Orta Doğu’nun Kırmızı Jeopolitiği Bir Dini Terör Organizasyonu Olarak DAEŞ
1) DAEŞ’in İdeolojik Temelleri, Kuruluş ve Gelişme Süreci
Pierre Joseph Ulysse
Introdução
A noção de trabalhador pobre é geralmente utilizada nos debates pú- blicos para designar a situação dos indivíduos que não conseguem, apesar de seu esforço de trabalho, satisfazer suas necessidades básicas de maneira autônoma4. Neste texto, tentaremos ir além desse primeiro signii cado em
favor de uma análise multidimensional que implique, por um lado, exa- minar as transformações do mercado de trabalho e, por outro, dar conta dos impactos que essas transformações exercem sobre as condições de exis- tência de certas categorias de trabalhadores precários. Antes de prosseguir, gostaríamos de precisar que optamos por limitar esta apresentação à situa- ção dos trabalhadores pobres que ocupam um emprego assalariado5. Nossa
intenção não é absolutamente de reduzir a compreensão do fenômeno à sua só dimensão i nanceira e econômica6. Temos em mente que, “fora das
relações sociais e das relações de poder que se manifestam na sociedade assalariada, a precarização salarial não é compreensível” (LE LAY, 2009, p. 118). Além das dimensões econômicas, nós ressituamos os trabalhadores pobres no centro de um conjunto de relações sociais e de relações políticas. $¿JXUDGRWUDEDOKDGRUSREUHWUDGX]RIDWRGHTXHQmRREVWDQWHDREWHQomRGH XPFRQWUDWRGHWUDEDOKRHDRFXSDomRGHXPHPSUHJRRLQGLYtGXRYLYHDEDL[RGD OLQKDGHSREUH]D/(/$< (P4XpEHFHQR&DQDGiRWUDEDOKDGRUSREUHpXPDSHVVRDTXHGXUDQWHRDQR GHUHIHUrQFLDH[HUFHXPDRFXSDomRFRPRDVVDODULDGRRXDLQGDFRPRLQGHSHQ GHQWHRXDXW{QRPRFRPXPDGXUDomRPtQLPDGHKRUDVHFXMDUHQGDGRPLFL OLDUQmRXOWUDSDVVDDOLQKDGHEDL[DUHQGD+iDLQGDDVQXDQFHVGHDFRUGRFRPD PHGLGDHVFROKLGDGHVVDIUDFDUHQGD 2VLPSDFWRVGDSREUH]DGHFRUUHQWHGRHPSUHJRVmRWDPEpPP~OWLSORVHGLYHUVL¿ FDGRVHFRQ{PLFRVSROtWLFRVVRFLDLVSVLFROyJLFRVHWF
Este texto se divide em cinco partes. A primeira apresenta a noção de precarização. Em seguida, temos algumas estatísticas sobre a situação dos trabalhadores pobres de Québec. Na terceira parte, destacam-se as forças e as dinâmicas da precarização no emprego e da pauperização dos assalaria- dos situados na base da escala salarial. Na quarta parte, nós precisamos o que denominamos de “ambiguidades conceituais e analíticas” e, na última, concluímos com considerações que podem tornar pertinente e interessante a comparação Québec, Canadá-Brasil.
A precarização: um processo plural e multiforme
Surgido na década de 1970, o conceito de precarização reenvia a “uma rel exão entrelaçada sobre as e voluções da organização do trabalho e sobre o papel do Estado, no domínio do trabalho e da proteção social” (APPAY; THÉBAUD-MONY, 1997, p. 511). Ele combina quatro proces- sos interdependentes: o desemprego de massa, a degradação das condições de emprego, a informalização das relações de trabalho e a extensão dos ris- cos das empresas para os trabalhadores. Esse processo multiforme abrange uma ampla diversidade de situações de empregos típicos e atípicos: empre- go informal, emprego temporário, trabalho por jornada (diarista), trabalho doméstico etc.
O processo de precarização não atinge mais da mesma maneira as di- ferentes categorias da população, ele afeta principalmente os jovens, as mu- lheres, os imigrantes, os membros de famílias numerosas que contam com uma única fonte de rendimento do emprego. A situação de uma mãe mono- parental com um nível de escolaridade elevada, mas que trabalha em tempo parcial, distingue-se, em muitos aspectos, daquela de uma família biparental pouco escolarizada e que trabalha em tempo integral, durante todo o ano em empregos de baixo salário. Utiliza-se a mesma noção para designar as duas situações, mas não se referem às mesmas realidades. Não há a precariedade, mas sim precariedades inerentes a experiências de vida concretas.
Podemos distinguir três grandes aspectos para analisar o processo de precarização na empresa: a precarização do estatuto jurídico do emprego, a precarização da atividade de trabalho e, eni m, a precarização das relações proi ssionais (BOUFFARTIGUE, 2007). Eles estão intimamente ligados na medida em que nos permite ver as dii culdades que enfrentam quotidia- namente esses trabalhadores, mas sobretudo para compreender sua relação com o trabalho e seu fraco acesso a formas de representação coletiva, es-
pecialmente o sindicato. A precarização projeta a imagem do espelho in- vertido em relação às condições de segurança graças às garantias outrora inerentes à sociedade salarial, baseada em grande parte no pleno emprego no setor industrial, na estabilidade de renda, na mutualidade dos riscos e na sindicalização dos trabalhadores. Os trabalhadores precários e pobres compartilham da mesma insegurança material, em razão dos seus baixos salários, das vulnerabilidades em suas condições de vida e das incertezas ante o futuro. A precariedade representa uma das causas que têm contri- buído a instituir na pobreza as categorias de populações mais vulneráveis e de baixos salários, notadamente as mulheres, os jovens e os imigrantes. A situação em Québec e no Canadá
O emprego atípico precário, ou seja, em tempo parcial, temporá- rio ou autônomo, conheceu uma forte expansão em Québec, passando de pouco mais de 10% em 1976 para 38,1% em 2011 (35,7% para os homens e 40,7% para as mulheres)7. A taxa atinge: 65,2% dos jovens de 15
a 24 anos; 30,2% das pessoas de 25 a 44 anos; 31% das de 45 a 54 anos; e 46,4% das com 55 anos ou mais. Ela é de 27,7% nos setores de produção de bens, com percentuais variando de 61,4% no setor primário, 44,7% na construção civil, 15,1% nos serviços públicos e 13,9% no de manufatura8.
Nos serviços, a taxa de emprego atípico é de 41%, variando de 55,8% nos segmentos de alojamento e restaurantes para 21% no das administrações públicas. Entre os outros cinco subsetores com as maiores taxas, temos: ,QVWLWXWGHOD6WDWLVWLTXHGX4XpEHF7D[DGHHPSUHJRUHVXOWDGRVVHJXQGR GLYHUVDVFDUDFWHUtVWLFDVGDPmRGHREUDHGRHPSUHJRPpGLDVDQXDLV4XpEHF &RPSLODo}HVIHLWDVDSDUWLUGRDUTXLYRGHPLFURGDGRVGHJUDQGHGL IXVmR(QTXHWHVREUHDSRSXODomRDWLYD6WDWLVWLTXH&DQDGD,QVWLWXWGHOD 6WDWLVWLTXHGX4XpEHF'LUHFWLRQGHVVWDWLVWLTXHVHWGHODUpPXQpUDWLRQ $VHVWDWtVWLFDVVREUHRPHUFDGRGHWUDEDOKRFRPSUHHQGHPGRLVJUDQGHVVHWRUHV RGHSURGXomRGHEHQVHRGHVHUYLoRV)DODUGHVHWRUHVGRPHUFDGRGHWUDEDOKR QHVVHVHQWLGRpVRFLRORJLFDPHQWHUHIHULUVHDWHUPRVJHQpULFRVHDEVWUDWRVTXH FRQJUHJDPXPDLQ¿QLGDGHGHVHWRUHVHGHVXEVHWRUHVPXLWRKHWHURJrQHRV&RP UHIHUrQFLDDRVHVWXGRVVREUHHPSUHJRGH4XpEHFeWXGHVG(PSORL4XpEHFHGR %ROHWLP0HQVDOVREUHR0HUFDGRGH7UDEDOKR%XOOHWLQ0HQVXHOVXUOH0DUFKpGX 7UDYDLORVHWRUGHSURGXomRGHEHQVFRPSUHHQGHDDJULFXOWXUDVLOYLFXOWXUDSHV FDPLQHUDomRHH[WUDomRGHJiVVHUYLoRVS~EOLFRVFRQVWUXomRFLYLOPDQXIDWXUD 2VHWRUGHVHUYLoRVSRUVXDYH]HQJOREDFRPpUFLRWUDQVSRUWHHDUPD]HQDJHP ¿QDQoDVVHJXURVLPyYHLVHORFDomRVHUYLoRVSUR¿VVLRQDLVFLHQWt¿FRVHWpFQL FRVSUHVWDomRGHVHUYLoRVjVHPSUHVDVDHGLItFLRVHLPyYHLVHRXWURVVHUYLoRV GHDSRLRVHUYLoRVGHHGXFDomRGHVD~GHHGHDVVLVWrQFLDVRFLDOLQIRUPDomR FXOWXUDHOD]HUDORMDPHQWRHVHUYLoRVGHUHVWDXUDQWHVRXWURVVHUYLoRVHDGPL QLVWUDo}HVS~EOLFDV
os serviços de manutenção de imóveis (49%); o setor de informação, da cultura e do lazer (48%); os serviços de educação (44,4%); os serviços pro- i ssionais, cientíi cos e técnicos (42%); e o comércio (41,2%). A maioria dos empregos atípicos (54,8%) tem uma duração inferior a 12 meses. O setor público (29,2%) apresenta geralmente uma precariedade menor do que a do setor privado (40,5%). De acordo com os dados produzidos pelo governo da província de Québec, em 2011 mais de 91% das pessoas que recebiam um salário mínimo trabalhavam no setor de serviços9. Elas se
concentravam particularmente no comércio de varejo, bem como nos de locação e de restaurantes.
Digamos, em referência a nossos próprios estudos sobre Montreal, que se assiste, nas últimas duas décadas, a um duplo processo de preca- rização do emprego e de pauperização da população ativa trabalhando a baixos salários10. A maioria desses assalariados se encontra em empregos
com poucas chances de progresso em termos de carreira e com poucas garantias sociais em termos de seguro de saúde complementar, de cuidados odontológicos, de seguro invalidez ou de aposentadoria. Esses empregos não oferecem também condições favoráveis em termos de jornada de tra- balho e de remuneração.
Constatamos igualmente, para esses trabalhadores, um desequilíbrio crônico entre suas despesas e seus recursos. Muitos empregos de um turno e às vezes de tempo integral relativos aos trabalhadores pobres não che- gam nem mesmo a compensar os custos suplementares necessários para se manter nesse tipo de trabalho: custos com babás ou creches, transporte, roupas e alimentação. Muitos desses empregados recorrem cada vez mais às instituições de ajuda ou comunitárias para se alimentar e se vestir. Muitos deles se privam, como também sua família, dos cuidados de saúde, tais como medicamentos e visitas ao dentista ou ao optometrista por falta de dinheiro. Para retomar Serge Paugam (2000) em Le Salarié de la Précarité (O Assalariado da Precariedade), esses trabalhadores não são apenas precários, eles são vulneráveis tanto economicamente quanto em termos de direitos sociais. As pessoas permanecem pobres mesmo estando empregadas. O “con-
senso social segundo o qual trabalhar permite ganhar (bem) a vida, ou seja,
(QWUHRVPLOK}HVGHHPSUHJRVUHFHQVHDGRVHP4XpEHFVRPHQWHPLOVH HQFRQWUDYDPQRVHWRUGHSURGXomRGHEHQVHQTXDQWRPDLVGHPLOK}HVHVWDYDP QRVHWRUGHVHUYLoRV 2VDOiULRPtQLPRHP4XpEHFpDWXDOPHQWHGHGyODUHVFDQDGHQVHVSRUKRUD GHWUDEDOKR1DVQRVVDVSHVTXLVDVQyVFRQVLGHUDPRVFRPR³EDL[RVDOiULR´WRGR DTXHOHTXHQmRDWLQJHGyODUHV
viver bem”, resiste cada vez menos às novas realidades do mercado de traba- lho com a precarização das condições de emprego e a corrosão dos salários. No cerne das reestruturações do mercado de trabalho
As ligações entre “precarização” e “trabalhador pobre” não podem ser identii cadas sem referência às reorganizações e reestruturações suces- sivas que realizam as empresas de grande porte, seja na forma de fusões, deslocalização, descentralização, reagrupamento de serviços, redei nição de atividades ou ainda externalização de riscos (LINHART, 2009). Desde os anos 1970, o mercado de trabalho passou por várias transformações. O recente fenômeno do “falso trabalho independente” é um exemplo: indi- víduos são subcontratados para executar cotidianamente uma tarefa para o mesmo empregador – voluntariamente ou não – e, assim, atuam como “trabalhadores independentes” para contornar as obrigações legais de uma relação de trabalho normal. As grandes empresas funcionam cada vez mais com um pequeno núcleo de empregados desfrutando de condições de em- prego normais, notadamente i nanceiras, e, em torno deles, há um número crescente de trabalhadores “não convencionais” ou “atípicos”, sejam eles clandestinos, trabalhadores independentes, ocasionais, em tempo parcial e como migrantes temporários. Nessas circunstâncias, o emprego é geral- mente marcado por um forte grau de instabilidade, com níveis de renda baixos e irregulares, uma proteção social insui ciente ou inexistente e uma ausência quase total de direitos trabalhistas.
Essa mudança de paradigma que faz do crescimento o motor do desenvolvimento dos países induz a um recuo do Estado regulador e ao mesmo tempo a uma inversão na ordem de prioridades nas relações entre a política e o mercado. Não há, necessariamente, enfraquecimento do tra- balho assalariado enquanto um princípio de venda da força de trabalho em troca de salários ou remunerações. Antes de tudo o que ocorre é redução ou ruptura relativa às seguranças e às proteções que esse tipo de relação de trabalho oferece aos trabalhadores. Do ponto de vista de Bouf artigue e Busso (2011), as transformações do capitalismo nos últimos 20 anos leva- ram, por sua vez, a uma desestabilização das velhas sociedades salariais no Norte, com um desenvolvimento dos empregos precários, e por extensão de um setor informal, muitas vezes já massivo no Sul, no período prece- dente. É justamente nessa transformação das relações do trabalho assala- riado e da mercantilização excessiva das relações de trabalho que é preciso situar as questões sobre pobreza e de luta contra ela.
O Estado, um ator central no processo de precarização
É importante, em um segundo momento, ver também o Estado como um ator central no processo de pauperização dos trabalhadores pre- cários. Esse papel central pode ser analisado em dois níveis diferentes: o das políticas de emprego, por um lado, e o das reestruturações do sistema de proteção social, por outro.
As políticas de emprego
As políticas de relance do emprego e do crescimento implementadas nos anos 1980 e 1990 são geralmente políticas de l exibilização do trabalho e da mão de obra, destinadas a combater a rigidez da relação salarial e “criar postos de trabalho” (DELORS, 1993). Nos encontramos, desde então, diante de um profundo paradoxo11. Sob o pretexto da luta contra o desem- prego, essas políticas públicas tendem a favorecer a l exibilização, enquanto sabemos muito bem que l exibilidade e precariedade representam os dois lados de uma mesma moeda, com resultados diferentes para empregadores e empregados. A l exibilidade visa permitir aos grandes atores econômicos, notadamente às empresas, a se ajustarem às incertezas do mercado reorga- nizando os métodos de produção e a gestão da mão de obra. A precarieda- de, por seu turno, torna os trabalhadores inseguros quanto à possibilidade de conseguir um rendimento adequado de maneira contínua, tornando-os incertos quanto ao futuro. A l exibilidade fornece aos empregadores e aos patrões as “facilidades desejadas” para atender aos novos modos de organi- zação do trabalho e às restrições da globalização (APPAY, 2009), enquanto a precariedade enfraquece as estruturas de reivindicações e de negociações coletivas dos trabalhadores, ou seja, o poder sindical. A precarização marca literalmente a inclinação das relações de poder no sentido de favorecer os empregadores e as empresas, em detrimento das classes trabalhadoras. Sob o pretexto de responder às exigências da globalização econômica, o Estado protetor dos direitos foi praticamente anulado perante um Estado regula- dor do crescimento.
7DOSDUDGR[RHYLGHQFLDDVUHODo}HVGHHQULTXHFLPHQWRHGHFRQIURQWDomRHQWUH DVOyJLFDVHFRQ{PLFDVHDVOyJLFDVVRFLROyJLFDV3DUDRVHFRQRPLVWDVÀH[LELOL]DU SRGHVLJQL¿FDUWUDQVIRUPDURVFXVWRV¿[RVHPFXVWRVYDULiYHLVUHGX]LURVFXVWRV GHSURGXomRHRVFXVWRVGRHPSUHJR
A questão da proteção social
A tentação é forte, tanto no meio social, acadêmico quanto no políti- co, para estabelecer um vínculo entre trabalhador pobre e falta de proteção social. Ora, em princípio, o trabalhador pobre, assim como a pobreza, não é uma categoria estruturante da proteção social, portanto, da intervenção do Estado. O chamado Estado-providência não foi inicialmente pensado para lutar contra a pobreza, mas para conceder aos indivíduos o acesso a uma renda do trabalho e garantir o pleno emprego e a cobertura dos riscos sociais aos quais são confrontados os assalariados e suas famílias. É a partir dos anos 1980 que essa forma de Estado foi induzida a se transformar para lutar contra a exclusão e a pobreza. “O Estado de investimento social” (PALIER, 2005) foi, então, engajado na promoção do trabalho, no de- senvolvimento do capital humano e da empregabilidade, na luta contra a pobreza, bem como na igualdade de gênero. A luta contra a exclusão e a pobreza tem, ao mesmo tempo, conferido ao Estado o mecanismo de legitimação necessária para implementar políticas de ativação das medidas sociais e de inserção no emprego, como se o pleno emprego fosse ainda uma realidade. Essa dupla ação teve como principal consequência reduzir a proteção dos assalariados, como seguro saúde complementar e aposen- tadoria, para as categorias mais vulneráveis da sociedade, mas sobretudo inserir novas exigências para aqueles que estão empregados, como também reforçar a competição entre os indivíduos desempregados na busca por postos de trabalho pouco qualii cados.
A cobertura dos riscos associados à pobreza no emprego não pode, portanto, recorrer ao Estado-providência da sociedade salarial, tal como conhecida, fundada na lógica do pleno emprego. Os trabalhadores pobres geralmente estão integrados somente no contexto da periferia da sociedade salarial (CASTEL, 2009). As “atividades assalariadas”, nas quais eles se en- contram, são marginais em relação às garantias do direito do trabalho e do sistema de proteção social (CASTEL, 2007). É necessário, assim, indagar como será possível se chegar a estabelecer novos vínculos entre emprego e proteção social num contexto em que os riscos proi ssionais são cada vez menos compartilhados e cada vez mais deixados a cargo dos indivíduos.
A resposta vai exigir bem mais do que uma simples extensão do di- reito do trabalho, mas sobretudo uma mudança de paradigma que consiga dar conta e regular as práticas de l exibilização que atravessam atualmente
os mercados de trabalho (MÉDA; MINAULT, 2005). Ou, para retomar os termos de Auer e Gazier (2005), isso exigirá a criação de novos direitos sociais plenamente atrelados à ideia de plena cidadania, capazes de garantir proteção social conforme as transições das trajetórias proi ssionais dos in- divíduos em vez de se limitar apenas aos postos de trabalho.
Explicitemos o implícito
Parece agora ser importante esclarecer várias ambiguidades conceituais e analíticas às quais nos confrontamos. De início, falar de trabalhador pobre é, ao mesmo tempo e paradoxalmente, continuar anunciando e ai rmando a centralidade do trabalho como primeiro princípio organizador do mo- delo de sociedade de economia liberal na qual vivemos. O que é preciso questionar aqui não é o emprego como tal, mas as condições de emprego e as novas relações de exploração construídas por meio do trabalho12.
Em seguida, o tema da precarização não se limita a uma questão de renda (LE LAY, 2009)13. Essa é uma questão de justiça social e de
justiça econômica bem maior, apoiada por normas e representações que tendem a reenquadrar, após o fordismo, as relações indivíduo-sociedade em um mundo globalizado, sob a égide do neoliberalismo econômico. O esgotamento dos mecanismos de proteção garantidos pela sociedade salarial, por meio do direito do trabalho e do reconhecimento das associa- ções sindicais, é tanto uma questão social e política como econômica. A precariedade, segundo Boumaza e Pierru (2007), reforça as dependências dos assalariados em relação aos empregadores e reduz suas margens de manobra. Nesse sentido,
a noção de precarização reenvia a “uma nova governamentalidade do campo do trabalho que afeta não só os trabalhadores situa- &RPSXWDVHKRMHPDLVSREUHVFRPHPSUHJRGRTXHGHVHPSUHJDGRVSREUHV$ UHYDORUL]DomRGRVDOiULRPtQLPRUHFRPHQGDGDSHODVSROtWLFDVGH³PDNLQJZRUN SD\´pVHJXUDPHQWHXPGLVSRVLWLYRLPSRUWDQWHGHGLVWULEXLomRGHUHQGDSDUDRV WUDEDOKDGRUHVVLWXDGRVQDEDVHGDHVWUXWXUDGHHPSUHJRVPDVHODQmROKHVSHU PLWHHVFDSDUGDSREUH]D8PDVVDODULDGRGH4XpEHFTXHUHFHEHXPVDOiULRPtQL PRGHGyODUHVFDQDGHQVHVSRUKRUDJDQKDDQWHVGHLQFLGLURVLPSRVWRV GyODUHVSRUDQRHQTXDQWRRQtYHOGHEDL[DUHQGDGH¿QLGDSHOD6WDWLVWL TXH&DQDGDSDUDXPGRPLFtOLRFRPXPDVySHVVRDpGHGyODUHVDQWHV GHLPSRVWRVHGHGyODUHVDSyVLQFLGLURVLPSRVWRVGDGRVGH SDUDDVFLGDGHVFRPKDELWDQWHVRXPDLVFRPR0RQWUHDO 1mRKiYtQFXORDXWRPiWLFRHQWUHWUDEDOKDGRUSUHFiULRHWUDEDOKDGRUSREUHPHVPR VHDJUDQGHPDLRULDGRVWUDEDOKDGRUHVSUHFiULRVpSREUH
dos embaixo na escala de empregos, mas também os trabalhadores qualii cados”. A precarização reenvia não a uma condição, mas a uma relação social centrada em torno de uma partilha desigual de incerteza que supõe que um grupo seja l exível para o benefício de um outro (CHAUVIN, 2009, p. 104).
Pelas realidades que ele designa e as tendências que ele coloca em pers- pectiva, o conceito de precarização traz à luz uma orientação social, política e econômica que vai além da só questão do trabalho e do mercado do emprego (APPAY, 2009). Ele é hoje um componente essencial do processo de reorien- tação neoliberal de nossas sociedades (DARDOT; LAVAL, 2010).
O interesse na comparação Brasil-Canadá
Nossa rel exão situa a problemática do trabalhador pobre no cora- ção das grandes reorientações que tomaram nossas sociedades durante os últimos anos. Constituiremos um observatório das dinâmicas sociais, polí- ticas, econômicas e culturais que estamos a observar e viver. É a esse nível que a comparação com o Brasil parece pertinente e interessante.
Enquanto em Québec nosso Grupo Interdisciplinar de Pesquisa so- bre o Emprego, a Pobreza e a Proteção Social (Groupe Interdisciplinaire de Recherche sur l´Emploi, la Pauvreté et la Protection Sociale – Gireps) entra pela porta do emprego, nossos colegas brasileiros acham mais perti-