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Daniel Goleman‟ın Duygusal Zeka Modeli

1.8. DUYGUSAL ZEKA MODELLERĠ

1.8.4. Daniel Goleman‟ın Duygusal Zeka Modeli

Para o desenvolvimento desta seção, iniciaremos por uma breve recapitulação do raciocínio que vem sendo construído neste capítulo até aqui.

O ganho de importância do controle de tipo materno sobre o do tipo paterno deriva, como vimos, do conjunto de mudanças que transforma o ambiente organizacional. Os tempos atuais pedem flexibilidade e inovações constantes. Os impactos das novas tecnologias sobre o trabalho tiram a relevância do indivíduo enquanto mão- de-obra e fazem dele fonte de criação.

A criatividade tem sempre potencial transgressivo e desarticulador das estruturas sobre as quais se assentam as organizações. Temendo o retorno sempre possível ao estado de horda, as organizações buscarão incentivar seus componentes a uma criatividade controlada, ou seja, voltada a seus interesses competitivos e que não coloque em questão as bases do poder organizacional.

O controle sobre o pensar, o sentir, o agir e o criar será operacionalizado pela captação dos processos inconscientes dos indivíduos. Propondo um imaginário

enganoso, em que se mostra como grande e nobre, as organizações se propõem como objeto de investimento libidinal e identificação. Visando curar suas feridas narcísicas, o indivíduo responde ao canto da sereia, dando o máximo de si para ser merecedor do amor da organização-mãe.

É via cultura organizacional que a dominação se concretiza, pois, através de seus elementos, a organização forja a imagem grandiosa de si e promove a adesão e a homogeneização dos modos de pensar, sentir e agir.

A cultura é construída em relação, não sendo propriedade de nenhum grupo. Por isso se torna instrumento de poder bastante sutil. Nas grandes organizações, o poder é impessoal e a elas pertence.

De qualquer forma, a organização é sempre constituída de pessoas, que possuem potencial de imprimir dinamismo à cultura. Pessoas em posição de comando possuem posição privilegiada de interferência sobre a cultura, seja visando mantê-la ou modificá-la, ainda que a cultura não seja algo que se possa controlar como se queira.

Num modelo ideal de controle materno, o domínio aprisionante da organização-mãe sobre os indivíduos seria absoluto. Totalmente identificados a elas, os líderes seriam impessoais propagadores da cultura organizacional, mantendo e recriando continuamente o imaginário enganoso e gerando mais e mais identificação.

Devemos ter em mente que tal modelo nunca se desenvolve por completo, como bem apontou Enriquez (2000a, b). Por autêntico desejo de autonomia ou simplesmente por cinismo, a total identificação e a canalização absoluta da criatividade nunca ocorre. Desta forma, podemos pensar num modelo alternativo que, sem perder a lógica do controle materno, incorpore características do imaginário nacional.

Muitas empresas brasileiras, por certo, estão envolvidas no mesmo tipo de ambiente dinâmico de negócios que implicou no ganho de importância do controle de tipo materno nas organizações ao redor do mundo. Assim, é mais que provável que,

também entre nós, as organizações venham sendo palco dos processos de identificação aprisionantes já descritos.

As características do pai colonizador brasileiro descritas por Calligaris (1997) são, até certo ponto, favorecedoras do controle materno. Ao não exercer a função paterna de interdição do gozo, o pai favorece ao filho a concretização do amor fusional com a organização-mãe. Teríamos, até aí, as características compatíveis com a de um gestor ideal de uma organização hipermoderna.

Entretanto, nosso pai colonizador também possui traços que imprimem peculiaridades ao controle materno: é personalista, cobra caro por liberar o gozo e também quer gozar. A partir destes traços, podemos supor características de uma variante nacional do modelo de controle materno. Vejamos.

Pensamos que o pai gestor nacional ocupe a função de administrador do gozo organizacional, coerentemente com Calligaris (1997). Ora, o gozo que a organização proporciona advém da fantasiosa restauração narcísica do indivíduo, da idéia de ser amado e protegido por uma organização todo-poderosa. O contraponto deste amor é o medo de perdê-lo. É a possibilidade de não estar à altura deste sublime amor. Administrar o gozo organizacional implica, então, em interpor-se aos processos de identificação dos demais de maneira mais forte.

Com efeito, os gestores sempre se interpõem neste processo, seja no Brasil ou em qualquer lugar. Sempre há alguém que entoa, em nome da organização, o canto sedutor. E sempre há alguém que decide e concretiza uma demissão que alimenta as fantasias de retirada de amor. Pensamos apenas que, no caso brasileiro, o gestor personalista empreste sua voz com mais intensidade e freqüência.

Administrar o acesso ao corpo materno significa tornar-se intérprete do amor organizacional, que enfim é fantasioso e só existe no imaginário. Significa ser o juiz definidor do aplauso e da vaia, estabelecendo os patamares a serem atingidos e condicionando a imagem que os outros fazem de si próprios. Significa que não se vai à mãe senão por ele, ou seja, não é possível agradar a mãe sem agradá-lo e, de certa forma, servi-lo.

Esse é o preço cobrado como pedágio do gozo: adesão pessoal. O pai gestor também quer gozar e usa os filhos como instrumento de seu próprio gozo. O gozo do pai também vem da mãe. Possuir filhos leais que sustentem sua posição de pai lhe torna raro entre raros, dando a ele a condição de desfrutador privilegiado dos prazeres organizacionais.

A liberação do gozo é ainda interessante porque atenua a possível violência dos filhos para com o pai. Podendo ter acesso à mãe, os filhos não têm necessidade de matar o Pai. A rivalidade entre pai e filho, sempre possível nas organizações, já que muitos podem aspirar ao papel de gestores, fica menor. Contudo, não fica excluída, já que o pai sempre pode gozar mais.

O pai, enquanto intérprete da mãe e juiz do aplauso, joga com a ameaça da possibilidade da retirada do amor (e não com a interdição). Está em suas mãos a decisão da desfiliação, através de uma demissão, que ele pode reservar àqueles que de alguma forma não quiserem fazer o jogo do gozo, ou seja, àqueles que não quiserem agradar ao pai, tornando-se filhos infiéis, ou à mãe, tentando fugir à lógica do dar sempre mais de si.

Enquanto juiz do aplauso, que aos filhos pode ser sinônimo de juiz da vida e da morte, o gestor será tão arbitrário quanto lhe convier e lhe for possível travestir a arbitrariedade em racionalidade via cultura organizacional. Tornar o arbitrário natural é uma arte (difícil e sem sucesso garantido) que pode ser praticada pelo pai com o objetivo de manter sua posição privilegiada.

Os filhos subordinados ao pai gestor entendem que podem desfrutar do amor da mãe pagando este pedágio que ajuda o pai a gozar também. Não é necessário matar o pai para gozar, já que a mãe é pródiga, talvez infinita em seu potencial de amor e gozo. O caminho do pedágio, via de regra, é mais seguro, posto que a tentativa de destronar o pai pode desembocar na perda do amor da mãe, hipótese terrível e ameaçadora. Assim, melhor lidar com o pai com jeitinho e malandragem, agindo com lealdade e demandando formas de apadrinhamentos que garantam as posições de paternidade dentro da organização.

De qualquer forma, sempre é possível e natural que alguns filhos mais corajosos e ambiciosos lancem-se ao caminho da aventura, desejosos de gozar como pais. Repetimos: a rivalidade é atenuada, mas dificilmente eliminada. É preciso relembrar que, não só no caso de querer ocupar o lugar do pai, mas também no caso de querer garantir a posição de filho amado, nunca é possível descuidar de trabalhar muito para tornar-se merecedor do amor da mãe.

Atuar como juiz não tira o pai do jogo da dominação materna. Ele faz parte do jogo e o garante. Mesmo sendo um juiz arbitrário, ele não estraga o jogo. O que interessa à mãe é que os filhos a amem em sua beleza e que continuem fazendo o máximo para poder desfrutar de seu gozo. Longe de ser problemática para a mãe, a atuação do pai como desfrutador-mor e como administrador (e não interditor) do gozo é bem conveniente.

Ser desfrutador-mor não significa mais do que ser vítima-mor da dominação materna. O pai gestor é, enfim, o que mais pode estar enroscado na armadilha de seus próprios desejos. É o que mais sente as conseqüências do ciclo interminável de prazer efêmero e de angústia. É o juiz exigente de si mesmo, pois seu único referencial de desempenho é a imagem de uma organização idealizada, que ele, mais do que outros, ajudou a construir. Ele entoa o canto que o seduz. É assim, o mais próximo da figura de Narciso: não distingue a imagem de si mesmo. Seu destino, como o de Narciso, não é promissor.

Benzer Belgeler