• Sonuç bulunamadı

É impossível definir com precisão quando se iniciou o interesse por comparações cross- culturais. No entanto, Jahoda e Krewer (1997) ao realizar uma análise histórica sobre estudos comparativos, afirmam que o pensamento Grego Clássico e Romano, dominante na Idade Média, tinha pouco interesse em outros povos, e as diversidades culturais eram frequentemente consideradas como um distanciamento indesejado do único modo de vida considerado verdadeiramente humano e civilizado, o modo de vida greco-romano.

Segundo o conceito grego de humanidade, a realização do plano divino seriam as cidades- estados gregas, ou “polis”, e os povos que não vivessem nestes padrões tinham uma imagem desfavorável. Até mesmo o termo bárbaro, tem origem no “bar-bar”, que é uma imitação do som de línguas estrangeiras para os gregos, interpretadas como ruídos sem sentido. Características negativas como brutos, cruéis, irracionais, desregrados, imorais entre outras, eram frequentemente associadas aos bárbaros. O termo bárbaro definia qualquer indivíduo não grego (JAHODA & KREWER, 1997).

Jahoda e Krewer (1997) indicam que muitas destas características associadas aos bárbaros continuaram durante a Idade Média, através do dogma Cristão, onde a imagem de povos não europeus era pregada como raças monstruosas que viviam nas fronteiras do império de Deus, como pagãos selvagens, vivendo em florestas, nus, como animais, sem nenhum tipo de normas sociais. No entanto, entre o fim da Idade Média e o início do Iluminismo, entre os séculos 15 e 16, importantes mudanças em relação as concepções dominantes sobre os seres humanos, despertaram um novo interesse na diversidade humana. Uma das maiores motivações para o novo interesse foi a onda de contatos com outras civilizações, através de conquistas, descobrimentos e relações mercantis com nações distantes.

Estas informações chegavam muitas vezes através de relatos de viajantes sobre outras formas de vida em outras sociedades, contendo informações relativamente factuais sobre os povos. As iniciativas missionárias aumentaram significativamente a preocupação com outros povos, na tentativa de conversão dos povos à fé cristã, aumentando também o entendimento sobre estas culturas, gerando as primeiras abordagens etnográficas e comparativas para a análise da linguagem, costumes e relações de parentesco (JAHODA & KREWER, 1997).

Assim, os primeiros estudos comparativos ou cross-culturais são normalmente atribuídos a duas pesquisas que foram realizadas praticamente de forma simultânea: uma realizada por de Edward B. Tylor, publicada em 1889 (M. EMBER & C. EMBER, 2009) e outra por William Halse Rivers, em sua expedição de Estreito de Torres, em 1898 (FRIEDLMEIER, CHAKKARATH E SCHWARZ, 2005).

Outra pesquisa, de autoria de Francis Galton (1822-1911) também é apontada como uma das precursoras de estudos que comparam diferenças entre indivíduos e grupos culturais ou étnicos. Na obra Hereditary Genius de 1869, o autor buscou classificar indivíduos de acordo com seus dons naturais, incluindo dimensões de poder e de aptidões especiais, utilizando premissas sobre a distribuição de habilidades em diferentes povos, como os gregos, anglo-saxões, negros africanos e aborígenes australianos (JAHODA & KREWER, 1997).

No entanto, somente nos anos 1960, o campo de estudos cross-culturais passou a se consolidar como um campo de estudo autônomo. Esta consolidação se refletiu na criação de uma série de periódicos especializados, como por exemplo o Journal of Social Psicology, International Journal of Psychology, dedicado a artigos comparativos entre diferentes culturas e países e finalmente o Journal of Cross-Cultural Psychology em 1970, seguido por uma considerável quantidade de publicações relacionadas ao tema (JAHODA & KREWER, 1997).

As pesquisas cross-culturais são realizadas com o objetivo de descrever fenômenos universais ou diferenças culturais específicas e explicar e prever diferenças através de aspectos gerais, as pesquisas podem então ser diferenciadas de acordo com o seu objetivo de estudar o que é comum ou o que é diferente (FRIEDLMEIER, 2005).

Berry (1989) define duas abordagens distintas na pesquisa cross-cultural: etic e emic. O etic é caracterizado como o processo de comparação de comportamentos ou constructos entre diferentes grupos culturais, pois possuem equivalência nas diferentes culturas. Esta abordagem considera fenômenos ou constructos como sendo universais e não dependentes da cultura onde ocorrem. A abordagem emic se refere a processos que visam compreender elementos culturais distintivos de uma cultura, proporcionando o entendimento de padrões normativos de conduta que diretamente influenciam o comportamento destes indivíduos. O modelo é especifico a cultura estudada e não pode ser extrapolado para outras culturas (BERRY, 1989).

Além disso, o elemento estudado deve ser entendido considerando a cultura na qual está inserido. Uma perspectiva emic necessita que o pesquisador esteja inserido na cultura ou que a entenda suficientemente bem (BERRY, 1989). Triandis (1994) indica que etic devem ser usado para comparações entre países ou culturas, enquanto emic deve ser utilizado para entender uma cultura ou um elemento especifico de uma cultura.

Para Brislin (1976) os estudos cross-culturais são pesquisas realizadas com membros de várias culturas que tiveram experiências diversas que conduzem a diferenças previsíveis e significativas no comportamento. A psicologia cross-cultural é definida por Berry e colaboradores (2002, p.3) como:

“O estudo de similaridades e diferenças no funcionamento de indivíduos em vários grupos culturais e etno-culturais, de relações entre variáveis psicológicas, socioculturais, ecológicas, biológicas e as mudanças nestas variáveis”. Berry et al (2002, p.3) (tradução livre)

Segundo Whiting (1968) a pesquisa cross-cultural utiliza dados de vários povos com o intuito de testar hipóteses em relação ao comportamento humano. Dawson (1971) afirma que o objetivo de uma pesquisa cross-cultural é examinar a validade universal das teorias de forma efetiva.

Além da possibilidade de se realizar comparações entre grupos de diferentes culturas, a utilização de estudos cross-culturais apresenta como vantagem a maior probabilidade de variação de um determinado fenômeno, podendo representar a diferença entre um estudo útil e um sem utilidade. Isto pode ocorrer pois ao se utilizar dados de uma só região, pode não haver variação suficiente, ou mesmo que houvesse, pode estar concentrada em um lado do espectro do fenômeno e assim, a teoria gerada tende a ser específica demais para ser útil (C. EMBER; M. EMBER, 2009).

Existem diversos pontos de vista em relação à influência da cultura no comportamento e a possibilidade de se realizar estudos ou comparações. Estas posições normalmente estão divididas em três orientações gerais, que diferem na sua abordagem em relação a influência da cultura, sendo chamadas de: Absolutismo, Relativismo e Universalismo (BERRY ET AL, 2002).

Na perspectiva absolutista, a cultura não possui um papel significativo no comportamento ou nas características humanas. Os fenômenos psicológicos seriam basicamente os mesmos independentemente da cultura onde ocorrem. Nesta perspectiva, não existem problemas em relação a comparações cross-culturais, podendo ser utilizados os instrumentos já validados em uma cultura, sendo necessária apenas uma tradução para a língua onde será utilizado (no caso de ser diferente), sem que exista preocupação com influências culturais (BERRY et al., 2002).

Já em posição diametralmente oposta, a perspectiva relativista assume que todo o comportamento humano é influenciado pela cultura, as explicações da diversidade humana são baseadas no contexto cultural que estas pessoas se desenvolveram. Nesta visão normalmente se utiliza os valores e significados dados a cada uma das culturas estudadas para um fenômeno, evitando quaisquer rastos de etnocentrismo, julgamento de valor ou de caráter avaliativo. Evita- se descrever, categorizar ou entender os outros de um ponto de vista influenciado por uma cultura externa (BERRY et al, 2002).

As diferenças entre culturas são atribuídas exclusivamente à maneira que os conceitos são entendidos por cada uma das culturas, e estas são interpretadas qualitativamente (M. EMBER & C. EMBER, 2009). Considerando as premissas desta perspectiva os estudos comparativos são evitados, pois são difíceis do ponto de vista metodológico e conceitual, sendo virtualmente impossíveis de serem realizados, pois necessitam de instrumentos desenvolvidos especificamente para cada cultura que o conceito ou fenômeno vai ser estudado (BERRY et. al, 2002).

Finalmente de acordo com Berry e colaboradores (2002) a perspectiva universalista pode ser considerara um ponto comum entre as duas outras abordagens, pois têm como premissa que os processos ou comportamentos são comuns a toda a humanidade (perspectiva absolutista), mas que estes processos recebem uma influência da cultura (perspectiva relativista), sendo uma questão de grau de interferência das variáveis culturais sobre cada comportamento.

Esta abordagem realiza as comparações entre culturas de forma cuidadosa, com metodologias adequadas. Suas interpretações levam em consideração as culturas e os fenômenos, permitindo comparações entre diferentes culturas, ao mesmo tempo verificando as similaridades que seriam universais e as diferenças específicas atribuídas à cultura. No Quadro 16, adaptado de Berry et al. (2002), podemos encontrar uma comparação concisa entre as três abordagens discutidas anteriormente:

Quadro 16: Três abordagens em relação a estudos comparativos cross-culturais

Fatores Absolutista Universalista Relativista

Fatores influenciando o comportamento

Biológicos Biológicos e Culturais Cultural

Papel da cultura para explicar o comportamento

Limitado Substancial Substancial

Similaridades devido a Processos básicos

comuns

Processos básicos comuns Normalmente não é pesquisado

Diferenças devido a Diferenças entre espécies Interações entre cultura e

outros fatores

Influencia Cultural

Emics e Etics Étic imposto Etic Derivado Emic

Definição de conceitos independente do contexto

Diretamente disponível Difícil de se conseguir Normalmente impossível

Mensuração de conceitos independente do contexto

Normalmente possível Frequentemente impossível

Impossível

Procedimentos para avaliação Instrumentos Padronizados

Instrumentos Adaptados Instrumentos Locais

Comparação Direta, frequente e

avaliativa. Controlada, frequente e não avaliativa. Normalmente evitável, não avaliativa

Fonte: BERRY et al, p.324 (2002)

Segundo Berry e colaboradores (2002), estas três dimensões têm implicações para os conceitos psicológicos e a avaliação de similaridades e diferenças cross-culturais, principalmente da questão de universalidade, que indica a propriedade de um conceito ser adequado para uso em qualquer cultura (TRIANDIS, 1978) ou ser invariável em relação a métodos e culturas.

Van de Vijver e Poortinga (1982) indicam que há um grau de variação dos dados entre grupos culturais em função da similaridade de padrões culturais ou outros fatores entre os grupos, representando um contínuo entre a universalidade de conceitos, variando de conceitos mais universais e outros mais específicos, para diferenciar entre estas posições sobre os conceitos. Van de Vijver e Poortinga (op. cit) estabeleceram quatro níveis de universalidade de conceitos:

Conceitos Universais – são conceitos com um alto nível de abstração, que normalmente não tem relação com escala de medida.

Universais Fracos – são conceitos que as medidas já foram validadas em cada cultura estudada.

Universais Fortes – são conceitos que podem ser mensurados através de uma mesma métrica em qualquer cultura.

Universais Estritos – apresentam a mesma distribuição entre escores em todas as culturas pesquisadas.

As pesquisas comparativas não são conduzidas somente por antropólogos, sendo conduzidas atualmente em vários campos do saber, como por exemplo, nas áreas de Biologia, Sociologia, Ciência Política, Economia, Administração, Psicologia, entre vários outros, que podem ou não envolver dados etnográficos, sendo frequentemente baseados em censos e outras estatísticas coletadas a nível nacional como PIB, níveis de emprego, crime, escolaridade, entre inúmeras outras variáveis (C. EMBER & M. EMBER, 2009). Carol Ember & Melvin Ember (2009) indicam que as comparações cross-culturais podem ser classificadas em quatro dimensões:

Geográfica – A amostra é mundial ou limitada a uma área demográfica (cidade, região ou país, por exemplo);

Tamanho da Amostra – pode ser composta por dois casos, pequena escala (menos de 10 casos) e maiores comparações;

Tipo de Dados – dados primários coletados pelo pesquisador, ou dados disponíveis em banco de dados ou outros pesquisadores;

Temporal – identifica se os dados pertencem a uma única data ou período temporal (comparação sincrônica), dois ou mais períodos temporais (comparação diacrônica)

Adicionalmente, C. Ember e M. Ember (2009) defendem que o agrupamento de questões de pesquisa comparativa pode ser feito em quatro grupos principais: descritiva, causal, consequenciais e não direcional:

Descritivas – procuram respostas a questões sobre frequência de determinados traços nas populações.

Causais - buscam responder sobre a causa de determinado traço ou costume dentro de uma cultura.

Consequenciais– refere-se aos efeitos de um costume ou traço sobre outras variáveis;

Não Direcionais – são questões relacionadas a responder se dois ou mais traços estão relacionados ou não, sem indicar qualquer relação de causalidade ou consequência.

Estas quatro classificações pode ser ainda divididas em questões relacionais quando fazem a associação entre traços e outras variáveis ou não relacional, quando esta associação não é questionada; uma questão causal busca explicar pelo menos um traço, com uma variável independente presumida. Já uma questão consequencial conta com uma variável a ser explicada (dependente), mas pode ter ou não uma variável causadora (independente) especificada (C. EMBER & M. EMBER, 2009).

Em relação ao tamanho necessário das amostras, Hofstede (1980) defende que os valores culturais são relativamente estáveis em uma sociedade e por isso não é necessário uma amostra muito grande para realizar estudos comparativos. Por exemplo, no estudo clássico da IBM feito na década de 70 por Hofstede, alguns países possuíam amostras de apenas 70 a 80 indivíduos para representar a cultura nacional daqueles países (Tailândia e Taiwan) (HOFSTEDE, 1999).

Confirmando estas afirmações, um estudo meta-analítico realizado pelos pesquisadores Vas Taras e Piers Steel (2006) envolvendo uma amostra com mais de 500 estudos que utilizaram a escala, o tamanho médio das amostras foi de 253 indivíduos, variando de 4 a 11.386 participantes. Segundo os autores, mesmo o menor estudo que contou somente com quatro indivíduos, embora não seja uma amostra estatisticamente significativa, pode dar novas perspectivas para o entendimento das culturas estudadas sendo comparável a um estudo de caso.

Benzer Belgeler