata-se [...] de uma conduta que tem por objeto a conduta de outro indivíduo ou de um grupo. Governar consiste em conduzir condutas. Foucault quer manter a sua noção de governo a mais ampla possível. Mas, no segundo sentido, é também da ordem do governo a relação que se pode estabelecer consigo mesmo na medida em que, por exemplo, se trata de dominar os prazeres e os desejos. [...] Foucault interessa- se particularmente pela relação entre as formas de governo de si e as formas de governo dos outros. Os modos de objetivação- subjetivação situam-se no entrecruzamento desses dois eixos.
Assim, para Castro (2009), também a noção de governamentalidade tem dois eixos de significação: um para referir-se ao âmbito da governamentalidade política (CASTRO, 2009) ou governo em sua forma política (FOUCAULT, 2000b, p.278); e, outro eixo que se remete ao âmbito da relação entre o governo dos outros e o governo de si mesmo. Então, de forma ampla, o termo governamentalidade é utilizado por Foucault “para referir-se ao objeto de estudo das maneiras de governar” (CASTRO, 2009, p. 190) e contem dois eixos de significação, sendo o primeiro no
âmbito das técnicas, instrumentos, dispositivos, mecanismos, enfim, das estratégias de governo (governamento) do outro; e, o segundo no âmbito das técnicas, instrumentos, dispositivos, mecanismos, ou seja, das estratégias de resistência nascidas da relação das técnicas de dominação exercidas sobre os outros e das técnicas de domínio de si, chamadas por Foucault de técnica de si.
Então, governamentalidade, no âmbito do primeiro eixo, segundo Foucault (2000b, p. 291-292) compreende três significações:
1 - o conjunto constituído pelas instituições, procedimentos, análise e
reflexões, cálculos e táticas que permitem exercer esta forma bastante específica e complexa de poder, que tem por alvo a população, por forma principal de saber a economia política e por instrumentos técnicos essenciais os dispositivos de segurança;
2 - a tendência de um tipo de poder sobre os outros, o governo (governamento), que permite a existência de diferentes formas de governo como a soberana, a disciplinar e a biopolítica, tornando possível “o desenvolvimento de uma série de aparelhos específicos de governo e de um conjunto de saberes” (FOUCAULT, 2000b, p.292); 3 - e, por fim, governamentalidade, no âmbito do governo na sua forma política, significa o resultado do processo “pelo qual o Estado de justiça da Idade Média converteu-se, durante os séculos XV e XVI, no Estado administrativo e finalmente no Estado governamentalizado” (CASTRO, 2009, p. 191).
Já no segundo eixo, ou seja, no âmbito do governo de si, governamentalidade corresponde às relações entre o governo dos outros e o governo de si, âmbito esse que permite o estudo das estratégias de resistência.
A governamentalidade, então, é uma ferramenta teórico-metolodógica forjada e usada por Foucault para compreender e explicar como o exercício do poder biopolítico emergiu em uma sociedade que passava a enfatizar os processos de regulação e normalização da população. Um dos principais instrumentos que se evidenciou nesse tipo de exercício de poder é a norma, assunto a ser abordado no próximo item.